ANGELS HARD AS THEY COME (1971)

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Jonathan Demme é mais lembrado por algumas obras de peso em Hollywood no início dos anos 90. No entanto, sua estreia no cinema foi mesmo com exploitations vagabundos de baixo orçamento. E o responsável por colocá-lo nessa posição não poderia ser ninguém exceto o mestre Roger Corman. Demme trabalhava com produção de filmes publicitários e acabou se encontrando com o Rei dos B Movies, que não quis perder muito tempo e lhe perguntou:

Ei, garoto, gostas de filmes de motocicleta?
Sim, Roger. Particularmente, gosto muito do seu THE WILD ANGELS (66) – respondeu Demme.
Ok, ótimo! Por que você não escreve um roteiro para um filme de motocicleta pra mim?

Bem, talvez não tenha sido com essas palavras exatas, mas segundo depoimentos do próprio Demme a coisa funcionou mais ou menos desse modo. O futuro diretor tinha então vinte e quatro anos e um parceiro, Joe Viola, que dirigia os filmes publicitários que produzia. Demme e Viola se reuniram e escreveram uma ideia que a princípio seria uma versão motorizada de RASHOMON, mas com muitas cenas de sexo e violência, algo que agradou bastante o Corman. Depois de escrito, a dupla sentou num café em Londres com o velho produtor e este leu cada uma das oitenta páginas do roteiro enquanto Demme e Viola esperavam em sua frente. Quando acabou, disse apenas “Humm… Isso aqui é muito bom! Acho que podemos fazer. Joe, você já é diretor de comerciais, e Jonathan, você é quem os produz. Por que vocês não vão à L.A. daqui a dois meses e realizam o filme?”. E foi assim que tudo começou para Demme. Vinte anos depois, o sujeito ganharia o Oscar de melhor diretor por O SILÊNCIO DOS INOCENTES.

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E o resultado é este ANGELS HARD AS THEY COME, que foi realmente dirigido pelo Viola enquanto Demme ocupou da produção. E no fim das contas, tem pouco, muito pouco a ver com o filme do Kurosawa que teoricamente fora inspirado. Mas cumpre o que promete, trata-se de um filme de gangues motocicletas com bastante sangue, muita pancadaria e vários peitinhos de fora… E embora eu ainda tenha uma porrada de exemplares para conferir, sempre tive uma queda por Biker Movies desse período. Até os filmes ruins acabam sendo divertidos. Não sei, são muitos atrativos juntos pra se ver… Personagens sujos e bêbados em festas, mijando uns nos outros, apostando corridas, arrastando pessoas amarradas em suas motos, mulheres desavergonhadas, enfim, todas essas coisas boas. E ANGELS HARD AS THEY COME acaba por ter tudo isso ao nosso dispor.

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Scott Glenn, também fazendo sua estreia, é Long John, um motoqueiro, membro de uma gangue, que resolve matar um tempo durante um serviço de tráfico de drogas e decide dar uma olhada numa espécie de cidade do velho oeste abandonada que hoje é povoada por membros dos Hell’s Angels e alguns Hippies. Lá ele se apaixona por uma loirinha riponga com aspirações artísticas e começa um namorico. Só que não dura muito tempo, porque numa confusão durante uma festa à noite, a moça acaba assassinada. O General (Charles Dierkop), que comanda o recinto, culpa John e seus comparsas do crime e mete-os na cadeia local. Logo a seguir, rola até um julgamento, os visitantes são considerados culpados e passam por todo o tipo de humilhações. Até que um dos hippies, vivido por Gary Busey, também fazendo seu debut, resolve ajudar os pobres motoqueiros…

Uma coisa que torna ANGELS HARD AS THEY COME tão legal é que ele se parece mais com um western do que um filme de motocicletas, com uma estética de faroeste repleto de elementos que o diferencia de outros filmes do gênero. A própria configuração da cidade fantasma é uma referência óbvia. Mas também pela capacidade de Demme e Viola de colocarem o máximo de situações bizarras à narrativa, suficiente para tornar o filme memorável. As cenas de torturas são engraçadas e quando vemos o personagem de Scott Glenn sendo puxado por uma corda amarrada numa moto, pode ter certeza que foi o próprio Glenn quem estava esfolando o peito no terreno. Mas uma das minhas cenas favoritas é a que um dos companheiros de Long John consegue escapar e vaga pelo deserto até encontrar um casal excêntrico num buggy…

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Vale destacar também as atuações. Glenn está excelente como protagonista, tem muita presença. Sempre teve, aliás. Mas a melhor coisa do filme é Dierkop, o General, que já seria genial só pelo seu desempenho apresentado aqui, mas o cara ainda possui um capacete com uma ponta que utiliza para enfiar na barriga de um sujeito… Algo que não se vê todo dia. E ainda temos Gary Busey como hippie pacifista… Como não amar ANGELS HARD AS THEY COME?

Jonathan Demme só viria a assumir o cargo de diretor três anos depois com o WIP (Woman in Prison) CAGED HEAT, outra bagaceira produzida pelo Corman. Já o Joe Viola só possui mais um crédito como diretor de longas, THE HOT BOX, nova parceria com Demme em mais uma produção de Corman. Depois o cara se meteu a escrever roteiro de séries, especialmente nos anos 90. Mas o que é legal mesmo nessas pesquisas e descobertas é perceber a origem de algumas figuras, de onde vieram, para onde vão… Por mais que curta alguns trabalhos do Demme nos anos 80 e 90, o meu gosto pessoal me faz optar por apreciar bem mais essas tranqueiras, e foram várias, que realizou nos anos 70.

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3 pensamentos sobre “ANGELS HARD AS THEY COME (1971)

  1. Pingback: CAGED HEAT (1974) | O homem dos olhos de raio-x

  2. Pingback: THE HOT BOX, aka HELL CATS (1972) | O homem dos olhos de raio-x

  3. Esse filme parece legal ,eu mesmo não o conhecia,esses filmes de motoqueiros selvagem são legais de assistir .logico! não todo filme de motoqueiros selvagens que são legais tem alguns bombas lanças por ai,esse filme do Jonathan Demme “Caged Heat ” passava no SBT na sessoes de filmes legendados como o nome de ” Um Jogo Arriscado ” no começo da decada de 90.. e faz tem que não passa na TV Aberta ,como tudo que um dia passou e nunca mais passará novamente.

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