THE WHIP AND THE BODY (La Frusta e il Corpo, 1963)

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Muitos sites famosos de cinema por aí estão dando a notícia da morte do grande Christopher Lee relembrando seus “principais trabalhos”, ou seja, Saruman, na série O SENHOR DOS ANÉIS, e o Conde Dooku na última trilogia de STAR WARS. E tem gente que ganha dinheiro escrevendo essas merdas… Como eu não ganho nada para estar aqui escrevendo, também não vou tentar fazer jus ao nome deste magnífico ator, um dos últimos ícones do cinema clássico que nos deixa e que merecia vários artigos e resenhas de seus filmes espalhados para todo canto. Mas deixo aqui as minhas impressões sobre um filme especial, um dos meus favoritos com o Chris Lee, e que dificilmente será lembrado nos obituários dos grandes veículos de comunicação: THE WHIP AND THE BODY, dirigido pelo mestre Mario Bava.

THE WHIP AND THE BODY foi concebido para ser uma imitação do que Roger Corman estava fazendo na sua série de filmes baseado em Edgar Allan Poe e os britânicos da Hammer, com suas releituras de monstros clássicos. O roteirista Ernesto Gastaldi, um dos primeiros de sua profissão a se especializar em escrever histórias de horror na Itália, ficou responsável pelo roteiro deste aqui e chegou a declarar que os produtores lhe mostraram uma cópia de THE PIT AND THE PENDULUM, do Corman, antes que começasse a trabalhar o script e apenas requisitaram: “queremos algo nesse estilo”.

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Mario Bava, acostumado a improvisar visualmente seus pobres roteiros, só precisou mesmo dar seu toque magistral em cima do magnífico texto de Gastaldi. É evidente que a ideia de imitação fosse acabar indo por terra com esses talentos reunidos e, mesmo que haja certas semelhanças com as produções de Corman e da Hammer, THE WHIP AND THE BODY acabou tendo vida própria e contribuiu para a consolidação do horror gótico na Itália nos anos 60. Independente qual nome aparece nos créditos como diretor – nas versões internacionais, Bava usou o pseudônimo John M. Old – o filme tem a alma do diretor impressa em cada frame, especialmente no uso meticuloso da iluminação e na beleza estética de suas composições.

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Obviamente, ter Christopher Lee no elenco ajuda consideravelmente em vários aspectos. Primeiro por ser um dos maiores atores do gênero de todos os tempos. Segundo, porque contribuía na ideia de seguir um modelo que estava em voga no período, já que Lee era um dos “garotos propaganda” do cinema de horror, tendo estrelado diversos clássicos da Hammer, imortalizado como o Conde Dracula. Enfim, Lee já era um ícone. Não foi por acaso que no Brasil o filme saiu com o título bizarro e extremamente apelativo DRÁCULA, O VAMPIRO DO SEXO. Mas o mais estranho é que não há vampiros na trama de THE WHIP AND THE BODY

E Chris Lee não é o Drácula. Mas o filme tem sexo, como veremos a seguir… O personagem de Lee se chama Kurt, um deserdado herdeiro da Casa Menliff, a ovelha negra da nobre família. Kurt foi banido por seu pai, o Conde Vladimir, por o ter responsabilizado pelo suicídio de uma moça a quem ele seduziu e depois abandonou. Ou seja, o sujeito não é lá flor que se cheire. Todos os títulos e terras do Conde passam agora para seu segundo filho e irmãos de Kurt, Christian. Além disso, há um enrolado triangulo amoroso para apimentar as coisas. Durante os anos em que Kurt esteve fora, Christian acabou se casando com Nevenka (a deliciosa Daliah Lavi), por quem Kurt sempre morreu de amores. O filme começa quase no instante em que Kurt retorna para casa. Diz que voltou para felicitar os noivos e pedir perdão ao seu pai.

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Mas nós que não somos bobos, percebemos de cara, pelas expressões de Lee, que o que ele realmente quer é recuperar o direito do patrimônio do seu velho e reascender seu tórrido romance com a sua agora cunhada, a bela Nevenka. Esta, pelos vistos, também não é boba e sabe muito bem as intenções de Kurt e mesmo assim não faz esforço algum para resistir, inclusive aos fetiches bizarros que o cara possui. E ela também. Um bom exemplo acontece logo no dia seguinte ao retorno de Kurt, quando Nevenka o encontra na praia e deixa-se chicotear nas costas pelo sujeito, se contorcendo de êxtase, dor e prazer se misturando… “Você não mudou“, diz Kurt, “Sempre gostou de violência“. E, pronto, a moça já abre as pernas para seu amante proibido e Mario Bava poderia se orgulhar de ter adiantado quase meio século a modinha dos 50 TONS DE CINZA.

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Na mesma noite, Kurt é esfaqueado até a morte em seu quarto e a arma utilizada é o mesmo punhal usado pela moça que se matou. A mãe amargurada da menina, que é empregada da casa, acaba por ser o principal suspeito. O problema é que todos estavam fora do castelo, inclusive a tal mãe, no momento do crime procurando Nevenka que estava sumida, exceto o Conde Vladimir que permaneceu em seus aposentos. A moça foi depois encontrada com o vestido rasgado e as costas coberta de marcas de chicote. Mas instaura-se a dúvida de quem matou Kurt. De qualquer modo, isso nem é a grande questão por aqui. O que importa é que Nevenka começa a ter visões de aparições do defunto à noite. E só aparece para dar umas chicotadas – em ambos os sentidos. “Eu voltei para você“, diz o fantasma de Kurt. A moça, a princípio fica tomada pelo medo, mas não consegue resistir e se rende ao chicote do sujeito – novamente, em ambos os sentidos.

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Inicialmente, Christopher Lee rejeitou participar de THE WHIP AND THE BODY quando os produtores entraram em contato, só mudou de ideia quando Mario Bava foi contratado para dirigir a produção. Ambos já haviam colaborados no Peplum ERCOLE AL CENTRO DELLA TERRA (61). Mas não é a toa que escolhi este filme aqui em especial para homenagear Christopher Lee. Apesar de dublado, inclusive na versão falada em inglês, trata-se de um dos melhores personagens e desempenhos que eu pude ver de Lee até o momento. Bava nunca se interessou muito na construção de personagens e coube ao próprio Lee dar uma personalidade, trejeitos e o porte ao mesmo tempo sinistro e estranhamente romântico que Kurt possui. É de uma intensidade incrível, especialmente os primeiros 15 minutos enquanto seu personagem ainda “vive”. A sua aparição na cena da praia é digna de antologia.

É claro que acho sua composição para Drácula, seu personagem mais famoso, algo extraordinário, mas gosto de ver Lee tentando diversificar, sair um bocado da pele de monstros (Lee também foi a Múmia e o monstro de Frankenstein nas produções da Hammer) e há centenas de exemplos por aí. Sua carreira é gigante e levaria vários parágrafos para peregrinar sobre seus melhores trabalhos.

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THE WHIP AND THE BODY é horror gótico em todo seu esplendor. O ritmo onírico de sonho pode revelar-se um obstáculo para os espectadores acostumados com as narrativas frenéticas de hoje (aliás, quem se acostuma com esse tipo de merda tem mais é que ficar longe disso aqui mesmo), mas para quem já curte o gênero é fácil ficar imerso na atmosfera do filme. Especialmente com o trabalho visual cuidadosamente elaborado por Bava, cada plano do filme é uma pequena obra-prima de expressão, cores e sombras, como podem notar pelas próprias imagens que separei aqui no post.

Evidentemente, nada disso adiantou na hora de lançar o filme, que foi considerado imoral pelas cenas sadoeróticas (embora o filme não tenha nudez). Acabou sendo proibido ou censurado em diversos países. Hoje, felizmente, é muito fácil encontrá-lo dando sopa pelas internets, então esses detalhes de distribuição apenas aumentam o charme do filme. Recomendo a quem não viu correr atrás urgentemente. Ninguém pode se considerar fã de Mario Bava, ou de Christopher Lee, sem ter visto este filme.

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6 respostas para THE WHIP AND THE BODY (La Frusta e il Corpo, 1963)

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  3. anselmo luiz disse:

    pois concordo com voce Perrone,Christopher Lee fez tantos filmes mas á imprensa em geral só falou dele em filmes com Dracula,Star Wars e Senhor dos Aneis esquecem que ele uma porrada de filmes so vou citar dos filmes dele que eu gosto são , O Homem de Palha ( 1973) este filme teve um remake horrivel chamado Sacrificio com Nicholas Cage e o outro é IL Cound Dracula dirigido por Jess Franco .. logico ele atou em outro filmes que assisti na televisão com, Capitão America 2, O Discipulo de Dracula ou Dracula no Mundo das Mini Saias ( Dracula 1972 A.D ), O Sangue de Dracula,O Conde Dracula estes passavam na TVS o tempo todo,Aeroporto 77, O Homem de Palha ,Os Ritos Satanicos de Dracula,etc… estes passavam na Rede Globo direto ,Sir .Christopher Lee vai deixar saudade .

  4. Rodrigo 1176 disse:

    Em qual site posso baixar o filme legendado ?

    • ronaldperrone disse:

      Mas tem que ser legendado em português? Porque aí fica complicado, mas dá uma procurada no pirate bay, que lá tem em altíssima qualidade e com certeza vai encontrar com legendas. Só não sei se em português…

  5. Calil Neto disse:

    Vi esse filme esses dias. Belíssimo!

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