ESPECIAL DON SIEGEL #20: MEU NOME É COOGAN (Coogan’s Bluff, 1968)

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Depois de quatro faroestes altamente lucrativos (a Trilogia dos Dólares, de Sergio Leone, e A MARCA DA FORCA), MEU NOME É COOGAN coloca Clint Eastwood a viver novas aventuras agora no “mundo moderno”. O filme também dá início a uma das parcerias mais significativas do cinema badass, entre o diretor Don Siegel e o seu pupilo e ator principal, Eastwood, resultando cinco grandes obras que marcam essa reta final da carreira do diretor: além deste aqui, temos OS ABUTRES TÊM FOME, THE BEGUILED, DIRTY HARRY e o espetacular FUGA DE ALCATRAZ. Mas acalmem-se, ainda vamos chegar nesses exemplares, porque antes temos MEU NOME É COOGAN pela frente.

A transição do homem do velho oeste para o homem contemporâneo, no caso de Clint Eastwood, aconteceu de forma gradativa. Seu “homem moderno” não é tão moderno assim. Na verdade, é como se pegasse o cowboy mais matuto e reacionário do final do século IXX e o colocasse numa máquina do tempo para o final dos anos 60 e o soltasse em plenas ruas de Nova York. O resultado não seria muito diferente. Portanto, tirando o fato que Coogan surge em cena no início do filme dirigindo um jipe ao invés de montar um cavalo, a composição de seu personagem não é tão distinta do que tinha feito até então. A abertura de MEU NOME É COOGAN é todo faroeste, com Coogan, um assistente de xerife, buscando rastros no deserto do Arizona para capturar um índio que matara uma mulher.

Coogan's Bluff

Após algumas desavenças com seu superior, Coogan recebe uma missão atípica. É despachado até a grande cidade de Nova York para extraditar um assassino, Ringerman (Don Stroud), de volta ao Arizona. E aí que a coisa fica ainda melhor. O sujeito dá de cara com os longos trâmites do processo de extradição e a espera da boa vontade de juízes em assinar papeladas sem fim, ou seja, com a boa e velha burocracia. O tipo de coisa que não entra na cabeça do nosso amigo anacrônico. Logo, Coogan se vê burlando algumas etapas, consegue a liberação do prisioneiro, mas acaba emboscado no aeroporto, leva uma pancada na cabeça, e o bandido foge sem deixar rastros.

Em maus lençóis com a polícia local, especialmente com o chefe McElroy, vivido em estado de graça por Lee J. Cobb, Coogan agora se encontra totalmente fora da sua zona de conforto, vestindo um suntuoso chapéu de cowboy e grandes botinas em plena Nova York, tendo que responder a todo mundo que veio do Arizona quando lhe perguntam se ele é do Texas. E ainda tem um criminoso a recuperar… Mas isso acaba sendo apenas o MacGuffin, como diria Hitchcock, é o que menos importa. O que realmente faz MEU NOME É COOGAN um grande filme é esse estudo de choque cultural, é colocar essa figura pictórica, que é Coogan, fora do seu “habitat natural”, solto nas áreas urbanas da cidade grande. Não apenas a ideia do xerife fora do seu território, mas a de um sujeito totalmente anacrônico que não está nada familiarizado com o estilo de vida agitada da cidade grande, a cultura lisérgica hippie, a atmosfera do final dos anos 1960 e a descoberta desse universo da pior maneira possível.

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O que gera momentos impagáveis, desde a primeira vez que entra num táxi até entrar num club noturno movido a LSD. Mas como estamos diante de um filme policial e, principalmente, dirigido pelo Don Siegel, é óbvio que teremos algumas cenas de ação que servem muito bem à narrativa. Até porque Coogan não economiza pancadas para tentar encontrar seu algoz, inclusive enfrentando um grupo de mal encarados num bar entre mesas de sinuca, e até batendo em mulher… tudo filmado com a secura habitual que marca o estilo do diretor. A maneira como utiliza o cenário na cena da briga no bar é coisa de mestre. O que leva à sequência final, uma perseguição de moto em alta velocidade que é de uma inventividade absurda. Siegel já tinha chegado ao seu ponto máximo como gênio do cinema badass aqui e basta ver MEU NOME É COOGAN pra confirmar.

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Enfim, pra finalizar, Clint Eastwood está muito à vontade, com a língua afiada e engraçado no papel de Coogan (o filme tem uma leveza cômica típica de um Blake Edwards ou Jerry Lewis, e algumas situações que o personagem se coloca são mesmo hilárias), as cenas de ação são da melhor qualidade e a trilha sonora de Lalo Schifrin é ótima e muito bem explorada. Mas o que vale mesmo é ficar atento aos detalhes desses estudo de choque cultural, que torna o filme tão interessante. Acabou gerando um seriado nos anos 70, chamado McCLOUD, estrelado por Dennis Weaver, e criado por Herman Miller, que foi quem escreveu o primeiro tratamento de MEU NOME É COOGAN, já pensando num piloto para a TV, antes de cair nas mãos de Don Siegel e se transformar neste filmaço.

Acho que inicia-se agora a fase mais interessante do Especial Don Siegel. Não exatamente pela qualidade dos filmes, vários já comentados estão entre os melhores da carreira do homem, como VAMPIROS DE ALMAS, THE LINE UP, FLAMING STAR, THE KILLERS, OS IMPIEDOSOS, todos esses entrariam no meu Top 10 facilmente. Obviamente falta aparecer também algumas obras-primas, como THE BEGUILED e CHARLEY VARRICK. Mas aqui começa a aparecer os filmes mais conhecidos do público, os mais comerciais, os exemplares que caíram na graça da moçada, digamos assim… Portanto, stay tunned!

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4 respostas para ESPECIAL DON SIEGEL #20: MEU NOME É COOGAN (Coogan’s Bluff, 1968)

  1. Artur Alves disse:

    SPOLIER: na minha impressão, um cena irônica aconteceu bem no finalzinho, quando Coogan oferece ao prisioneiro um cigarro, eu fiquei pensando comigo: ” porra, o cara penou pra extraditar um cara que tem porte de drogas na sua ficha criminal, ai quando chega no final o cara oferece UMA DROGA pro cara na maior tranquilidade ” não sei se é maluquice da minha cabeça, mas o Siegel poderia ter deixado tal cena lá na sala de edição, mas deixou ela no filme e mostrada antes dos créditos do filme, SEGEL É DEUS !!!

  2. Marcelo disse:

    Raylan Givens da série Justified me parece muito claramente uma releitura do grande personagem do Eastwood aqui. Toda a questão do choque cultural (chapéu, conservadorismo, etc …) também é mostrada nessa série.

    Filmaço. Destaque para a cena no bar de sinuca e para a cena inicial.

  3. Clint tem um estilo todo próprio que funcionava perfeitamente em cenas cômicas.

  4. Anselmo Luiz disse:

    Filmaço! Eu não deixava de assisti-lo quando passava na TV. Don Siegel está otimo na direção e Clint Eastwood está excelente na pele desta policial Coogan. Este filme é embrião do Dirty Harry, é o que todo mundo escreve por ai, pena que o filme já não passa há anos na TV Aberta. Eu ate lembro quem dublou Clint neste filme foi o falecido Gervasio Marques, a voz do Batman com Adam West. Foi dublado pela A.I.C – São Paulo. Pena que o DVD lançado pela Universal Video não foi lançado com essa dublagem e, por ultimo, agora sim vai começar os posts dos filmes balas de Siegel e só aguardar o que vem por ai… então até mais, Perrone!

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