ESPECIAL DON SIEGEL #21: MORTE DE UM PISTOLEITO (Death of a Gunfighter, 1969)

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Assisti finalmente, para dar continuidade ao eterno Especial Don Siegel, o faroeste humanista MORTE DE UM PISTOLEIRO, que acabou renegado pelo diretor por alguns motivos que explico mais adiante, até porque trata-se de um belíssimo exemplar de western, com personagens interessantes e um contexto histórico reflexivo. Portanto não é pelo resultado que Siegel  não quis seu nome nos créditos.

A premissa, pra começar, é excelente. À beira do século XX, a pequena cidade de Cottownwood Springs, no Texas, está determinada a modernizar-se, deixar para trás o ultrapassado e arcaico sistema do velho oeste. O problema é o xerife do local, Frank Patch, vivido pelo grande Richard Widmark, um homem da lei brutão, à moda antiga, que coleciona no currículo uma variedade de mortos em tiroteios questionáveis. Quando mata em legítima defesa o bêbado Luke numa noite qualquer, os líderes da cidade decidem, após uma calorosa reunião, tomar uma drástica decisão: é hora de mudar seu representante da lei.

Até aí tudo bem. Eles pedem educadamente a Frank que renuncie seu cargo, mas o sujeito casca-grossa se recusa, lembrando que quando foi contratado foi-lhe prometido que ficaria no trabalho de xerife o tempo que quisesse, e dane-se o resto. A coisa poderia ir para um tribunal, o problema é que Frank, além de tudo, conhece profundamente cada um dos segredos sujos e repugnantes da cidade e de seus líderes, o que não seria nada agradável vir à tona… Decidem então agir como o próprio Frank, à moda antiga, usando a violência como última alternativa para tirar o indesejável xerife do caminho.

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Já vimos alguns faroestes com a temática do moderno x arcaico, as transformações que interfeririam na vida de pistoleiros e cowboys do velho oeste com a virada do século, como MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, de Sam Peckinpah, ou  OS ÚLTIMOS MACHÕES, de Andrew V. McLaglen, e vários outros. E é legal notar como MORTE DE UM PISTOLEIRO entra no meio desse conjunto de obras reforçando de maneira singular o tema, trabalhando o anacronismo de um xerife que ainda acredita na honra e em fazer seu trabalho da maneira que tem que fazer, ou morrer tentando. Numa das melhores performances de Richard Widmark que eu já vi, o grande destaque do filme.

Civilização é uma coisa incrível“, diz o personagem de John Saxon – que faz aqui uma ótima participação – depois dos tais “homens de bem”, os líderes da cidade que querem progredir a qualquer custo, decidem matar o xerife covardemente. Ao mesmo tempo, é interessante como o filme cria uma identificação do público com o xerife Frank, torcemos por ele até os últimos minutos, mas começamos nós mesmo a perceber que a única maneira dele alcançar sua redenção é realmente parando a sete palmos debaixo da terra, numa sequência final das mais emocionantes e corajosas que Siegel já filmou. Mais um para entrar na galeria dos seus finais fortes, sem concessões e niilistas.

E que viva o cinema transgressor de Don Siegel como  MORTE DE UM PISTOLEIRO e abaixo o cinema bunda-mole atual! 

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Por falar no Siegel, o filme entra no seu Especial aqui no blog, porque evidentemente percebe-se a mão do diretor em vários momentos, como o já citado desfecho, mas também nas cenas de tiroteio, com seu estilo cru e seco, filmando apenas o essencial com a segurança e habilidade que lhe é atribuída.

Mas a verdade é que a maior parte de MORTE DE UM PISTOLEIRO foi dirigido por Robert Totten, que pelas constantes “diferenças artísticas” com  Widmark acabou afastado após vinte e cinco dias de filmagens. Siegel chegou depois e finalizou o filme em apenas nove dias. Como não era totalmente o diretor, não quis levar o crédito, ao mesmo tempo, Widmark não queria o nome de Totten na direção, consequentemente utilizaram o nome Allen Smithee para compor o letreiro de créditos.

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MORTE DE UM PISTOLEIRO, além de um baita faroeste, entra na lista de filmes curiosos por ter aberto o precedente, para o cinema, da utilização do nome “Alan Smithee” (ou Alain Smithee, ou Allan Smithee, ou Allen, enfim, variações…) toda vez que um diretor renega seu filme. A filmografia de Smithee é até bem extensa se forem conferir no imdb e vários diretores de peso já o utilizaram, como Richard C. Sarafian, Dennis Hopper, John Frankenheimer, Stuart Rosenberg e Kevin Yagher…

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4 pensamentos sobre “ESPECIAL DON SIEGEL #21: MORTE DE UM PISTOLEITO (Death of a Gunfighter, 1969)

  1. Uma das sacadas interessantes no filme é de que no final deparado com a iminência do seu destino, o xerife já não parece tão valente e deixa transparecer em sua feição um certo medo, o que torna o final ainda mais bruto.
    Na minha opinião o único ponto fraco é a trilha sonora. Também penso que os tiroteios poderiam ter resultados “mais sangrentos”. Será que faltou um pouco de orçamento nessa parte?

    • A trilha sonora cantada é bem fraca mesmo. A instrumental até que gostei. Quanto ao sangue, é preciso considerar que estamos em 1969 aqui… Geralmente máximo de violência explícita que teríamos era isso aí mesmo… No mesmo ano Peckinpah lançaria o MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA e mudaria essa questão, mas por enquanto, não dava pra exigir tanto…

      • Concordo em partes. Teve Bonnie and Clyde em 1967 e também o Bullit em 1968 que fizeram um belo uso de “squibs”.
        Mas isso não atrapalha muito também na qualidade do filme, exigências a parte.

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