AVISEM OS PROFESSORES: O VINGADOR TÓXICO É UM FILME CULT

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por Gabriel Lisboa

Nos tempos em que era comum ainda andar pelas prateleiras de uma locadora para procurar o que assistir, só olhando pelas capas, eles estavam lá. Muitas vezes fora do seu habitat mais adequado e já que você nunca tinha ouvido falar acabava achando que era só um filme estranho. Não sei se foi o canal do Telecine que tornou o termo mais comum, já que antes de se tornar “Cult”, o espaço reservado para os filmes mais antigos e alternativos na TV paga era chamado de Classic. O que ainda acontece é encontrar nas locadoras, uma prateleira de filmes cult, com 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO (68) vizinho de AMÉLIE POULAIN (01). Alguns dizem que filme cult é um filme alternativo, fora do circuito comercial dos grandes cinemas. Acabam classificando filmes não hollywoodianos automaticamente como cult. Tem gente ainda, que diz que o cult é um filme inteligente, que ganha áurea de intelectual. Aí todo mundo sai perdendo. Procurei por algumas explicações para o termo em alguns sites e blogs brasileiros só para ter certeza de como ainda se bate nas mesmas teclas (Godard e Truffaut, cults por excelência)[1].

Assinava a saudosa revista SET. Era muito bom ter algo em mãos para carregar e folhear. E depois de escolher a seção mais interessante, sentar e ler a coisa do começo ao fim. Depois você pensava naquilo um tempo, comentava com seus amigos, eles davam algumas opiniões, algumas vezes diferentes da sua e isso formava sua cabeça com o tempo. Parece que está mais difícil encontrar matérias que fujam dos filmes da semana, por mais interessante que sejam as idéias dos autores, como foi com a polêmica de dois vingadores dizendo que a Viúva Negra é uma vadia[2], por exemplo, pela imprensa daqui. Alguns podem dizer que aqueles textos estão aí sim, é só procurar. E é verdade. Mas o caso era que a SET era o canal mais popular para quem queria ler sobre cinema. Na edição 231 de Setembro de 2006 eu poderia ler sobre a Comic-Con e STAR WARS, mas no recheio havia algo que me influenciaria muito.

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Era uma lista com 30 filmes cult que acompanhava uma matéria sobre SERPENTES A BORDO (06) e como o filme foi criado para atender a demanda de internautas e como isso acabava com toda a possibilidade do filme ter se tornado um filme cult (ou mesmo um filme memorável). Com a lista aprendi o que diabos significava esse termo de verdade. É um sinônimo para honestidade. Desse adjetivo tão poderoso que nascem as pedras brutas, transformadas em pequenas joias lapidadas pelo tempo por pequenos, mas fiéis grupos de pessoas (cult = culto).

Cult não seria um gênero, como comédia, aventura ou terror. É um adjetivo que se ganha, na maioria das vezes com o tempo. Ninguém faz um filme para que ele se torne cult. E se faz (f*ck you SHARKNADO!) pode ter certeza que ele nunca terá o carisma daquele que se tornou por “acidente”. Esse tipo de cinema que passou a interessar aquele moleque de 15 anos de idade.

Parece cansativo ficar falando de ROCKY HORROR PICTURE SHOW (75) ou TOXIC AVENGER (84), porque muitos dos leitores desse blog também já deve achar os filmes das listas que vou colocar no fim do texto, figurinhas batidas. Mas é fácil esquecer que existe sempre uma nova geração de adolescentes que estão procurando por REPO MAN (84). Eles só não sabem. Eu mesmo quando vi pela primeira vez não gostei. O tom era confuso, não sabia quando o próprio filme queria ser engraçado ou levado a sério. Depois fiquei com isso na cabeça, querendo descobrir o que outras pessoas viam nele que não estava conseguindo enxergar. Quando assisti lá pela terceira vez estava cativado. Ia curtindo cada palavra que saía da boca dos personagens. Se tivessem me falado que era só um filme “muito doido”, uma coisa tosca para dar risada (ou um filme muito cabeça que precisaria de muita teoria e semiótica para entender) nunca teria passado da primeira visita ao mundo dos “re-possuidores”.

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Muita gente fica pelo caminho. Um dia desses me deparei com um artigo[3] no qual o autor comenta que ficou chocado com experiência de assistir no cinema numa sessão de meia-noite (esse é o tipo de problema que eu queria ter) o filme OS FILHOS DO MEDO (79), do Cronenberg, com uma platéia de jovens rapazes que entram na sala com a intenção de dar risada de um filme velho e com efeitos datados. Ele também diz que passou pela mesma experiência com ERASERHEAD (77) e A NOITE DOS MORTOS-VIVOS (68). Se lá, onde existe a cultura das convenções feitas de pessoas realmente apaixonadas por determinados filmes, imagine aqui onde achamos que cinema cult é aquele iraniano que teimam em passar nos cineclubes da faculdade. Nada contra esse cinema, pode até ser muito bom, e nada contra também do fato de dar risada com ERASERHEAD, já que algumas cenas surpreendem com seus absurdos e é da quebra de expectativa que vem o riso. O problema, acredito, estaria em deixar de encontrar o coração desses filmes. Tommy Wiseau vai para televisão e diz que toda a filmagem de THE ROOM (03) era uma grande brincadeira. Qualquer um que assistir a esse filme achando que tudo isso foi feito na gozação, nunca vai entender porque ele fascina tanta gente.

E muito curioso também quando acontece o oposto, quando um diretor leva seu trabalho à serio demais, mesmo quando todos os limites do bom senso são extrapolados, como em TROLL 2 (90) . Vi BEST WORST MOVIE (09)[4] antes do seu renomado objeto de reflexão. Talvez queria achar mais motivos para entender o que tornava aquele filme especial já que só esperava um filme ruim. No documentário há uma cena em que o diretor Claudio Fragasso levanta puto da vida da mesa de convidados numa conferência onde a platéia destrói o filme com perguntas e comentários. Parece um momento de SPINAL TAP (84) da vida real. Você fica desconfortável na cadeira. Com um misto de simpatia e vergonha do cara. Mas o que ele deveria fazer? Ele mente dizendo que foi tudo de propósito ou admite que realmente tenha fantasias sexuais envolvendo pipoca?

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Comentei tudo isso para dizer que espaços como esse (onde depois aprendi a curtir Albert Pyun, Mario Bava, Chang Cheh…) são importantes para conscientizar as pobres almas que param para assistir OS SELVAGENS DA NOITE (79) e exclamam: “Que ridículos esses caras vestidos de palhaço!”, mas que adoram se vestir de Alex do LARANJA MECÂNICA (71) em festas à fantasia.

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E você? Tem outra opinião? Acha que um termo, ao contrário, é redutor e atrapalha, ou acha algumas escolhas desses filmes infelizes e datadas mesmo?

PS: As listas:
101 cult movies you must see before you die
Entertainment Weeklys top 50 cult movies

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Um pensamento sobre “AVISEM OS PROFESSORES: O VINGADOR TÓXICO É UM FILME CULT

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