A MOSCA (The Fly, 1986)

tumblr_nlfbpo36Fu1qgwhqoo1_1280De vez em quando minha cidade apronta uma dessas. O Cineclube Metrópolis, que é o cinema que funciona dentro da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), tá com uma programação interessante para quem gosta de horror. Na última sexta-feira, por exemplo, passou A MOSCA, do David Cronenberg, e claro, dei um pulo para conferir. Essa semana ainda passa O ENIGMA DO OUTRO MUNDO, do Carpenter, e a semana que vem começa com REPULSA AO SEXO, do Polanski. Espero que continuem passando esse tipo de filme (mesmo que eu já tenha visto, faço questão de rever na tela grande).

Não me lembro quando foi a  última vez que vi A MOSCA, talvez há uns cinco anos, mas não importa, foi bacana rever. Aliás, são poucos os filmes do Cronenberg que não merecem revisões. Acontece que este aqui, especialmente, é um filme bem peculiar da carreira dele. Talvez seja seu trabalho mais comercial, normal o suficiente para ir bem nas bilheterias, ao mesmo tempo em que possui todos os elementos bizarros que fazem parte do imaginário do diretor, além de ter muito gore e imagens bem desagradáveis, ou seja, não deixa de ser também estranho o suficiente para ser um filme de horror oitentista diferente de tudo o que havia sido lançado até então. Trata-se também da refilmagem de um clássico da ficção científica dos anos 50, A MOSCA DA CABEÇA BRANCA, com Vincent Price, contextualizada nos mínimos detalhes ao tempo “presente” (no caso, 1986).

theflyÉ interessante como o filme começa de maneira leve, com um senso de humor meio bobo, apresentando o gênio anti-social e desconhecido Seth Brundle (Jeff Goldblum) dando uma entrevista desajeitada à repórter Verônica Quaife (Geena Davis, quando ainda era gatinha). Mas consegue de alguma forma convencê-la a ir ao seu laboratório. A moça fica toda cética e meio assustada com o local e pelo jeito esquisito do cientista, até este demonstrar seu trabalho secreto, que ele chama de telepods, um conjunto de câmaras que desintegra matéria num ponto e reintegra em outro. Ou seja, o cara inventou o teletransporte.

TheBrundle consegue provar para a repórter que seu projeto vai mudar o mundo, mas que ela não deve escrever nada sobre o assunto ainda, correndo o risco de estragar o andamento da invenção. Até porque a coisa ainda não funciona em sua plenitude. Quero dizer, com objetos inanimados funciona bem, mas o computador que controla a desintegração e integração da matéria ainda não consegue lidar com organismos vivos. O pobre babuíno utilizado no teste que o diga. Saiu do outro lado virado do avesso. Aposto que nenhum zoológico vai querer o bicho de volta. Então ele deixa que a moça o acompanhe de perto para documentar o processo, suas experiências, na tentativa de fazer o teletransporte de seres vivos e para que eles comecem um relacionamento, digamos, mais intimo. Por que não?

Tudo parece correr bem. Brundle faz uma experiência aqui, dá uma metidinha ali, o que mais o cientista sem vida social poderia querer? O problema é que o editor da revista em que Verônica trabalha, Stathis Borans (John Getz), é também um ex-namorado com uma dor de cotovelo incurável. Ele invade o apartamento da moça para tomar banho, propõe sexo amigável, como ele diz, “para aliviar o estresse“, além de outras coisas inadequadas para um ambiente de trabalho. E, obviamente, vai tentar ferrar com o Brundle e seu projeto, forçando a publicação da matéria antes que a invenção esteja pronta.

tumblr_nirmt3Tmwe1rsaxz1o1_540As cenas de experiências é que vão acrescentando aos poucos um tom bizarro à narrativa. Cronenberg sabe como dosar uma carga de tensão, que mexe diretamente com nosso temor para os horrores inevitáveis de um resultado científico que dá errado, como na cena do babuíno virado do avesso, ou com a nossa curiosidade no processo de resolução de problemas e novas descobertas. E, bem, desta forma chegamos no momento em que Brundle resolve entrar numa das câmaras e se teletransporta, sem perceber que há uma mosca lá dentro.

A ideia de realizar o teletransporte de si mesmo até que é bem arquitetada. Não era bem o momento de fazer, mas Brundle fica chateado com sua namoradinha, que sai do local dizendo que vai resolver pendências do passado, o que Brundle, um ser altamente descolado e sociável, não entende bulhufas, acaba tendo uma crise de ciúmes, enche a cara e, claro, “vou me teletransportar só de raiva!”. Sabem como é, uma mistura de ciúme, estupidez e álcool pode fazer com que você faça uma merda que vá se arrepender pra vida inteira. Pronto, taí a moral de A MOSCA.

the-fly-1986-screenshot-2A princípio, ter seu DNA fundido com o de uma mosca é algo muito legal! Brundle se sente forte, vigoroso, o rei do sexo. O coito com Verônica dura horas e horas. Ela pede arrego e ele ainda quer mais. Começa a pensar que o seu teletransporte é uma máquina para criar tarados sexuais, um tipo de viagra que age no corpo inteiro, em toda a fisiologia do indivíduo. E quer que sua parceira também experimente, já que não consegue acompanhar o vigor do cara… E também porque estamos num filme do Cronenberg, e o elemento sexual tem que ter seu devido lugar marcado. Além disso, o protagonista se torna um verdadeiro ginasta, fazendo acrobacias pela casa, até chegar ao ponto de literalmente conseguir ficar preso às paredes e teto. Mas eu já estou me apressando…

tumblr_nidh6xpbjm1qd5y1io5_1280Gradualmente, os efeitos colaterais do acidente começam a surtir efeito. E é aqui, com a deterioração física e psicológica de Brundle que Cronenberg parece se divertir, num de seus temas mais marcantes. Enquanto o protagonista começa a perder seu sentido de humanidade  com a “mentalidade” da mosca se manifestando, é com muita sensibilidade que o diretor vai trabalhando em doses homeopáticas o progresso da transformação física do sujeito. Segundo o diretor, “The film really becomes a metamorphosis, a different kind of story altogether, not just a quickie head switch“, ou seja, a narrativa do filme é dependente da narrativa da transformação do corpo e mente de Brundle e a primeira não poderia existir sem a segunda. Na minha opinião, se não for a melhor, pelo menos A MOSCA é a mais explícita e evidente representação desse tema tão familiar na carreira de Cronenberg. É a ideia da “new flesh” de VIDEODROME atingindo aqui o seu ponto máximo.

tumblr_nlfbpo36Fu1qgwhqoo3_540E cada detalhe da transformação é cuidadosamente colocado, pontuando o filme com cenas tão tocantes quanto abjetas. O melhor exemplo disso é a sequência em que Brundle aparece comendo pela primeira vez como uma mosca (vomitando um suco digestivo ácido em cima dos alimentos, no caso um donuts, para conseguir engolir). Na mesma cena, a orelha do sujeito cai, sob o olhar espantado de Verônica, que lhe dá um abraço aos prantos. Não tem como não se emocionar… mas é melhor separar um saco de vômito do lado.

Uma das coisas que me chamou a atenção nesta revisão é como o filme é extremamente intimista e teatral. Existem outras locações e situações (a gravidez de Verônica; a queda de braço no bar em busca de uma nova parceira sexual; o médico que aceita fazer o aborto, etc…), mas a maior parte de A MOSCA acontece no laboratório/apartamento de Brundle, com os personagens a dialogar entre si. A ação, no sentido mais restrito do termo, é basicamente mínima. Assim como a participação de outros personagens, que não seja os três já citados aqui. Essa busca pela essência ajuda, de alguma forma, a dar ao filme certo realismo e traz à tona sentimentos tão humanos, tão tristes no decorrer da trama. Se houvesse um remake de A MOSCA hoje, não conseguiria imaginar um final sem um “confronto” explosivo, com direito a destruição de carros e prédios, os militares com tanques e helicópteros tentando destruir um homem-mosca feito de CGI voando pela cidade, ou algo assim.

tumblr_nidh6xpbjm1qd5y1io7_1280Muito longe do que temos aqui. O horror termina no mesmo lugar que começou, no laboratório de Brundle, no mesmo tom intimista, apenas com os três personagens envolvidos e da maneira mais trágica possível. Não há exatamente um confronto (apesar de Stathis sair bem machucado), mas sim uma situação desconfortável, que finaliza com um tiro de misericórdia em uma criatura que implora para morrer. É triste, pesado, indigesto e o extremo oposto do início do filme. Sempre saio com os olhos marejados desse final, deve entrar um cisco no meu olho toda vez que assisto.

O filme teve uma continuação ainda nos anos 80, dirigido por Chris Wallas, que foi o responsável pelos efeitos especiais e maquiagem deste aqui, um trabalho, aliás, excepcional. Grande parte da força imagética de A MOSCA pode entrar na conta de Wallas. Já na continuação, sobra o talento desse sujeito na concepção visual da criatura e em cenas mais tensas, de violência, mas falta o toque genial de um Cronenberg. A MOSCA 2 acaba não sendo um desperdício, é divertido, mas não chega aos pés deste aqui.

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9 respostas para A MOSCA (The Fly, 1986)

  1. anselmo luiz disse:

    esse é um dos melhores remakes já feito ,eu adoro o filme ” A Mosca da Cabeça Branca ” foi o primeiro filme de terror em que eu assisti em minha vida isso aconteceu em 1979 quando filme foi exibido na Rede Tupi de Televisão ,eu tambem gosto muito deste filme ” Videodrome ” para mim ele é um classico do cinema terror ou horror como queiram.
    uma curiosidade um vizinho meu foi assistir á ” A Mosca ” no cinema ele passou mal no cinema nas partes nojentas do filme como á do vomito e parte de transformação .. ele vomitou lá mesmo men deu tempo para ir ao banheiro .. depois disso ele nunca mais assistiu o filme .
    Minha Saudosa Mãe adorava filmes de terror ela sempre assistia comigo e tambem assistiu á este filme quando foi exibido na primeira vez na TV Aberta no caso na Rede Globo no ” Tela Quente ” no dia 26 /01/ 1989 Quinta- Feira ,mais ela gostou mais do segundo ” A MOSCA 2 “.

    • ronaldperrone disse:

      Anselmo, é sempre legal ler suas experiências aqui nos comentários. Essa do vizinho foi boa! haha! Valeu! 🙂

  2. alucardcorner disse:

    Tive exatamente essa mesma oportunidade! Numa altura de um festival decidiram fazer um especial do David e fui ver “A Mosca” ao cinema, que coincidiu também com a primeira visualização do filme.. que maravilha! Simplesmente genial em todos os aspetos, a transformação final é de deixar-nos completamente enjoados.

  3. ESSE SIM UM REMAKE DE QUALIDADE!

  4. Marcelo disse:

    Filmaço. É justamente essa questão mais intimista e triste do filme que mais me chamou a atenção em uma revisão que fiz há uns 4 anos.
    E talvez por se passar 90% dentro do apartamento, seja esse o motivo que me leva a crer que A MOSCA envelheceu melhor que VIDEODROME. Repensando os 2 hoje, acho que prefiro A MOSCA.

    • ronaldperrone disse:

      Mas VIDEODROME também é bem intimista. Fico com ele ainda, acho que é a obra-prima do Cronenberg ao lado de CRASH.

      • Marcelo disse:

        Certo que VIDEODROME é um dos filmes definitivos dentro da filmografia dele, mas pessoalmente não consigo listar ele na frente também de filmes como MARCAS DA VIOLÊNCIA e CRASH que na minha lista são os 2 que revezam o topo.
        Mas enfim, ele tem uma penca cheia de filmes tão marcantes, que revisões podem alterar toda a concepção entre os preferidos.

        • ronaldperrone disse:

          Exatamente, O próprio VIDEODROME sempre penso como um dos filmes da minha vida, top 10 fácil. Mas numa revisão recente, já não senti a mesma pegada e CRASH me parece um filme mais interessante. De qualquer maneira, acho ainda uma obra-prima.

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