HALLOWEEN (1978)

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Este ano não fiz o meu habitual Especial de Halloween, com filmes de terror… Não tive nenhum motivo, apenas não me apeteceu. Mas como hoje ainda dá tempo de trazer algo aqui no blog sobre o tema, que tal falar um pouquinho de um dos maiores clássicos do gênero em todos os tempos e que carrega a data comemorativa estampada no título?Não sou muito chegado em escrever sobre as obras-primas já celebradas que existem por aí, prefiro comentar umas coisas obscuras e de qualidade duvidosa. Acho mais divertido. E considero HALLOWEEN, do John Carpenter, um filminho simplesmente GENIAL. Mas já que estamos exatamente nesta data especial, vou arriscar alguns comentários.

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Só pra provar o efeito que este filme teve no período do lançamento, basta observar o seu sucesso comercial. Com um orçamento de cerca de 300 mil dólares, arrecadou uns 60 milhões, tornando-se a produção independente mais lucrativa do cinema americano na época. Outra maneira de entender o fenômeno HALLOWEEN é de fato sentar a bunda no sofá e ver e rever e comprovar que se trata de uma das experiências mais fascinantes dentro do gênero do horror americano.

A trama, se formos parar pra analisar, é um fiapinho de nada sobre um assassino maluco e mascarado à solta numa pequena cidade na noite de Halloween, aterrorizando adolescentes. O que acontece é que essa historinha foi transformada, nas mãos de Carpenter, numa verdadeira aula de cinema, com uma assustadora coreografia de câmeras, iluminação, trilha sonora, em uma sucessão de planos/imagens que absorve o espectador num universo de horror de maneira única.

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HALLOWEEN cria um dos principais ícones do slasher americano, o serial killer Michael Myers, que é apresentado neste primeiro filme como um garoto que, no Dia das Bruxas, resolve pegar uma faca e descobrir como era sua irmã mais velha… por dentro. Tudo filmado num plano sequência de grande força visual, com uma câmera subjetiva onde nós adquirimos o olhar do precoce assassino. Após dez anos de confinamento num manicômio, Michael foge e retorna para Haddonfield para aterrorizar e fazer novas vítimas. Uma delas é Laurie, Jamie Lee Curtis, que consegue sobreviver e na sequência lançada em 1981 descobrimos que ela é a irmã de Myers.

O meu personagem favorito da série é o Dr. Loomis, encarnado pelo grande Donald Pleasence. O sujeito caça Michael Myers como Van Helsing caça vampiros, porque após anos e anos de estudos como psiquiatra de Michael, Loomis parece ser o único com a noção de perigo que é ter o Myers à solta zanzando por aí. A forma como demonstra isso é andar sempre com um 38 carregado. Não só neste, mas em quase todos os filmes da série em que o personagem aparece, Pleasence possui um desses desempenhos expressivos digno de nota.

9201859_orig1284125_origMas o grande destaque de HALLOWEEN e que o eleva ao status de clássico é mesmo a direção de Carpenter, com todo o trabalho de câmera e apuro visual, que eu não canso de elogiar, bastante influenciado por Dario Argento. Howard Hawks sempre foi uma inspiração óbvia do Carpinteiro, mas tanto pelo uso da câmera subjetiva, a maneira como se move, quanto pela estilização visual das cores e iluminação, fica claro, especialmente aqui, que Carpenter deu umas assistidas em PROFONDO ROSSO e SUSPIRIA antes de filmar HALLOWEEN. E o resultado visto na tela, somado à estranha e minimalista trilha sonora do próprio Carpenter, cria um clima de puro horror e tensão, praticamente estabelecendo um padrão para este tipo de produto. Quase todos os elementos que conhecemos dos slasher movies nasceram aqui e por isso nunca me canso dessa belezinha…

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MESTRES DO UNIVERSO (Masters of the Universe, 1987)

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Comprei recentemente o dvd nacional de MESTRES DO UNIVERSO, de Gary Goddard e com o Dolph Lundgren, a famigerada adaptação da Cannon do desenho animado dos anos 80, HE-MAN, que nos importunava na infância. Uma das lembranças que eu tenho quando assisti a esta versão para o cinema pela primeira vez – e isso foi ainda nos anos 80, em VHS – foi de que essa merda não tinha nada, absolutamente NADA a ver com o desenho que via todas as manhãs na globo. O que não significa muita coisa, já que abracei a causa do mesmo jeito e curti essa bizarrice brega pra cacete como se não houvesse amanhã… Ao longo dos anos fui revendo, sempre com variadas mudanças de opinião. Na maioria das vezes achava a coisa mais ridícula do mundo! Mas hoje retorno ao meu gosto de infância e me divirto à valer com essa bagaceira.

Convenhamos também que o desenho, embora fosse legal assistir com 6 anos, era muito bobo e haviam outros exemplos de aventura com muito mais profundidade, substancia e bem mais divertidos que HE-MAN, como os THUNDERCATS e o sensacional SILVERHAWKS. Quero dizer, não estamos falando de uma adaptação de um Dostoiévski ou Kafka, mas de um cartoon criado com o único objetivo de vender bonecos, ou seja, ninguém deveria estar preocupado com a maldita fidelidade na adaptação, se mudaram a história ou os personagens principais, que se dane! Contanto que seja divertido, estamos aí… E eu diria que MESTRES DO UNIVERSO consegue isso.

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Mas enfim, a trama é a mais simples possível. O Esqueleto (sempre excelente Frank Langella) finalmente conquistou o Castelo de Greyskull e seu exército toca o terror no reino de Eternia. Os rebeldes resistem liderados pelo homem de cueca, He-Man, que não dá moleza com sua espada, fonte de grande poder e que Esqueleto almeja colocar as mãos… Er… Esqueleto quer botar as mãos na espada do He-Man… Acho que isso soa meio estranho, mas basta não pensar muito, vamos levar a coisa de modo literal.

Há também um anão, chamado Gwildor, que inventa um chave cósmica que abre portais para qualquer lugar nos confins do universo. Em determinado momento, os heróis ficam encurralados e numa tentativa de escapar acabam abrindo um portal para algum lugar qualquer… Uma cidadezinha nos Estaos Unidos… Para variar. Definir que a história vai se passar quase totalmente na terra é, naturalmente, uma simples questão de orçamento. Quanto menos cenários interplanetários construídos, menos gastos em efeitos especiais e decoração. Portanto, a aventura é transportada para a Terra em 1987, com todos os aparatos visuais e sonoros que só aquele período foi capaz de nos proporcionar.

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De alguma forma, a tal chave cósmica vai parar nas mãos de um aspirante a rockstar estúpido e sua namoradinha, interpretada por uma jovem Courtney Cox. Esqueleto, que também possui uma dessas chaves, envia seus mercenários para terra para pegar a outra chave cósmica e levá-la de volta… Mas He-Man está lá com Mentor (Jon Cypher) e Teela (Chelsea Field) para atrapalhar a vida de esqueleto. E para compor ainda mais o brilhante elenco, temos Meg Foster como Maligna.

Para ser honesto, toda essa historinha de chaves cósmicas e viagens intergaláticas em portais é o que menos interessa em MESTRES DO UNIVERSO. Posso garantir pelo menos que não é uma trama chata, sempre se mantém em movimento com boa energia pra durar noventa minutos. E toda vez que se ameaça deixar a peteca cair, uma nova sequência de ação ou uma bobagem com efeitos especiais surge em cena pra nos entreter cada vez mais. E o que realmente importa em MESTRES DO UNIVERSO são os pequenos detalhes excêntricos que me fazem sorrir durante a sessão, não importa se fazem sentido ou não… Adoro, por exemplo, a cena em que os mercenários contratados para irem à Terra são apresentados:

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É o efeito sensorial e nostálgico, é ver um He-Man de carne e osso matando à vontade seus inimigos com pistolas de raio laser ou com sua espada, é a galeria de personagens em maquiagens esquisitas… E isso tudo é espetacular! Todas as cenas de ação são recheadas de lasers, faíscas e fumaça, lutas grosseiras, tudo filmado numa simplicidade, exagero e imediatismo que às vezes sinto falta no cinema de ação atual, onde só querem saber de realismo, realismo e câmeras chacoalhando…

Só a cena em que He-Man usa uma espécie de skate voador fugindo e perseguindo asseclas do Esqueleto é mais emocionante que 80% dos filmes de ação atual. A sequência final também é um deleite, com algumas sacadas de iluminação de encher os olhos, especialmente no duelo final entre He-Man e Esqueleto, com o cenário em penumbra dando destaque aos dois inimigos mortais. Sem contar que MESTRES DO UNIVERSO faz cópia descarada de vários elementos de STAR WARS, desde tiroteios com armas lasers ao uniforme dos soldados de Esqueleto, cujos capacetes são praticamente cópias do visual de Darth Vader.

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Apesar do que eu disse lá em cima sobre orçamento, o de MESTRES DO UNIVERSO não era dos piores para um filme da Cannon… Uma tentativa frustrada e arriscada da dupla Golan e Globus em salvar a produtora que no final da década de 80 já andava mal das pernas. Obviamente os fracassos de bilheteria deste e alguns outros, como SUPERMAN 4,  acabaram por levar a produtora à falência em poucos anos. No entanto, percebe-se que o dinheiro foi bem gasto por aqui em cenários, efeitos especiais, maquiagem e vestuário. Claro, tudo irremediavelmente oitentista,  uma época em que bom gosto não era nada e néon era tudo.

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Ainda bem que as modas passam e sobra o saudosismo. O filme hoje é salvo por esse encantamento nostálgico, pela energia honesta em se fazer uma aventura bem movimentada e divertida, sem muita frescura, e por ter Dolph Lundgren em seu primeiro papel de herói no cinema, a melhor personificação de He-Man que eles poderiam ter encontrado na época. E até que o sueco se sai bem, com pouquíssimas falas e boa presença, especialmente nas cenas de ação.

Outro destaque óbvio é Frank Langella como esqueleto. O próprio ator considera o personagem como um de seus favoritos, e é perceptível, por mais sinistro que esteja, o sujeito se divertindo na atuação, olhando diretamente para câmera usando uma maquiagem horrível! Langella não tá nem aí em soar ridículo e seu Esqueleto transcende ao sublime. Mas um dos personagens que mais gosto é o detetive Lubic, vivido por James Tolken, o diretor careca da escola de DE VOLTA PARA O FUTURO. O cara tá engraçadíssimo como tira durão que cai de para-quedas nessa aventura intergalática. E o melhor de tudo é vê-lo entrando na ação, com uma escopeta, atirando nos mini Darth Vaders. Simplesmente sensacional.

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MESTRES DO UNIVERSO não é nenhuma obra-prima, deixando isso bem claro, nem mesmo um clássico esquecido, até porque entendo perfeitamente quem acha o filme uma merda e decidiu colocá-lo no limbo. Mas acho divertidíssimo e faria uma bela sessão dupla com FLASH GORDON dos anos 80, outra adaptação bem legal, mas renegada e que merecia, pelo menos, uma reavaliada dos detratores. Havia uma época que rolava notícias de um projeto para um novo filme do He-Man, que seria até dirigido pelo John Woo, mas já faz um bom tempo que não se fala mais nisso… Talvez até seja melhor que continue assim.

MARCADO PARA A MORTE (Marked for Death, 1990)

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Mais conhecido pelos admiradores do Steven Seagal como “o filme em que ele enfrenta traficantes jamaicanos macumbeiros”, MARCADO PARA A MORTE é o terceiro dos quatro filmes do ator que correspondem à fase de ouro de sua filmografia, ou seja, produções com um nível de qualidade interessante, que independente de ser o Seagal o protagonista, renderiam ótimos exemplares de ação casca-grossa: NICO – ACIMA DA LEI, DIFÍCIL DE MATAR, este aqui e OUT FOR JUSTICE.

MARCADO PARA MORTE não podia começar de forma melhor. Seagal persegue a pé ninguém menos que Danny Trejo, numa pequena participação, quando nem sonhava que estrelaria um filme chamado MACHETE. Seagal é o policial John Hatcher e que está trabalhando disfarçado em uma missão perigosa para desmascarar uns traficantes mexicanos. A operação dá toda errada e o nosso herói tem que se virar para sair do local, um puteiro mexicano, com a carcaça intacta, atirando, cortando pescoços com um facão e abrindo caminho a golpes de Aikido.

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Uma pena que seu parceiro não tenha a mesma sorte. Em certo momento o sujeito dá bobeira em frente a uma prostituta nua que o crava de balas. Seagal não pensa duas vezes, mesmo sem ver seu alvo atrás da porta, e atira também, mandando a pobre moça pro outro mundo. A morte de seu parceiro e matar à sangue frio uma mulher deixa Hatcher meio transtornado. E para resumir a descrição da trama, digamos apenas que o personagem se aposenta da polícia e tenta arranjar um lugar de paz para viver junto de sua irmã e sobrinha em uma cidade mais tranquila. Isso tudo com dez minutos de filme.

Como sabemos que não vamos ter nenhum filminho familiar estrelado por Steven Seagal, o sujeito acaba encontrando de tudo no local, menos a paz e tranquilidade que tanto almeja. A encrenca surge quando Hatcher começa a reparar na ação de uns traficantes jamaicanos e, depois de algumas situações, resolve agir por conta própria para limpar a cidade, contando com a ajuda de um velho amigo que ele reencontra depois de muitos anos, interpretado pelo sempre ótimo Keith David (aquele mesmo que luta durante 50 minutos contra o Roddy Piper em ELES VIVEM, de Jonh Carpenter).

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A direção desses primeiros filmes do Seagal é sempre de gente, no mínimo, competente. Dwight H. Little, que realizou HALLOWEEN 4, o último bom filme da série, e o excelente veículo de ação de Brandon Lee, RAJADA DE FOGO, é o homem que comanda MARCADO PARA A MORTE. Talvez ele tenha sido responsável por alguns detalhes que tornam o filme ainda mais interessante. Porque de Steven Seagal temos o mais do mesmo. Claro que eu adoro vê-lo fazendo esse personagem badass que não dá mole para a bandidagem e basicamente repete o mesmo papel de sempre, com algumas mínimas variações. Mas o que diferencia este aqui dos seus demais trabalhos é maneira como o diretor utiliza da violência. É provável que seja o filme mais sanguinolento e visceral de Steven Seagal. Vê-lo quebrando braços de meliante é algo bacana, agora, assistir em detalhes o osso partindo, é melhor tirar as crianças da sala…

E Seagal está extremamente sádico neste aqui. Os bandidos, a certa altura, mexem com a família de Hatcher, que não pensa duas vezes antes de partir com tudo pra cima deles. Execuções à sangue frio, braços decepados, cabeças cortadas, olhos perfurados com os dedos, espinhas partidas ao meio com joelho, são alguns exemplos do que o homem é capaz em toda sua fúria. Os vilões jamaicanos também são um destaque a parte, acrescentando um tom mais sinistro ao filme com algumas sequências de vodu, sacrifícios humanos e elementos de magia negra. Basil Wallace, que encarna o líder jamaicano, é de dar medo. O sujeito é muito expressivo e sua aparição no final, após uma reviravolta das boas, é uma grande sacada do roteiro e garante ainda mais algumas cenas de pura diversão!

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Na minha opinião, MARCADO PARA A MORTE fica atrás num ranking dos quatro primeiros filmes da fase de ouro do Seagal. Mas as posições variam de acordo com cada um, é lógico. É inegável, no entanto, o fato de que os quatro filmes possuem quase o mesmo nível de qualidade e qualquer fã de cinema de ação old school tem mais que a obrigação de assisti-los!

O REI DOS KICKBOXERS (The King of the Kickboxers, 1990)

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O diretor de OS IRMÃOS KICKBOXERS, Lucas Lowe, se reuniu novamente com o ator Loren Avedon para realizar um dos clássicos mais sensacionais da era dos kickboxer movies. Mesmo que vários dos ingredientes já tivessem surgidos em outros exemplares anteriormente, toda a configuração do cenário narrativo e dos habituais elementos básicos do gênero reunidos e reciclados aqui é justamente o que faz de O REI DOS KICKBOXERS o CIDADÃO KANE dos filmes de luta no cinema americano!

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Não sei direito por onde começar, mas vamos à trama, que é sobre esse policial vivido pelo Avedon, sempre metido em problemas, do tipo que não age segundo as regras e aproveita para demonstrar suas habilidades em artes marciais pra cima da bandidagem. Por esses motivos, o chefe de polícia quer se ver livre do sujeito por uns tempos e decide enviá-lo numa missão na Tailândia, um caso estranho que envolve snuff movies, no qual lutadores americanos são convencidos a participarem de filmes clandestinos, mas acabam realmente morrendo durante as filmagens. Especialmente quando enfrentam um certo lutador, ninguém menos que Billy Blanks!

O problema é que há dez anos Avedon já havia estado na Tailândia acompanhando seu irmão mais velho num torneiro de kickboxing. Logo após a luta em que sagrou-se campeão, o irmão acabou assassinado por Blanks seja lá por qual motivo. E agora nosso herói tem a chance de se vingar. Mas assim que retorna ao país, descobre que ainda não está pronto para um confronto com o gigante de ébano e passa por um desses inusitados treinamentos, com um inusitado mestre, que só faz sentido mesmo num filme desse tipo.

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A cena do assassinato do irmão logo no início é extremamente brutal, com o Blanks desferindo violentos chutes até o sujeito perder a vida, na base da porrada mesmo! Uma das melhores coisas do filme, obviamente, é Blanks como vilão. Não exagero quando digo que ele está no mesmo nível de um Tong Po ou Chong Li e é claro que isso é fundamental para o sucesso de O REI DOS KICKBOXERS. É o típico vilão que funciona por termos pleno desprezo na mesma medida em que demonstramos respeito por suas magníficas habilidades. E quando finalmente ocorre o confronto final entre Avedon e Blanks, num cenário exótico, um ringue de bambu, fica difícil ter esperanças pelo nosso herói.

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Além dessa dupla, Avedon e Blanks, temos uma pequena participação do Jerry Trimble, com direito à mullets, como traficante de drogas desmascarado pelo protagonista em sua demonstração de policial badass, e que também acaba numa sequência de luta alucinante. Aliás, todas as sequências de pancadaria conseguem manter o mesmo nível dos outros filmes da série NO RETREAT, NO SURRENDER, com coreografias elaboradas (do Corey Yuen, diretor dos dois primeiros filmes da série) e execução perfeita dos atores/lutadores. Para ter uma noção, as filmagens do climax demoraram duas semanas para serem finalizadas. Hoje, basta tremer a câmera, meter a tesoura na edição e pronto, já se dão por satisfeitos.

Como já havia dito em um dos textos anteriores, O REI DOS KICKBOXERS também faz parte da série NO RETREAT, NO SURRENDER. Em alguns países, foi lançado com o título KARATE TIGER 4, que é outra maneira pela qual a série é conhecida.

OS IRMÃOS KICKBOXERS (Blood Brothers, 1990)

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Também conhecido como NO RETREAT, NO SURRENDER 3 em alguns países. Não é tão espetacular quanto o segundo, mas é um veículo divertidíssimo que serve de vitrine para que Loren Avedon e Keith Vitali (os irmãos do título) demonstrem suas habilidades em artes marciais em sequências alucinantes de pancadaria! Até hoje me lembro quando eu era um moleque de oito ou nove anos pegando a fita da Top Tape na locadora com meu irmão mais novo. Passamos o fim de semana inteiro assistindo repetidas vezes este que foi o meu primeiro “kickboxer movie”.

Na trama (que não possui ligação alguma com os outros filmes da série), os dois personagens não vão muito com a cara do outro. Avedon é um professor de kickboxer que dirige um fusca, enquanto Vitali ganha a vida como policial respeitado e bem sucedido, seguindo os passos de seu pai. Ambos lutam pra cacete! Para resumir o enredo, uma tragédia na família acontece e acaba sendo o motivo de reaproximação dos irmãos, que deixam as diferenças de lado e juntam forças para fazer exatamente aquilo que se espera neste tipo de filme, um espetáculo de chutes na cara.

Eu já havia elogiado o talento de Loren Avedon como lutador no último post, mas aqui ele se destaca também em alguns aspectos dramáticos. Não é que seja bom ator, suas limitações são óbvias. No entanto, contracenar com um sujeito como Vitali faz até o Murilo Benício parecer o Marlon Brando. Vitali manda bem nas cenas de porrada, mas não convence nem como entregador de pizza, imagine então fazendo um policial bad-ass lidando com situações pungentes. O humor involuntário é inevitável…

É claro que qualquer problema é compensado com a abundância de cenas de ação muito bem filmadas, com o ritmo acelerado e mão firme do diretor Lucas Lowe, substituindo Corey Yuen, que esteve à frente dos dois primeiro filmes. Lowe não chega no mesmo nível de Yuen, cujo cartel é respeitadíssimo, cheio de obras-primas do cinema de artes marciais, mas Lowe demonstra segurança no que faz. A sequência final, por exemplo, uma brutal pancadaria expressionista, me fez parar para pensar… por que o sujeito só possui apenas quatro filmes no currículo? Vai saber…

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O vilão de OS IRMÃOS KICKBOXERS é o cão chupando manga! Interpratado por um sujeito chamado Rion Hunter, ficou sempre marcado na minha memória pela sua cabeleira branca e, claro, a tal luta final, na qual enfrenta os irmãos sozinho e dá trabalho à beça! A coreografia do confronto final é excelente, apesar da imagem acelerada em alguns instantes e do tal Hunter ser constantemente substituído por um dublê de peruca… Mas não deixa de ser alucinante e digna dos melhores filmes de artes marciais orientais. Quem quiser conferir:

É ou não é uma beleza? OS IRMÃOS KICKBOXERS – e O REI DOS KICKBOXERS, que comentarei a seguir – são alguns bons exemplares que provam de maneira definitiva que os americanos também tinham competência para fazer cinema de artes marciais de alta qualidade. Pena que foram tão poucos a realmente chegar nesse nível.

NO RETREAT, NO SURRENDER 2 aka RAGING THUNDER (1988)

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Este aqui é uma lindeza de filme, mas prefiro o título original no qual fora produzido: RAGING THUNDER. Genérico, clichê e sem qualquer sentido! Mas quem se importa? Depois, no entanto, os produtores tiveram a “brilhante” ideia de encorporá-lo como um exemplar da série NO RETREAT, NO SURRENDER, que já comentei por aqui no post anterior, cuja principal importância para a história do cinema mundial foi ter apresentado ao mundo um certo ator belga que faria a alegria da moçada na época. Só que RAGING THUNDER é totalmente “independente”, já que não possui nada que faça ligação com o filme anterior. Em outras palavras, fiquem à vontade para assistir a este aqui sem se preocupar em conferir o primeiro. Não vai fazer diferença alguma.

Não sei a que fim levou Kurt McKinney (que trocou o cinema de luta por um casamento), o protagonista do primeiro NO RETREAT, NO SURRENDER, mas aqui é substituído por Loren Avedon, que interpreta um kickboxer americano (saudade dos tempos quando os heróis dos filmes de ação ainda possuiam a profissão “kickboxer” e isso quase bastava para desenvolver uma trama) que viaja até a Tailândia e se vê envolvido numa situação perigosa quando sua namoradinha à distância (para os mais novos, naquela época não havia internet e as pessoas se correspondiam através de um papel escrito à mão, chamado carta) é sequestrada por uns russos que, dentre várias atividades, traficar humanos parece ser uma das mais rentáveis. Avedon, então, une forças com a Cynthia Rothrock e um outro americano maluco e enfrenta um verdadeiro exército para salvar a vida da mocinha.

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Saudade, também, do tempo em que o herói deveria apenas salvar a mocinha… É que 80% dos filmes de ação da atualidade é protagonizado por heroizinhos com conflitinhos psicológicos banais, cheio de complexidades e missões exacerbadas, mas não aguentariam 30 segundos com um Loren Avedon, Jeff Speakman ou Billy Blanks no mano a mano (o Liam Neeson não faz parte dos 80%).

Lembrei que NO RETREAT, NO SURRENDER 2 também foi dirigido pelo Corey Yuen, então existe ao menos essa relação com o filme anterior, que apesar de ser legal, este aqui o supera com folgas, é bem melhor em todos os sentidos. Yuen utilizou a mesma equipe do departamento de ação de BLONDE FURY, com a Rothrock, que arrebenta nesse tipo de cena. O diretor desta vez foi às favas com aquela mensagenzinha de “acreditar em si mesmo e blá blá blá” do filme anterior e substituiu com doses brutais de pancadaria e ação.

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Loren Avedon nunca vai ganhar um Oscar pelo conjunto da obra, mas o sujeito é um lutador extremamente talentoso e não fica muito atrás dos especialistas no assunto lá do oriente. Da mesma forma Rothrock, que dispensa apresentação (aliás, eu sou o único que acha ela uma tetéia?). Mas para os apreciadores da moça, já aviso que se estão procurando performances interessantes dela por aqui, vão sair desapontados. Recomendo o já citado BLONDE FURY ou RIGHTING WRONGS (ambos do Yuen) para conferir do que a mulher é capaz! O “chefão dos bandidos” da imagem aí de cima é o alemão fortão Matthias Hues, fazendo sua estréia no cinema, substituindo o papel que seria de Jean Claude Van Damme (que pulou fora para fazer O GRANDE DRAGÃO BRANCO). Responsabilidade! Mas a luta final entre ele e Avedon é épica! Um dos momentos dignos de antologia da era dos kickboxer movies!

Uma curiosidade é que Hues não era bem um especialista em lutas. Nunca havia feito cenas desse porte, contracenando com lutadores e encarando coreografias elaboradas. Como disse, este aqui é seu primeiro trabalho como ator. Era apenas um cara visualmente forte… Então, colocaram o sujeito para treinar intensivamente com o lendário ator e coreógrafo Hwang Jang Lee e, passado algumas semanas, chegou o momento de filmar a tal luta final e… bom, basta conferir no filme o belíssimo resultado.

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Pretendo continuar escrevendo nos próximos posts sobre as “continuações” de NO RETREAT NO SURRENDER. O terceiro filme da série chegou aqui no Brasil com o título de OS IRMÃOS KICKBOXERS, é um autêntico clássico do gênero e possui papel importante na minha formação cinéfila (foi o primeiro kickboxer movie que assisti na vida!). Há ainda o quarto capítulo, que nunca recebeu o título NO RETREAT, NO SURRENDER, mas chegou a ser lançado em alguns países como KARATE TIGER 4 (mais uma maneira na qual a série foi veiculada). Estamos falando de THE KING OF THE KICKBOXERS. E como também possui o Loren Avedon, não dá para não considerar parte da franquia.

RETROCEDER NUNCA, RENDER-SE JAMAIS (No Retreat, No Surrender, 1986)

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O fato de Jean-Claude Van Damme estampar as artes de capas de DVDs lançados no mundo afora do filme RETROCEDER NUNCA, RENDER-SE JAMAIS não passa da mais pura e simples picaretagem. Afinal, o único rosto conhecido atualmente na produção é o dele. Mas Van Damme só aparece mesmo no início e no final do filme, interpretando o russo Ivan Kraschinsky. E é também o vilão da bagaça, com quem o protagonista terá de medir forças à base do chute na cara pra saber quem é o melhor.

O herói é um tal de Kurt McKinney, do qual eu nunca tinha ouvido falar. No filme ele é Jason Stillwell, um rapazinho cujo pai, Tom, possui uma academia em L.A. onde ensina karatê, inclusive a Jason. Os problemas aparecem quando o crime organizado russo decide fazer uma “oferta irrecusável” para comprar a academia, dessas que alguém pode sair muito machucado caso um dos lados não goste da palavra final. E é o que acontece. Um gangster, acompanhado de seus guarda-costas, incluindo o tal Kraschinsky, expulsa o sujeito de sua própria academia, com Van Damme já demonstrando golpes ultra rápidos e aqueles chutes incríveis que fizeram sua carreira.

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Estou querendo reavaliar a obra de JCVD, mas meus favoritos dele, por enquanto, são CYBORG e SOLDADO UNIVERSAL, que no campo da “pancadaria” perdem para, por exemplo, GOLPE FULMINANTE, que é dirigido pelo Tsui Hark, um monstro do cinema de ação oriental. O negócio é que quando se mete com diretores orientais Van Damme obtém alguns resultados bem mais interessantes. Temos aqui nessa cena inicial de RETROCEDER NUNCA, RENDER-SE JAMAIS, que não dura nem um minuto, uma pequena demonstração que comprova que o sujeito não é só pose. Ele se tornou “posudo” porque decidiu firmar carreira em Hollywood trabalhando com diretores e equipe que não dominam cenas de porrada como os orientais, por mais divertido que sejam os seus filmes. Aqui temos o grande Corey Yuen no comando, por isso não me surpreende o resultado na tela.

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Enfim, voltando a RETROCEDER NUNCA, RENDER-SE JAMAIS, Tom (o pai, pra quem já se esqueceu) decide respirar novos ares e se muda para Seattle depois de levar a surra e perder a academia. Muda também sua mentalidade sobre o karatê e a finalidade de se usar violência, ou seja, o cara virou um bundão. E até que ele luta bem, embora seja de longe o pior ator do filme! Já Jason, a primeira coisa que faz quando chega em sua nova casa é transformar a garagem num centro de treinamento, com cartazes de Bruce Lee e toda a parafernália. Fã do grande astro de OPERAÇÃO DRAGÃO, o rapaz vai visitar o túmulo de Lee, que se encontra na cidade, além de procurar uma outra escola de karatê para continuar seus ensinamentos.

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A trama é totalmente voltada à Jason, que transforma o filme numa espécie de rip-off de KARATE KID. A estrutura intercala momentos de treinamento, de flerte com a garota bonitinha, com confrontos contra bullies, que sempre lhe dão porrada, além de problemas com o pai, que a cada briga na rua precisa levar um sermão danado, até que Tom rasga o poster do Bruce Lee servindo de estopim para um “NÃÃÃÃÃÃOOO!!!” daqueles! Em outra cena, Jason ajoelha no túmulo de Bruce Lee e implora por ajuda… Para melhorar ainda mais a história, o espírito de Bruce Lee aparece em sonhos e delírios do personagem para lhe aplicar vários ensinamentos. O problema é que o ator que faz o fantasma não tem nada a ver com o Bruce Lee, mas Jason não cria caso com isso, então ok. Aliás, o ator que dá vida ao falecido é Kim Tai Chung, que era dublê de Bruce Lee.

Como já adiantei que Van Damme aparece novamente no final, presume-se que os gângsters russos também vão à Seattle tentar abocanhar mais academias e escolas de artes marciais. E é numa dessas academias que há um campeão de artes marciais que decide resolver tudo da forma mais besta possível: realizando um torneio de luta. O vencedor ficaria com o estabelecimento. E assim rola a pancadaria final, o que inclui um confronto entre McKinney e Van Damme.

Kurt McKinney é muito carismático. E não é tão mirrado como Ralph Macchio, o Daniel San de KARATE KID. É claro que na vida real, McKinney não teria chance com Van Damme, que era um monstro cheio de músculo, mas nada tão impossível também. O rapaz tem bom físico. Possui também um relacionamento meio estranho com RJ, um vizinho que se torna seu melhor amigo. RJ não luta, mas é um excelente dançarino, mais um motivo pra achar esquisito… ainda mais depois da cena em que R.J toma sorvete sentado… digamos, na região do quadril de Jason, enquanto este faz um exercício. Bom, não estou chamando-os de viadinhos, nem tenho nada contra, mas acho que eles já passaram da idade da inocência pra um enquadramento como este abaixo não soar extremamente homoerótico.

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Sei que KARATE KID deixou uma irrecuperável boa impressão na infância de muitos de nós, mas vocês vão me desculpar, RETROCEDER NUNCA, RENDER-SE JAMAIS é muito mais divertido, tem aquele climão de Guerra Fria, EUA x URSS, estilo ROCKY IV, tão típico do cinema oitentista, além de ser dirigido por um cara que realmente entende de artes marciais, coreografou uma penca de filmes e dirigiu meu ninja movie favorito, NINJA IN THE DRAGON’S DEN! As lutas aqui não chegam ao mesmo patamar de outros trabalhos do Corey Yuen, mas é muito acima da média, especialmente aquelas com Van Damme (não foi a toa que seu sucesso dentro do gênero começou aqui).

O filme tem algumas atuações das mais vergonhosas que eu me lembro de ter visto na vida… Fora alguns furos evidentes de roteiro, os clichês de sempre, até microfones aparecendo no canto da tela, mas tudo isso serve de bônus para quem entrar na onda do filme, uma diversão escapista, que passa rápido, tem um bom ritmo e as cenas de luta fazem valer o programa. Pra mim, já virou clássico do cinema de artes marciais dos anos 80.

RETROCEDER NUNCA, RENDER-SE JAMAIS teve duas continuações que não possuem muita ligação com este aqui. O segundo apenas acrescenta o número “2” na frente. Também é dirigido pelo Yuen e tem no elenco Cynthia Rothrock, Loren Avedon e o brutamontes Matthias Hues! Já o terceiro filme recebeu o título aqui no Brasil de OS IRMÃOS KICKBOXERS, que assisti quando era pequeno, numa VHS da saudosa TOP TAPE, e tem umas lutas alucinantes de outro mundo!!! Recomendo tudo, assistam a essa merda toda.

DIFÍCIL DE MATAR (Hard to Kill, 1990)

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Para os fãs de Steven Seagal, pode-se dizer que o homem entrou no mundo do cinema com pé direito com NICO – ACIMA DA LEI, um puta filme policial de ação ignorado ou subestimado pelo fato de ser estrelado pelo ator de rabinho de cavalo. E olha que ele nem usava ainda o rabinho em sua estreia! DIFÍCIL DE MATAR é o seu segundo trabalho e confirma que o sujeito veio para ficar, detonar com muitos bandidos e fazer a alegria da moçada! Pode até não ser melhor que NICO, mas para quem quer apenas sentar no sofá e assistir ao nosso herói distribuindo bala, quebrando alguns braços e jogando os malandros por vidraças, este aqui é o filme ideal.

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Para quem não se lembra (o que eu acho improvável, já que o filme passava toda semana nas tardes do SBT), a trama é uma variação da velha história do sujeito que quase morre após ser atacado pelos seus adversários, se recupera e volta para se vingar. Em DIFÍCIL DE MATAR Seagal interpreta o policial Mason Storm, que depois de ter a carcaça perfurada a balas, entra em coma, acorda após alguns anos, descobre que sua mulher e seu filho foram mortos, treina para ficar forte de novo e sai para vingar-se dos responsáveis que estragaram sua vida. Lembrando que KILL BILL veio muito tempo depois deste aqui…

Storm, já na cena de abertura, aparece espreitando por entre os becos escuros de uma doca com uma câmera para tentar registrar a reunião de um grupo suspeito. Acaba descobrindo um plano para matar um importante político. Mas sua presença é logo notada e o sujeito resolve sair de cena sem precisar partir para a violência. Como ninguém viu seu rosto, segue tranquilo seu caminho, passa numa loja de licores para comprar um champanhe e estourar com a patroa mais tarde, mesmo tendo em mãos uma verdadeira bomba prestes a explodir. O que ele não sabe é que a organização que ele investigava, que conta com policiais corruptos, já sabe muito bem quem era o abelhudo das docas.

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A cena que se passa na loja de licores é interessante porque serve para explorar um pouco quem é o nosso herói, o que significa que vamos ter uma sequência de pancadaria… Totalmente à parte da trama principal, um grupo de ladrõezinhos de quinta categoria invade o local para assaltar, mas acaba deparando-se com Storm, que utiliza todo seu conhecimento em artes marciais par quebrar a cara dos malandros. Depois disso, leva o champanhe pra casa, porque ninguém é de ferro…

Chegando no conforto do lar, encontra a esposa já em trajes íntimos o esperando para estourar o inebriante. Mas bem na hora do “bem bom”, uns bandidos empatam a foda atirando pra tudo “quanté” lado, matando a esposa de Storm e alvejando o sujeito, que não morre, como já disse antes ele entra em coma e só vai acordar daqui a sete anos com sede de vingança. Porque como o título auto-explicativo informa, ele é DIFÍCIL DE MATAR!

O filho do casal acaba se safando pela janela deixando os meliantes putos da vida. Estes espalham cocaína pelo quarto pra dar a impressão de que se tratava de um dirty cop… não basta matar, tem que amaldiçoar as próximas gerações também. No hospital, o médico informa o que ninguém nem imagina. Mason Storm ainda está vivo, mas em coma. Kevin O’Malley, um dos poucos policiais confiáveis do distrito e amigo do herói, pede ao médico que não deixe vazar a informação ou Storm estaria correndo risco de vida. E assim ele passa sete anos sossegado, tendo a bundinha limpa por enfermeiras. Aliás, por uma enfermeira que eu faria questão de me machucar feio só pra ficar sob seus cuidados: Kelly Le Brock, a mulher nota 1000, musa dos anos 80 e esposa do Seagal na época.

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Resumo da ópera: Storm acorda com uma barba escrota, de pijamas e já precisa fugir do hospital, onde um assassino deseja terminar o serviço mal feito realizado sete anos antes. Le Brock ajuda o protagonista a escapar e o leva para a casa de um médico que está na China. Lá, Storm se recupera, treina como dar socos novamente, conta suas histórias de vida, de como aprendeu a lutar, etc, claro que vai aproveitar para apagar o fogo da enfermeira, que desde quando estava em coma, já elogiava a manjuba do sujeito. Porque além de fodão, o sujeito tem que ser o kid Bengala…

Enfim, depois de descobrir que seu filho não morreu e está muito bem sob os cuidados de O’Malley, é hora de limpar seu nome e vingar-se. O legal é que ele nem precisa ir atrás da bandidagem. Os próprios malfeitores o encontram na casa do tal médico que está na China, e vai levar um susto daqueles quando retornar e notar o estado de sua sala, cheio das decorações orientais estraçalhadas… Sem contar os corpos que Storm deixa antes de fugir com seu jipe à prova de balas. A sequência da fuga é bem bacana, com Seagal revezando tiros e golpes de Aikido em seus inimigos, cada vez mais convencidos de que o sujeito é realmente difícil de matar… Essa piadinha já deu, né?

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O filme tem muita ação, todas trabalhadas organicamente, servindo bem à narrativa. Onde quer que Storm passe, sempre há um engraçadinho pronto pra levar um pontapé, ou ser jogado através de uma vidraça. O principal alvo do nosso herói é o senador Vernon Trent, o mesmo de sete anos antes, quando ainda era um politico de classe menor e que planejava a morte do então senador. Quem encarna o vilão é ninguém menos que o William Sadler, ator subestimado, mas sempre marcando presença com ótimas performances. Especialmente quando encarna vilões, como em DURO DE MATAR 2.

O grande mérito de DIFÍCIL DE MATAR é o roteiro escrito por Steven McKay, na qual teve a sabedoria de contar uma história simples, sem rodeios, com todos aqueles clichês que sabemos previamente que vamos encontrar, mas de forma bem trabalhada, até porque é justamente o que buscamos ao assistir a um filme como esse. Ou alguém aí vai parar para assistir a um trabalho de Steven Seagal tentando encontrar reflexões humanistas que vão te inspirar a escrever um texto de treza parágrafos? Claro que não! Aqui, o máximo de humanismo que você encontra é o personagem de Seagal gritando “NOOOOO” no momento em que sua esposa leva um balaço de escopeta!

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O roteiro ainda é responsável por colocar bastante situações de ação acompanhadas de várias frases para os fãs de cinema bad ass se deliciarem, como quando Storm reconhece quem é o verdadeiro vilão da trama, o atual senador, comentando na TV que não acrescentaria novas taxas, impostos, etc, e que levassem isso para os bancos, e o protagonista diz para si mesmo, mas em voz alta, “I’m gonna take you to the bank, senator. To the blood bank”!!! Genial!

A direção é por conta de Bruce Malmuth, que não chega a ser um Andrew Davis, muito menos John Flynn (que viria a trabalhar com Seagal mais tarde), mas cumpre bem o papel com seriedade e eficiência como um bom artesão, algo meio difícil de se encontrar no cinema de ação americano atual. É o responsável por outro filme bem legal que eu comentei por aqui há algum tempo, FALCÕES DA NOITE, com Sylvester Stallone.

DIFÍCIL DE MATAR é um filme que eu realmente adoro e representa muito todo um cinema de ação dos anos 80 e 90 em sua essência non sense de exageros e falta de pretensão, a não ser a de divertir seu público, com muita liberdade criativa, elementos feitos sob medida, sem qualquer obrigação com a realidade. É isso que importa e por isso dou muito mais valor a este tipo de cinema do que essas frescuradas que compõem o grande cenário de cinema de ação e aventura atual.

PLANETA DOS VAMPIROS (Terrore nello Spazio, 1965)

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Uma das provas definitivas de que o box Clássicos Sci-Fi da Versátil vale a pena é o fato de terem incluído essa pequena obra-prima do mestre italiano Mario Bava no meio de outras belezinhas. Poderia passar batido, não é filme dos mais populares atualmente, a moçada de hoje definitivamente não vai correr atrás, embora seja essencial a qualquer fã do gênero… Caramba, é uma das principais influências de ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO! Enfim, demonstra o bom gosto que a distribuidora dispõe em termos de curadoria. Já tinha assistido a PLANETA DOS VAMPIROS há alguns anos, mas me senti na obrigação de rever agora com o box em mãos e mais uma vez fui surpreendido com o refinamento das imagens de Bava, com a atmosfera de horror cuidadosamente elaborada ao narrar o conto sci-fi aterrorizante de uns astronautas que se metem em um monte de problemas no planeta Aura.

Duas naves interestelares, Argos e Galliot, estão em plena jornada espacial quando decidem investigar um misterioso sinal de SOS que emana do tal planeta chamado Aura. No momento em que chegam em órbita a merda é lançada no ventilador: As tripulações de ambas naves, após ficarem inconscientes, inexplicavelmente começam a atacar brutalmente uns aos outros com verdadeiras intenções assassinas. Apenas o capitão Markary (Barry Sullivan), da nave Argos, consegue se tocar da situação e evita maiores desastres. Os tripulantes passam a especular e fazer um balanço da bizarra situação, do que poderia ter causado todo o pandemônio e a relação com Aura, o planeta, que embora possua uma atmosfera respirável, possui uma paisagem infernal, borbulhando poços de lava e uma névoa onipresente…

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Mas será que a equipe da Galliot teve a mesma sorte? Uma mensagem desesperada chega a Argos vindo da outra nave, mas o contato é subitamente perdido. Markary organiza a sua tripulação para a busca, mas quando encontram a espaçonave irmã todos estão mortos. Aparentemente o mesmo surto de loucura psicótica que afetou Argos teve um efeito mortal sobre a tripulação da Galliot. Aos poucos, a coisa vai ficando cada vez mais esquisita, especialmente quando os corpos de alguns membros da tripulação da Galliot desaparecem misteriosamente e surgem logo a seguir controlados por uma força alienígena. Markary e seus oficiais tentam descobrir as intenções dessa inteligência extraterrestre desconhecida.

Em determinado momento, Markary encontra outra nave, gigantesca, com enormes aliens fossilizados a bordo. Foi de lá que veio o misterioso sinal… Várias situações surgem a partir desse plot e que não vale a pena ficar entrando em mais detalhes, mas claramente dá pra perceber que Dan O’Bannon provavelmente assistiu a PLANETA DOS VAMPIROS antes de escrever o roteiro de ALIEN (além, é claro, de IT! THE TERROR FROM BEYOND THE SPACE, outra referência óbvia que inspirou o filme de Ridley Scott). Mas é realmente impressionante quando os personagens deste aqui encontram a tripulação fossilizada dentro de uma nave abandonada. Recentemente revi com a minha mulher ALIEN pela milésima vez e, poucas semanas depois, assistimos a PLANETA DOS VAMPIROS. Eu ainda não tinha contado a ela sobre a influencia que um tinha pelo outro, mas no fim das contas nem precisei, de tão descarada que é essa sequência específica. Ela mesmo percebeu o óbvio.

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Os aliens fossilizados de PLANETA DOS VAMPIROS…

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… e os de Ridley Scott em ALIEN (1979).

Mas no que Ridley Scott busca um terror mais claustrofóbico, dark e realista em ALIEN, Bava exibe em PLANETA DOS VAMPIROS sua fascinação pelas histórias em quadrinhos, com um suspense de matinée divertidão e seu habitual uso de paletas de cores extravagantes para compor um visual mais fantasioso, com uma atmosfera exótica e irreal, mas ao mesmo tempo densa e sufocante à sua maneira. Bava já era um mestre de efeitos especiais e fotografia antes de se tornar diretor e um dos seus maiores talentos, inigualável na história do cinema, é sua capacidade de comandar produções de orçamento risível e dar a impressão de suntuosidade, grandeza e de que o dinheiro gasto era muito maior.

No caso de PLANETA DOS VAMPIROS, Bava reaproveitou cenários de HERCULES NO CENTRO DA TERRA, o seu peplum sensacional, para criar o visual do planeta Aura. Trabalhou sua habitual iluminação, com cores fortes e predominantemente vermelho e verde e jogou uma quantidade enorme de fumaça, neblina e voilá, temos aqui um planeta original e aterrador para uma aventura espacial! Já as naves em miniatura não são lá de encher os olhos e algumas cenas são até meio toscas, mas isso é o tipo de detalhe que confere um charme a mais à obra… E, mesmo assim, Bava é capaz de tirar leite de pedra, um autêntico mago dos efeitos especiais que era. A sequência do desembarque de Argos é muito eficaz visualmente, especialmente quando fica claro que a miniatura está sendo mergulhada num tanque de peixes com iluminação colorida que brilha através do vidro. Só mesmo Bava e sua equipe poderia fazer efeitos especiais tão baratos e toscos parecerem tão legais!

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Mas o filme não se resume a efeitos especiais. Uma das coisas que mais gosto em PLANETA OS VAMPIROS é como Bava utiliza vários elementos do horror gótico que ele mesmo ajudou a estabelecer na Itália nos anos 50 e 60, mas numa ficção científica no espaço sideral. Temos mortos-vivos, personagens saindo de sepulturas, o abuso de nevoeiros, até mesmo a construção atmosférica de horror que causam uma tensão bem mais intensa que os filmes do gênero naquele período estavam acostumados a causar. Na verdade, o filme funciona tão bem como um horror sombrio quanto o filme de ficção científica que ele pretende ser… É o conjunto disso tudo que torna o PLANETA DOS VAMPIROS tão singular.

No elenco, uma curiosidade, além de Barry Sullivan, temos a brasileira Norma Bengell fazendo um membro da tripulação de Argos e que se sobressai com um desempenho notável. O restante do elenco é formado por atores da Itália e Espanha, países que dividiram a produção de PLANETA DOS VAMPIROS. Um dos meus filmes favoritos do Bava, que ficou ainda melhor a cada revisão.

O PLANETA PROIBIDO (Forbidden Planet, 1956)

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Comecei a ver o segundo disco do box Clássicos Sci-Fi, volume 1, da Versátil, que contém duas preciosidades obrigatórias (o primeiro disco tinha ELES VIVEM e A AMEAÇA QUE VEIO DO ESPAÇO). Eu mesmo acabei corrigindo uma falha grotesca como apreciador de ficção científica, porque nunca tinha visto por inteiro O PLANETA PROIBIDO, de Fred M. Wilcox, a não ser algumas cenas passando na TV há muito tempo… Obviamente, quando falo em “obrigatório” me refiro aos autênticos fãs do sci-fi clássico, o público atual não aguentaria meia hora dessa belezinha.

Trama shakespereana, efeitos especiais datados, mas que ainda enchem os olhos, monstros freudianos, um robô desengonçado que se tornou ícone do cinema sci-fi, subtexto feminista e sexual e um elenco encabeçado pelo grande Leslie Nielsen, são apenas alguns atrativos de O PLANETA PROIBIDO, uma superprodução caríssima na época que se tornou um autêntico clássico e influenciou meio mundo de filmes e séries do gênero nas décadas seguintes.

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O PLANETA PROIBIDO é sobre uma expedição espacial rumo ao planeta Altair IV, lá nos confins do espaço sideral, com o objetivo de verificar que raios aconteceu com a tripulação de uma nave que foi parar lá há vinte anos. O líder da expedição é o comandante Adams, interpretado pelo Leslie Nielsen, o que é um bocado estranho… Vê-lo num papel sério me dá a impressão de que a qualquer momento ele vai fazer alguma besteira nonsense engraçadíssima bem ao estilo Frank Drebin, de CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ. Neste caso, acho que a sua nave explodiria antes de chegar ao seu destino. Não é o que acontece.

Ao se aproximar de Altair IV, descobre-se que há um único sobrevivente da antiga expedição no local, o Dr. Morbius (Walter Pidgeon), que informa que toda a tripulação morreu e que não garante a segurança de Adams e seus homens caso insista em pousar no planeta. É óbvio que o comandante Adams vai teimar e descer sua nave, mesmo com a dúvida de que sua tripulação corre os maiores riscos… Caso contrário, o filme não teria sentido de existir. Mas já no local, aparentemente, não há nada de errado no planeta e são muito bem recebidos por Robby, o robô que se tornou um dos símbolo mais representativos do gênero. É ele quem leva Adams e dois membros de sua tripulação para conhecerem o tal Dr. Morbius.

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O sujeito acaba recebendo muito bem seus convidados, mostra sua casa modernosa, com jardins exuberantes e um zoológico privado, apresenta-lhes seu robô e suas habilidades especiais, mas mais uma vez avisa-os de que não se responsabiliza pela segurança dos novos visitantes do planeta… Entra em cena também a filha de Morbius, Altaira (Anne Francis), uma adolescente que usa pouquíssimas e apertadas vestimentas. O filme começa a ficar meio bizarro aqui… Em dado momento ela diz  algo parecido com “eu sempre quis conhecer um homem, e agora conheço três de uma só vez“… E então, um dos oficiais começa a xavecar a moça na cara dura, segundos depois de conhecê-la, bem na frente do pai dela… E eu imaginando “que merda é essa?“. A tensão sexual que essa personagem apresenta até hoje salta aos olhos, fico pensando nos anos 50… Mais tarde, Altaira descobre como é beijar um homem (o tal oficial sem noção do parágrafo anterior, apesar dela não ter achado grandes coisas). Adams descobre a safadeza e resolve afastar o sujeito de seus serviços e ainda dá uma lição de moral machista na menina, dizendo que ela se veste como puta… Bem, estamos em 1956 aqui, vamos relevar.

Já mencionei lá em cima que a trama de O PLANETA PROIBIDO tem relação com Shakespeare, certo? O roteiro é inspirado na peça A Tempestade, tendo um pai e a filha ingênua vivendo num local desabitado e tal. Mas não passa mesmo dessa inspiração base… Até porque não lembro de nenhum monstro invisível tocando o terror nos escritos de Shakespeare como acontece no acampamento montado por Adams e sua tripulação. Os efeitos especiais aqui são incríveis, feito com animação por um desenhista da Disney, que combinado com as imagens do filme dá um resultado divertido de se ver.

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Depois o filme entra na parte teórico-explicativa, que não vou entrar em detalhes, mas é bem interessante e envolve histórias sobre uma civilização antiga e muito avançada que viveu no planeta há milhares de anos, tudo explanado enquanto os personagens fazem um tour em um cenário subterrâneo grandioso que essa civilização construiu, cujo visual na tela é realmente impactante, com efeitos óticos que criam ambientes futuristas épicos numa proporção pouco visto antes de 1956.

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O grande lance de O PLANETA PROIBIDO e que essas criaturas milenares, chamadas de Krells, desenvolveram máquinas que impulsionam a capacidade mental a níveis astronômicos e a relação dessa circunstância com a aparição do monstro que ataca os pobres coitados, com base lógica na psicologia freudiana, é simplesmente genial! O fato é que agora o Dr. Morbius botou as mãos nesses equipamentos super-ultra-avançados, testando a si mesmo para elevar sua capacidade mental, e sabe a merda que vai dar…

O restante do filme é pura aventura no melhor molde dos sci-fi dos anos 50, com muita correria e tiros laser. Falei do Leslie Nielsen fazendo personagem sério, mas realmente ele só conseguiu se encontrar mesmo fazendo comédias. Sem dúvida alguma é um dos grandes comediantes da minha geração. Mas aqui o seu desempenho não fede nem cheira e, pra piorar, o romancezinho que seu personagem encara não convence nem minha avó. Na verdade, não há muito o que dizer em termos de atuação em PLANETA PROIBIDO, a grande maioria dos atores faz o básico e os únicos que eu destacaria mesmo são Walter Pidgeon, fazendo um típico cientista maluco que eu adoro nesses filmes, e Anne Francis, ingênua e sexy. Ambos se sobressaem facilmente ao restante do elenco. Outra exceção é Robbie, o robô, que é muito simpático apesar de ser um trambolho, mas acabou virando ícone da ficção científica. Nas décadas seguintes foi até utilizado em programas de TV e filmes que não tem qualquer relação com este aqui.

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Então não é exagero algum ressaltar a importância que possui O PLANETA PROIBIDO para o universo da ficção científica. Mesmo que não seja uma obra-prima, é um autêntico filme seminal em vários aspectos estéticos e ideológicos. muitos elementos e soluções visuais daqui podem ser vistos em obras futuras, como nas séries STAR TREK e PERDIDOS NO ESPAÇO, e em filmes do calibre de STAR WARS. Mais que isso, é um sci-fi inteligente e divertido que até hoje mantém suas qualidades intactas.

Vale a pena conferir, também, para quem tem o box da Versátil, um documentário que acompanha o filme, com vários depoimentos de pessoas bacanas, como John Landis e Joe Dante, que confirmam tudo isso que eu disse aí em cima. Há um outro material exclusivo sobre Robby, o robô, que é da mesma forma, altamente recomendado. E antes que me esqueça, o outro filme do CD é o sensacional italiano PLANETA DOS VAMPIROS, do mestre Mario Bava.