ESPECIAL DON SIEGEL #11: A RUA DO CRIME (Crime in the Streets, 1956)

É interessante um filme como A RUA DO CRIME na filmografia de Don Siegel logo após um clássico como VAMPIROS DE ALMAS. A história é “menor”, o orçamento continua curto, mas percebe-se claramente um sujeito bem mais maduro como diretor no trabalho visual, na decupagem, na direção dos atores, na dosagem do drama e até mesmo metendo o bedelho no roteiro. Foi escrito por Reggie Rose, que também é o autor da peça na qual o filme se baseia. Siegel conta em entrevista que fez várias modificações no material de Rose, colocando em risco a relação entre eles, mas que eram, de acordo com ele, “absolutamente necessárias do ponto de vista cinematográfico.

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Nas primeiras imagens do filme, Siegel demonstra evidências de sua maestria, apresentando duas gangues que se preparam para um confronto. A câmera econômica só enquadra o essencial para criar um clima de tensão antes de deflagrar a ação, que é filmada com realismo e de forma brutal, enquanto os créditos aparecem na tela. Como disse no post anterior, Siegel filmava bem pra cacete!

Na trama, um dos membros dos Hornets, a gangue de rua que protagoniza o filme, puxa uma arma em determinado momento e um vizinho, Sr. McAllister, resolve dedurar à polícia, mandando-o para a prisão. O líder dos Hornets, Frankie (o futuro diretor John Cassavetes), decide fazer algo que a gangue nunca havia feito antes: matar o dedo-duro. A maior parte da gangue se recusa a participar, exceto o sorridente Lou (o também futuro diretor Mark Rydell), e o caçula do grupo, Baby (Sal Mineo), desesperado para se encaixar na gangue. Enquanto isso, um assistente social, Wagner (James Whitmore), começa a perceber que alguma coisa está acontecendo e tenta se intrometer nos assuntos de Frankie.

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Sim, A RUA DO CRIME segue a linha dos filmes sobre delinquentes juvenis que surgiam aos montes neste período do cinema americano. Esse “movimento” teve alguns pontos altos: vários filmes B que exploravam a violência – camuflada de crítica social para evitar a censura, mas que não passavam mesmo de exploitations e por isso mesmo tão divertidos; outros exemplares realmente estavam interessados em fazer um retrato da realidade, como o clássico de Nicholas Ray, JUVENTUDE TRANSVIADA. Teve seus pontos baixos também: o “desfecho” do subgênero foi meio ingrato com aquela cafonice chamada WEST SIDE STORY, de Robert Wise e Jerome Robbins, que até possui defensores, mas nunca consegui gostar… O filme de Siegel tem mais a ver com o do Ray. Ainda bem.

Claro que ajuda muito o fato do elenco ser afiado, composto por muita gente talentosa e que participou da peça original. E em alguns momentos, o filme até parece depender um bocado de Cassavetes, que está mesmo magistral, explosivo, de uma intensidade impressionante e é impossível desgrudar os olhos da tela quando está em cena. Mas também é resultado de um trabalho seguro do diretor. A sequência final, em que Cassavetes abraça seu irmão, é um bom exemplo dessa combinação. Melodramático, mas visceral e forte, de deixar qualquer marmanjo com os olhos lacrimejando.

A RUA DO CRIME é uma das mais belas surpresas nessa peregrinação pela obra de Siegel.

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