ESPECIAL HALLOWEEN 2014 #03: AENIGMA (1987)

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Há um plano no início de AENIGMA que é um espetáculo. O espírito de uma jovem deixa seu corpo, põe-se a flutuar e desloca-se, com um movimento de câmera que atua como ponto de vista da alma, através dos andares do edifício até sair pra fora pelo telhado e continuar sobrevoando os arredores sobre uma paisagem feita em maquete. Uma pequena amostra da genialidade de Lucio Fulci num filme que infelizmente não consegue ter outros momentos deslumbrantes como este.

Mas veja lá, um filme ruim do Fulci está longe de ser descartável e há sempre um ou dois momentos de genialidade para nos impressionar. Mas não é sempre que dá pra fazer um THE BEYOND, onde o italiano conseguiu realizar uma das obras de horror mais inventivas, niilistas, oníricas e aterradoras de todo o cinema com um fiapo de roteiro. Em AENIGMA o sujeito não teve a mesma sorte. O filme carece de uma boa trama, bons personagens, ainda que a atmosfera densa e distinta do horror italiano esteja presente em alguns momentos.

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A trama tem um pouco de CARRIE (1976), de Brian de Palma, de PATRICK (1978), produção australiana de Richard Franklin, e uma pitada de SUSPIRIA (1977) e PHENOMENA (1985), de Dario Argento, no qual uma jovem estudante encontra-se em coma no leito de um hospital e através de poderes telecinéticos inicia uma perturbadora vingança contra aqueles que a colocaram naquela situação. Um enredo que poderia ter funcionado melhor se os personagens não fossem tão ruins e não tivesse tantos diálogos desinteressantes arrastando a narrativa. Fica difícil ter simpatia por alguém – ou pelo filme. Se ao menos Fulci focasse mais na construção atmosférica, na emoção e ação ao invés de cabeças que falam sem parar, ou até que tivesse mais peitos de fora, pois até nisso a quantidade é mínima.

O fato é que Fulci passou por maus bocados de saúde na segunda metade da década de 80, o que claramente refletiu na qualidade seu trabalho. Após um brilhante início de década, quase nada presta na sua filmografia entre 1986 e 1990, com algumas exceções. Ao menos teve fôlego depois pra fazer CAT IN THE BRAIN (1990), que é uma lindeza. Em AENIGMA temos ocasionalmente algumas ceninhas que nos fazem lembrar que estamos diante de um filme do bom e velho Lucio Fulci, como a sequência em que uma moça é ameaçada pelas pinturas e esculturas do cenário – atacada pela arte!

Mas a maior parte dos momentos de tensão não resulta do jeito que deveria e acaba atrapalhando a atmosfera de horror e suspense, como a famosa cena da garota atacada por caracóis, esses bichinhos fofinhos que nada fazem além de andar em cima da atriz. Tudo filmado e editado de forma lenta e sem inspiração. Não há efeitos sonoros repugnantes que salvem a cena. Parecia-me promissora quando soube que teria uma cena dessas, mas não chega aos pés do ataque das aranhas de THE BEYOND.

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AENIGMA é terceiro filme que comento no especial halloween deste ano (provavelmente o último filme a ser comentado, já que o mês praticamente acabou e não tive tempo de escrever mais, o que não me impede de escrever sobre outros filmes de horror, o que transforma esse especial em algo um tanto estúpido e inútil) e todos os três não tiveram nada de especial. Ao menos não foi indicação de nenhum leitor desta vez, mas me lembrei que havia assistido há algum tempo e me apeteceu escrever.

Repito que um filme do Fulci é sempre um filme do Fulci, por pior que seja. Vale uma conferida, mas apenas se já tiver visto THE BEYOND, ZOMBIE 2 (1979), NEW YORK RIPPER (1982), NON SI SEVIZIA UN PAPERINO (1972) e uma porrada de obras poderosas que o homem possui no currículo. Se já estiver calejado com o Fulci, AENIGMA não vai aborrecer ninguém.

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ESPECIAL HALLOWEEN 2014 #02: NUMA NOITE ESCURA (One Dark Night, 1982)

0492Meu plano de escrever sobre filmes indicados pelos leitores para o Especial Halloween praticamente fracassou. Ainda não consegui ficar totalmente livre para me dedicar ao blog, já estamos quase no fim do mês e acabei assistindo a apenas dois exemplares indicados. Mas vamos continuar tentando. Além de TRICK’R TREAT, acabei vendo NUMA NOITE ESCURA, horror dos anos 80 que já não lembro agora quem me indicou, mas preciso agradecer por me fazerem desperdiçar noventa minutos da minha vida. Brincadeira, a indicação é bem-vinda. Este filme já estava no meu radar há alguns anos e eu assistiria de qualquer maneira em algum momento, a sugestão do leitor só adiantou o acontecimento. Mas não deixa de ser uma porcaria de filme… Continuar lendo

ESPECIAL HALLOWEEN 2014 #01: TRICK’R TREAT (2007)

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Preciso começar logo o especial Halloween com filmes de horror para assombrar os posts do blog durante o mês, antes que outubro acabe. Até porque neste ano resolvi pedir algumas dicas na página do Dementia¹³ no Facebook, para saber quais filmes comentarei este ano e, como tenho leitores atenciosos, não demorou muito para aparecerem algumas dicas preciosas. A primeira foi TRICK’R TREAT, de Michael Dougherty, que na verdade não foi tão preciosa assim (a dica foi, o filme nem tanto), mas não deixa de ter sua graça e possui o espírito dessa tradição americana comemorada neste período do ano.

O filme é organizado em quatro histórias diferentes que se passam numa pequena cidade durante a noite de halloween:
1. Diretor de escola primária que recebe algumas crianças de forma, digamos, diferente quando batem à sua porta pedindo doces;
2. Quatro vestais (uma delas interpretada pela Anna Paquin) vestidas de personagens ícones do universo da literatura fantástica, como Branca de Neve e Chapeuzinho Vermelho, estão a procura de rapazes dispostos a irem pro meio do mato com elas para uma festinha especial;
3. Um grupo de crianças se aventuram num local onde havia acontecido, há algumas décadas, um trágico acidente com um ônibus escolar;
4. E, finalmente, um velhote carrancudo (o grande Brian Cox) que desdenha do halloween e acaba tendo uma noite de pesadelo…

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TRICK’R TREAT lembra um bocado as antologias de horror como CREEPSHOW, mas com a diferença de que todos esses quatro contos transcorrem no mesmo universo e acabam entrelaçados e constantemente alternados. Não são tramas independentes como no filme do Romero. Não é melhor ou pior por conta disso, até gosto da maneira como o filme se estrutura. Mas o que pegou pra mim é que a maioria dessas histórias já foram contadas de uma forma ou de outra ao longo dos anos, em várias oportunidades, portanto acaba não surtindo muito efeito quando algumas revelações começam a surgir e que deveriam ser algum tipo de surpresa.

No entanto, se os realizadores não se preocupam com a falta de originalidade, ao menos a maneira como cada história é trabalhada consegue manter o interesse de maneira simpática, com boas sacadas temporais, e com momentos interessantes de tensão, como o conto do diretor escolar e, especialmente a última história, do velhote encarnado pelo Brian Cox.

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Além disso, há um interesse do filme em trabalhar a simbologia da ocasião, fazendo com que as vítimas sejam, na maioria dos casos, personagens que não respeitam as tradições do halloween. O elemento que faz a ligação em todas as histórias, nesse sentido, é uma criaturinha bizarra que aparenta ser uma criança, com um saco de batatas na cabeça, e acaba por ser o grande destaque do filme. Algumas de suas aparições chegam a gelar a espinha e, claro, protagoniza a tal última história com o Cox. Os outros contos não são maus, no entanto são previsíveis e não conseguem atingir o mesmo nível da última.

Mas no fim das contas, TRICK’R TREAT não deixa de ser divertido. Só não esperem um filme de horror com “pacote completo”, com excesso de sangue e mortes ou visual elaborado e atmosferas aterrorizante. Mas tem o suficiente para valer a conferida nessa época do ano.

LEE MARVIN EM DEZ FILMES

O leitor Nivaldo Luiz quer saber quais são os meus dez filmes (e desempenhos) preferidos do grande Lee Marvin. Como se trata do meu ator favorito, fica difícil colocar em alguma ordem de preferência a questão da atuação, então resolvi apenas listar os filmes em ordem cronológica, comentar a seleção e eventualmente apontar algumas performances do homem que se destacam mais que outras.

Só escolhi os filmes em que o Marvin é protagonista, ou algo próximo disso, já que em alguns casos divide a tela com outros grandes atores. Deixei de fora, portanto, alguns momentos ótimos do “início” da carreira dele, como OS CORRUPTOS (1955) e O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA (1962), que não possui tanto tempo em cena. E como ainda me falta assistir vários títulos, pode ser que dêem falta de algum exemplar… Continuar lendo