A MÃO (The Hand, 1981)

mnVfSQrNas palavras do próprio Oliver Stone, “Eles tentaram me derrubar como diretor, mas eu retornei como roteirista”. Seja lá quem são “eles”, Stone estava se referindo ao período após a sua traumática estreia na direção (e que eu tentei explicar aqui) quando havia desistido de fazer filmes e passou apenas a escrevê-los. Finalizou quatorze roteiros em poucos anos, entre eles O EXPRESSO DA MEIA NOITE (78), que lhe rendeu um Oscar de roteiro adaptado.

Com um prêmio da Academia na prateleira, Stone voltou a pensar na possibilidade de dirigir. Nesse período, os roteiros de PLATOON (86) e NASCIDO EM 4 DE JULHO (89) já estavam prontos, mas os seus financiadores não queriam produzir algo que competisse com o sucesso de APOCALYPSE NOW (79), de Francis F. Coppola, e O FRANCO ATIRADOR (78), de Michael Cimino. Sem poder dedicar-se aos seus projetos pessoais, Stone conseguiu 6,5 milhões para fazer algo menos ambicioso.

Ambição, no caso, é algo relativo. Um Spielberg ou George Lucas, naquele período, com “míseros” 6 milhões, com certeza deveriam conter a ambição. Já o pobre Oliver Stone, coitado, levando em conta que iria ainda dar início ao seu segundo filme, estava com grana pra cacete! Teria um mundo de possibilidades para trabalhar. E aí? O que o sujeito faz? Um outro filme de horror… Continuar lendo

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SEIZURE (1974)

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SEIZURE é o primeiro longa de Oliver Stone e encontra-se à milhas de distância do tipo de cinema que o sujeito faria ao longo da carreira. Ao contrário dos dramas políticos, traumas de guerra, ou tratados sobre a violência, o que temos aqui nada mais é que um exemplar de horror independente organicamente inserido no contexto do gênero feito nos anos 70. Um bocado pretensioso e bastante problemático no que cerne à narrativa, ao ritmo e etc, como é de praxe quando se trata do trabalho inicial de um cineasta sem muita experiência. Mas nada melhor que um filme seminal de um diretor hoje consagrado para descobrir algumas características da sua personalidade e histórias curiosas de bastidores.

Após retornar do Vietnã, em meados dos anos 60, Stone resolveu aliar sua habilidade na escrita com algo que nunca havia experimentado antes: a sétima arte. Entrou para NYU film school e teve como professor um sujeitinho de sobrancelhas grossas que faria uns filmes “razoáveis” como TAXI DRIVER e TOURO INDOMÁVEL… Nessa época, Stone chegou a realizar um curta metragem, muito bom aliás, LAST YEAR IN VIETNAM, o qual recebeu vários prêmios em festivais estudantis. Com este curta no currículo e mais a bagagem adquirida na universidade, Stone partiu para o Canadá com o propósito de realizar seu primeiro longa metragem. Continuar lendo

ESPECIAL DON SIEGEL #15: COVIL DA MORTE (Edge of Eternity, 1959)

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Há uma sequência já no final de COVIL DA MORTE em que o protagonista, o xerife vivido por Cornel Wilde, troca sopapos com o vilão da trama num carrinho suspenso, parecido com um bondinho, por sobre o Grand Canyon a quase 800 metros de altura. É o clímax do filme, no que o diretor Don Siegel chamou de “sequência mais aterrorizante e horrenda” que já filmou em sua carreira. Obviamente os planos detalhes e os closes nos atores foram realizados com projeção ao fundo, mas há várias tomadas em planos abertos que é coisa de louco, realmente tensa e mostra a situação que os dublês se meteram. Continuar lendo

MOMENTO JESS FRANCO: RESIDENCIA PARA ESPÍAS (1966)

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Se fosse realizado uma década depois, RESIDENCIA PARA ESPIAS provavelmente teria excelentes motivos para que o mestre espanhol Jess Franco explorasse a sua maior especialidade: putaria. Ele iria às favas com a trama (roteiro acabaria se tornando um objeto quase obsoleto para o diretor) e passaria o filme inteiro dando zoons em prexecas cabeludas de atrizes robustas, certamente Linna Romay, sua musa e esposa, teria um papel de destaque. Mas estamos em 1966 e Franco ainda não havia descambado para essas peculiaridades da forma como vemos em seus filmes a partir dos anos setenta.

RESIDENCIA PARA ESPIAS acaba soando até simpático, adjetivo estranho para elogiar um filme do prolífico diretor, mas é um bom termo para definir esta obra de início de carreira (era o décimo primeiro filme do homem, mas pra quem já fez quase duzentos não é nada). Além de ser uma leve comédia, o filme é um autêntico Eurospy – subgênero criado na esteira dos filmes do agente 007 e que gerou uma infinidade de cópias, paródias, homenagens e picaretagens no velho continente, principalmente na Itália, Espanha e França. Continuar lendo

IDAHO TRANSFER (1973)

bscap0034O ator Peter Fonda possui três obras creditadas como diretor: o belo e poético western THE HIRED HAND (1971), o simpático WANDA NEVADA (1979) e este IDAHO TRANSFER, que resolvi assistir outro dia e acho que vale alguns comentários, um trabalho do homem praticamente esquecido, que é também um estranho sci-fi ecológico com viagem no tempo.

(Mas só para constar, não custa lembrar que apesar não receber créditos na direção de EASY RIDER, é notório que Fonda dividiu o serviço com o Dennis Hopper.)

IDAHO TRANSFER é basicamente um filme síntese dos temores setentistas em relação ao futuro da terra. Propõe que nós, seres humanos, vamos acabar nos destruindo e, mesmo conscientes disso, é inevitável. O que é bastante óbvio, na verdade, passados mais de quarenta que o filme foi feito, porque de fato estamos arrasando ecologicamente com o planeta, sabemos disso e mesmo assim vamos foder com tudo. Talvez naquela época isso não fosse tão claro quanto hoje. Talvez ainda tivessem esperança.

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Na trama um projeto científico torna possível a viagem no tempo. No entanto, apenas jovens com seus vinte e poucos anos são capazes de sobreviver às repetidas idas e vindas temporais. Durante essas jornadas, descobre-se que o futuro não é nada otimista e uma catástrofe ecológica pôs fim a vida na terra.

Coloca-se em prática, portanto, um plano secreto para enviar um grupo de jovens ao futuro com recursos e disposição para iniciar uma nova civilização. Mas a coisa desanda porque o projeto acaba ameaçado pelo governo fazendo com que os mancebos fiquem presos no futuro e obrigados a encarar essa realidade catastrófica que devastou a humanidade, além de outros detalhes que tornam a vida desses indivíduos ainda mais problemática… Continuar lendo