LISTEN TO ME MARLON (2015)

29LISTEN-facebookJumbo-v2

Marlon Brando é um dos meus atores favoritos. Desses cânones do cinema, difícil encontrar alguém que não o admire como ator ou respeite seu talento, independente da personalidade que aparentemente apresentava fora das telas. Aliás, que personalidade! Uma figura tão misteriosa e complexa, ao mesmo tempo marcado como arrogante e interesseiro… Bom, hoje eu vi um documentário chamado LISTEN TO ME MARLON, que se não demonstra exatamente quem era Brando, ao menos dá uma ajuda para compreender melhor o ser humano por trás do mito.

O título sugere uma espécie de fluxo de consciência na qual o filme se baseia, que são as gravações de áudio que Brando fez ao longo das década como auto-análise. Ironicamente, sua intenção também era usar esse material como base para um documentário autobiográfico que contaria o “seu lado dos fatos”, relacionando sua vida pessoal e a carreira, como um dos atores mais geniais que já pisaram num set de filmagem.

apocalypse-nowlast-tango-in-paris-5

Tal como aconteceu com vários outros projetos do ator que nunca foram pra frente, seu doc nunca viu à luz do dia. No entanto, o diretor Stevan Riley teve acesso às gravações do próprio Brando e resolveu arriscar a empreitada. O resultado é um trabalho fascinante, um olhar sobre a trajetória de Brando através de suas próprias palavras, desde sua juventude conturbada, o sucesso como ator, o declínio e até os seus torturantes dias finais, assolado pelas famigeradas tragédias familiares.

A carreira de Brando é notória. As várias obras-primas que se meteu, os grandes personagens que já interpretou, tudo isso é passado com bastante interesse por Riley, com os devidos destaques para, por exemplo, O PODEROSO CHEFÃO, O ÚLTIMO TANGO EM PARIS e APOCALIPSE NOW. Mas o que mais me chama a atenção é justamente poder ouvir da sua boca, como um narrador inconsciente, sua opinião e reflexão não apenas diante dessas experiências como ator e o universo do cinema, mas especialmente sobre seus medos pessoais, sobre o mundo, as pessoas e a vida. Entendam, não existe uma narração convencional ou entrevistas com “pessoas próximas”. É praticamente o áudio de Marlon Brando divagando em cima das imagens dos filmes, fotos, filmagens caseiras… Isso é genial.

thumbnail_22004

Há vários momentos em LISTEN TO ME MARLON em que Brando verbaliza como ele se considerava um pai de família falho, uma situação que fica ainda mais evidenciada pelos acontecimentos dramáticos com seus filhos, Christian e Cheyenne, na última parte da vida. Brando viu Christian ser preso por assassinar o namorado de Cheyenne, e o subsequente suicídio de Cheyenne alguns anos mais tarde. Num devastador julgamento público, vemos Brando, que sempre tentou manter sua vida privada, rompendo em lágrimas enquanto lamenta seu fracasso como pai. O filme mostra que o próprio ator foi submetido a uma relação tensa com seu pai, um homem frio e insensível, e isso teria moldado sua forma de ser. Ao final, Brando conclui suas reflexões apontando que ele, seu pai, também teria uma vida difícil, fora abandonado pela mãe, e se tornou um produto dessa experiência.

Enfim, para quem tem interesse num dos grandes monstros do cinema, um dos maiores atores de todos os tempos, que foi Marlon Brando, é bem provável que encontre aqui um material curioso para se debruçar.

Anúncios

ESPECIAL DON SIEGEL #20: MEU NOME É COOGAN (Coogan’s Bluff, 1968)

tumblr_nb1lb8BtRj1rx2gbbo1_540

Depois de quatro faroestes altamente lucrativos (a Trilogia dos Dólares, de Sergio Leone, e A MARCA DA FORCA), MEU NOME É COOGAN coloca Clint Eastwood a viver novas aventuras agora no “mundo moderno”. O filme também dá início a uma das parcerias mais significativas do cinema badass, entre o diretor Don Siegel e o seu pupilo e ator principal, Eastwood, resultando cinco grandes obras que marcam essa reta final da carreira do diretor: além deste aqui, temos OS ABUTRES TÊM FOME, THE BEGUILED, DIRTY HARRY e o espetacular FUGA DE ALCATRAZ. Mas acalmem-se, ainda vamos chegar nesses exemplares, porque antes temos MEU NOME É COOGAN pela frente.

A transição do homem do velho oeste para o homem contemporâneo, no caso de Clint Eastwood, aconteceu de forma gradativa. Seu “homem moderno” não é tão moderno assim. Na verdade, é como se pegasse o cowboy mais matuto e reacionário do final do século IXX e o colocasse numa máquina do tempo para o final dos anos 60 e o soltasse em plenas ruas de Nova York. O resultado não seria muito diferente. Portanto, tirando o fato que Coogan surge em cena no início do filme dirigindo um jipe ao invés de montar um cavalo, a composição de seu personagem não é tão distinta do que tinha feito até então. A abertura de MEU NOME É COOGAN é todo faroeste, com Coogan, um assistente de xerife, buscando rastros no deserto do Arizona para capturar um índio que matara uma mulher.

Coogan's Bluff

Após algumas desavenças com seu superior, Coogan recebe uma missão atípica. É despachado até a grande cidade de Nova York para extraditar um assassino, Ringerman (Don Stroud), de volta ao Arizona. E aí que a coisa fica ainda melhor. O sujeito dá de cara com os longos trâmites do processo de extradição e a espera da boa vontade de juízes em assinar papeladas sem fim, ou seja, com a boa e velha burocracia. O tipo de coisa que não entra na cabeça do nosso amigo anacrônico. Logo, Coogan se vê burlando algumas etapas, consegue a liberação do prisioneiro, mas acaba emboscado no aeroporto, leva uma pancada na cabeça, e o bandido foge sem deixar rastros.

Em maus lençóis com a polícia local, especialmente com o chefe McElroy, vivido em estado de graça por Lee J. Cobb, Coogan agora se encontra totalmente fora da sua zona de conforto, vestindo um suntuoso chapéu de cowboy e grandes botinas em plena Nova York, tendo que responder a todo mundo que veio do Arizona quando lhe perguntam se ele é do Texas. E ainda tem um criminoso a recuperar… Mas isso acaba sendo apenas o MacGuffin, como diria Hitchcock, é o que menos importa. O que realmente faz MEU NOME É COOGAN um grande filme é esse estudo de choque cultural, é colocar essa figura pictórica, que é Coogan, fora do seu “habitat natural”, solto nas áreas urbanas da cidade grande. Não apenas a ideia do xerife fora do seu território, mas a de um sujeito totalmente anacrônico que não está nada familiarizado com o estilo de vida agitada da cidade grande, a cultura lisérgica hippie, a atmosfera do final dos anos 1960 e a descoberta desse universo da pior maneira possível.

tumblr_lrggz2962c1qk55epo1_1280

O que gera momentos impagáveis, desde a primeira vez que entra num táxi até entrar num club noturno movido a LSD. Mas como estamos diante de um filme policial e, principalmente, dirigido pelo Don Siegel, é óbvio que teremos algumas cenas de ação que servem muito bem à narrativa. Até porque Coogan não economiza pancadas para tentar encontrar seu algoz, inclusive enfrentando um grupo de mal encarados num bar entre mesas de sinuca, e até batendo em mulher… tudo filmado com a secura habitual que marca o estilo do diretor. A maneira como utiliza o cenário na cena da briga no bar é coisa de mestre. O que leva à sequência final, uma perseguição de moto em alta velocidade que é de uma inventividade absurda. Siegel já tinha chegado ao seu ponto máximo como gênio do cinema badass aqui e basta ver MEU NOME É COOGAN pra confirmar.

55555-3

vlcsnap-2012-10-26-13h11m23s207

Enfim, pra finalizar, Clint Eastwood está muito à vontade, com a língua afiada e engraçado no papel de Coogan (o filme tem uma leveza cômica típica de um Blake Edwards ou Jerry Lewis, e algumas situações que o personagem se coloca são mesmo hilárias), as cenas de ação são da melhor qualidade e a trilha sonora de Lalo Schifrin é ótima e muito bem explorada. Mas o que vale mesmo é ficar atento aos detalhes desses estudo de choque cultural, que torna o filme tão interessante. Acabou gerando um seriado nos anos 70, chamado McCLOUD, estrelado por Dennis Weaver, e criado por Herman Miller, que foi quem escreveu o primeiro tratamento de MEU NOME É COOGAN, já pensando num piloto para a TV, antes de cair nas mãos de Don Siegel e se transformar neste filmaço.

Acho que inicia-se agora a fase mais interessante do Especial Don Siegel. Não exatamente pela qualidade dos filmes, vários já comentados estão entre os melhores da carreira do homem, como VAMPIROS DE ALMAS, THE LINE UP, FLAMING STAR, THE KILLERS, OS IMPIEDOSOS, todos esses entrariam no meu Top 10 facilmente. Obviamente falta aparecer também algumas obras-primas, como THE BEGUILED e CHARLEY VARRICK. Mas aqui começa a aparecer os filmes mais conhecidos do público, os mais comerciais, os exemplares que caíram na graça da moçada, digamos assim… Portanto, stay tunned!

FILMES DE MARÇO

Março foi melhor que fevereiro em quantidade de filmes vistos. Em compensação o blog ficou mais abandonado novamente… Mas teve seus motivos, foi um mês de mudanças, pelo menos pra mim, que agora mudei para São Paulo e estou atrás de trabalho… Não dá pra ficar dando tanta atenção ao blog nesse tipo de situação. Mas vamos aos filmes.

“Novos”
HARRY POTTER E O CÁLICE DE FOGO (2005), de Mike Newell ★ ★ ★
HARRY POTTER E A ORDEM DA FÊNIX (2007), de David Yates ★ ★ ★
HARRY POTTER E O ENIGMA DO PRÍNCIPE (2009), de David Yates ★ ★
HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE – PARTE 1 (2010), de David Yates ★ ★ ★
HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE – PARTE 2 (2010), de David Yates ★ ★ ★
No fim das contas, até que a série não deixa de ser divertida…
THE VVITCH – A NEW-ENGLAND FOLKTALE (2016), de Robert Eggers ★ ★ ★ ★
IRRATIONAL MAN (2015), de Woody Allen ★ ★ ★
KNIGHT OF CUPS (2015), de Terrence Malick ★
RYUZO AND THE SEVEN HENCHMEN (2015), de Takeshi Kitano ★ ★ ★
DEADPOOL (2016), de Tim Miller ★ ★ ★
BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (2016), de Zack Snyder ★ ★

“Velhos”
MORTALMENTE PERIGOSA (Gun Crazy, 1950), de Joseph H. Lewis ★ ★ ★ ★ ★
PECADO SEM MÁCULA (Side Street, 1949), de Anthony Mann ★ ★ ★ ★
OUT OF THE PAST (1947), de Jacques Tourneur ★ ★ ★ ★ ★ – REVISÃO
DEATHSTALKER II (1987), de Jim Wynorski ★ ★ ★
DELIRIUM (Le Foto di Gioia, 1987), de Lamberto Bava ★ ★ ★
DUBLÊ DE CORPO (Body Double, 1984), de Brian de Palma ★ ★ ★ ★ ½ – REVISÃO
A MONTANHA SAGRADA (1973), de Alejandro Jodorowsky ★ ★ ★ ★ ★ – REVISÃO