MARATONA RICHARD KERN

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Numa noite dessas qualquer perdi o sono e resolvi assistir alguns trabalhos do Richard Kern pra ver se conseguia voltar a dormir… Mas acabei tendo uma das experiências mais transgressivas que tive até hoje em termos de cinema. Mas peralá… Richard quem?

Richard Kern foi o principal representante do cinema underground novaiorquino surgido no início dos anos oitenta conhecido como “Cinema of Transgression“, movimento oriundo do cenário Punk local, que era marcado por produções audiovisuais de orçamentos quase zero, alguns filmados em Super 8 ou com câmera VHS, mas de um radicalismo que extrapolava qualquer ideia do que era ou não aceitável nas convenções fílmicas. Trata-se de uma série de curtas-metragens perturbadores, muitos deles vazios só pra criar um choque e provocar, “mas inegavelmente estimulantes em sua rebeldia desaforada“, como dizia o grande Carlão Reichenbach, que era entusiasta do grupo formado, além de Kern, por atores e artistas como Nick Zedd, Lydia Lunch, David Wojnarowicz e vários outros malucos que aceitavam todo o tipo de ultraje em prol de um cinema livre…

Aliás, uma história que o Carlão relata em um artigo, diz que Kern e Zedd tentaram realmente chegar ao fundo do poço, num projeto de realização de um autêntico snuff movie, ou seja, filme com morte real. “Contrataram uma prostituta bonita que -segundo amigos- estava com os dias contados por causa de um câncer terminal. A dupla arrumou dinheiro emprestado e combinou pagar metade do cachê um dia antes das filmagens. A futura estrela embolsou a grana e deu no pé. A longa e inútil noite de espera terminou com uma bebedeira memorável e risadas sem fim da própria babaquice.” Só pra ter uma noção do que esses caras eram capazes…

Mas vamos aos curtas. Todos eles saíram em uma edição de DVD pela RaroVideo lá nos estrangeiros, chamada “New York Underground Collection – Richard Kern“. Possui uma bela amostra para iniciar e se aventurar no cinema subversivo de Kern e sua turma.

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THE RIGHT SIDE OF MY BRAIN (1985, 23 min.)
Lydia Lunch passa os 23 minutos deste curta exprimindo suas reflexões e divagações sobre sexo e sua própria existência numa narração em off em cima das imagens da atriz se masturbando ou se relacionando sexualmente com outros homens, com direito a uma cena em que Lunch realiza um sexo oral explícito no grande Henry Rollins, quando era vocalista de banda Punk em Nova York. Trabalhinho interessante, vale muito pelas imagens e a estética underground que Kern cristaliza com sua câmera e pelo texto na voz de Lydia Lunch.

MANHATTAN LOVE SUICIDES (1985, 35 min.)
Dividido em quatro capítulos bem bizarros, trata-se de uma coleção de curtas que faz um bom apanhado do trabalho de Kern e suas idiossincrasias.
STRAY DOGS é sobre um artista que é seguido pelas ruas por um fã totalmente surtado, vivido por David Wojnarowicz, até chegarem na casa do primeiro. Lá, o fã é ignorado pelo artista, que fica pintando um quadro, até que coisas absurdas começam a acontecer, como o fã ficar tão nervoso e excitado que sangue começa a jorrar da veia do pescoço ou seu braço se soltar do seu corpo e cair no chão, sem mais nem menos…
WOMAN AT THE WHEEL é sobre uma mulher que acabou de comprar um carro, mas todos os caras que ela sai, nunca a deixam dirigir. Ela passa todo o episódio reclamando, já que o carro é dela, e quando finalmente se coloca atrás do volante, acerta o carro contra um muro.
TRUST IN ME trata de uma mulher que resolve se matar numa banheira. Ao mesmo tempo, seu namorado caminha pelas ruelas sujas de Nova York em direção ao seu apartamento. Ao chegar no local, vê a mulher morta e resolve colocar a manjuba pra fora e inserir na boca da defunta até ejacular… Ambos os papeis são encarnados por Nick Zedd.
I HATE YOU NOW apresenta um traficante de drogas facialmente deformado e sua namorada. O vídeo faz uma reflexão sobre a noção de deformidade e feiura antes de terminar com a moça queimando o próprio rosto com um ferro de passar roupas enquanto o sujeito resolve se matar deixando cair um altere de musculação no seu pescoço. Coisa linda…

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SUBMITE TO ME (1985, 9 min.)
Uma espécie de videoclip experimental, sem narrativa, de uma música da banda de rock alternativo Butthole Surfers, que começa com garotas com pouca roupa se insinuando para a câmera, e gradativamente vai ficando mais sinistro e dark, com imagens realmente perturbadoras e violentas, envolvendo drogas injetadas, sadomasoquismo e bondage, numa câmera frenética e nervosa.

YOU KILLED ME FIRST (1985, 11 min.)
Um drama familiar por Richard Kern: Lung Leg interpreta a adolescente rebelde de uma família tradicional e certinha, que pós várias situações de opressão, decide acertar as contas com seus familiares, botando uma bala na cabeça de cada um, na mesa de jantar. Encenações de cenas dramáticas não é o forte de Kern e sua trupe, nesse que é um dos seus trabalhos que melhor se insere nos padrões narrativos convencionais, mas é perfeito dentro da proposta underground, tocando o foda-se  e criando imagens provocativas que fazem pouca concessão ao público.

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FINGERED (1988, 25 min.)
O mesmo vale para este aqui, talvez a obra mais conhecida de Kern e que também segue uma lógica narrativa tradicional, mas seguindo a linha de que não é cinema para se apreciar, mas para incomodar e desconcertar. John Waters chamou o filme de “the ultimate date movie for psychos”. Lydia Lunch interpreta uma prostituta e operadora de sex phone que atende um cliente, numa cena hardcore onde o sujeito enfia os dedos nas partes íntimas da atriz, uma alusão ao título do filme… A coisa fica frenética a partir disso. Ambos vão pra rua, o rapaz corta a garganta de um homem que olha para Lydia, depois fogem de carro, deixam um rastro de sangue, trepam, sequestram uma moça que pede carona e terminam estuprando e espancando a coitada. A essência do cinema underground de Kern condensada em 25 minutos de subversão fílmica das mais agressivas. Destaque para o desempenho dos dois protagonistas, especialmente Lygia, que se deixa entrar em situações que fariam os moralistas de plantão arregalarem os olhos, o que inclui ser penetrada de algumas formas, até pelo cano de um revolver. Acabou virando musa do cinema underground no período. A estética suja, num preto e branco granulado também contribui bastante… Filmaço!

THE EVIL CAMERAMAN (1990, 12 min.)
Sujeito leva uma japonesinha magrela para determinado espaço, despe-a e começa a amarrá-la com um arame. Depois, uma loura passa pelo mesmo tratamento, mas é amarrada de outra maneira, em outra posição, com outro material… E assim segue mais algumas vezes, com novas mulheres e outras formas de explorá-las… Não faço ideia do que Kern queria aqui, mas trata-se de um vídeo experimental sobre esse sujeito que cria essas instalações artísticas femininas e, ocasionalmente, tenta boliná-las ou coloca o pau pra fora perto delas… Enfim, taradices, revoltas artísticas, cinema underground

E fico por aqui, por enquanto. Depois desse último, o sono acabou voltando e eu consegui dormir. Mas ficaram faltando alguns curtas ainda para assistir e quando o fizer, comento mais Richard Kern por aqui.

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2 pensamentos sobre “MARATONA RICHARD KERN

  1. Pingback: Henry Rollins e Lydia Lunch em um filme violento e tarado - IdeaFixa

  2. Esses filmes underground que voce mencionou no seu blog devem ser do cacete ,não conheço o seu diretor alias! nunca ouvi dizer é o seu sujeito.. mas lendo o seus comentarios ao analisar os seus filmes do sujeito deu vontade de assisti-los ,nota 10 pro cara, cinema underground é isso mesmo,curto,obscuro, transgressor e sem frescura.

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