60 FILMES NOTÁVEIS DO COMODORO

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Brigitte Bardot provoca Michel Piccoli em O DESPREZO, de Godard

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O homem dos milagres de A PALAVRA, de Dreyer

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Alain Delon é o professor atormentado em A PRIMEIRA NOITE DA TRANQUILIDADE, de Zurlini

Era final de 2005, tempos em que os blogs ainda eram valorizados e o Reduto do Comodoro, do grande e saudoso Carlão Reichenbach, fervilhava de cinefilia pulsante. Naqueles meses, novembro e dezembro, o sujeito se debruçava na elaboração de uma lista muito pessoal de filmes que serviria a um projeto de livro que, infelizmente, nunca viu a luz do dia. De todo modo, ao longo de vários posts, o Carlão foi montando essa lista que chamava de Filmes Notáveis.

Esse período foi muito marcante pra mim, estava nos meus vinte e poucos anos, havia abandonado o cinema de gênero e só me preocupava em ver “filmes de arte”… Eu sei, uma merda, foi uma fase estranha. E foi exatamente no processo de formação dessa lista que o Carlão reabriu meus olhos para o cinema de gênero e pelo gosto por filmes malditos, subversivos, que “inventam” um mundo às avessas.

Hoje acordei pensando no Carlão, nos papos que mantínhamos pelo facebook ou por email, e resolvi republicar essa lista, com os comentários que fazia durante o processo, para tentar manter a sua memória sempre viva (e me animar a voltar a lista, já que nunca terminei de ver todos os filmes… haha!). Na época, Carlão escreveu assim:

Com a colaboração da minha memória (claro), do IMDB, do ALL MOVIE GUIDE (o extinto site “Sweet & Perverse”, que durante certo tempo foi o IMDB do cinema italiano, fez muita falta), do livro de Jean Tullard/Goida, do dicionário de cineastas do Rubens Ewald Filho, de amigos e leitores do REDUTO DO COMODORO, consegui “fechar” a relação dos 60 filmes sobre os quais me “debruçarei” nos próximos meses.

ATENÇÃO – A ordem abaixo é apenas numérica. Não representa nenhuma ordem de qualificação. Se fosse para destacar 3 dos filmes que mais gosto, eu escolheria: 1. O DESPREZO / 2. A PALAVRA / 3. DOIS DESTINOS (não listado).

01. A PRIMEIRA NOITE DA TRANQÜILIDADE “La Prima notte di quiete (1972) – de Valério Zurlini

02. A TERCEIRA VOZ “The 3rd Voice (1960) – de Hubert Cornfield

03. OS AMORES DE PANDORA “Pandora and the Flying Dutchman (1951) – de Albert Lewin
Lewin, um dos diretores mais sofisticados e cultos da história do cinema – todas as imagens de seus filmes eram inspiradas em pintores magistrais – possui outras três obras-primas em sua curta filmografia: o aterrador “O Retrato de Dorian Gray” (1945), o cínico e refinado “O Homem sem Coração” (1947) e o estranhíssimo e kitsch “Saadia” (1953), estrelado por Rita Gam, esposa de Sidney Lumet.

04. CONFISSÕES DE UM COMISSÁRIO DE POLÍCIA AO PROCURADOR GERAL DA REPÚBLICA “Confessione di un commissario di polizia al procuratore della repubblica” (1971) – de Damiano Damiani

05. DOMÍNIO DOS BÁRBAROS “The Fugitive (1947) – de John Ford
Observação – Esse é considerado o “filme ortodoxo” – no que o termo tem de católico e de esquerda – de John Ford. Para mim, de longe, o seu melhor filme. O título em francês, “Deus está Morto” é o mais fiel ao filme.

06. SANGUE SÔBRE A NEVE “The Savage Innocents (1959) – de Nicholas Ray

07. O DESPREZO “Le Mépris (1963) – de Jean-Luc Godard

08. PORTAL DA CARNE “Nikutai no mon” (1964) – de Seijun Suzuki

09. O PEQUENO RINCÃO DE DEUS “God’s Little Acre” (1957) – de Anthony Mann

10. STROMBOLI “Stromboli, Terra di Dio” (1949) – de Roberto Rosselini

11. O ESTRANHO SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS “Non Si Sivizia un Paperino” (1972) – de Lucio Fulci
Observação – Esse filme, que foi proibido na Itália, nunca foi oficialmente lançado nos cinemas do Brasil. Mas, conforme Sergio Andrade, editor do site KINOCRAZY [http://kinocrazy.blogspot.com], o crítico Rubem Biáfora chegou a acusar o seu lançamento, em São Paulo, em um único cinema, com o título de “O Estranho Segredo do Bosque dos Sonhos”.

12. ASSIM ESTAVA ESCRITO “The Bad and the Beautiful” (1952) – de Vincente Minnelli

13. CÃO BRANCO “White Dog” (1982) – de Samuel Fuller

14. DUBLÊ DE CORPO “Body Double” (1984) – de Brian DePalma

15. MOTORISTA DE TAXI “Taxi Driver” (1976) – Martin Scorsese

16. VIVER E MORRER EM LOS ANGELES “To Live and Die in L.A.” (1985) – de William Friedkin

17. VIDEODROME, A SÍNDROME DO VÍDEO “Videodrome” aka “Zonekiller” (1983) – de David Cronenberg

18. O PODEROSO CHEFÃO II “The Godfather: Part II” (1974) – de Francis Ford Coppola

19. O ESPÍRITO DA COLMÉIA “El Espíritu de la colmena” (1973) – de Victor Erice

20. QUANDO DESCERAM AS TREVAS “Ministry of Fear” (1944) – de Fritz Lang

21. O GRANDE ÊXTASE DO ESCULTOR STEINER “Die Große Ekstase des Bildschnitzers Steiner” (1974) – de Werner Herzog

22. PELOS CAMINHOS DO INFERNO “Outback” (1971) – de Ted Kotcheff

23. PRIVILÉGIO “Privilege” (1967) – de Peter Watkins

24. SE… “If…” (1968) – de Lindsey Anderson

25. AS PORTAS DA JUSTIÇA “Porte aperte” (1990) – de Gianni Amelio

26. OS 5.000 DEDOS DO DR. T “The 5,000 Fingers of Dr. T.” (1953) – de Roy Rowland

27. O UIVO ” L’Urlo” (1968) – de Tinto Brass
Observação – “L´Urlo” nunca foi lançado comercialmente no Brasil. Um dos últimos filmes da fase “udigrudi” de Brass. Trata-se de um “Os Idiotas” muito anos à frente. Estranho e belíssimo, sobre uma garota burguesa que abandona o noivo no dia do casamento e foge com um homem qualquer para uma aventura onírica e transgressiva, sem obrigações, sem deveres sociais, sem respeito humano e sem temores. O encontro do “casal” com determinados personagens faz os dois se confrontarem com as convenções, a morte e a sociedade condicionada ao sexo, a guerra, a violência, as várias ideologias e ao mundo da cultura. Mundo este que, conforme o “casal”, “não tolera o amor”.

28. LÁBIOS VERMELHOS “Labbra Rosse” (1960) – Giuseppe Bennati

29. OS REIS DO IÊ, IÊ, IÊ “A Hard Day’s Night” (1964) – de Richard Lester

30. SEGREDO DE UMA ESPOSA “Akai Satsui” (1964) – de Shohei Imamura

31. PANDEMÔNIO “Olsen & Johnson, Hellzapoppin´s” (1941) – de H.C. Potter
Observação – A mais porralouca das comédias do cinema mundial. O non-sense transformado em arte. A genial dupla burlesca Olsen & Johnson manda o diretor Potter literalmente para o inferno: “o cinema somos nós”.

32. ÁGUIA SOLITÁRIA “The Spirit of St. Louis” (1957) – de Billy Wilder
Observação – Se não fosse por este filme, “O AVIADOR”, de Scorsese, teria sido o maior de todos os filmes sobre aviação. Mas essa poética e emocionante crônica da aventura pioneira de Charles Lindburgh justifica o cinema como “um mergulho profundo na espiral da imaginação”. Uma surpresa e tanto na magnífica carreira de Wilder.

33. PAIXONITE AGUDA “The Flying Deuces” (1939) – de A. Edward Sutherland

34. QUANDO OS BRUTOS DE DEFRONTAM “Faccia a faccia (1967) de Sergio Sollima

35. OS PÁSSAROS “The Birds” (1963) – de Alfred Hitchcock

36. INTENDENTE SANSHO “Sanshô dayû” (1954) – de Kenji Mizoguchi

37. VOLÚPIA DA VINGANÇA “Yajû shisubeshi: fukushû no mekanikku” (1974) – de Eizo Sugawa

38. A PALAVRA “Ordet” (1955) – de Carl Theodor Dreyer

39. MINHA ESPERANÇA É VOCÊ “A Child Is Waiting” (1963) – de John Cassavetes

40. TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA “Bring Me the Head of Alfredo Garcia” (1974) – de Sam Peckinpah

41. WILHELM REICH, OS MISTÉRIOS DO ORGANISMO “W.R. – Misterije organizma” (1971) – de Dusan Makavejev
Observação – Um autêntico “fazedor de cabeças”. Uma aula de provocação, inteligência e liberdade. Makavejev é a exceção entre os grandes.

42. R.A.S. “R.A.S.” (1973) – de Yves Boisset
Observação – Outros levaram a fama, mas este é o melhor filme sobre a guerra da Algéria. Lembra bastante NÃO, OU A VÃ GLÓRIA DE COMANDAR, de Manoel de Oliveira; mas atenção, R.A.S. é emocionante e provocador, daqueles que dá vontade de sair na rua e vomitar na primeira farda que aparecer na frente. Longe de maniqueísmos óbvios faz o elogio descarado da deserção. Yves Boisset (O Atentado) é outro que está merecendo uma retrospectiva integral; além de robustos e oportunos filmes políticos realizou ágeis e talentosos exercícios do gênero “Polar” (policiais à francesa).

43. RAÍZES “Raíces” (1953) – de Benito Alazraki
Observação – Premonitória dramaturgia de índole zapatista, filmada no vale de Mezquital, a região “chamula” de Chiapas. Surreal e neo-realista, marco do cinema mexicano, RAÍZES é o “VIDAS SECAS” asteca. Premiado em Cannes, este foi um dos três filmes (que assisti em seu lançamento tardio no Brasil, nos anos 60, no minúsculo Cine Bijou) que me fez optar por estudar cinema no primeiro curso de nível universitário surgido em São Paulo. Daquelas obras que nos fazem enxergar o cinema como uma utópica (ou não) forma de entendimento universal. Como se não bastasse, seu prólogo tem música de Silvestre Revueltas. Com relação ao cinema mexicano devo confessar um vácuo imenso de conhecimento, unicamente por nunca ter visto o fundamental documentário de Nicolás Echevarría, MARIA SABINA, MUJER ESPÍRITU, de 1978, a respeito da maior xamã que já existiu. Se alguém souber de qualquer vídeo ou DVD da versão integral do filme, por favor, entre em contato com o escriba.

44. A BESTA HUMANA “La Bête humaine” (1938) – de Jean Renoir

45. ED WOOD “Ed Wood” (1994) – de Tim Burton

46. ILHA NOS TRÓPICOS “Island in the Sun” (1957) – de Robert Rossen

47. NAS GARRAS DO VÍCIO “Le Beau Serge” (1958) – de Claude Chabrol

48. VENDAVAL NA JAMAICA “A High Wind in Jamaica” (1965) – de Alexander Mackendrick

49. O MÍSTICO “The Amazing Mr. X” aka “The Spiritualist” (1948) – de Bernard Vorhaus
Observação – Assisti “O Místico” pela primeira vez na televisão, aos 14 anos, e durante muito tempo tive pesadelos que remetiam às suas imagens bizarras e atmosfera perturbadora. Um filme insólito (em vários sentidos) e realmente assustador cheio de histórias mórbidas envolvendo a sua realização. A atriz principal foi substituida nos primeiros dias de filmagem após ter cometido suicídio. O diretor Vorhaus foi banido de Hollywood ao ser denunciado como comunista por Edward Dmytryk. O crítico Rubem Biáfora considerava o filme um dos melhores de todos os tempos. Cinéfilos do mundo inteiro o alçaram a condição de “masterpiece”. A fotografia de John Alton é digna de antologia, com seus noturnos de mar revolto, penhascos, abismos e cortinas agitando à luz da lua.
“A very underrated film. A woman is haunted by the spectre of her dead husband and soon becomes involved with a spiritualist. Is he legit? Very Val Lewtonish. Watch for one especially effective “ghost” scene.”

50. CREPÚSCULO “Pokkuveyil” (1981) – de Govindan Aravindan

51. O DRAMA DE UM SOBREVIVENTE “Iwojima” (196?) – de Jukichi Uno
É inacreditável, mas foi praticamente impossível conseguir informações a respeito de uma das obras primas máximas do cinema japonês da década de 60. Parece que o filme desapareceu do mapa, literalmente. Fiz buscas intensas a partir do nome do diretor (o ator JUKICHI ONO, que dirigiu poucos filmes), o roteirista (Toshio Azumi), o ator principal (Shiro Osaka) e o título original (IWOJIMA) e não encontrei uma linha a respeito de O DRAMA DE UM SOBREVIVENTE. Certo, trata-se de um dos filmes mais anti-americanos e materialistas do cinema mundial, mas isso não justifica a sua exclusão sumária do IMDB e outros sites de pesquisa ianques. O estranho disso tudo é que O DRAMA DE UM SOBREVIVENTE é um filme magistral que foi apreciadíssimo quando estreado no Brasil, no extinto cine Niterói. O que incomoda neste filme é a discussâo pertinente e sem pré-conceitos da justificativa do suicídio e do assassinato como meios de defesa. O DRAMA DE UM SOBREVIVENTE, que narra o calvário pós-guerra de dois combatentes japoneses de Iwojima, “coloca por terra todos os argumentos fatalistas que prendem o homem ao seu destino e equaciona a liberdade e a felicidade individualista frente às conjunções históricas e coletivas”, conforme o crítico José Eduardo Marques de Oliveira, no livro “O Filme Japonês”. Além do mais, possui uma fotografia cinza-chumbo absolutamente inovadora e impactante, que transmite com absoluta intensidade, na tela anamórfica, toda a estupidez de qualquer guerra. Hesitei muito antes de incluir este filme na relação dos 60, por conta da dificuldade em encontrar material sobre ele. Mas, no final, pesou o fato dele ter me impressionado de tal forma que cheguei a considerar o histórico e vigoroso tríptico de Massaki Kobayashi, GUERRA E HUMANIDADE, sobre o qual escrevi a minha primeira crítica (publicada em um jornal interno do Colégio Rio Branco), aos 16 anos, menos pungente e transformador. Se alguém tiver mais informações sobre O DRAMA DE UM SOBREVIVENTE (sobretudo, fotos de cena ou cartaz), por favor, entre em contato com o REDUTO

52. O GRITO “Il Grido” (1957) – de Michelangelo Antonioni

53. QUANDO O AMOR É CRUEL “Incompreso” (1966) – de Luigi Comencini
Observação – Considerado mundialmente como “o filme mais triste do cinema”, INCOMPRESO é o melodrama transformado em obra de arte. Ao narrar a incapacidade de um diplomata recém-viúvo – que dedica todo seu amor e atenção ao filho caçula – em dividir sua dor e afeto com o filho mais velho, Comencini explora implacavelmente todas as possibilidades emocionais do cinema. Um irresistível e sublime exercício de manipulação sentimental. Daqueles raros espetáculos em que ninguém sai da sala ao acenderem as luzes; com vergonha das lágrimas, uma inexplicável felicidade na alma e a sensação do “dia ganho” com a visão de uma obra-prima.

54. MASSACRE DE CHICAGO “The St. Valentine’s Day Massacre” (1967) – de Roger Corman
Observação – Rodado inteiramente em estúdio, em magníficos planos-seqüencia de no mínimo seis minutos cada, este é o filme predileto do próprio Roger Corman e de seus cultores mais fanáticos. Eu e o cineasta João Callegaro o assistimos literalmente de joelhos, na época em que ainda cursávamos a Escola Superior de Cinema São Luiz. Na saída do cinema, a mesma opinião: “Este é o filme que eu gostaria de ter feito!”. Corman não é apenas um produtor ou diretor; é o próprio cinema.

55. HATARI “Hatari!” (1962) – de Howard Hawks
Observação – A aventura maior do cinema.

56. EXÉRCITO DAS SOMBRAS “L´Armée des ombres” (1969) – de Jean-Pierre Melville
Observação – Profundo, soturno e deflagrador memorial autobiográfico do mestre artesão Melville como membro ativo da Resistência Francesa. Como bem observou um crítico australiano: “A magnificent film from the truly underrated master and one of cinemas true perfectionists.”

57. O JOVEM TÖRLESS “Der Junge Törless” (1966) – de Volker Schlöndorff
Observação – Adaptação impecável do clássico livro de Robert Musil. Um dos filmes que mais mexeram (de forma dolorosa) com a minha memória, como ex-ginasiano calouro de colégio interno luterano e de nítida “disciplina” germânica. Poucos livros e filmes mostraram de forma tão explícita a doença do imobilismo; a mediocridade dos que testemunham a barbárie, participam passivamente mesmo sem concordar com ela e, no final, vão embora sem o menor resquício de culpa. O jovem Töerless é o espelho da juventude afásica que permitiu alastrar o câncer do nazismo. Magistral como cinema; oportuno e obrigatório como advertência.

58. PERDIDOS NO KALAHARI “Sands of the Kalahari” (1965) – de Cy Endfield
OBSERVAÇÃO – Outro clássico esquecido de realizador talentoso, assumidamente esquerdista, vitimado pelo Macartismo. Exilado na Inglaterra, Endfield associou-se ao ator Stanley Baker, e retornou para sua terra natal, a África do Sul, para produzir marcantes filmes de aventura, de teor nítidamente político, sempre enfocando a arrogância e estupidez do homem branco colonizador. “Perdidos no Kalahari” impregna a memória por conter um dos desfechos mais aterradores do cinema, onde o protagonista (interpretado por Stuart Witman) é trucidado por macacos babuínos.

59. O REI DOS MÁGICOS “The Geisha Boy” (1958) – de Frank Tashlin
OBSERVAÇÃO – O filme-escola de Jerry Lewis como diretor. Tashlin, como afirmava o crítico Caio Scheiby, introduziu o humor-zen no cinema mundial. Duas gagues surrealistas e antológicas confirmam a proposição: o coelho “torrando” ao sol e o refluxo das águas provocado pelo obeso irmão da “mocinha” quando este invade a casa de banhos. “O Rei dos Mágicos” é uma autêntica revolução erudita e anárquica na chamada “comédia para a família”.

60. ORIGEM DO SEXO “Sei no kigen, aka Libido” (1967) – Kaneto Shindo
OBSERVAÇÃO – Kaneto Shindo possui umas das obras mais ecléticas e insolentes do cinema oriental. “Crianças de Hiroshima”. “A Ilha Nua”, “Onibaba” e “Gato Preto” são títulos que honram o cinema moderno. Mas foi o arrojo de “Origem do Sexo”, com suas impactantes e atrevidas metáforas a respeito da combustão sexual que alimenta e “oxigena” relações familiares, que marcou a minha memória como espectador e futuro realizador. As seqüências que mostram o casal de velhos septuagenários despindo-se de toda a roupa para cumprir um pacto de duplo suicídio no mar e a dos jovens apaixonados que “perdem a virgindade” no interior de um templo budista são transgressivas lições de poesia no cinema. “Origem do Sexo” ensina que não há transformação e/ou renovação sem quebra de tabús.

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