FIGURES IN A LANDSCAPE (1970)

figures6

Joseph Losey disse em alguma oportunidade que achava que as ambientações de seus filmes são como atores. As casas e apartamentos em SECRET CEREMONY (68), ACCIDENT (67) e O CRIADO (63) eram como personagens e influenciavam de forma imersiva a ação dos indivíduos que colocava ali. O mesmo pode ser dito sobre os cenários de FIGURES IN A LANDSCAPE, um survivor movie, aparentemente bem atípico na obra do diretor.

O filme é sobre dois sujeitos que, com as mãos atadas e perseguidos constantemente por um helicóptero, fogem milhas e mais milhas à pé, enfrentando os mais diversos tipos de cenários que na lógica de Losey se tornam autênticos vilões: vegetações selvagens, deserto, lama, chuva, montahas, neve. Ocasionalmente, balas são disparadas em suas direções. Os dois sujeitos são interpretados por Robert Shaw (também responsável pelo roteiro, baseado num livro de Barry England), o experiente e presunçoso da dupla, e Malcom McDowell, o ingênuo e assustado garoto da cidade.

figures18

Um detalhe que realmente se destaca em FIGURES IN A LANDSCAPE é o fato desses dois personagens existirem apenas para a ação mostrada na tela. Quem são esses indivíduos fora da ideia de que são “fugitivos de um helicóptero tentando sobreviver”? Obviamente são prisioneiros, mas por quais razões? São presos de guerra, políticos, criminosos? Como escaparam? Que país a história transcorre? Quem os persegue?

Nada disso é respondido ou importa muito. É apenas na essência da ação que Losey retira o que é necessário para trabalhar a narrativa: Como roubam comida, a maneira que arranjam um rifle, o modo que desviam de um batalhão que fazem um pente fino para encontrá-los no meio de um matagal, o conflito de personalidades que surge entre os dois protagonistas e, especialmente, o duelo psicológico e concreto de Shaw com o helicóptero negro, que me fez lembrar em alguns momentos de DUEL (71), de Steven Spielberg.

figures19

Eventualmente a dupla protagonista expõem um pouco de background pessoal; falam de si, do passado, das famílias, compartilham alguns momentos de intimidade, seja fumando um cigarro ou defecando após tomarem leite condensado. Afinal, são seres humanos, os únicos num filme no qual todos os outros personagens são figuras camufladas, fantasmas sem face definida ou expressão. Nunca vemos os rostos dos pilotos do tal helicóptero e os soldados em solo sempre aparecem distantes ou com óculos escuros e visores. Apenas Shaw e McDowell possuem faces e aproveitam-se bem delas, com atuações expressivas.

A direção de Losey é tão magistral quanto se podia esperar. Tão econômica quanto a busca pela essência do enredo. O homem filma somente o necessário, recorrendo a longos planos, tomadas abertas dos protagonistas interagindo com as paisagens-personagens e faz surgir, com isso, belíssimas imagens – o trabalho de fotografia é de tirar o fôlego. Além, é claro, da habilidade do diretor na construção de sequências de tensão e ação, sempre procurando a maneira mais cinematográfica possível. FIGURES IN A LANDSCAPE é conhecido no Brasil como NO LIMIAR DA LIBERDADE.

Anúncios

5 pensamentos sobre “FIGURES IN A LANDSCAPE (1970)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s