BONNIE & CLYDE (1967)

A presepada na entrega do prêmio de melhor filme ontem, no Oscar, foi simplesmente linda! E a melhor maneira que encontrei para homenagear o casal que nos brindou com esses momentos de puro constrangimento, desorganização e magia foi republicar esse textinho de BONNIE & CLYDE direto do blog antigo.

bonnie-and-clyde-450

Dizem que o ator (e produtor do filme) Warren Beatty precisou implorar de joelhos perante a cúpula da Warner para levar às telas de cinema a vida de Bonnie e Clyde, o famoso casal que roubava bancos na época da depressão americana. Cabeças duras, como sempre, os executivos não tinham ideia de que BONNIE & CLYDE (no Brasil, UMA RAJADA DE BALAS) iria se tornar uma das obras mais influentes do cinema americano e mudaria totalmente a maneira de tratar a violência no cinema mainstream de Hollywood.

Hollywood, claro! Porque violência, sangue e gore já existia há muito tempo no cinema americano (Herschell Gordon Lewis que o diga). Mas seria injusto desmerecer a maneira como a violência é abordada aqui. Tomemos por exemplo um dos primeiros assaltos, quando Michael J. Pollard estaciona o que deveria ser o carro de fuga. A situação vira uma cena cômica até que PIMBA! Soa um tiro na cabeça de um funcionário do banco, muito sangue é espalhado na tela e acaba a palhaçada!

bonnie-and-clyde-220

Não é preciso nem tocar no assunto do desfecho de BONNIE & CLYDE também, não é? Aquele brutal, sangrento, perturbador, chocante! Sam Peckinpah deve ter ficado com água na boca imaginando o que poderia fazer com seus próximos filmes, não é a toa que tivemos pouco tempo depois um WILD BUNCH e o cabra ficou conhecido como “poeta da violência”.

Também há a influencia da Nouvelle Vague francesa. As primeiras imagens que mostram Faye Dunaway nua em seu quarto parecem saídas de um filme do Truffaut. Por falar no realizador francês, a direção de BONNIE & CLYDE quase parou em suas mãos antes de ir para o excelente e subestimado Arthur Penn, que realizou por aqui um belíssimo trabalho. Simples, mas moderno, um novo frescor para um estilo de trabalho estético e de câmera que não era muito comum no período no cinema americano. O cara já havia demonstrado traços experimentais em filmes anteriores, especialmente MICKEY ONE, também com o Beatty, que é um autêntico filme de vanguarda.

bonnie-and-clyde-230

Além de Dunaway (que esté maravilhosamente linda), Beatty e Pollard, o filme conta com a presença de Gene Hackman e Estelle Parsons. Todos indicados ao Oscar, mas apenas esta última levou a estatueta pra casa, e merecida, embora todo o elenco esteja ótimo. Temos até uma pequena participação do Gene Wilder. A fotografia também merece destaque, há uma cena em que uma nuvem passa por cima dos atores tapando o sol que é uma coisa absurda de linda…

Assistir a BONNIE & CLYDE é recompensador, principalmente quando é a primeira vez, como foi o meu caso. Retirou um peso da minha consciência cinéfila…

Escrito originalmente em novembro de 2009.

Anúncios

APONTAMENTOS RÁPIDOS SOBRE O OSCAR

O Oscar é daqui alguns instantes, mas acho que dá tempo de tecer alguns comentários rápidos e rasteiros sobre alguns filmes que vi, pelo menos na categoria de melhor filme. Apenas alguns, porque olhando o quadro do prêmio principal, confesso que não fiquei muito empolgado com certos títulos e preferi deixar passar… Apesar de ter curtido, com ressalvas, todos os filmes que parei pra ver…

Vi A CHEGADA, de Dennis Villeneuve, que é um interessante sci-fi. Tinha esperança de que fosse gostar mais, há uma tentativa de tornar o plot de invasão alienígena em algo mais cerebral… Acaba não sendo nem tão profundo e ao mesmo tempo parece que fica faltando qualquer coisa mais excitante. Mas não é ruim, é divertido na maior parte do tempo, bastante rico em atmosfera e bem dirigido pelo canadense, mostrando que a aguardada continuação de BLADE RUNNER está em boas mãos. Especialmente quando o sujeito emula um Terrence Malick da boa fase, é agradável aos olhos, o foda é quando o filme parece dirigido pelo Christopher Nolan de INTERESTELLAR, como no frágil terço final, cheio de soluções mal resolvidas e um twist meio besta, que não funciona muito comigo. O grande trunfo de A CHEGADA, no entanto, é o desempenho de Amy Adams, fazendo uma personagem fortíssima. Na verdade, nem Malick, nem Nolan, acho que seria melhor se fosse dirigido pelo Roland Emmerich e acabasse tudo em explosões!

960

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Racksaw Ridge) é o retorno do Mel Gibson na direção. A primeira metade do filme é bem mais ou menos e acho que Gibson deixa pesar demais a mão, se perde um pouco no drama, embora o Garfield segure bem o filme. Mas aí temos a segunda parte, na guerra, com cenas de batalhas, explosões e corpos dilacerados, Mel Gibson se sentindo em casa. Imaginem a sequência inicial de O RESGATE DO SOLDADO prolongado por uns quarenta minutos… É de uma intensidade impressionante, um trabalho visual incrível e uma coreografia de combate de guerra das mais antológicas do gênero… O tema agrada o Oscar e temos vários exemplos que já venceram o grande prêmio da noite (PATTON, O FRANCO ATIRADOR, PLATOON…) e acho que é o meu favorito de hoje. Mas não deve ganhar nada, infelizmente…

Tudo porque temos um LA LA LAND concorrendo… Ok, o filme é legalzinho, bonitinho e muito fácil de se gostar. Mas alçá-lo ao patamar de clássico – já vi gente falando que é o melhor musical de todos os tempos! – já acho um puta exagero. É inegável, no entanto, que o diretor, Damien Chazelle, tem boa noção daquilo que faz e conduz a coisa toda com muita segurança. A cena de abertura, por exemplo, é um espetáculo. Mas quando rola os números musicais com os dois protagonistas, me parecem ralas, como se fossem uma preparação para algo esplendoroso que ainda está por vir, mas que nunca vem… De qualquer forma, o casal principal manda bem quando não estão dançando e curto especialmente o personagem do Gosling. Enfim, não desgosto de LA LA LAND, apenas não acho isso tudo… Mas é bem provável que abocanhe muitos prêmios hoje. São 14 indicações!

684x384_341948

O A QUALQUER CUSTO (Hell and High Water) eu cheguei a comentar por aqui na minha lista de melhores do ano. Gosto muito da visão mordaz do Oeste americano moderno. Dois irmãos que roubam bancos em pequenas cidadezinhas pelo Texas são perseguidos por uma dupla de homens da lei pelas estradas da região. Não conhecia o diretor David Mackenzie, mas o cara comanda tudo com precisão e equilíbrio entre cenas mais tensas de ação, assalto e perseguições, com longas e lentas tomadas dos cenários e num belo estudo de personagens, que é de fato o que interessa. O filme foi ganhando merecidos destaques pelos diálogos, o fascínio por personagens tão humanos e por toda a construção narrativa que desemboca num epílogo que engrandece ainda mais a obra.

Vi também MOONLIGHT, de Barry Jenkins. Outro exemplo que não vejo tantos problemas, mas também não me desperta tanta simpatia. O filme narra a história, em três momentos da vida, de um sujeito negro, pobre, gay, sentimental, num universo barra-pesada e com a mãe drogada… Mas ao mesmo tempo não consegue tocar o dedo na ferida em nada disso. É tudo muito bonitinho, limpinho, quando o material poderia render algo bem mais impactante. O desfecho é um bom exemplo. Depois da puta sequência do reencontro no restaurante, Jenkins quase põe tudo a perder pelo excesso, uma imagem alegórica que não serve pra nada, a do protagonista criança na praia olhando pra trás, o tipo de coisa que só quer pagar de poético… Amanhã ninguém mais vai se lembrar, mas vale a pena uma conferida.

brody-kennethlonergansdevastatingliberatingmanchesterbythesea2-1200

Por último, me surpreendi com MANCHESTER À BEIRA MAR, de Kenneth Lonergan. Não é nenhuma obra-prima, mas é o típico drama sério, amargo, que consegue me prender pela forma como trata de um tema pesado, como o luto, com certo frescor, sem apelar para o sentimentalismo barato e focando mais o lado humano da coisa, através de relações cheias de estranhamentos e momentos silenciosos. Tudo conduzido sem muita frescura, com um humor negro e desconfortável precisamente inserido em alguns pontos e, obviamente, com excelente desempenho do elenco, especialmente Lucas Hedge. A performance de Casey Affleck pode até ser retraída demais e divide as opiniões, mas acho que funciona bem. Se o filme conseguir tirar alguns prêmios de LA LA LAND eu já fico satisfeito.

ESTRELAS ALÉM DO TEMPOLIONUM LIMITE ENTRE NÓS eu vou ficar devendo. Realmente não me apetecem… E espero que o Oscar tenha colhões suficientes, já que esnobaram ELLE na categoria Filme Estrangeiro, e pelo menos premiem a Isabelle Huppert pelo filme do Verhoeven.

Um top 6 em ordem de preferência ficaria assim:
1. ATÉ O ÚLTIMO HOMEM
2. A QUALQUER CUSTO
3. MANCHESTER À BEIRA MAR
4. A CHEGADA
5. LA LA LAND
6. MOONLIGHT

THE BIG DOLL HOUSE (1971)

xmnvf

A ideia de realizar THE BIG DOLL HOUSE chegou até o diretor Jack Hill como uma tentativa de fazer um spinoff de 99 WOMEN (69), do espanhol Jess Franco, um dos primeiros filmes do subgênero Women in Prison. Hill achava que poderia haver um público para este tipo de produto, então, reuniu uma pequena equipe, escalou um grupo de belas atrizes, recebeu a benção do mentor Roger Corman e partiu para as Filipinas, berço de produções exploitations naquele período. Como bom pupilo de Corman, o diretor filmou com tanta economia que acabou saindo de lá com dois WIPs debaixo do braço: Tanto este THE BIG DOLL HOUSE quanto THE BIG BIRD CAGE (72).

Boa parte da carreira de Hill é dedicada ao universo feminino, destacando a força da mulher em situações que deixariam machões no chinelo. Portanto, o subgênero WIP é o típico prato cheio para que o roteiro explorasse ao máximo esse tipo de situação. O roteiro, aliás, não precisava nem ser exigente demais em tentar criar enredos intrincados e verossímeis, bastava colocar as personagens nuas em chuveiros coletivos ou brigando na lama para surtir reflexões filosóficas e garantir a dose de emoção necessária que o espectador precisava.

rnuzo

THE BIG DOLL HOUSE preenche com facilidade todos os requisitos, até porque é aqui que Jack Hill define vários princípios que ficaram enraizados ao gênero. O filme começa com a bela ruiva Collier (Judy Brown) sendo transportada para uma prisão de mulheres nas selvas Filipinas. Passa por uma inspeção médica, com os seios à mostra, para variar, e logo, na sua cela, é apresentada a um elenco feminino cheio de beldades, incluindo a musa negra, Pam Grier, que estrelaria dois clássicos blaxploitation comandado por Hill, COFFY (73) e FOXY BROWN (74). A partir daí, o filme continua misturando todos os ingredientes que fazem um típico WIP funcionar.

Portanto, temos os planos de fugas, cenas de torturas praticadas pela carcereira chefe, lesbianismo, uma luta na lama entre Grier e Roberta Collins, corrida de baratas, muitos tiros e explosões num final cheio de ação. Um dos grandes destaques de THE BIG DOLL HOUSE é a presença do ator Sid Haig, roubando todas as cenas em que aparece, em especial quando contracena com Pam Grier. Haig se especializou em fazer tipos estranhos em fitas de exploração e também já havia trabalhado com Hill, no clássico SPIDER BABY (68) e até mesmo no seu curta-metragem de estreia THE HOST (63).

x7u7v

THE BIG DOLL HOUSE é um desses exemplares essenciais para os apreciadores dos subgêneros obscuros que o cinema tem para oferecer. E Jack Hill é nome fundamental nesse sentido. Faz aqui um trabalho excepcional, com um orçamento baixíssimo, mas muita criatividade e boa vontade, criando um autêntico clássico da era grindhouse.

6qda6

RANKING ANOS 40

Já faz algum tempinho que não atualizo minhas listas de filmes favoritos por década. A útlima vez que fiz foi ainda no blog antigo, então lá se vão uns quatro anos… Apesar de me divertir montando essas listas, sempre acontece umas injustiças, fica muita coisa de fora, mas a graça é justamente essa. Me propus o limite de 20 filmes e só coloquei um filme por diretor para haver sempre aquela variedade habitual. São escolhas pessoais, quem discordar pode comentar nos comentários ou que monte a sua própria lista. Vamos começar com a década de 40.

6a00d83455e40a69e2017ee8f94bc0970d

OUT OF THE PAST

the-red-shoes

RED SHOES

image-w1280

O HOMEM QUE QUERIA MATAR HITLER

01.OUT OF THE PAST (1947), de Jacques Tourneur
02.SAPATINHOS VERMELHOS (Red Shoes, 1948), de Powell & Pressburger
03.O HOMEM QUE QUERIA MATAR HITLER (Man Hunt, 1941), de Fritz Lang
04.HIGH SIERRA (1941), de Raoul Walsh
05.THE WAKE OF THE RED WITCH (1948), de Edward Ludwig
06.THE OX-BOW INCIDENT (1943), de William A. Wellman
07.NOTORIOUS (1946), de Alfred Hitchcock
08.O TESOURO DE SIERRA MADRE (1948), de John Huston
09.IT’S A WONDERFUL LIFE (1946), de Frank Capra
10.DOUBLE IDEMNITY (1944), de Billy Wilder
11.LADRÕES DE BICICLETA (1948), de Vittorio De Sica
12.CIDADÃO KANE (1941), de Orson Welles
13.THE BIG SLEEP (1946), de Howard Hawks
14.O GRANDE DITADOR (1940), de Charles Chaplim
15.MY DARLING CLEMENTINE (1946), de John Ford
16.CASABLANCA (1943), de Michael Curtiz
17.THE THIRD MAN (1949), de Carol Reed
18.ROMA, CIDADE ABERTA (1945), de Roberto Rossellini
19.DETOUR (1945), de Edgar G. Ulmer
20.I SHOT JESSE JAMES (1949), de Sam Fuller

Semana que vem posto os anos 50…

TODAS AS CORES DO MEDO (Tutti il colori del buio, 1972)

bscap0163

Revi outro dia… Porra, Edwige Fenech, essa cocota do Eurocult é uma das mulheres mais sexy e belas da história do cinema. Nascida em 1948, esta estonteante franco-argelina apareceu em uma porrada de thrillers, gialli, filmes de terror e comédias eróticas a partir dos 19 anos de idade, e ainda estava boa o suficiente para aparecer nua na Playboy italiana no auge dos seus quarenta e tantos anos. Mas para provar que Edwige não é só beleza, mas também atriz de verdade, TODAS AS CORES DO MEDO tá aí, um elegante e singular giallo de Sergio Martino na qual Edwige é o centro das atenções ao encarnar uma jovem perturbada que pode, ou não, ser o alvo de um assassino misterioso.

Mas é um giallo diferentão, todo desconstruído… Vamos lá. A pobre Jane Harrison (Fenech) vem sofrendo de alguns pesadelos muito loucos, cheio de imagens piscodélicas e situações pertubadoras… Neles ela vê sua própria mãe – que foi assassinada por um desconhecido assaltante quando Jane era uma menina – sendo esfaqueada até a morte por um homem com olhos incrivelvente azuis e penetrantes (Ivan Rassimov).

bscap0014bscap0027bscap0030861c6cf1

Esses pesadelos estão se tornando um transtorno na vida de Jane, afetando não apenas seu psicológico, mas também seu relacionamento com o marido, Richard (o grande George Hilton). Ele acredita que os pesadelos provêm de um aborto que Jane teve depois de um acidente de carro no ano anterior, só que o problema pra ele é ainda mais complexo, afinal desde então a mulher se tornou frígida e, bem, vocês sabem, dividir a cama com a Edwige Fenech e não poder fazer nada de vez em quando é algo realmente para abalar as estruturas de um casamento feliz…

O conselho da irmã mais velha de Jane é que ela comece a encarar um psiquiatra, afirmando que é a única maneira para que restaure a sua saúde mental. Algo que Richard insiste que se trata da mais pura besteira e charlatanismo, já que a tal irmã trabalha num consultório psiquiátrico. Enquanto tentam resolver esse impasse, Jane começa a ver o homem de olhos azuis de seus pesadelos, armado sempre com uma faca, com muito mais frequência, inclusive quando está acordada, em visões aterradoras!

bscap0178bscap0181

Temendo por sua própria sanidade, Jane não só concorda em ver o psiquiatra recomendado pela irmã, mas também opta por tratamentos menos convencionais que surgem por acaso. Como, por exemplo, dar ouvidos a uma misteriosa vizinha de seu prédio, que diz que Jane precisa encontrar-se com algumas pessoas que passaram por circunstâncias semelhantes. Mas só quando é tarde demais ela percebe, para seu horror, que sua simpática e prestativa vizinha é membro de um culto satânico!

Em uma mansão isolada, Jane é forçada a beber sangue e fazer sexo com o sacerdote do culto. Tudo fica muito embaralhado na cabeça da pobre Jane. O culto satanista era apenas uma alucinação, como ela também acredita ser as recentes aparições do homem de olhos azuis? Ou será que tudo era real?

O fato é que alguns dos melhores momentos de TODAS AS CORES DO MEDO são esses cultos satânicos, brilhantemente filmados acompanhados dos acordes melódicos de Bruno Nicolai. Claro, as ações do cultistas são tenebrosas para Jane, mas o cenário é bonito, bem aproveitado e evoca os bons tempos do horror gótico italiano dos anos 60. Julian Ugárte é o ator que faz o sacerdote. O cara rouba o filme facilmente por alguns minutos, expressivo e convincente como líder de um culto satânico, expondo dentes sangrentos e vorazmente envolvido num coito frenético com Jane, como seria de se esperar de um líder satanista que se preze.

bscap0112bscap0111

Bom, não preciso nem dizer que nada disso ajuda muito a resolver o problema da ragazza… E a moça não pode nem confiar muito no próprio marido – a quem ela não conta nada do que teria acontecido no tal culto satânico – até porque, mesmo com todos os problemas que ela passa, Richard deixa Jane frequentemente sozinha e isolada em seu apartamento enquanto ele, um vendedor de uma empresa farmacêutica, está sempre fora à negócios. À medida que Jane se aproxima da total decomposição mental, a coisa evolui para um lado metafísico e ela começa a ter estranhas visões de eventos que no fim das contas, acabam se tornando realidade…

É curioso como a paranóia de Jane é exemplificada por um puta trabalho de tensão pontual que prevalece sempre que ela se encontra sozinha e que geralmente segue com uma temporária sensação de alívio quando está em torno de outras pessoas. Por exemplo, quando Jane deixa o consultório de seu psicanalista, ela fica sozinha em uma estação de metrô, e só esse fato já é suficiente para gelar a espinha do espectador com a trilha sonora angustiante de Nicolai e a câmera que cria uma atmosfera inquietante. Depois que o metrô chega, uma sensação de conforto e segurança prevalece, com a multidão invadindo o ambiente solitário. Não demora muito para que a tensão volte a subir quando ela se encontra sozinha novamente…

Quem já tem certa familiaridade com o gênero, já percebe até aqui que TODAS AS CORES DO MEDO é um giallo bem incomum. São vários elementos visuais e narrativos característicos associados com o giallo que são deixados de lado: Não há nenhum assassino sem rosto, mascarado, de luvas negras, já que vemos Rassimov desde o início como um stalker com faca na mão; na trama, ao invés de nos apresentar um típico mistério de “descobrir o assassino“,  aqui é se o homem dos olhos azuis e outras situações são mesmo reais ou se não são criações da mente perturbada de Jane…

bscap0170

A contagem de corpos também é relativamente baixa para um giallo e as mortes nunca são realmente violentas e sangrentas. Com exceção do sonho da mãe de Jane sendo morta logo no início do filme, não há outros assassinatos até o terceiro ato. Além disso, o aspecto sobrenatural do culto satânico e as premonições de Jane adicionam um sabor de fantasia que não é tipicamente encontrado no gênero.

Até mesmo se levarmos em consideração o fator depravado e erótico habitual do giallo  é comparativamente moderado em TODAS AS CORES DO MEDO, e as cenas de nudez de Fenech são de bom gosto, não muito vulgares. Claro, ter a Fenech em cena é quase sinônimo de um topless… Mas, por exemplo, logo na introdução de Jane no filme, vemos ela acordar de seu pesadelo e depois ela vai para o chuveiro ainda de camisola. Uma tentativa simbólica do desespero de Jane ou é apenas uma oportunidade para Fenech ficar molhadinha em frente à câmera? Eu diria que ambos, mas é um dos detalhes que torna TODAS AS CORES DO MEDO tão agradável. Nada é vazio e vulgar por aqui, nudez e violência servem ao filme como forma de expressão.

bscap0126

Edwige mostrando sua expressão

Como disse no início, TODAS AS CORES DO MEDO é um giallo refinado, com direção de classe de Sergio Martino, um dos principais especialistas do gênero, e sem dúvida alguma tem aqui um dos seus melhores resultados. Dirigiu de tudo, na verdade, western, aventura, comédias, ação, isso aqui, mas é no giallo que o cara parece estar mais consciente. Martino tem bom olho para composição dos quadros, tira muita vantagem da tela larga e sua câmera raramente fica estática, mesmo de forma sutil, impedindo até que cenas de diálogo de rotina se tornem sem graça. As sacadas visuais empregadas para a transição da realidade para a fantasia e vice-versa são tão simples, mas ao mesmo tempo muito eficazes, sempre a serviço do enredo e nunca apenas para exibicionismos.

O sujeito também manda bem na construção do suspense, que é o componente essencial para qualquer thriller de sucesso. A cena que tem Jane é perseguida e se apressa para entrar no seu carro e, obviamente, não consegue fazer a ignição pegar já vimos em milhares de outros filme, mas é só um dos exemplos da finesse de Martino, que faz o espectador ficar com as mãos suando de tensão, apesar de todo o clichê. Na verdade, o filme inteiro possui uma atmosfera bem trabalhada, como já disse anteriormente, apoiada num belíssimo e requintado visual, na trilha de Nicolai e no roteiro bem amarrado (embora guarde um traço de ambiguidade no final).

bscap0131bscap0180

E, finalmente, temos a deliciosa Deusa do Eurocult, Edwige Fenech. Todo o elenco de TODAS AS CORES DO MEDO é notável e contribui para o show, especialmente Hilton, Rassimov e a pequena participação de Ugárte, mas é Edwige que é a atração principal. Eu já vi algumas de suas comédias eróticas e acho que posso dizer com confiança que a moça tem aqui um dos melhores desempenhos. E sem precisar mostrar os peitos a cada dez minutos, completamente convincente como a assustada, vulnerável e confusa Jane… Fenech é um espetáculo! Não preciso dizer mais nada, apenas recomendo a qualquer amante do horror europeu.

INVENTÁRIO EUROCULT – O RETORNO

Há alguns anos, aqui mesmo no blog, resolvi convidar leitores e amigos para participarem da elaboração de um inventário de filmes “cult” europeus. Pedi que me enviassem listas pessoais de filmes favoritos e fui compilando essas relações de dez ou quinze filmes cada, repletas de exemplares essenciais e obscuros desse universo tão extenso e fascinante. Um guia perfeito para qualquer iniciante que desejasse enveredar por essas estranhas paragens do cinema. No total foram quinze listas de convidados especiais e, passados, sei lá, uns três anos, me dei conta agora, graças ao Edu Aguilar (também participou do projeto), que até hoje eu nunca havia publicado a MINHA lista! Como acho que nunca é tarde, estamos aí…

O que eu quero dizer com cinema Eurocult? Nem eu sei responder direito… Mas na época queria contemplar mais filme europeus de gêneros populares “de qualquer qualidade. Do horror ao peplum, do giallo ao Spaghetti Western, das tranqueiras do Bruno Mattei e Andrea Bianchi à elegância de um Mario Bava e Dario Argento”, como disse no primeiro post da série.

A relação que fiz contém 25 filmes e está em ordem cronológica. Decidi por colocar apenas um título por diretor, porque só o Fulci, Argento e Bava já formavam a lista inteira. Resolvi não incluir diretores mais famosinhos (como Fellini, Bergman, Buñuel ou Leone, por exemplo, embora tenham feito cinema de gênero e TRÊS HOMENS EM CONFLITO seja o melhor filme da galáxia). Não se trata realmente de uma lista fechada e absoluta, tem prazo de validade, dependendo do meu humor e das novas descobertas que fazemos todos os dias. Mas hoje ela seria assim:

nov_ercole

O grande Hércules encara uma taruíra gigante no filme de Cottafavi

nancy-and-jan

MALPERTUIS, um filme de belas composições

beyond

THE BEYOND e um dos desfechos mais aterradores do cinema

OS OLHOS SEM ROSTO (Les Yeux sans visage, Fra, Ita, 1960), de Georges Franju
ERCOLE ALLA CONQUISTA DI ATLANTIDE (Ita, Fra, 1961), de Vittorio Cottafavi
THE WHIP AND THE BODY (La frusta e il corpo, Fra, Ita, 1963), de Mario Bava
UMA BALA PARA O GENERAL (Quién sabe?, Itália 1966), de Damiano Damiani
UN ANGELO PER SARTANA (Itália, 1966), de Camillo Mastrocinque
O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE (L’armata Brancaleone, França, Espanha, Itália, 1966), de Mario Monicelli
FACCIA A FACCIA (Itália, Espanha, 1967), de Sergio Sollima
IL GRANDE SILENZIO (França, Itália, 1968), de Sergio Corbucci
SUCCUBUS (Alemanha, 1968), de Jess Franco
MALPERTUIS (Bélgica, França, Alemanha, 1971), de Harry Kumel
MILANO CALIBRO 9 (Itália, 1972), de Fernando Di Leo
TUTTI I COLORI DEL BUIO (Itália, Espanha, 1972), de Sergio Martino
EXPRESSO DO HORROR (Horror Express, Espanha/Inglaterra, 1972)
THRILLER – A CRUEL PICTURE (Suécia, 1973), de Bo Arne Vibenius
LES DÉMONIAQUES (Bélgica, França, 1973), de Jean Rollin
LA CASA DALLE FINESTRE CHE RIDONO (Itália, 1976), de Pupi Avati
EMANUELLE IN AMERICA (Itália, 1977), de Joe D’Amato
INFERNO (Itália, 1980), de Dario Argento
CANNIBAL HOLOCAUST (Itália, 1980), de Ruggero Deodato
NIGHTMARE CITY (Incubo sulla città contaminata, Esp, Ita, 1980), de Umberto Lenzi
THE BEYOND (…E tu vivrai nel terrore! L’aldilà, Itália, 1981), de Lucio Fulci
POSSESSION (Alemanha, França, 1981), de Andrzej Zulawski
ESCAPE FROM THE BRONX (Fuga dal Bronx, Itália, 1983), de Enzo G. Castellari
DEMONS (Itália, 1986), de Lamberto bava
DELLAMORTE DELLAMORE (França, Alemanha, Itália, 1994), de Michele Soavi

Queria ter colocado STARCRASH, do Luigi Cozzi, mas tem dinheiro americano envolvido, então decidi não considerá-lo… E também quis dar preferência a produções de países que não falam inglês, por isso a ausência de filmes da Inglaterra. Mas fica a observação.

Se alguém estiver interessado, segue as outras listas:
#1 #2 #3 #4 #5 #6 #7 #8 #9 #10 #11 #12 #13 #14 #15

E se alguém quiser ainda quiser contribuir com o inventário, é só me enviar sua lista de Eurocult favoritos.

HONEY BRITCHES, aka DEMENTED DEATH FARM MASSACRE… THE MOVIE (1971/1986)

260__11_

Filme totalmente deslocado na carreira do prolífico Fred Olen Ray, HONEY BRITCHES foi produzido no início da década de setenta quando o sujeito não tinha completado nem vinte anos de idade e, mesmo assim, é muitas vezes confundido como o seu primeiro trabalho como diretor. Mas calma lá que vou explicar, até porque se trata apenas de uma picaretagem usual desses diretores de filme B.

HONEY BRITCHES realmente foi filmado no início da década de 70, mas por um tal Donn Davidson, e foi muito mal lançado comercialmente pela Something Weird. Fred Olen Ray só entra na parada em meados dos anos 80, quando descobre a existência do filme e decide comprá-lo. O sujeito reeditou a porra toda, filmou e acrescentou algumas cenas do bom e velho John Carradine como o contador da história, dizendo-se o “Juiz do Inferno”, falando qualquer baboseira só pra ter um apelo comercial, colocou seu nome nos créditos como diretor e vendeu essa “nova obra” para a famigerada Troma, que o relançou com o tal título DEMENTED DEATH FARM MASSACRE… THE MOVIE.

ddfm4

John Carradine com expressão de felicidade por estar participando desta maravilha

E se não fosse por tudo isso, talvez nunca assitiriamos a esta tralha. Até porque HONEY BRITCHES é uma porcaria de qualquer forma, então só mesmo o nome do Ray e Carradine nos créditos pra me fazer parar e conferir.

A trama é sobre quatro ladrões de jóias da cidade grande, dois casais que acabaram de cometer um roubo e tentam fugir pelas zonas rurais enquanto estão sendo procurados pela polícia local. O carro deles fica sem gasolina, decidem procurar abrigo para se esconder e acabam indo parar na cabana de um velho fazendeiro e sua jovem esposa sexy. Quando um dos ladrões começa a dar em cima da tal esposa, todo o plano para não serem descobertos começa a ruir, acarretando numa onda de violência e morte.

bscap0002

Um dos grandes problemas que eu tive de cara com HONEY BRITCHES é com o ritmo. O filme é chato e lento pra cacete, apesar da curta duração que não chega a 90 minutos. Logo no início do filme é preciso ter paciência para acompanhar as loooongas e intermináveis cenas dos ladrões de joias andando por florestas… Faz sentido se é o Tarkovski filmando uma de suas obras de arte, mas por aqui… Não sei o que esse Donn Davidson tinha na cabeça. E não acontece muita coisa, afinal, ao longo do filme, mas se você for paciente vai ver uma moça sendo morta à pancadas na cabeça com um jarro, um tridente na garganta de um sujeito e um tiro na testa de outro já perto do fim… Tudo filmado ao melhor estilo Herschell Gordon Lewis: exagerado e com muita tinha vermelha, que parece tudo, menos sangue.

O elenco também não ajuda muito. Um dos ladrões, que tem todo o ar de intelectual, possui um sotaque britânico que é extremamente irritante. Mas é engraçado ver o velho Carradine, quase próximo à morte, sendo a voz incosciênte da narrativa num cenário totalmente fora do contexto do filme. A coisa é tão deslacada que suas cenas parecem filmadas no quintal da casa de Ray. E temos pelo menos Ashley Brookes, que faz a esposa sexy. Não é boa atriz, mas se esforça, além de ser a única que mostra seus atributos numa rápida ceninha.

260__14_

Enfim, HONEY BRITCHES é uma picaretagem indicada para fãs hardcore de exploitations setentistas de orçamento risível, apreciadores de Fred Olen Ray e pessoas que possuem um gosto duvidoso, como é o meu caso. Não que eu tenha curtido, mas que tem sua graça justamente por ser tão bagaceiro, ah isso tem…

Outros filmes do Fred comentados aqui no blog:
BIOHAZARD
RESPOSTA ARMADA
HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS

THE TALE OF ZATOICHI (1962)

szy68z

Quando os estúdios Daiei escolheram adaptar para o cinema a história de Zatoichi, um samurai cego que só havia aparecido em pequenas crônicas publicadas no final dos anos 40, eles não faziam ideia da extensão que seria o sucesso do personagem, que se transformaria num herói popular, ícone da cultura pop japonesa e renderia ainda mais de vinte filmes, seriados, além de spin-offs e revivals em tempos modernos, como a do Takeshi Kitano, em 2003… Ou aquela versão com o Rutger Hauer, FÚRIA CEGA.

Aqui, no entanto, é onde tudo começou. Dirigido pelo veterano Kenji Misumi e magistralmente personificado por Shitaro Katsu, THE TALE OF ZATOICHI inicialmente pode parecer muito influenciado por YOJIMBO, de Akira Kurosawa, lançado no ano anterior e que exibe uma trama similar em alguns pontos. Em ambos vemos um outsider itinerante de habilidade marcial fora do comum vagando em espaços rurais arruinados pelo conflito entre dois clãs rivais que disputam o poder local. Só que Zatoichi rapidamente se estabelece como um protagonista mais equilibrado e simpático, diferente do grosseiro Sanjuro, de Toshirô Mifune, embora as motivações dos dois permaneçam igualmente ambíguas, com a busca de dinheiro em ambos os casos soando como fachada para redenções morais não explícitas.

25k7sk0

A principal diferença de YOJIMBO, porém, é o fato de que THE TALE OF ZATOICHI se assume apenas como um entretenimento popular e não uma obra filosofica auto-consciente, como é o caso de Kurosawa. Até porque estamos falando de um sujeito cego que é capaz de encarar grupos inteiros de meliantes armados com objetos cortantes e ainda por cima se sair bem, como uma espécie de Matt Murdock/Demolidor do Japão feudal. Não dá tempo pra filosofias por aqui… E as sequências de ação são excepcionais, apesar do filme carecer de um pouquinho mais de combates de espada. Ficou um gostinho de “quero mais”…

Na verdade, THE TALE OF ZATOICHI poderia ser bem mais divertido se fosse mais focado no seu protagonista e com mais cenas de ação, mas o excesso de subtramas neste enredo que não chega nem a duas horas de duração é demais para suportar. O filme atira pra todo lado com histórias envolvendo estupro de uma moça, a gravidez de outra, a doença mortal de fulano, abuso, suicídio, alcoolismo, jogos de azar, amor, e vários outros tópicos… Me parece um pouco demasiado complexo para o que poderia ser bem mais simples. E fica faltando mais tempo para explorar a ação. Tá certo que, possivelmente, os realizadores optaram por retratar o fato de que Zatoichi não saca sua espada de forma vulgar e evita ao máximo o confronto. Mas, porra, eu ansiava por um pouco mais das habilidades do lendário samurai cego.

209si6g

Mas preciso ressaltar: quando Zatoichi resolve usar sua espada, o resultado é incrível, como no esperado e antológico duelo na pontezinha. São por esses momentos que o filme vale uma conferida.

Impossível deixar de destacar também o trabalho de Shintaro Katsu na pele de Zatoichi, que tem aqui um desempenho do cacete, muito convincente e carismático. É o que realmente segura THE TALE OF ZATOICHI e que faz o personagem tão fascinante. Vou continuar assistindo a série aos poucos e comento aqui a medida que for assistindo. Este aqui, apesar dos pesares, tem todos os méritos para ser o clássico das artes marciais que é. Mas espero que as próximas vinte e tantas continuações tenha um bocado mais de ação…

DESERT KICKBOXER (1992)

ec017365b89af0c7d75fdb5b05e431ce

Apesar de DESERT KICKBOXER conseguir variar um pouco o estilo “kickboxing movie”, o resultado não chega a ser dos melhores. Se bem que analisar por alto os filmes do gênero é meio complicado. Embora eu ame o ciclo “Kickboxing Movie” do início dos anos 90, é inegável o fato que surgiu muita porcaria no meio, exemplares genérico sem muita criatividade, atuações ruins, a grande maioria com tramas realmente fracas e lutas mal feitas, ou seja, o principal atrativo dos filmes nem sempre faz valer a pena… DESERT KICKBOXER não é muito diferente disso. Ou talvez seja…

Lembro de ter visto este aqui na TV há muito tempo. Revi esses dias pelo simples fato que se trata do primeiro longa do diretor Isaac Florentine! Daí surgiu a curiosidade de relembrar o filme e confirmar que realmente não é grandes coisas, mas tem seus momentos, dependendo do clima que você estiver…

O ator John Newton foi o Superboy da série televisiva dos anos 80. Apesar de garboso, não chegou a fazer muito sucesso depois. Aqui ele vive Hawk, um policial descendente de índios Navajos que vive num deserto americano, fazendo fronteira com o México, para combater o tráfico de drogas à base da porrada na cara e voadoras. O sujeito foi campeão de kickboxer (ou pelo menos é o que eu imagino, já que é a modalidade indicada no título), mas sofre de um profundo trauma por ter matado o oponente em sua última luta.

Os problemas começam quando uma mulher decide passar a mão na grana de um poderoso traficante, vivido por Paul L. Smith (o Brutus da versão do cinema de Popeye, dirigido pelo Robert Altman), e foge para o deserto com seu irmão retardado tendo sua cabeça à prêmio e a bandidagem à sua cola. Só que Hawk, experiente habitante do deserto, a encontra primeiro. E aí já viu, né?

bscap0012

O filme é bem despretensioso e tem quase totalmente o deserto como cenário. Dá pra perceber claramente que é uma produção pobre, independente e com um ritmo lerdo demais para esse tipo de história. O roteiro não traz nenhuma novidade, mas de vez em quando surge um personagem interessante, como na cena da gangue de motoqueiros cujo líder, vestido de padre, é uma figuraça!

As cenas de luta se resumem ao puro exibicionismo de John Newton (e de seus mullets!). São curtas e sempre contra oponentes que não sabem lutar. Temos apenas duas sequências um pouco mais elaboradas: a do início, mostrando o combate no ringue onde o adversário do protagonista acabou morto (e o cenário não passa de um fundo preto, com alguns flashes de máquinas fotográficas e efeitos sonoros de uma torcida gigantesca) e a luta final, contra o capanga do traficante que curiosamente também é praticante de kickbox!

Mas não esperem a virtuosidade de Florentine nas coreografias. São lutas bem meia bocas, mas justamente por isso, dão aquele charme tosco para os que curtem uma boa tralha. A sequência final é bem preguiçosa, dá pra ver até a sombra da equipe de produção no canto da tela enquanto os atores trocam chutes e o roteiro ainda resolve certas situações com típicos clichês vagabundos. Mas apesar disso e de toda brutalidade física, o final reserva grandes lições filosóficas para o espectador mais atento. Afinal, nada na vida é por acaso, e é isso que Hawk descobre em seu confronto, trazendo de suas memórias traumáticas a motivação para derrotar seu novo oponente. E ainda, aprendida a lição, ele não se deixa cometer dos mesmo erros. Claro que segundos depois, ele utiliza o meliante como escudo vivo pra não levar bala, mas também já seria exigência demais.

FAREWELL TERMINATOR, curta metragem israelense e primeiro trabalho do Florentine, valia muito como curiosidade. Já DESERT KICKBOXER serve mesmo para os fãs arretados do gênero, que sabem apreciar até mesmo os exemplares ruins… para estes, o filme até pode divertir um pouquinho.

O GRANDE DRAGÃO BRANCO (Bloodsport, 1988)

bscap0042

O que seria dos filmes de luta no ocidente sem O GRANDE DRAGÃO BRANCO? Não sei, mas cada vez que assisto a essa belezinha, mais me convenço do óbvio, de que se trata de um dos clássicos mais influentes do cinema de artes marciais feito nos lados de cá. Já devo ter assistido umas quinhentas vezes e como acho que esse número não é suficiente, esta semana resolvi rever mais uma vez pra não perder o costume. Continua  a coisa linda de sempre e um dos melhores veículos de Jean-Claude Van Damme.

Tá certo que nem o acho o filme uma obra-prima, a qualidade de algumas lutas são questionáveis, a maioria das atuações são constrangedoras e impera expressões faciais hilariantes, como a da imagem que abre o post; mas é pelo nível de entretenimento, pela sensação nostálgica, por várias cenas definitivas para o gênero e que marcaram uma geração que O GRANDE DRAGÃO BRANCO permanece com o mesmo frescor, com a mesma grandeza de quando assisti pela primeira vez.

bscap0003

Se você, sei lá, esteve em Marte nos últimos quarenta anos e nunca ouviu falar de O GRANDE DRAGÃO BRANCO, então presta a atenção. Produzido pela famigerada Cannon Films, e dirigido por Newt Arnold, trata-se do filme que colocou Jean-Claude Van Damme definitivamente no mapa. A sua participação em NO RETREAT NO SURRENDER e BLACK EAGLE são bacanas e os filmes crescem justamente por sua presença, mas foi aqui que o mundo todo conheceu o belga que dava chutes rodados no ar e fazia espacate em todas as oportunidades possíveis.

bscap0029

A trama é baseada, alegadamente, na história real do verdadeiro Frank Dux, um especialista em artes marciais americano que criou uma técnica de luta própria, chamada Dux FASST (Focus-Action-Skill-Strategy-Tactics) e até trabalhou no cinema como coreógrafo em filmes de porrada. Um dos pontos principais de sua biografia foi participar do lendário e ilegal torneio de artes marciais chamado Kumite, sendo o primeiro americano a vencê-lo. Tudo bem que há pessoas que contestam suas façanhas, dizendo que o troféu que o sujeito afirma ter ganho foi comprado numa loja da sua cidade… Mas quem sou eu pra desmentir?

Enfim, O GRANDE DRAGÃO BRANCO relata justamente o período em que Dux participou do Kumite e Van Damme é quem assume a responsa de encarnar a figura. Na trama, Dux dá uma escapulida das forças armadas americana, visita seu antigo mestre – com direito a um flashback que mostra seu treinamento ainda jovem – e parte até Hong Kong para participar do torneio, no qual diz a lenda que ferimentos graves e até mesmo resultados letais eram permitidos.

bscap0040

No local, além de encarar seus oponentes no tatame, Dux faz amizade com um lutador americano chamado Ray Jackson (Donald Gibb), come a jornalista gostosa obstinada por fazer uma reportagem sobre o Kumite e ainda tem que fugir de dois agentes americanos (um deles vivido por Forest Whitaker em início de carreira) que têm a missão de impedir que Dux participe da competição, já que o exército não quer que seu valioso material humano se machuque nessa brincadeira.

É evidente que o que desperta a atenção no filme num primeiro momento só poderia ser mesmo o torneio, os confrontos dos mais variados lutadores, a escala de combates que Dux precisa fazer para se tornar campeão. No entanto, confesso que não acho as cenas de luta por aqui aqui tão especiais. Há filmes com pancadaria bem mais elaboradas e brutais e até mesmo o Van Damme já protagonizou cenas de porrada mais espetaculares em outras ocasiões, com outros diretores.

bscap0044

Na verdade, não é que as lutas sejam ruins e há algumas que realmente merecem estar no panteão de filmes de torneio de artes marciais americanos. Acho sensacional que o próprio Frank Dux da vida real tenha elaborado a coreografia das lutas de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e é curioso que o sujeito achou que Van Damme não estava preparado fisicamente para encarar o desafio de vivê-lo no cinema e o colocou num treinamento barra pesada intensivo durante três meses, os quais o próprio JCVD disse ter sido o treinamento mais duro que já fez na vida. Valeu a pena, porque é justamente o belga que protagoniza as melhores cenas de ação.

bscap0063

Sobre o diretor, antes de dirigir O GRANDE DRAGÃO BRANCO, Newt Arnold havia feito apenas dois obscuros filmes de horror, sendo que o segundo, BLOOD THIRST, é 1971. Ou seja, quase duas décadas separam seu último trabalho como diretor e este aqui. Por outro lado, Arnold foi assistente de uma boa safra de diretores fodões, como Sam Peckinpah, Francis F. Coppola, William Friedkin e John McTiernan, portanto é um cara que sabia o que tava fazendo. E em termos de direção, enquadramentos e ritmo, o sujeito manda bem, as lutas tem boa energia. Se não chegam num nivel espetacular, ao menos são diretas, cruas e encenadas com competencia.

Ajuda muito a excentricidade de reunir os mais variados estilos de artes marciais e os mais bizarros representantes de cada modalidade para trocarem chutes e socos num torneio. Basta a montagem de treinamentos na abertura para garantir ao espectador que o dinheiro do ingresso foi bem gasto e ele vai ser recompensado com a exibição de uma vasta gama de estilos e métodos de treinamento, de um lutador de Sumo para um sujeito que luta Capoeira passando por mestres Kung Fu e até um cara que treina quebrando côcos em cima de uma árvore. É o estereótipo do estereótipo, mas que nuca perde sua graça até pelo pioneirismo da coisa. Michel Qissi marca presença, alguns anos mais tarde faria um desafeto de JCVD, Tong Po, no ótimo KICKBOXER. E temos o cruel Chong Li (Bolo Yeung), que surge quebrando blocos de gelo com pontapés.

bscap0047

No elenco, Van Damme aproveita como pode a oportunidade neste seu primeiro filme como protagonista. O sujeito esbanja carisma, demonstra boa presença nas sequências de luta, e, claro, não dá pra exigir dele uma interpretação de Hamlet, mas ensaia algumas situações dramáticas, como quando seu amigo Ray Jackson é destroçado por Chong Li e Van Damme vaga de metrô, fazendo expressões faciais preocupadas. Ou fazendo espacate numa varanda com vista para a cidade. Aliás, o espacate é uma das marcas registradas de JCVD em quase todos os seus filmes. Mas aqui o sujeito exagera da posição de 180º das pernas… O cara tem as pernas esticadas pelo seu mestre, depois faz espacate pra se preparar antes do torneio começar no quarto de hotel, espacate para acertar um murro nas partes baixas do lutador de sumô, espacate quando seu amigo vai parar no hospital… Haja tendões…

bscap0030

Você deveria parar de fazer isso se um dia quiser ser pai…

Uma das coisas que mais curto em O GRANDE DRAGÃO BRANCO é a relação de Dux com Ray Jackson. A introdução do grandalhão americano é engraçada, com o sujeito entrando no mesmo ônibus de Dux em Hong Kong, flertando meio abusivamente com uma mocinha. A gente logo pensa que ele vai ser um desses bullies que Van Damme precisará dar uma surra, mas acaba se revelando o cara mais gente boa do mundo e o melhor amigo do protagonista.

bscap0015bscap0016

E Bolo Young é desses caras que convence ser imbatível e que realmente poderia matar um sujeito com as próprias mãos num torneio desses. Tirando o fato que não há qualquer profundidade no persoangem, só está lá pra servir de lutador desumano e impiedoso, ele o faz com a máxima perfeição. Chong Li é simplesmente um dos maiores ícones do cinema de luta americano. Young voltaria a encarar JCVD no fenomenal DUPLO IMPACTO!

Alguns momentos de O GRANDE DRAGÃO BRANCO merecem o devido destaque. Quem assiste ao filme nunca esquece da cena em que Dux demonstra o “toque da morte” quebrando o último tijolo de uma pilha.

bscap0026bscap0027bscap0028

E o melhor vem logo depois, com a notória reação de Chong Li: “Muito bom, mas tijolo não revida!“. Porra, são momentos assim que transformam um filme desses num clássico!

Temos também a divertida sequência musical na qual Dux corre pelas ruas de Hong Kong fugindo da dupla de agentes. Por falar em música, tudo é muito datado para os padrões atuais, mas para um 80’s music lover como eu é sempre um charme a mais. Toda a sequência do treinamento do jovem Frank Dux com seu Shidoshi, vivido por Roy Chiao, também merece atenção, além do grande confronto final entre Dux e Chong Li, que se não é um primor em termos de ação, ao menos tem boas sacadas e Van Damme consegue dar o seu show de exibicionismo composto de socos, pontapés, voadoras e chutes rodados… Não é a toa que foi instantaneamente alçado ao status de astro.

bscap0061

O GRANDE DRAGÃO BRANCO até pode ter seus problemas, nem acho que seja o melhor veículo de JCVD, mas é uma obra de extrema importância para os amantes de filmes de luta e que possui todos os elementos que tornam um filme num clássico atemporal. O roteiro de Sheldon Lettich (que depois viria a dirigir JCVD em LEÃO BRANCO, DUPLO IMPACTO, THE ORDER  e THE HARD CORPS) trouxe à tona toda a estrutura para o estilo de filmes de torneio e praticamente inaugurou o subgênero Kickboxing no Ocidente, que fez a alegria da moçada nos anos noventa, gerando um milhão de copiadores incluindo três sequências estrelando Daniel Bernhardt, dos quais nunca assisti. Mas acima de tudo, O GRANDE DRAGÃO BRANCO é um filme que diverte em todos os sentidos possíveis. e diverte pra CARALHO! Ainda vou rever muitas vezes durante a vida e tenho a total certeza de que a cada revisão vou estampar um grande sorriso do início ao fim.

THE PHANTOM OF SOHO (1964)

2313634qck_6ibokb3vnlvlcpxry8rfg7jffdcrnz5vvif2txwsp2irij8rqabsmwx0blw91lzdx5nreq8dksqp4_vtq

Ontem me deparei com este petardo. THE PHANTOM OF SOHO faz parte do ciclo de filmes policial e mistério adaptados das obras do prolífico escritor britânico Edgar Wallace. E quem gostava bastante de realizar essas adaptações eram os alemães, no chamado Krimi, um subgênero muito popular, principalmente na década 60, no país do chucrute. Uma curiosidade que demonstra como esses alemães eram tão picaretas quanto os italianos ou os turcos na divulgação de seus filmes, é que na real THE PHANTOM não foi baseado em Wallace, mas sim no filho dele, o também escritor Bryan Edgar Wallace, o que permitia o uso do famoso nome “Edgar Wallace” sem se envolver em qualquer problema de direitos autorais…

Eu, particularmente, não sou nenhum especialista no estilo Krimi e esta foi a minha primeira aventura no subgênero. Só pra ter uma noção da minha ignorância, segundo consta nos altos o grandes Krimi alemães baseados em Edgar Wallace foram feitos pelos estúdios Rialto. Como não fazia ideia disso, acabei vendo uma produção do estúdio concorrente, a CCC… Sem contar o fato de não ser nem baseado no verdadeiro Wallace!!! Ou seja, tudo caminhava para um começo com o pé esquerdo.

das-phantom-von-soho-1964-afterhours-sleaze-and-dignity-3

Mas seja lá por quais motivos, quis o destino que eu tivesse sorte e THE PHANTOM OF SOHO foi uma agradavel e divertida surpresa. O filme se passa numa esfumaçada Londres de estúdio e, como quase todas as histórias de mistérios, cheia de tramas enroladas e um amontoado de personagens, pode ser resumida em uma idéia muito simples: alguém está matando pessoas dentro e nos arredores de um cabaré no distrito de Soho em Londres, e a Scotland Yard precisa pegar o assassino.

Descobre-se, em determinado momento, que todos os assassinatos estão relacionados com o estranho naufrágio de um iate alguns anos antes. O caso atrai até mesmo a atenção de uma famosa escritora de livros policiais, Clarinda (Barbara Rütting), que passa a meter o bedelho ansiosa para mostrar que pode resolver o crime antes da polícia. Mas o protagonista é o competente inspetor Patton (Dieter Borsche), que junto com sargento Hallan, o alívio cômico do filme, tenta desvendar os crimes, visitando locais arriscados e interrogando todas figuras bizarras que entram em seus caminhos, antes que o assassino, chamado de Phantom, faça mais uma vítima.

edgar_wallace_das_phantom_von_

O enredo de THE PHANTOM pode não ser dos mais originais, mas até que é envolvente pelos ambientes atmosféricos e personagens que aparecem na trama. Me lembra um bocado os gialli italianos em alguns momentos, especialmente nas sequências de assassinato, onde vemos através do ponto de vista do assassino e só aparecem suas mãos com luvas empunhando uma faca. Na verdade, o que realmente chama a atenção é esse tipo de sacada visual que existe aqui aos montes e todo o trabalho estético do filme.

Franz Josef Gottlieb é o nome do diretor. Nos anos 70 descambou para produções, digamos, mais calientes… Nada contra, mas aqui demonstra total habilidade na direção, com bom trabalho de câmera, enquadramentos bem compostos, angulos tortos, bom uso do preto e branco. Aliás, a própria fotografia, resquício da estética do expressionismo alemão, é um deleite… Quero ver outras coisas do Gottlieb. Obviamente quero conferir certos filmes que fez na década seguinte… Mas curti bastante essa minha iniciação ao universo do Krimi alemão com THE PHANTOM OF SOHO, um desses subgêneros que deve valer a pena uma peregrinação de vez em quando. E que na próxima sejam ao menos baseados no verdadeiro Edgar Wallace.

1bib5uby