F.I.S.T (1978)

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CARTAS DE AMOR DE UM BADASS #04

POR GUSTAVO SANTORINI

Sylvester Gardenzio Stallone.
A simples menção a esse nome é capaz de lhe despertar quais lembranças? Caso você tenha ultrapassado a casa dos 30 anos, ou dela já se encontre próximo, como eu, certamente será envolvido por imagens de heróis destemidos que nos inflamavam as noites preenchidas com Domingo Maior ou Tela Quente, as quais nos infundiam um animo tal que fantasiávamos investir a mesma fúria avassaladora no dia seguinte, contra aqueles valentões que tanto nos azucrinavam na escola. Em nosso imberbe senso de justiça, queríamos ser como Stallone e tocar o “zaralho” entre os coleguinhas, ser considerado o mais badass da vizinhança, e se ainda viesse um beijo da menina mais bonita como bônus, aí a fantasia estaria plenamente realizada. Porém, passado alguns anos e tendo ampliado nossa percepção sobre a vida, começamos a avaliá-la de outra forma, e essa aquisição de maturidade também é capaz de lançar um novo olhar sobre os heróis que povoavam nossa infância. Nós mudamos, e os filmes mudam conosco. Revendo a filmografia de Stallone, por exemplo, chegamos a duvidar se sua persona heroica era tão inabalável quanto parecia tempos atrás, e então a crença lúdica se desfaz com personagens que ganham novos contornos, oscilando entre a tenacidade aparente e a mais pungente vulnerabilidade; personagens trágicos como John Rambo, um ex-combatente transformado em pária, ou o Frank Leone de Condenação Brutal, detento que, em vias de conseguir a anistia da pena, é acossado pelo malévolo diretor do presídio. Assim, descobrimos que a fúria que nos encantava na infância só explode após um longo e penoso processo de absorção, e jamais configura uma reação intempestiva ou descerebral. Talvez fosse por esse motivo que seus personagens nos inspirassem tanto e os diferenciasse dos “exércitos de um homem só” encarnados por Arnold & Cia. Sly, como é carinhosamente chamado pelos amigos, é o único astro de filmes de ação a possuir uma veia autoral, algo que o eleva bem além de seus pares e até tornaria a epítome de “action hero” depreciativa, não tivesse ele próprio se empenhado tanto em cultivá-la.  E não é apenas por escrever e dirigir boa parte de seus filmes. Sua assinatura se impõe mesmo quando não dirige ou escreve, e é capaz de se manifestar nos dois extremos, como vemos em COPLAND, um faroeste urbano da melhor qualidade, e MISSÃO PERIGOSA, talvez seu pior filme.

Muito mais que um cronista da superação, Sly é um profundo conhecedor das engrenagens que movem o determinismo social, e é uma pena que tenha desperdiçado essa verve em uma sucessão de filmes medíocres ao longo da carreira. Num caminho inverso ao de Clint Eastwood, os mesmo críticos que hoje o ridicularizam são os mesmos que o exaltavam no inicio da carreira. O lendário Roger Ebert, por exemplo, o elevou a condição de “O sucessor de Marlon Brando”. Ao analisarmos o inicio fulgurante da carreira de Sly, veremos que a analogia não é de toda equivocada. Após trabalhos menores em filmes B e aparições fantasmas em filmes de sucesso (quem conseguir achá-lo em KLUTE: O PASSADO CONDENA, merece um premio), Sly bebeu da fonte de SINDICATO DE LADRÕES e transformou Terry Malloy, personagem de Brando, um ex-pugilista amargurado que ao se apaixonar por uma mulher tenta se redimir de uma vida errante, em Rocky Balboa, o qual, adivinhem, é justamente movido pelo amor que tenta encontrar mecanismos de escape a uma vida fadada ao fracasso, tudo isso num contexto político relevante, pois estamos em 1976, com os norte-americanos amargando uma ressaca moral pós-Watergate e Vietnã. Assim, o então “Mr. Nobody” Stallone canaliza as angustias do período e desponta nesse cenário sombrio como uma espécie de catalisador de mudanças, de quem as pessoas comuns se espelhavam e podiam compartilhar de seu triunfo. Sly alcançou o sétimo céu. Entrou no seleto grupo de atores a serem indicados ao Oscar como intérprete e roteirista. Foi bajulado pelos estúdios e alvo de adjetivos superlativos da mídia. Ainda assim, ele preferiu contrariar a legião de afoitos que clamavam por uma sequencia de Rocky e partiu para um projeto que poucos atores recém-chegados ao status de “astro” teriam a ousadia de escolher, um épico marcado pelo tom pessimista e que representa um desvio na temática redentora, e é dessa forma que chegamos a F.IS.T.

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Escrito em parceria com Joe Eszterhas, um jornalista musical da “Rolling Stone” que se tornou o roteirista mais bem pago do cinema nos anos 90 depois de escrever INSTINTO SELVAGEM, e dirigido pelo grande Norman Jewison, autor de clássicos como NO CALOR DA NOITE e FEITIÇO DA LUA, esta é uma obra seminal e infelizmente esquecida, além de ser o principal atestado de Sly como grande ator de performances minimalistas. A exemplo do anterior, este aqui também captura a atmosfera de SINDICATO DE LADRÕES, com o mérito de não soar um pastiche do mesmo. Na verdade, trata-se de uma cinebiografia disfarçada do líder sindical Jimmy Hoffa, cujo desaparecimento está até hoje entre os capítulos mais nebulosos da historia americana. No lugar de Hoffa temos Johnny Kovak, um operário idealista que, revoltado com as péssimas condições oferecidas aos trabalhadores, resolve se filiar ao Sindicato Interestadual dos Caminhoneiros (Federation Interstate Truckers – F.I.S.T.)  na década de 30.  Após sofrer intimidações de todo tipo, resultando inclusive na morte do presidente do sindicato, Kovak percebe que só terá chances de fazer valer sua causa se revidar as agressões sofridas, e então se envolve com mafiosos locais, que passam a proteger a organização. De posse de uma oratória inflamada, Kovak arrebanha uma multidão e obtém vitorias expressivas nas reivindicações trabalhistas, o sindicato passa a ficar mais rico e é temido pelos empresários. Tudo seria perfeitamente louvável, caso os mafiosos não tivessem se alojado na organização, exigindo contrapartidas que desafiam a moral de Kovak. Este não se faz de rogado, mas segue a lógica pragmática de sempre: os valores pessoais devem ser sacrificados pelo bem de uma causa maior. Assim, nosso herói da classe trabalhadora vende sua alma e aos poucos vai assumindo ares de gangster, se mostrando cada vez mais truculento nas negociações.  Repare na cena em que, informado sobre um empresário que se recusa a filiar-se ao sindicato, Kovak é categórico: “Todo mundo tem que se filiar”, e vai até a casa do tal sujeito a fim de persuadi-lo. Kovak chega com fidalguia, tece elogios à árvore de natal da família, mas não recebe o mesmo trato. O empresário se nega prontamente, argumentando que não vê motivos para a filiação, uma vez que oferece a seus funcionários os melhores benefícios do mercado. Por fim, ordena a Kovac que se retire. Sem desmanchar o sorriso, este lhe dá um ultimato: “Não pode haver exceção”. Capangas vão até a casa e agridem a mulher do empresário, que não vê outra escolha. Em outras cenas, quando confrontado por problemas de ultima hora, sua resposta é padrão: “Deixe-me cuidar disso”. O modo como conduz os interesses comuns da organização só diz respeito a ele próprio. Essa autonomia nos faz lembrar da célebre frase de Don Corleone: “Vou fazer uma proposta que ele não vai recusar…”. Contudo, Kovak diz ser contrario a métodos violentos, e tem preferência pelas artimanhas políticas, o que não deixa de ser a mesma coisa. Vejamos a sequência em que ele vai até Max Grahan (Peter Boyle), o então presidente do sindicato, e revela saber as falcatruas cometidas por ele. Todos esperam uma punição exemplar, inclusive seu melhor amigo, o autor da denuncia. Logo depois, vemos Max Grahan ir a publico e anunciar sua aposentadoria por “motivos pessoais”, empossando Kovak ao cargo. Ambos são aclamados pela multidão, enquanto o amigo assiste chocado ao aperto de mãos entre os dois.

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Creio que a incursão de Sly a comédia nos anos 90 fora malsucedida, em grande parte, devido à aura trágica que carrega em seus filmes. Ele é incapaz de alcançar a graça despojada, a distensão espontânea, algo que a postura rígida e a paralisia facial parecem corroborar. O riso só brota em seus filmes quando acompanhado de um certo lirismo chapliniano, vide a sequência em que Kovak se empenha em conquistar Anna, sua futura esposa. Primeiro ele tenta impressioná-la com um calhambeque, depois a convida para jantar, e por fim acabam dividindo um sorvete de casquinha. Mas Anna não o deixa passar do ponto. Apaixonado, ele vai até a casa de sua amada com um arranjo de flores murchas, “compradas em promoção”, segundo ele. Esse deslocamento se confunde com a do próprio intérprete, algo que extravasa as telas e cativa por sua simplicidade. Mas favor não confundir com Balboa e Adrian. O amor aqui não é a tônica dominante, e sim um dos itens sacrificados pelo bem da causa… Justifica não saber que se pode perder tanto?

O império de Johnny Kovac começa a ruir quando o faminto senador Andrew Madison (o genial Rod Steiger), que preside uma comissão contra a corrupção, o investiga por ligações com a máfia. Sly exprime o caos interior do personagem com gestos mínimos, sem jamais didatizar. Um exemplo? À medida que ele é caçado pelo senador, repare em sua postura levemente curvada, o andar vacilante, como se tivesse todo o peso do mundo sobre os ombros. É um recurso muito mais eficaz que a maquiagem carregada, ou as mechas de fios brancos, que mais parecem manchas de liquid paper. No confronto com o senador, a primeira impressão que temos é a de que Steiger, famoso pelas atuações expansivas, irá engolir Stallone em cena. Ledo engano. O que assistimos é um duelo de titãs no mesmo nível.

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ROCKY fora alçado ao panteão dos clássicos de forma tão instantânea que Sly já se dava ao luxo de emular a si mesmo em F.I.S.T, e isto com um intervalo de apenas dois anos entre ambos! É só olhar a cena em que, humilhado em audiência pública com o senador Madison, Kovac se levanta e sai furioso do tribunal, sendo recebido por uma multidão de rostos embevecidos na escadaria do lado de fora, punhos erguidos, bradando em uníssono: “Fist! Fist! Fist!” Uma cena majestosa, embalada pela trilha de Bill Conti, e um brilhante exercício de antítese sobre a icônica cena da escadaria. Pois, se antes Balboa se encontrava solitário e aos pulos naquela manhã esmaecida, ainda assim o acompanhávamos em jubilo, revigorados por sua energia febril; Kovak, no entanto, mesmo exaltado por milhões, sabe que o poder lhe encapsulou numa redoma de solidão e desamparo sem fim, conforme explicitado na cena seguinte, quando ele quase suplica a um funcionário que o acompanhe em um drink: “É que estou precisando conversar com alguém, sabe…

Terry Malloy e Rocky Balboa alcançaram a redenção. Aqui nós não a encontramos. O fato de o filme reservar um martírio ao final não torna a paisagem menos desoladora.

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15 pensamentos sobre “F.I.S.T (1978)

  1. Acabei de ver esse filme, é realmente um filmaço! ESPETACULAR!

    O filme te dá diversas interpretações além de ser um profundo estudo histórico e político. Preciso ver de novo.

    Mas confesso que fiquei com algumas perguntas no ar:

    – O senador Madison tinha intenções em favorecer as grandes corporações? ou ele realmente queria combater a corrupção?

    ATENÇÃO SPOILER ABAIXO NÃO LEIA MAIS SE AINDA NÃO VIU O FILME!
    ATENÇÃO SPOILER ABAIXO NÃO LEIA MAIS SE AINDA NÃO VIU O FILME!
    ATENÇÃO SPOILER ABAIXO NÃO LEIA MAIS SE AINDA NÃO VIU O FILME!
    – Quem mata o Johnny Kovak é o Max Graham? não reconheci direito os caras que aparecem atirando nele hehehehe

  2. anselmo luiz, como sabes se determinado filme foi veiculado na TV aberta? Alguma página da internet dá esses informes.

  3. este filme já não passa um tempão na TV Aberta ,acho que ultima vez foi no SBT de madrugada na “SESSÃO FIM DE NOITE ” em 2007 . Stallone também fez um filme musical que fracassou nos anos 80 com Dolly Parton .. nem lembro o nome do filme pois já fez tempo que passou na TV e bota tempo nisso foi no começo dos 90.Bom Post ,Santorini!

    • Valeu Anselmo! Esse daí com a Dolly Parton se chama Rhinestone – O brilho da noite. Serve como curiosidade… Não é em todo filme que vemos Sly cantando.

      • Muito Obrigado,Gustavo Santorini! É esse mesmo,acho que este filme ate hoje não saiu em DVD por aqui o que uma pena gostaria de revê-lo pois eu gostei do filme uma comedia leve e com Stallone cantando country…como você disse não é toda vez que nos vemos ele cantar em algo filme.Abraço de Anselmo Luiz.

    • Acho que o filme que vc tá falando é Rhinestone – Um Brilho na Noite. Esse filme foi um fracasso vexaminoso.

  4. E a sua filmografia recente, tanto como diretor quanto ator, é uma incógnita para mim. Ou ao menos para o meu gosto pessoal. Por exemplo, eu adorei RAMBO IV (2006) e BULLET TO THE HEAD (2013), mas por outro lado não embarquei na ideia nem do EXPENDABLES 1, muito menos do EXPENDABLES 2.
    Por mais que eu admire a carreira do Sly, sempre analiso os seus filmes separadamente e percebo que dentro do mesmo genêro de ação, o sujeito já adotou uma penca de estilos e qualidades diferentes.

    • Uma vez alguém, provavelmente o Ronald, escreveu por aqui que o Sly pratica a mesma escola do Robert De Niro. Isso faz bastante sentido especialmente se analisarmos a carreira de cada cronologicamente. Com o adendo de que a partir dos anos 2000 o De Niro desandou, deixando de lado sua tradição de trabalhar com grandes diretores, já o Sly se manteve fiel as suas origens, resgatando o gênero de ação na tela grande, sempre quando teve a oportunidade,

  5. Ótima resenha, poderia continuar, cronologicamente, e resenhar a estréia de Sly na direção, no praticamente esquecido: Paradise Alley.

    • Pois é, Brian Dennehy… Outro presente é Frank McRae, o Eclipse de Lock Up. Bill Conti também. Sly sempre chama os amigos pra reprisar a parceria em outros filmes, outra semelhança com Clint.

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