INDEPENDENCE DAY (1996)

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Há vinte anos era mais fácil gostar de INDEPENDENCE DAY, de Roland Emmerich. Pelo menos pra mim, que era um moleque ignorante que não se preocupava com a imagem do imperialismo americano, atuações e diálogos ridículos e não tinha problemas em ficar vislumbrado com efeitos especiais de última geração… Hoje é mais complicado, algumas coisas tendem a incomodar e é comum vê-lo apontado como um desses típicos blockbusters sem cérebro e cheio de clichês simplistas… Mesmo assim, não sei porque fiz isso, me propus a rever INDEPENDENCE DAY (antes de conferir esta continuação que pintou nos cinemas) correndo riscos de achar um autêntico lixo.

Bom, mas aqui estou, sobrevivi a experiência de rever ID4 (como foi apelidado na época, em referência ao 4 de julho americano, Dia da Independência) vinte anos depois e, para minha surpresa, permanece totalmente assistível, continua uma boa diversão para uma tarde fria de domingo. Claro, envelheceu em alguns aspectos, até mesmo nos efeitos especiais, mas o filme chegou naquele estágio de envelhecimento em que encontra uma certa aura nostálgica, onde tudo funciona, onde traz certas sensações… E onde se percebe que o filme tem realmente suas qualidades.

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Até compreendo as porradas que levou da crítica e do público mais adulto da época, e que continua levando até hoje, mas ID4 é um filme que entende sua audiência e entrega exatamente o que esse público específico deseja. Aliás, não apenas ID4, mas toda a filmografia inspirada em desastres de larga escala do diretor Roland Emmerich. O cara fez GODZILLA, O DIA DEPOIS DE AMANHÃ, 2012, este novo INDEPENDENCE DAY e já prepara um filme em que a lua cai na terra… Sim, o sujeito é obcecado com a ideia de destruição, mas também realizou um dos filmes de ação mais divertidos dos anos 90, com dois astros do gênero favoritos do blog: SOLDADO UNIVERSAL, com Van Damme e Dolph Lundgren. Então o cara tem meu respeito. E sabe exatamente o que quer com seu cinema autoral de destruição, além de ser um fanfarrão que não se leva a sério.

É um pouco como o Michael Bay com o seus TRANSFORMERS. Acho que nunca revelei isso por aqui, mas sou fã dessa franquia (qualquer hora dessas vou escrever sobre todos) e tudo porque ela me entrega exatamente o que eu vou buscar quando me proponho a ver esses filmes: robôs explodindo coisas. Ponto. Não quero saber da construção dos personagens, do roteiro cheio de furos, se os acontecimentos são burros ou possuem lógica, eu estou cagando pra isso, quero ver robôs explodindo coisas! Aliás, eu sou fã do Michael Bay, mas isso é outra história… Voltando ao ID4, me peguei com a mesma sensação de quando vejo TRANSFORMERS.

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Trata-se de um filme de invasão alienígena, invasão hostil ainda por cima, numa escala nunca vista antes no cinema até aquele período. Portanto, a única coisa que importa pra mim, o que eu realmente quero com ID4 é ver esses alienígenas do caralho explodindo o máximo de coisas que puderem! O fato dos cientistas perceberem que uma nave do tamanho do Texas está se aproximando da terra só depois de passar pela lua importa? Quero que se dane… O fato do presidente dos Estados Unidos subir num caça e participar de um combate épico contra os alienígenas faz algum sentido? Não, mas tô cagando pra isso! Não é plausível todos os personagens principais milagrosamente acabem parando juntos no mesmo local? Desculpa, este filme não é pra você…

O que importa são as explosões! Importa o Empire Estate Building sendo explodido de cima a baixo, os carros e pessoas voando, sendo arremessadas, o fogo comendo tudo pelas ruas, aviões, helicópteros e caças em chamas, o cão pulando pra dentro do abrigo no último instante, num enquadramento ridículo, a Casa Branca indo pelos ares! É isso que importa. É isso que torna ID4 a grande experiência cinematográfica que é. O que vier além disso é lucro.

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E o que quero dizer com lucro são pequenos detalhes, pequenos toques de mestre que tornam o filme memorável. Algumas cenas são verdadeiros clássicos… Um crítico da veja escreveu na época que ID4 seria esquecido na temporada seguinte, mas desculpa lá, errou feio. Algumas cenas nunca serão apagadas. Todo o primeiro ataque das naves nas três cidades principais nos EUA (L.A., N.Y. e Washington) já estão cristalizadas nos anais do cinema de catástrofe e a imagem da Casa Branca explodindo é um marco e ícone dos filmes dos anos 90. Ninguém vai apagar isso.

Mas se eu tivesse um blog em 1996 e fizesse uma lista com as melhores cenas de ação do ano, com certeza ia colocar a sequência do primeiro contra-ataque americano investido na grande nave. Os pilotos percebendo o campo de força ao atirar seus mísseis e logo depois uma chuva de naves aliens partem pra cima deles arrasando com tudo, num tom de exagero delicioso. Will Smith consegue escapar numa perseguição deflagradora e com inteligência derruba uma das naves. E aí vem o grande toque de classe. Até então, o filme seguia o estilo Spielberg de não mostrar o visual das criaturas do espaço. Aliás, toda a construção do primeiro ato do filme, desde as sombras que surgem sobre as cidades e seus monumentos, até de fato mostrar alguma coisa é digno de nota. Enfim, encarando o desconhecido, Smith vai até a nave e abre o compartimento. O alien aparece em todo seu resplendor: repugnante, monstruoso e assustador. Eu consigo imaginar várias atitudes que o personagem tomaria. Um susto, sair correndo, cair pra trás, mas nunca imaginei que ia desferir um direto no queixo do alien, nocalteando-o… Caramba! Isso é simplesmente genial! Toda essa sequência termina assim, com um nocaute do alien. Acho que por isso Smith conseguiu aquele papel em ALI, do Michael Mann…

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Enfim, nunca fui fã do Smith, mas até gosto dele aqui, por mais simplória que seja seu personagem. Meu favorito, no entanto, é o especialista em informática Dave, vivido pelo grande Jeff Goldblum, talvez a única figura com uma construção mais elaborada. O filme ainda tem Robert Loggia, Randy Quaid, Adam Baldwin e várias figuras típicas do cinema dos anos 90. Mas destaco o Bill Pullman como o Presidente dos Estados Unidos mais estereotipado da vida! Toda vez que ele aparecia na tela eu rachava o bico! O cara é simplesmente o alívio cômico de ID4 e toda a sua participação é feita de caretas e frases patriotas piegas, o que torna o presidente americano mais cômico e ridículo de toda a história do cinema! Na verdade, a parte patriótica do filme é o que o torna chato em alguns momentos (assim como o excesso de personagens) e certos discursos motivantes dão vontade de vomitar, mas relevando isso, a coisa continua funcionando numa boa.

Eu até teria ainda mais coisas pra falar, ID4 é desses filmes cheio de detalhes, muito rico e que traz muito assunto à tona, como a maneira que o filme reflete o contexto de sua época, a era da informática… Estou falando sério! Estão rindo de que?! Mas realmente não vale o esforço, porque no fim das contas a única coisa que importa são as explosões e um soco no queixo de um alien. É o que torna o filme de Emmerich um autêntico clássico. E gostaria de terminar este singelo texto com esta singela imagem aí debaixo… E que venha este novo INDEPENDENCE DAY, que seja tão ridículo quanto este aqui, mas que daqui a vinte anos alguém perca seu tempo fazendo elogios dizendo o quão ele é divertido…

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MAIS “DIRTY” HARRY

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THE ENFORCER (1976)

A trama principal é sobre um grupo terrorista que rouba uma carga de armamento pesado, incluindo lança mísseis e explosivos para fazer um tremendo estrago, e passa a chantagear os responsáveis pela cidade de São Francisco por alguns milhões de dólares. Novamente cabe a “Dirty” Harry Callahan a missão de investigar e parar os meliantes antes que uma merda muito grande aconteça. Mas isso tudo apenas serve de pretexto para outros propósitos. A ideia essencial de THE ENFORCER é fazer com que Harry trabalhe com um parceiro do sexo feminino. E aqui começam as chateações do protagonista… E também do filme. Ok, era algo relevante àquela altura ressaltar o poder feminino e etc, mas não precisavam fazer a tal parceira, interpretada por Tyne Daly, ser tão impertinente. Acaba prejudicando um bocado o andamento da história.

Por outro lado, THE ENFORCER é, de longe, o episódio da série com mais cenas de nudez. Não, Daly não mostra nada, mas dentre as várias cenas que acontecem durante o filme, há uma sequência de perseguição sobre os terraços de alguns prédios na qual o bandido cai numa claraboia e acaba no meio de uma filmagem de um pornô! E tome pêlos pubianos na tela… Dá até prá ver a manjuba de um sujeito antes de Harry continuar a perseguição. Embora eu considere o capítulo mais fraco da série, THE ENFORCER, dirigido pelo batedor de estaca James Fargo, ainda consegue ser melhor que a grande maioria dos filmes de ação policial realizados nos últimos quinze anos. Temos Clint Eastwood, mais uma vez vivendo um de seus personagens mais marcantes, um elenco bacana, diálogos bem elaborados e algumas boas cenas de ação que ajudam a manter o padrão dos dois exemplares anteriores. Infelizmente, sem nunca atingir o mesmo nível no geral… Saiu no Brasil com o título SEM MEDO DA MORTE.

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Harry Callahan adentra os anos oitenta. Em THE ENFORCER a série já era toda do Clint, o roteiro passou pela sua aprovação, quase chegou a dirigir, mas desistiu pouco antes das filmagens começarem e ele mesmo escolheu James Fargo para substituí-lo. Em IMPACTO FULMINANTE não teve jeito. Mais maduro como cineasta, resolveu assumir o cargo de diretor. E deu certo, o filme é bem melhor que o terceiro e o quinto, só perde mesmo para os dois primeiros (imbatíveis), apesar de ser o capítulo mais deslocado da série.

Na trama, Harry novamente torra a paciência dos seus superiores por causa dos seus métodos nada ortodoxos. Mas dessa vez é afastado de São Francisco e enviado a uma cidade pequena para tentar resolver uma série de assassinatos que vem acontecendo. Só essa mudança de ambientação acaba tornando IMPACTO FULMINANTE o mais singular dentre os exemplares da franquia. Mas o filme vai além. É também o mais sombrio da série e praticamente não possui sequências de ação. Mas confesso que nem senti muita falta deste detalhe. A fórmula do gênero policial mais focada na investigação e no quebra-cabeça muito bem bolado do roteiro é interessante na medida certa. O suficiente para prender a atenção e não me importar com a falta de uns tiros calibre 44. E é evidente que a direção segura e autoral de Clint confere um salto de qualidade a este quarto capítulo.

dirtyharry5_06DEAD POOL (1988)

Sempre ouvi dizer como este último filme da série era ruim pra cacete e constrangedor para o velho Clintão. Fui esperando uma porcaria e acabei encontrando um exagerado filme de ação tão divertido quanto aos vários exemplares do gênero que surgiam naquele período. As pessoas são muito chatas ou eu que sou tolerante demais pra esse tipo de coisa? Tá certo que a trama repete a mesma fórmula dos três primeiros filmes: um serial killer a solta pelas ruas de São Francisco e Callahan precisa resolver a situação mais uma vez à sua maneira, para o desespero dos seus superiores. Mas o filme tem bom ritmo, é divertido e possui boa dose de suspense e tensão. Há também a ideia de uma lista negra rolando com os nomes das vítimas numa espécie de jogo e Harry Callahan faz parte dela.

O elenco é um atrativo a parte. Temos uma Patricia Clarkson no auge da beleza; Liam Neeson fazendo um diretor de filmes de horror todo afetado; e um Jim Carey numa participação especial extremamente ridícula, fazendo back vocal de Welcome to the Jungle, do Gun’s, que por si já pagaria o ingresso do filme. Dirigido pelo coordenador de dublês e assistente de Clint Eastwood, Buddy Van Horn, DEAD POOL traz bons momentos de ação. Nada muito especiais, mas os vários tiroteios são bem secos e classudos… A exceção é uma sequência inacreditável que só poderia ter surgido num filme de ação dos anos oitenta: uma perseguição em alta velocidade pelas ruas de São Francisco na qual um carrinho de controle remoto explosivo bota o velho Clint à pisar fundo no acelerador! Ok, DEAD POOL também possui seus problemas, está longe de ser um MAGNUM 44, tá mais um passatempo que um grande filme. Mas, convenhamos, essa sequência é GENIAL!

DIRTY HARRY NA LISTA NEGRA é o título nacional da bagaça.

MAGNUM 44 (Magnum Force, 1973)

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O fato do policial Harry Callahan ter jogado fora seu distintivo ao final de DIRTY HARRY não valeu absolutamente de nada. O filme ganhou esta primeira continuação dois anos depois e logo no início o personagem de Clint Eastwood já aparece de volta agindo como homem da lei, seguindo ainda os seus princípios anti-sistema, algo que os críticos de cinema na época acusaram de fascismo. Bando de chatos politicamente corretos…

Em MAGNUM 44 não temos um mestre como Don Siegel na direção, calhou de ser o pau-pra-toda-obra Ted Post no comando, mas como temos John Milius e Michael Cimino assinando o roteiro fica fácil. Até o Uwe Boll e o Albert Pyun conseguiriam fazer um bom filme.

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Basicamente, o que temos em MAGNUM 44 é uma série de assassinatos inusitados acontecendo, colocando a força policial e “Dirty” Harry para esquentar os miolos. As vítimas são sempre pessoas do mundo do crime. Mafiosos, cafetões, meliantes procurados pela polícia, e o assassino é sempre um policial fardado com o uniforme da polícia de trânsito. Portanto já podemos perceber uma diferença crucial entre DIRTY HARRY e este aqui. Os bandidos não são serial killers com motivos banais, mas justiceiros que decidem iniciar um trabalho de execução para limpar as ruas de São Francisco.

É difícil alguém ter simpatia pelo Scorpio, vilão do primeiro filme, mas com esses caras de MAGNUM 44 você pode pensar “bem, eles agem mais ou menos como o Harry, não? Possuem a mesma ideologia“. E essa é a beleza da coisa. Nós já conhecemos o personagem de Harry, podemos confiar nele, sabemos que só vai atirar em bandidos armados e ainda soltar uma frase cool logo depois. Mas e esse bando de motoqueiros fardados? Quão fina é a linha traçada que separa “Dirty” Harry desses justiceiros? É algo a se pensar, mas parece que o personagem de Clint Eastwood já sabe a resposta e não quer perder muito tempo com estudos sociológicos. Seu negócio é ação.

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E neste quesito MAGNUM 44 se sai realmente muito bem. O diretor Ted Post segue a linha dos cineastas artesãos que sabem fazer a coisa muita bem feita, embora lhes falte o talento de um Siegel ou Peckinpah. Há boas ideias em termos de ação sendo aproveitadas aqui com muita eficiência, como a sequência de perseguição ao final que culmina numa embarcação abandonada e toda a tensão que é construída para deixar o espectador vidrado. Ajuda bastante a presença de Clint Eastwood em cena acrescentando seu habitual toque de classe.

Os assassinatos e o modo de agir dos justiceiros também são destaques. Lembro que foi o que mais me marcou quando era moleque e assisti de uma fita VHS que meu velho gravou da Globo no final dos anos oitenta. A sensação era de estar vendo um filme de horror… Me dava arrepio como tudo era conduzido de forma seca e brutal, o policial pedindo a carteira de motorista do indivíduo e do nada puxava o revolver e mandava chumbo na cabeça. Agora que já sou grandinho a sensação se perde, fica a lembrança. Mas essas cenas ainda possuem muita força.

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Como adiantei no post de DIRTY HARRY de ontem, tenho uma certa preferência por MAGNUM 44 em relação aos outros episódios do policial mais durão de São Francisco. Ok, o filme que originou a série, dirigido pelo mestre Don Siegel, é um autêntico clássico, isso não tenho dúvida alguma, mas este aqui de alguma maneira supera seu antecessor na minha opinião… Não sei, é mais tenso, pesado, é mais nostálgico e divertido, me traz certos sentimentos que o primeiro não traz. Mas também não preciso me justificar tanto, né? Este aqui é um baita filmaço e pronto!

ESPECIAL DON SIEGEL #24: PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL (Dirty Harry, 1971)

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DIRTY HARRY é desses clássicos quase incontestáveis do cinema badass. Um dos filmes policiais mais influentes do gênero, ao lado de BULLIT e OPERAÇÃO FRANÇA, na renovação do policial americano tendo até inspirado a italianada a desenvolver o poliziesco, o tipo de filme equivalente realizado no país da bota. Além de criar um dos personagens mais controversos do gênero, “Dirty” Harry Callahan, o tira durão que age de acordo com suas próprias leis, cujos ideais nem sempre vão de acordo com os burocráticos métodos da policia e por aí vai…

Atores para encarnar esse tipo de personagem nos anos 70 não faltavam. Charles Bronson, Burt Reynolds, Lee Marvin, Warren Oates, enfim, a lista é gigantescas de figuras cascas-grossas que dariam vida com perfeição a “Dirty” Harry. Aliás, DIRTY HARRY foi originalmente anunciado tendo Frank Sinatra no papel título. O sujeito vinha fazendo personagens interessantes no fim dos anos sessenta em thrillers policiais e de ação. Mas antes de ser o escolhido, John Wayne, Steve McQueen e Paul Newman também estavam brigando pelo papel. Porém, quando Sinatra desistiu, quem acabou encarnando Harry Callahan foi mesmo o bom e velho Clint Eastwood.

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Eastwood já era um rosto conhecido após a enorme popularidade da trilogia de Spaghetti Westerns que fez com Sergio Leone, além de outras produções, mas foi com “Dirty” Harry que o sujeito atingiu o merecido status de grande astro de Hollywood naquele período por parte do público, que encarou o filme como um thriller de ação dos bons, e não como o produto fascista que alguns críticos apontavam. Sim, “Dirty” Harry tortura e mata bandido sem qualquer remorso… Me chamem de reacionário, mas no cinema e apenas no cinema isso é bom demais!

Com Sinatra pulando fora, o diretor original Irvin Kershner também não quis mais saber do projeto. Melhor pra nós, já que Don Siegel, o intelectual da ação, que já havia dirigido Clint antes diversas vezes, acabou assumindo o posto em mais uma parceria com o ator e fez bonito como sempre. Não faltam por aqui momentos classudos para entrar no currículo do diretor, como a clássica sequência do início, na qual Callahan impede um roubo a banco e aproveita para soltar um de seus discursos mais celebrados:

I know what you’re thinking, punk. You’re thinking “did he fire six shots or only five?” Now to tell you the truth I forgot myself in all this excitement. But being this is a .44 Magnum, the most powerful handgun in the world and will blow you head clean off, you’ve gotta ask yourself a question: “Do I feel lucky?” Well, do ya, punk?

Cortesia de alguns bons roteiristas daquele período do cinema americano, incluindo John Milius, que trabalhou numa das primeiras versões do script.

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Um detalhe que ajudou muito para o sucesso do filme na época, e que talvez não seja um fato tão conhecido assim, é que  DIRTY HARRY foi inspirado na série de assassinatos reais cometidos pelo serial killer chamado Zodíaco. Aquele mesmo que acabou virando um filme bem mais realista nas mãos do David Fincher em 2007. Um baita filmaço, aliás… Mas uma diferença crucial, obviamente, é que por aqui não há moleza para um assassino tendo um policial casca-grossa como “Dirty” Harry Callahan em seu encalço.

Clint Eastwood tem aqui uma atuação magnífica, daquelas que dá pra perceber que o sujeito realmente entende o personagem. E que presença que o sujeito tem na tela! “Dirty” Harry é um ícone, sem dúvida alguma! A cena na qual o bandido mantém um ônibus escolar como refém e avista de longe a figura de Dirty Harry estática, fria, esperando tranquilamente em cima de uma ponte, pronto para fazer sua magnum 44 cuspir chumbo grosso, é algo que não dá para esquecer facilmente.

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Na direção, o estilo de Siegel é magistral, como não poderia ser diferente. DIRTY HARRY praticamente sintetiza tudo o que eu disse em todos outros textos sobre o estilo de direção do homem: simples, cru, essencial… Quando se pensa em DIRTY HARRY, você não necessariamente pensa em grandes sequências de tiroteios e perseguições mirabolantes,  ou enquadramentos e movimentos de câmera elaborados. Você simplesmente pensa que temos aqui um filme bom pra porra, com um personagem principal badass pra caceta! E é exatamente isso que Siegel quer, que o espectador aprecie o grande filme que está diante dos olhos sem interferir, sem chamar a atenção para o seu trabalho. Mas obviamente está tudo lá em termos de direção, é surpreendente como tudo é bem construído, sem pressa, só filmando o essencial… E é evidente que as cenas de ação resultam em momentos de encher os olhos sem precisar agitar a câmera ou acelerar os cortes. Em tempos de HARDCORE HENRY, isso aqui é mágico.

DIRTY HARRY acabou tendo quatro sequências que vou postar logo a seguir… E vejam só, mesmo este aqui sendo essa grandiosidade, gosto mais de MAGNUM FORCE, o segundo filme da série. Mas, questão de gosto pessoal mesmo… A série de filmes do policial “Dirty” Harry Callahan é toda boa, com alguns mais interessantes, como IMPACTO FULMINANTE, outros mais fracos, como THE ENFORCER, mas nunca deixam de divertir com um dos policiais mais controversos do cinema. E os chatos de plantão podem achar o filme fascista ou não, eu prefiro ressaltar a importância que DIRTY HARRY teve para o gênero, a direção magistral de Don Siegel, a atuação de Clint e de Andrew Robinson como Scorpion, o tal serial killer, as sequências de ação pelas ruas de São Francisco e a sensacional trilha de Lalo Schifrin. O resto é resto.