BIG BAD MAMA (1974)

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Uma daquelas pérolas que os anos 70 nos deu. Estamos no período da depressão americana, temos a Lei Seca, assalto à bancos, tiroteios à rodo com Tommy Gun’s cuspindo fogo e Angie Dickinson peladona! Precisa de mais alguma coisa para BIG BAD MAMA ficar melhor? Ah, claro, a presença hilária de Dick Miller numa produção do grande Roger Corman.

Naquele período, Corman começava a fazer dinheiro com pequenos gangster movies e resolveu apostar na anti-heroína Wilma McClatchie, a tal Big Bad Mama do título, vivida por Dickinson, e suas duas filhas espirituosas e sapecas, que embarcam numa jornada no mundo do crime, no qual estão sempre envolvidas em roubos, sequestros, perseguições, tiroteios, num road movie alucinante de ação e com vários personagens interessantes cruzando o caminho das três protagonistas. Como o ladrão de bancos encarnado por Tom Skerritt, o romântico jogador compulsivo na pele de William Shatner e o policial durão vivido por Miller, com suas expressões impagáveis, definitivamente uma das melhores coisas de BIG BAD MAMA. Sempre que está prestes a concluir sua missão de capturar Big Mama, algo dá errado e suas reações são, no mínimo, de rachar o bico! Não tem como não ser fã desse eterno coadjuvante…

A direção é de Steve Carver, que no ano seguinte fez outro filme ótimo do gênero para Corman: CAPONE, com Ben Gazzara no papel título. Dirigiu depois Chuck Norris pelo menos duas vezes, como o McQUADE – O LOBO SOLITÁTIO, que eu acho um filmaço! BIG BAD MAMA é o seu primeiro longa e já demonstra boa habilidade trabalhando muitas sequências de ação, um senso de humor bem equilibrado, mantendo as coisas num ritmo ágil e divertido… é claro que a pulsão sexual e a quantidade de nudez também ajudam, especialmente com as personagens das filhas (Susan Sennett e Robbie Lee) bem à vontade e Angie Dickinson, nos seus 43 anos, expondo seus atributos de deixar muita mulher de vinte com inveja.

BIG BAD MAMA recebeu o título A MULHER DA METRALHADORA aqui no Brasil e ganhou uma continuação nos anos 80, dirigido por outro pupilo de Corman, Jim Wynorski.

100 FILMES DO SÉCULO XXI

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Colin Farrell de mullets e Jamie Foxx em MIAMI VICE

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Viggo Mortensen se purifica depois de praticar uma última matança em MARCAS DA VIOLÊNCIA.

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Joaquim Phoenix se enfia no meio do matagal atrás de um bandido e prova que merece “ser da famíla” em  WE OWN THE NIGHT.

Recentemente a BBC publicou esta lista do que seria, para seus editores e mais de sessenta críticos convidados ao redor do mundo, os 100 melhores filmes deste século até agora. Não demorou muito para que alguns amigos se arriscassem a criar suas próprias listas e, fanático por esse tipo de coisa que eu sou, também resolvi encarar o desafio de fazer a relação do que há de melhor em produção, numa lista muito pessoal, do século XXI. Mas decidi não incluir este ano atual pra não entregar ainda meus favoritos de 2016… hehe! Coloquei meio que em ordem de preferência, mas tirando, sei lá, os cinco primeiros colocados, não dá pra levar muito a sério esse critério pelo restante da relação. Aqui vai:

100. FAST FIVE (2011), de Justin Lin
99. ANTICRISTO (2009), de Lars Von Trier
98. BLACKHAT (2015), de Michael Mann
97. IT FOLLOWS (2014), de David Robert Mitchell
96. BASIC (2003), de John McTiernan
95.OS EXCENTRICOS TENEMBAUMS (2001), de Wes Anderson
94. THE CABIN IN THE WOODS (2012), de Drew Goddard
93. CASSANDRA’S DREAM (2008), de Woody Allen
92. UNIVERSAL SOLDIER: DAY OF RECKONING (2012), de John Hyams
91. PASSION (2012), de Brian de Palma
90. BUG (2006), de William Friedkin
89. APOCALYPTO (2006), de Mel Gibson
88. OS TRÊS ENTERROS DE MELQUIADES ESTRADA (2005), de Tommy Lee Jones
87. THE HURT LOCKER (2008), Kathryn Bigelow
86. CORPO FECHADO (2002), de M. Night Shyamalan
85. EASTERN PROMISES (2007), de David Cronenberg
84. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (2001), de Steven Spielberg
83. O LABIRINTO DO FAUNO (2006), de Guillermo Del Toro
82. ESSENTIAL KILLING (2010), de Jerzy Skolimowski
81. SKYFALL (2012), de Sam Mendes
80. DISTRITO 9 (2009), de Neil Blomkamp
79. DJANGO LIVRE (2012), de Quentin Tarantino
78. BREAKING NEWS (2004), de Johnnie To
77. OS OITO ODIADOS (2015), de Quentin Tarantino
76. ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (2007), de Sidney Lumet
75. THE GREY (2012), de Joe Carnahan
74. DEJA VU (2004), de Tony Scott
73. FEMME FATALE (2002), de Brian De Palma
72. TAKEN (2008), de Pierre Morel
71. THE BLACK DAHLIA (2006), de Brian De Palma
70. BONE TOMAHAWK (2015), de S. Craig Zahler
69. DIA DE TREINAMENTO (2001), de Antoine Fuqua
68. MR 73 (2008), de Olivier Marchal
67. VÍCIO FRENÉTICO (2009), de Werner Herzog
66. PROMETHEUS (2012), de Ridley Scott
65. THE MIST (2008), de Frank Darabont
64. MINORITY REPORT (2002), de Steven Spielberg
63. HARD TO BE A GOD (2013), de Aleksei German
62. THE RAID (2011), de Garret Evans
61. O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARD ROBERT FORD (2007), Andrew Dominik
60. DEIXA ELA ENTRAR (2008), de Tomas Alfredson
59. THE MASTER (2013), de Paul Thomas Anderson
58. DRUG WAR (2012), de Johnnie To
57. CISNE NEGRO (2010), de Darren Aronofsky
56. I SAW THE DEVIL (2010), de Ji-Woon Kim
55. THE BLACK BOOK (2006), de Paul Verhoeven
54. SYRIANA (2005), de Stephen Gaghan
53. KILL BILL VOL. II (2004), de Quentin Tarantino
52. RULES OF ENGAGEMENT (2000), de William Friedkim
51. MEMORIES OF A MURDER (2003), de Bong Joon-Ho
50. O VENTO E A MARÉ (2000), de Tsui Hark
49. LES SAVATES DU BON DIEU (2000), de Jean-Claude Brisseau
48. SOBRE MENINOS E LOBOS (2003), de Clint Eastwood
47. PUBLIC ENEMIES (2009), de Michael Mann
46. OPEN RANGE (2004), de Kevin Costner
45. JOHN WICK (2014), de Chad Stahelski e David Leitch
44. ELEIÇÃO 2 (2006), de Johnnie To
43. SHA PO LANG (2005), de Wilson Yip
42. GOOD BYE DRAGON INN (2003), de Tsai Ming Liang
41. KILL BILL VOL. I (2003), de Quentin Tarantino
40. A VIDA MARINHA COM STEVE ZISSOU (2004), de Wes Anderson
39. OS ANJOS EXTERMINADORES (2006), de Jean-Claude Brisseau
38. ONLY GOD FORGIVES (2013), Nicolas Winding Refn
37. MENINA DE OURO (2004), de Clint Eastwood
36. O AVIADOR (2004), de Martin Scorsese
35. RAMBO (2008), de Sylvester Stallone
34. ELEIÇÃO (2005), de Johnnie To
33. VALHALLA RISING (2010), de Nicolas W. Refn
32. PUSH DRUNK LOVE (2002), de Paul T. Anderson
31. GHOST OF MARS (2001), de John Carpenter
30. SPACE COWBOYS (2000), de Clint Eastwood
29. LAND OF THE DEAD (2005), de George A. Romero
28. THE YARDS (2000), de James Gray
27. OS INFILTRADOS (2006), de Martin Scorsese
26. MISSÃO MARTE (2000), de Brian De Palma
25. GRAN TORINO (2008), de Clint Eastwood
24. CAÇADO (2003), de William Friedkin
23. CIDADE DOS SONHOS (2001), de David Lynch
22. ERA UMA VEZ EM NOVA YORK (2013), de James Gray
21. ROCKY BALBOA (2006), de Sylvester Stallone
20. TWO LOVERS (2009), de James Gray
19. THE WRESTLER (2008), de Darren Aronofsky
18. BASTARDOS INGLÓRIOS (2009), de Quentin Tarantino
17. ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (2008), de Ethan e Joel Coen
16. MUNICH (2005), de Steven Spielberg
15. A PROPOSTA (2005), John Hillcoat
14. HOLY MOTORS (2013), de Leos Carax
13. MAD MAX: FURY ROAD (2015), de George Miller
12. ZODIACO (2007), de David Fincher
11. A BITTERSWEET LIFE (2005), Ji-Woon Kim
10. OS MERCENÁRIOS (2010), de Sylvester Stallone
09. EXILADOS (2006), de Johnnie To
08. COISAS SECRETAS (2002), de Jean-Claude Brisseau
07. DRIVE (2011), de Nicolas W. Refn
06. COLATERAL (2004), de Michael Mann
05. SANGUE NEGRO (2007), de Paul T. Anderson
04. GANGUES DE NOVA YORK (2002), de Martin Scorsese
03. WE OWN THE NIGHT (2007), de James Gray
02. MARCAS DA VIOLÊNCIA (2005), de David Cronenberg
01. MIAMI VICE (2006), de Michael Mann

PS:

ESPECIAL DON SIEGEL #27: O ÚLTIMO PISTOLEIRO (The Shootist, 1976)

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Tinha convidado alguém pra escrever sobre O ÚLTIMO PISTOLEIRO, mas isso já faz mais de um ano, acabou que a pessoa não me enviou nada e eu também não lembro quem era, então tanto faz. O importante é dar prosseguimento à peregrinação do cinema de Don Siegel, que chega neste western que carrega, digamos, uma certa importância peculiar. O fato é que três anos depois de protagonizar O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o maior ícone do western americano, John Wayne, bateu as botas por conta de um câncer fodido no pulmão e estômago. Este filme aqui, portanto, acabou por ser sua derradeira performance. E não poderia ser mais melancólico que o último filme do “Duke” fosse sobre um velho pistoleiro em fim de carreira chamado J. B. Booker, que descobre que tem um câncer terminal.

Booker só quer viver seus últimos dias da melhor maneira possível. Para confirmar a suspeita sobre sua saúde, visita um velho amigo médico, Dr. Hosteler, interpretado por por outro gigante, James Stewart, e obtém o diagnóstico que confirma seu câncer incurável. Em seguida, aluga um quarto em uma pensão administrada por uma viúva (Lauren Bacall) e seu filho adolescente (vivido por um jovem Ron Howard). Uma vez que Booker é reconhecido pela sua fama, as notícias se espalham pela pequena cidade de Carson City, incluindo sobre a doença, e percebe que não vai conseguir viver o pouco tempo que  lhe resta tão pacificamente como gostaria. Há tanto pessoas que tentam tirar proveito da presença do sujeito, como o agente funerário (John Carradine) que pretende embalsamar seu corpo, ou o jornalista que quer publicar um livro sobre suas façanhas, quanto, obviamente, outros pistoleiros desfrutando da situação para ganhar fama num possível duelo com Booker. Como o sujeito não quer “partir dessa para uma melhor” em agonia, deitado numa cama, a ideia de morrer trocando tiros com quem quer que seja até que não é tão ruim…

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John Wayne, como não poderia ser diferente, é o tour de force de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, está simplesmente sensacional. O sujeito reúne toda a essência da persona que desenvolveu ao longo da carreira vivendo centenas de personagens para transcender em Booker, o cowboy em fim de carreira definitivo. Wayne nunca esteve tão carismático e singelo como aqui, sem perder o jeito durão que o transformou num dos maiores casca-grossas do velho oeste. Mas são os momentos bucólicos e simples que dão força ao filme: os diálogos entre Wayne e Bacall, a relação fraternal que surge entre o protagonista e o jovem Ron Howard e principalmente Wayne contracenando com James Stewart, num desses momentos dignos de antologia.

Don Siegel aproveita todo esse material humano da melhor maneira possível, sem nunca soar piegas pelos temas delicados e nem cair na tentação de transformar a coisa toda num dramalhão sentimental. O filme é até bastante leve e divertido, embora não tenha a energia de outros trabalhos do homem, que foca mais nas performances do elenco. E apesar de atores talentosos, que é realmente o melhor de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, o filme não deixa de ter alguns problemas. Depois de um começo sólido, que te cativa, o ritmo começa a cair um bocado, enrola demais e me peguei bocejando lá pelas tantas.

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Rola algumas histórias de que Siegel e Wayne não teriam se dado muito bem durante as filmagens e era comum o ator tentar querer dirigir o filme, atravessando Siegel, reclamando que o projeto merecia um tom mais épico, totalmente fora do estilo mais seco do diretor. Inclusive chegou a queixar e palpitar no tiroteio final, dizendo que seu personagem nunca poderia atirar em alguém pelas costas, que  nunca tinha feito isso na vida, e esse tipo de baboseira. Acho que o “Duke” já estava perdendo a noção, mas O ÚLTIMO PISTOLEIRO volta a melhorar justamente perto do final, quando Books parte na iminência de encarar os seus inimigos à base de chumbo-grosso. E ação do clímax talvez não seja das melhores sequências de tiroteio que o Siegel já filmou na vida, mas é classuda, tensa e sangrenta suficiente pra prender a respiração.

De qualquer forma, o saldo final é muito positivo. O ÚLTIMO PISTOLEIRO pode não ser a melhor despedida, mas não deixa de ser um bom reflexo da mudança dos tempos para um pistoleiro old school adentrando no século XX, e um interessante estudo sobre a aproximação da morte. E vale muito a pena aproveitar o “Duke” numa atuação daquelas!

UM POUCO DE SANGUE…

… Só pra relaxar. Foi-me solicitada essa lista, dos meus slasher movies favoritos. Apesar da minha fissura pelo horror, não sou expert no subgênero. Muita coisa importante dentro do estilo eu ainda não conferi, o que é bom porque fazer essa lista me deu vontade de ver algumas coisinhas… Mas vocês vão notar a ausência de vários exemplares importantes. Enfim, deu pra chegar em dez títulos que gosto muito (apesar da trapaça no final da lista). Segue então um top 10 Slasher movies:

pieces310. O TERROR DA SERRA ELÉTRICA (Pieces, 1982), de Juan Piquer Simon

burning209. CHAMAS DA MORTE (The Burning, 1981), de Tony Maylam

alice-sweet-alice-remake08. COMUNHÃO (Alice, Sweet Alice, 1976), de Alfred Sole

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07. QUEM MATOU ROSEMARY? (The Prowler, 1981), de Joseph Zito. Tem texto dele aqui

af1da-BFD7F9D0-96E9-447B-857F-6A2A4E763BB906. O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2 (The Texas Chainsaw Massacre 2, 1986), de Tobe Hooper. Sim, eu adoro isso aqui!

impaled05. BANHO DE SANGUE (Bay of Blood, 1971), de Mario Bava. Também conhecido no Brasil sob o genial título O SEXO NA SUA FORMA MAIS VIOLENTA.

Stagefright-1987-Killer-Chainsaw-740x49304. O PÁSSARO SANGRENTO (Stagefright, 1987), de Michele Soavi

friday-the-13th-part-303. SEXTA-FEIRA 13 – Aqui começa a trapaça… Para não ficar enchendo a lista com vários filmes de uma mesma franquia, resolvi colocar a saga toda em destaque. Primeiro, pela representatividade que essa série possui no gênero, segundo, por ter criado um dos principais ícones do slasher, Jason Voorhees. Gosto basicamente de toda a série, mas destaco especialmente SEXTA-FEIRA 13 (Friday the 13, 1982), de Sean S. Cunninghan; SEXTA-FEIRA 13 – PARTE 2 (Friday the 13th Part II, 1981), de Steve Miner; SEXTA-FEIRA 13 – PARTE III (Friday the 13th Part III, 1982), novamente do Miner, e a belezinha SEXTA-FEIRA 13 PARTE IV – CAPÍTULO FINAL (Friday the 13th: The Final Chapter, 1984), de Joseph Zito.

47968802. A HORA DO PESADELO – A mesma coisa aqui. Tirando um ou outro, gosto de todos os filmes da série, com destaque para A HORA DO PESADELO (A Nightmare on Elm Street, 1984), de Wes Craven; A HORA DO PESADELO 2: A VINGANÇA DE FREDDY (A Nightmare on Elm Street 2: Freddy’s Revenge, 1985), de Jack Sholder; A HORA DO PESADELO: OS GUERREIROS DOS SONHOS (A Nightmare on Elm Street 3: Dream Warriors, 1987), de Chuck Russell, e uma maravilha chamada A HORA DO PESADELO 7 (New Nightmare, 1994), do Craven.

halloween_jamie-lee-curtis101. HALLOWEEN (1978), de John Carpenter

ESPECIAL DON SIEGEL #26: O MOINHO NEGRO (The Black Windmill, 1974)

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Assisti outro dia a O MOINHO NEGRO pela primeira vez para adiantar este especial eterno aqui no blog. Trata-se de um thriller de espionagem que o Siegel fez lá pelos lados da Europa e meio que sumiu dos radares entre os filmaços que o homem fez nos anos 70, pós DIRTY HARRY e CHARLEY VARRICK. Andei lendo algumas críticas da época e outras que saíram já na era da internet e é curioso como a grande maioria desdenha da obra, que realmente não está a altura dos melhores filmes do sujeito, mas é legal, não deixa de ser interessante, tem vários momentos ótimos. E tem um Michael Caine encabeçando o elenco (que é fantástico e conta com a presença do grande Donald Pleasence), além do climão de policial europeu que de alguma forma dá um charme a mais ao filme e faz uma boa combinação com o estilo secão do Siegel.

John Tarrant (Caine), um agente MI6, serviço secreto britânico, descobre que seu filho, David, foi sequestrado por uma quadrilha chefiada por um sujeito carrancudo, McKee (John Vernon), e seu resgate deverá ser pago com uma certa quantia de diamantes que seu departamento secretamente obteve para uma operação qualquer, ou então o moleque vai sofrer as consequências… Para piorar a situação, os bandidos ainda forjam várias situações que incriminam Tarrant, fazendo parecer que ele faz parte do esquema, algo que seus superiores acabam acreditando, incluindo o desajeitado Cedric (Pleasence). E é nessa situação “Hitchcockiana” e com uma face dura como uma pedra, sem demonstrar qualquer sentimento – “Fomos treinados para isso” – que Tarrant resolve agir por conta própria para ter seu filho de volta.

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Uma dessas ações é justamente roubar os diamantes de seus chefes, que recusaram a negociar com os sequestradores, e levar sozinho à Paris para rastrear os facínoras. Ao final, toda a investigação o leva ao moinho negro do título, onde descobre-se os motivos do sequestro e quem realmente está por trás de todo o esquema, com direito a uma troca de tiros de metralhadora filmada do jeitinho classudo e cru do Siegel, bem diferente da ação dos filmes na época do espião britânico mais famoso, James Bond. Aliás, Caine é um espião do tipo intuitivo que usa mais cérebro que músculos, o que pode ser uma das razões do fracasso de crítica e bilheteria… Apesar da cena típica de um 007, com o herói sendo apresentado a uma arma secreta, uma maleta que dispara tiros.

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O fato é que O MOINHO NEGRO é bem paradão na sua primeira metade, meio enrolado e demora mais que o necessário para engrenar, além de uns furos de roteiro muito mal explicados… Mas Siegel consegue manter as coisas no lugar com uma boa atmosfera britânica e química entre os personagens. Nas mãos de algum diretor mais convencional, por exemplo, a relação de Tarrant e sua esposa, que o culpa a princípio, pelo sequestro do filho, poderia soar piegas e dramático demais, algo que não acontece… Enfim, mesmo com alguns probleminhas, O MOINHO NEGRO não deixa de interessar e até mesmo empolgar os amantes de um bom thriller setentista e também aos fãs do bom e velho Don Siegel.

IN THE LINE OF DUTY 4 (1989) & TIGER CAGE 2 (1990)

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por GABRIEL LISBOA

Quando me propus a escrever sobre TIGER CAGE 2, imaginei que já havia visto o filme há bastante tempo, que seria bom revê-lo e de quebra ver o primeiro. Como o Luiz Alexandre disse em sua crítica, o segundo talvez seja mais lembrado mesmo entre os fãs do estilo e eu achei que era o que havia gravado com o Nero num DVD há uma década atrás. Mas quando começo a ver o primeiro TIGER CAGE percebo que não era este o filme que conhecia e fiquei perdido. Uma grata surpresa até. O que descobri depois é que Yuen Woo Ping, Donnie Yen e Michael Woods (o diretor e os dois únicos atores recorrentes) realizaram uma espécie de trilogia sem nenhuma relação entre os filmes nos anos de 88, 89 e 90 com TIGER CAGE, IN THE LINE OF DUTY 4 e TIGER CAGE 2 (que do primeiro só leva o nome para a distribuição internacional e tem o título literal de “DIRTY MONEY LAUNDERING). As três histórias, filmadas no auge da era de ouro dos filmes ação de Hong Kong, se situam no mundo caótico da virada dos anos 80 para os 90 de policiais corruptos, lavagem de dinheiro e contrabando de pessoas e drogas, mas o tom dos filmes é bem diferente um do outro.

O primeiro é um filme mais próximo do heroic bloodshed consagrado por John Woo, estilo de tiroteios elaborados, câmera lenta, amizade romantizada, códigos de honra e redenção pelo sangue. É o mais ácido dos três filmes, com um final de encher o coração de raiva até o momento de ver o vilão, interpretado por Simon Yan, levando uma chave de metal de guardar bicicletas no peito e na cara. O filme é bem brutal e até os policiais abusam da violência para conseguir resolver a confusão de traição e corrupção instalada dentro do departamento de narcóticos. Até quando Carol Cheng luta numa fábrica com uma capanga gwailo (expressão para os personagens gringos nos filmes de HK), a cena termina com Carol enforcando a vilã loira com arame enfarpado. Minha cena favorita é com Jacky Cheung e Michael Woods tapando o nariz enquanto lutam para não respirar o gás de cozinha que toma o apartamento de um dos policiais corruptos. Um pouco mais exagerada e cômica que o resto do filme, pode ser vista como um ponto fraco para quem não está acostumado com a mistura de gêneros dos filmes de ação comum no estilo da época e que se acentua bastante nos dois filmes seguintes. Outro coisa interessante é o tema recorrente da fuga de Hong Kong, um desejo dos policiais, bandidos e até do trabalhador Luk de IN THE LINE OF DUTY 4, que tem como bem mais precioso seu visto americano.

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Pelo que eu li no livro de Hammond e Wilkins, Sex and Zen & A Bullet in the Head, isto fato se deve ao medo que muitos tinham da indexação do território de Hong Kong à China Continental, sob regime comunista, marcada para o ano de 1997. Hong Kong era uma ilha de domínio inglês desde o fim da Guerra do Ópio em 1842, com um pacto de controle de 99 anos sobre o território em 1898. Hong Kong depois se expandiu para algumas ilhas vizinhas e um pedaço peninsular se transformando numa das cidades mais importantes para o comércio do Pacífico, sempre a sombra do gigante comunista ao seu lado. Mesmo o acordo firmado em 1984 entre Reino Unido e a República Popular da China, garantindo que Hong Kong se tornaria uma região administrativa especial, mantendo o sistema capitalista, não foi suficiente para que muitos artistas, como produtores e diretores, se acalmassem com a mudança de domínio, ainda mas com o massacre na Praça da Paz Celestial em 1989. Tudo isso acrescentava à temática de tensão e caos presente em alguns filmes de crime do período. Parece pra mim que “contribuição” estrangeira era vista com desconfiança, como se a região estivesse sendo entregue de bandeja para o regime comunista depois de anos de exploração por americanos e ingleses (vide o corpo sobre a bandeira americana no fim de ITLOD 4).

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Voltando aos filmes de Yuen Woo Ping, que dirigiu em 1989 IN THE LINE OF DUTY 4 com parte da equipe do trabalho anterior e que não segue uma narrativa contínua com outros filmes que ganharam o mesmo nome. Os dois primeiros filmes da série na verdade são YES, MADAM e ROYAL WARRIORS, estrelados por Michelle Yeoh. O nome IN THE LINE OF DUTY começa já do número 3 quando o papel que une os filmes, o de uma policial durona passou para Cynthia Khan (a nova aposta da produtora D&B depois que Michelle se casou e abandonou o cinema até seu divórcio e retorno triunfante com SUPERCOP de 93). Na trama do filme Luk (interpretado por Yuen Yat-Choh que lembra o Ken Jeong de SE BEBER NÃO CASE) é um trabalhador nas docas de Seattle e testemunha um crime envolvendo agentes da CIA com tráfico de drogas. Um dos policiais da equipe de Cynthia Khan, trabalhando com os americanos, entrega ao estivador os negativos de fotografias que podem incriminar os envolvidos, mas no meio da confusão Luk acaba perdendo a evidencia. Ele fica então num fogo cruzado entre a polícia, que acha que ele está envolvido no esquema e os bandidos que querem recuperar os negativos. Até a metade do filme é bem interessante acompanhar o personagem de Luk, mas depois ele acaba sumindo e foco fica divido entre Donnie Yen e Cynthia Khan tentando desbaratinar toda a confusão gerada pelo negativo desaparecido e tentando descobrir quem é o agente duplo que está frustrando os planos dos dois para prender os traficantes.

O engraçado é que fica difícil entender qual é o método de procedimento policial que eles usam porque sempre sabem onde os bandidos estão (e vice-versa) e resolvem tudo na porrada. Não que isso seja um defeito é claro é só que eu realmente estava interessado no personagem de Luk, que dava um bom equilíbrio para Donnie e Cynthia, os durões. Eu gosto das situações particulares dos filmes de Hong Kong em que é colocada uma situação dramática ou engraçada, exagerada ou pouco plausível dentro do contexto de um filme teoricamente mais sério de crime. Há uma cena em que Luk pede para que possa ver sua mãe antes de ser extraditado à Inspetora Madam Yeung (Cynthia Khan). Ela aceita o pedido mas chegando ao apartamento da senhora, Donnie (sempre o “babacão” impulsivo nos três filmes) algema Luk à Madam Yeung e os dois têm que fingir que são namorados para não deixar que a mãe saiba que o filho estava sendo preso. Eu leio algumas críticas onde o pessoal fala que esse tipo de cena é besta e que quebra com ritmo de ação frenético dos filmes. Eu mesmo quando mais novo poderia até achar isso também, mas o mais divertido de ver um filme oriental, seja chinês ou japonês é ter contato com uma outra maneira de se contar uma história, ver como outro cinema vê as relações entre os personagens. Mesmo que seja mais sentimentalista. E eu consigo me envolver e abrir um sorriso sincero, talvez por esses momentos serem puros e ingênuos.

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ITLOD 4 é o filme mais redondinho dos três. É um filme de ação mais voltado para as lutas, mas com um tiroteio e um momento cômico aqui e ali. Um filme mais previsível e talvez seja por isso que foi o que eu menos gostei. Mas é o filme que pode facilmente agradar qualquer fã de Jackie Chan já de cara, alguém menos propenso a entrar nos exageros de outros filmes (como GOD OF GAMBLERS, o campeão da mistura de gêneros para mim até hoje). As lutas são muito boas com destaque para a luta de Cynthia Khan e Fairlie Ruth Kordick (atriz gwalio que nem aparece nos créditos) numa escada de concreto e depois num poço de elevador, sempre com o risco de cair e se esborrachar no chão. Para entrar numa lista de melhores confrontos femininos de todos os tempos. Já a luta de Donnie Yen contra Michael Woods neste filme é a mais demorada dentre os três filmes, mas não chegar a ser excelente. Engraçado como me chamou a atenção alguns contornos homoeróticos, com Woods segurando a mão de Yen com seu peitoral ou admirando o bíceps do adversário enquanto este lhe dá um mata-leão. É comum um certo despir de roupas em cenas de lutas em filmes de ação. O protagonista muitas vezes acaba sem camisa, com seu próprio adversário por lhe arrancar a roupa. Algo recorrente mas pouco explorado em termos de erotismo mais óbvio como acontece com beldades de seios fartos. Talvez o ator que mais use isso a seu favor seja o Van Damme que adora aparecer de bunda de fora em seus filmes.

O filme tem um final satisfatório mas o interessante é que uma legenda conta o epilogo da história depois que a luta final termina, um jeito de amarrar as pontas soltas deixadas pelo filme. Algo que o filme seguinte não se preocupa muito. Se IN THE LINE OF DUTY 4 era mais voltado para a correria e pouco desenvolvimento da história, TIGER CAGE 2 volta a centrar mais nos personagens, mas dessa vez sem “maldade” do primeiro, num tom bem cômico e por isso a trama fica em segundo plano. Saem os policiais corruptos mas continua o mote de alguém-certo-na-hora-errada para se livrar tanto da polícia quanto da triade. No filme Rosamund Kwan e Donnie Yen presenciam um confronto entre duas gangues com a tentativa de roubo de uma maleta cheia de dinheiro e depois ainda são suspeitos de um assassinato. O interessante é que a personagem de Kwan, Mandy, é advogada responsável pelo recente divórcio de Donnie, agora um ex-policial mas que mais uma vez interpreta um redimable asshole (aquele personagem ignorante que vai dando valor as pessoas a sua volta até o fim do filme). É de se esperar então que os dois comecem se odiando para depois se apaixonar. Mas no meio dos dois aparece David Wu para transformar a relação num triângulo amoroso. David era responsável pela segurança da maleta e no começa tenta tirar a informação dos dois, que não sabem onde está o dinheiro, para depois se tornar um amigo e se sacrificar pelo casal.

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A cena em que os três estão bêbados e apaixonados num karaokê é de uma breguice sem tamanho mas que para mim funciona. Talvez porque tenho o coração mole para esse tipo de coisa, mas também tenho que dizer que essa relação dos personagens é muito melhor do que qualquer filme do Jackie Chan, que nunca convence numa cena romântica (em Gorgeous talvez?). Não só esses três personagens são bacanas mas ainda temos Cynthia Khan voltando com a Inspetora Yeung em duas pontas breves (eufemismo para personagem aleatório na trama), Gary Chow como o amigo coringa de Donnie e a galeria de vilões composta por Robin “Mortal Kombat” Shou, John Salvitti (voltando também de ITLOD 4) e Michael Woods, todos bem caricatos. Como já havia dito é o mais cômico dos três mas isso não significa pouca pancadaria e violência. Detalhe para a tortura envolvendo uma bicicleta ergométrica raspando o peito de Donnie (a tortura do enforcamento na pedra de gelo de ITLOD 4 também era bem criativa).

As cenas de ação no geral são boas mas a cena de luta mais memorável do filme (e talvez de toda a trilogia) seja a luta de espadas gigantes na fábrica-de-vapor-abandonada entre Donnie e John Salvitti. Não que seja tecnicamente incrível ou muito criativa, mas tem algo em toda aquela fotografia berrante, fumaça, arames, grades e um ventilador aleatório que criam uma áurea mágica de filme de pancadaria de início dos anos 90. Posso dizer que, particularmente, até prefiro o confronto final na fábrica-de-caixas-empilhadas, que começa com Donnie e Tak saindo do maleiro de um ônibus, os dois com uma pistola em cada mão alvejando capangas, até o confronto final de Donnie e Shou. Mais uma vez a luta de Donnie e Michael Woods, que acontece no ínterim dessas duas cenas que comentei agora, mais uma vez não é nada espetacular e me desculpem os fãs, agora posso afirmar que é um ator tão ruim ao ponto de isso atrapalhar a luta em si! Mas Donnie e Michael eram bons amigos e ainda lutaram mais duas vezes no cinema e amizade é o que importa. Como os três filmes são tão diferentes entre si é difícil até fazer um balanço da evolução de Donnie e Yuen Woo Ping no gênero de ação mista de tiros e socos. No fim fica a sensação de como foi mágica essa época de filmes repletos de ação física, trabalhos de dublês impressionantes. Deveria ter visto mais destes filmes em vez de inventar moda e querer alugar O PACIENTE INGLÊS com 15 anos de idade…

Gabriel Lisboa, além de eventualmente colaborar por aqui, edita o excelente blog Cine Bigode.