BRIDES OF BLOOD (1968)

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BRIDES OF BLOOD é o primeiro exemplar de uma trilogia bizarra realizada nas Filipinas pelo produtor e diretor de filmes B local, Eddie Romero, em parceria com Gerardo DeLeon. Pelo que entendi, os três filmes não têm qualquer ligação narrativa (ainda não assisti aos outros, MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND e BEAST OF BLOOD), mas como possuem essa ambientação pitoresca em comum e foram realizados praticamente num curto espaço de tempo pelos mesmos diretores, acabaram interligados e conhecidos como Blood Island Films.

Na verdade, apesar de não fazer parte “oficialmente” desses filmes, Romero já havia rodado um exemplar de horror ambientado no mesmo local, quase dez anos antes de BRIDES OF BLOOD. O filme era TERROR IS A MAN, de 1959, também conhecido como BLOOD CREATURE e que de certa forma é o precursor da série Blood Island. Pelo visto um local propício para contar histórias de horror bem antes do que se imagina.

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Portanto, não me parece uma boa ideia visitar essas ilhas filipinas. Pelo menos é a impressão que tive ao me deparar com BRIDES OF BLOOD. O local abriga nativos primitivos e supersticiosos, uma estranha população de anões de fraldas, insetos mutantes, árvores com galhos que se mexem e tentam se enrolar nos transeuntes despercebidos, enfim, é tipo do lugar onde vestais de topless são sacrificadas como oferenda a uma criatura monstruosa com fantasia de borracha, tosca ao extremo, e os pedaços de corpos que sobram das pobres vítimas são jogados ao mar pelos moradores locais que asseguram aos recém chegados que as vítimas morreram num “pequeno acidente”.

Os tais recém chegados, neste caso, incluem o galã Jim (John Ashley), que resolve ajudar os nativos com seus conhecimentos de engenharia, o Dr. Henderson (o veterano e canastrão Kent Taylor), um cientista curioso pelas peculiaridades da fauna e flora local, e sua esposa, Carla, a sexy e voluptuosa Beverly Hills, que provavelmente não deve ser esse seu nome real, mas que possui com um belo par de peitos que justifica seu nome artístico.

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Ao desembarcar, o grupo percebe logo de cara que algo está errado, mas situações anormais e absurdas não são motivos para que desistam de seus objetivos. Jim constrói um sistema de irrigação para os locais, o Dr. Henderson mantém suas pesquisas e maravilha-se com as descobertas dos efeitos de experimentos com radiação que a região sofreu; e a senhora Henderson serve de decoração. Uma bela decoração, convenhamos, até porque o que mais essa mulher pode fazer numa ilha como essa? Ao menos durante a viagem, na embarcação, ela tentou manter a tripulação feliz, vestindo sempre trajes decotados e indo para o “quartinho dos fundos” com um marinheiro qualquer, mesmo se fazendo de difícil a princípio…

Na ilha, as três figuras são recebidas por Esteban, um fazendeiro que comanda a região e que vive numa grande casa, bem diferente dos casebres dos habitantes do local, tendo o tal grupo de anões de fraldas como criados, além de um brutamontes chamado Goro como guarda-costas. Esteban é misterioso e fica claro no primeiro momento que ele tem algo a esconder e possivelmente tem a ver com o monstro que assola os pobres moradores da ilha esquartejando jovens virgens… O que não impede, obviamente, de Carla espreitar em seu quarto à noite de camisola, já que o maridão não dá mais no couro.

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Aliás, nenhuma estranheza da ilha impede os três visitantes a fazerem qualquer coisa que seja. Um dos fatos mais curiosos e cômicos de BRIDE OF BLOOD é justamente como esses personagens reagem diante do absurdo, ninguém parece realmente surpreso com o que acontece. Árvores cujos galhos se movem, atacam pessoas e jorram sangue quando cortadas não é algo que vemos todos dias na natureza, mas Jim solta um “deve ser algum tipo de bananeira“… Sério, Jim? Eu pulava fora dessa ilha nem que fosse à nado! Da mesma forma ocorre quando o Dr. Henderson é atacado por uma… borboleta!? Claro, é uma borboleta mutante e com dentes afiados, mas a grande reação do sábio doutor é dizer “alguns organismos dessa ilha estão sofrendo mutações drásticas“. Sério, Doutor? Precisou de décadas de estudo pra chegar nessa conclusão?

Mas a ocorrência mais bizarra de todas é mesmo o monstro da ilha, principalmente pelo seu visual. Imaginem a criatura da Lagoa Negra, dos clássicos filmes da Universal, mas atropelado diversas vezes por uma locomotiva… É simplesmente uma das coisas mais ridículas que eu já vi! E o mais legal é que acaba funcionando, pois embora seja impossível não segurar o riso, dá um certo incômodo ver essa bizarrice ambulante correndo em direção às pobres vestais amarradas num poste como sacrifício humano.

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É evidente, portanto, os limites orçamentários da produção, principalmente na elaboração dos efeitos especiais, o que nos anos 60 dava ainda um trabalho do cão dependendo de suas intenções. Sem dinheiro então, algumas coisas eram praticamente impossíveis, ou resultavam em algo extremamente tosco, como é o caso da criatura de BRIDES OF BLOOD. É claro que hoje possui seu charme, dentro de um certo contexto poderia entrar facilmente no hall da fama de monstros do cinema exploitation clássico. Mas se tecnicamente não é lá grandes coisas, ao menos as sequências com as árvores e os galhos que se mexem são bem feitas e demonstram certo talento dos realizadores em contornar a falta de dinheiro com muita criatividade.

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São vários momentos que fazem dessa bagaceira uma deliciosa diversão, Romero e DeLeon nunca deixam o filme ficar chato. Maximizam cada segundo de projeção para sempre jogar algo provocativo ou exótico na tela. O espectador não fica um instante sequer sem ser bombardeado por diálogos absurdos, situações excêntricas de ação e aventura, um clima de horror que nem sempre funciona, mas não deixa de ser válido, tem até uns peitinhos para alegria da moçada (só é uma pena que Beverly Hills não coloque seus preciosos atributos para fora em momento algum).

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Um dos grandes destaques de BRIDES OF BLOOD é poder acompanhar os três protagonistas americanos desempenhando papeis constrangedores e encenando situações embaraçosas em terras filipinas. Kent Taylor fez muito sucesso nos anos 30 e 40 em Hollywood e morreu em 1974 fazendo filmes para a Hemisphere Pictures, produtora das Filipinas que produzia bagaceiras de baixo orçamento, como este filme aqui que vos falo, por exemplo.

John Ashley é um caso curioso, porque nunca teve fama mainstream, mas seu rosto sempre esteve ligado a filmes de ação juvenis ou beach movies produzidos pela AIP. Mas se encantou com as paisagens filipinas e acabou realizando uma série de filmes por lá, incluindo outros exemplares da série Blood Island.

Já Beverly Hills chegou a se envolver em produções Hollywoodianas, filmes com Elvis Presley e etc, mas acabou parando em tranqueiras como esta aqui. E, olha, seria uma injustiça não elogiar sua atuação. Ela se sai muito bem diante de todas as circunstâncias. Em algum momento da carreira, não faço ideia se foi antes de trabalhar como atriz ou depois, tornou-se stripper… nham nham!

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De certo modo, o filme acabou tendo sucesso onde passou, especialmente nos cinemas drive-in, e o fato de ter três protagonistas americanos relativamente famosos em alguns nichos ajudou bastante. Mas acredita-se também que seja por causa de uma divertida campanha de marketing que dava um anel de noivado às moças que compravam tickets com seus namorados, uma brincadeira com o título do filme, já que bride é noiva em inglês.

Com todos esses elementos misturados e bem batidos no liquidificador fílmico de Eddie Romero e sua turma, BRIDES OF BLOOD acaba por ser um divertido filme de monstro, que é tanto uma reminiscência dos clássicos B-Movies do gênero nos anos 50 quanto um exploitation apelativo do tipo que começava a surgir aos montes na segunda metade da década de 60, filmes com com muito sangue, gore influenciados por Herschell G. Lewis e uma dose de nudez gratuita. Altamente recomendado para quem quer se aventurar nuns clássicos do delicioso universo do cinema exploitation.

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5 respostas para BRIDES OF BLOOD (1968)

  1. Pingback: BEAST OF BLOOD (1970) | DEMENTIA¹³

  2. anselmo luiz disse:

    Esse filme eu não conheci, assim como não conheço muitos filmes do vasto cinema underground. Que venham mais resenhas de filmes assim. Parabéns pelo texto, está leve e divertido, Perrone!
    Eu tenho esta coleção da Sessão da Meia-Noite, com os filmes: “Mulher-Vespa / O Ataque das Sanguessugas Gigantes”,”Criatura Sangrenta/ O Lobisomem no Quarto das Garotas”,”A Besta da Caverna Assombrada / O Cérebro que não Queria Morrer”, todos lançados pela Fantasy Music, alias! esta distribuidora eu acho que nunca lançou mais nada no mercado de video, me corrige se eu estiver errado. Um Abraço de Anselmo Luiz!

    • ronaldperrone disse:

      Também não saberia dizer se lançaram mais coisas, caro Anselmo. Mas sei que tenho todos aqui também… Preciso parar e ver os que ainda me faltam. Grande abraço!

  3. Paulo Blob disse:

    Eu tenho que tomar vergonha nessa minha cara feia e assistir esses “Blood Island Films”, não assisti nenhum deles ainda! O “Terror is a Man” aka “Blood Creature” foi lançado em dvd aqui no Brasil, como “Criatura Sangrenta”, em programa duplo com outra bobagem deliciosa, o italiano “O Lobisomem no Quarto das Garotas” (um dos títulos mais geniais do mundo!), eu tinha esse dvd, mas como faz uns cinco anos que emprestei e até hoje não me devolveram, já perdi as esperanças.
    Essa semana que passou, revi o Farsa Trágica do Jacques Tourneur, aquele com Vincent Price, Peter Lorre, Boris Karloff e Basil Rathbone, e tava lá a Beverly Hills (que também assinava como Beverly Powers!), com toda a sua exuberância!
    Parabéns pelo post! 🙂

    • ronaldperrone disse:

      Eu que agradeço o comentário, grande Blob! Lembrei agora que eu tenho esse DVD duplo com “O Lobisomem no Quarto das Garotas” e “Criatura Sangrenta”, mas esse é meu mesmo, não foi pra mim que emprestou não… haha! Abraço! 😀

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