RIP BOB HOSKINS (1942 | 2014)

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BLASTFIGHTER (1984)

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“YOU WANT TO KNOW WHO I AM? I’M A SON OF A BITCH… who wants to be left alone.”

A frase acima extraída de BLASTFIGHTER, de Lamberto Bava, condiz tanto com o personagem principal do filme quanto com o próprio ator que o interpreta, o americano Michael Sopkiw. O sujeito atuou em apenas quatro filmes na Itália nos anos 80, demonstrou certo talento e características de um autêntico herói de ação da época e, de repente, largou mão do cinema. Em entrevistas, Sopkiw diz que após estrelar essas produções italianas, resolveu retornar aos EUA com a ideia de trabalhar como ator em Hollywood, mas infelizmente fazer apenas quatro filmes de gênero na Itália não ajudou muito. Após dois anos tentando e totalmente quebrado financeiramente, o sujeito decidiu tentar outra carreira. Foi estudar e trabalhar com remédios naturais, montou uma empresa e hoje importa e distribui nos Estados Unidos um tipo de garrafa de vidro que protege o conteúdo (os tais remédios) dos raios solares…

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Um dos melhores filmes que Sopkiw fez foi BLASTFIGHTER, um baita filmaço de ação onde o sujeito dá um show como action hero, o que me fez ficar ainda mais encucado pelo homem abandonar a carreira tão precocemente. Até porque dos quatro filmes que fez, vi três, e são todos ótimos! Primeiro foi 2019: AFTER THE FALL OF NEW YORK (1983), um divertido rip-off de FUGA DE NOVA YORK dirigido pelo Sergio Martino; depois foi trabalhar com Lamberto Bava num filme de tubarão, SHARK: ROSSO NELL’OCEANO (1984), este eu não vi ainda; repetiu a parceria com o Bava filho neste aqui e finalizou a carreira com o clássico filmado no Brasil PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS (1985), de Michele Massimo Tarantini, completando cerca de três anos trabalhando no cinema.

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O projeto inicial de BLASTFIGHTER era de um sci-fi pós-apocalíptico, gênero que pintava aos montes naquele período, e a direção estava nas mãos do Lucio Fulci. Mas em algum momento da pré-produção acabou virando um filme de ação florestal, rip-off de FIRST BLOOD. E não se trata daquelas produções carcamanas com roteiro meia boca, que vale mais pelo visual, o humor involuntário e cenas de ação. A história e os personagens de BLASTFIGHTER são muito bem escritos e a produção, cujas filmagens aconteceram nas belas paisagens da Geórgia, EUA, é bem caprichada.

Sopkiw, com um bigode estilo Mauricio Merli e Franco Nero, interpreta Tiger Sharp, um ex-policial que acabou de sair da prisão por ter agido por vingança ao invés de fazer seu trabalho seguindo as regras da lei. Agora retorna à pequena cidade onde cresceu para tentar viver uma vida de forma pacata. Sem procurar muito contato social, acaba tendo que reencontrar a sua filha, que não vê há muitos anos e agora já é uma moça adulta; além do seu velho amigo de infância, vivido por George Eastman.

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Não demora muito o jeitão fechado de Tiger acaba atraindo alguns jovens da cidade, que começam a implicar com o sujeito. O problema é que a coisa foge do controle e ultrapassa todos os limites do respeito pela vida humana. De repente estamos assistindo a um exército de caipiras armados com rifles de caça em punho perseguindo o protagonista e sua filha pela floresta adentro. E após uma tragédia, Tiger se vê na posição de revidar, e seu contra-ataque é simplesmente brutal!

Vale comentar que o herói possui uma arma avançada tecnologicamente, com munição especial, que deve ser remanescente do projeto inicial de ficção científica e que é interessante vê-la em atividade, até porque há toda uma preparação para a ação do personagem, uma lenta construção do inferno que ele cria para cima de seus inimigos com a utilização dessa arma. Confesso que fiquei impressionado com a sequência final, um tiroteio explosivo daqueles de encher os olhos! Com direito a ossos quebrados, facadas sangrentas, carros e corpos explodindo, membros decepados, uma boa dose de gore. E é por isso que dá uma pena saber que Sopkiw fez uma quantidade risível de filmes e que o Bavinha retornou ao horror ao invés de aprontar outros exemplares no estilo de BLASTFIGHTER.

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Lamberto Bava, aliás, assina como John Old Jr. e confesso que não sei quantos filmes de ação ele fez, mas um sujeito que realiza BLASTFIGHTER deveria ter se dedicado mais no gênero. Aposto que se daria bem melhor do que na carreira de diretor de horror. Bava tem alguns filmes excelentes, como DEMONS (85), mas de uma maneira geral sua carreira não tem tanta expressividade como a de um Fulci, Soavi, Argento, Freda, Deodato, e, claro, o papai Mario Bava. Acho que carregar esse sobrenome não deve ter sido mole…

Algumas curiosidades para finalizar. Há uma versão do cartaz de BLASTFIGHTER que parece demais com as artes feitas para os filmes pós-apocalípticos daquele período (abaixo à esquerda). Imagino que seja uma arte conceitual ainda da fase em que o projeto seria um sci-fi. Além disso, utilizaram essa mesma arte, cuja figura representa o Sopkiw para copiar no cartaz brasileiro de outro filme estrelado por ele, PERDIDO NO VALE DOS DINOSSAUROS (abaixo à direita). Da mesma forma, a ótima trilha sonora de BLASTFIGHTER também foi reaproveitada no filme de Tarantini, provando mais uma vez que a zoeira desses italianos não tem limites.

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LES DÉMONIAQUES (1974)

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Tem como não amar uma obra que começa com um letreiro escrito “Un film expressionniste de JEAN ROLLIN“? E tem como não amar a beleza da vestal Joëlle Coeur? Jean Rollin é um realizador essencial para os admiradores do eurohorror pela maneira poética de conduzir suas histórias e o visual exuberante, mas também pelo tom erótico que move seus filmes. Portanto uma das principais razões para que LES DEMONIAQUES seja um dos meus favoritos da carreira do homem é a presença libidinosa da atriz francesa deslumbrante Joëlle Coeur, que já havia colaborado com o diretor em outros filmes e que vive aqui uma das vilãs mais sensuais e sórdidas do cinema eurocult. Além de bela e talentosa, é daquele tipo de atriz que só fica de roupa quando o roteiro exige. Como o roteiro de LES DEMONIAQUES não é lá muito exigente…

Aqui o roteiro exige.

Aqui o roteiro exige.

Aqui nem tanto...

Aqui nem tanto…

Aqui o roteiro não exige mais nada.

Aqui o roteiro não exige mais nada.

Um grupo de perversos piratas, ao saquear um navio naufragado, descobre duas jovem moças sobreviventes no local. Como são os vilões da história, os piratas não vão levá-las a um hospital ou algo parecido. A única coisa que lhes vem à mente é estuprá-las e abandoná-las à beira da morte. De volta ao vilarejo onde vivem, na comemoração regada à bebedeiras pelos saques noturnos, o líder da gangue começa a ter alucinações com as duas jovens. Encucado com isso, convence o grupo de voltar ao local para dar cabo de vez das pobres senhoritas.

As duas realmente estavam vivas, mas desta vez conseguem fugir para um mosteiro em ruínas, quase abandonado. “Quase” porque lá encontram algumas entidades e o próprio Diabo, que lhes propõe poderes sobrenaturais para se vingarem em troca de favores sexuais. Os tais poderes não são lá muito expressivos. Mas são coerentes com a narrativa lenta e poética que Rollin imprime. As moças passam a atormentar o bando com aparições insólitas, não são mais vulneráveis a qualquer tipo de arma, e acabam provocando o suficiente para o processo de vingança. A única imune a tudo isso é a deliciosa Tina The Wrecker (Joëlle Coeur), o “membro” feminino da trupe pirata, que na verdade é quem comanda, manipulando os corações dos facínoras, principalmente do suposto líder. E do espectador também… Eu quase fui parar no pronto-socorro.

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Em termos visuais, LES DÉMONIAQUES oferece o que há de melhor da estética de Rollin, um diretor com noção única de composição e de apelo visual. Quando o mundo for um lugar justo para se viver, Jean Rollin terá o respeito que merece. Até lá, continuamos a guerrilha… As cenas que se passam no mosteiro, por exemplo, são de prender a respiração pela força pictórica, seja com ou sem mulheres peladas interagindo com o ambiente. Da mesma maneira as sequências noturnas na praia, com os piratas procurando as duas garotas entre as grandes carcaças de barcos naufragados, uma mistura de tensão atmosférica sufocante com um fascínio pela beleza das imagens. O final, do mesmo modo, trágico, surreal e antológico, comprova toda a noção precisa da poética de Rollin. Mas claro, se todo o lirismo visual ainda não for suficiente pra vocês, ainda tem a Joëlle Coeur desfilando na tela em trajes mínimos.

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INVENTÁRIO EUROCULT #15

Esta semana temos mais uma lista especial de filmes europeus adicionada ao Inventário Eurocult. Quem nos agraciou desta vez foi o grande parceiro Sergio Andrade, editor do Kino Crazy, um dos primeiros blogs que passei a acompanhar na blogosfera, há quase 10 anos. Sergio também foi contribuidor da Revista Zingu! e manteve por muito tempo o Indicações do Biáfora, que republicava as resenhas dos anos 70 e 80 do famoso crítico Rubem Biáfora. O vasto conhecimento cinematográfico, ecletismo e bom gosto deste grande sujeito reflete na relação de filmes que nos enviou. Portanto, vamos a ela:

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Sinto-me honrado em participar desse inventário criado pelo Ronald Perrone. Tentei o máximo possível selecionar títulos que ainda não foram citados pelos meus antecessores. Quanto mais opções para os leitores, melhor.

O TIGRE DA ÍNDIA/O SEPULCRO INDIANO (Der Tiger Von Eschnapur/Das Indische Grabmal, Alemanha/França/Itália, 1959).
Dir. Fritz Lang, com Debra Paget, Paul Hubschmid, Walter Reyer.

OS FILHOS DO TROVÃO (Arrivano i Titani, França/Itália, 1962).
Dir. Duccio Tessari, com Giuliano Gemma, Pedro Armendáriz, Antonella Lualdi.

O DIABÓLICO DR. HICHCOCK (L’Orrible Segreto del Dr. Hichcock, Itália, 1962);
Dir. Riccardo Freda, com Barbara Steele, Robert Flemyng, Silvano Tranquilli.

LA FRUSTA E IL CORPO (França/Itália, 1963);
Dir. Mario Bava, com Christopher Lee, Daliah Lavi, Tony Kendall.

BLOW-UP: DEPOIS DAQUELE BEIJO (Blow-up, Itália/Reino Unido/EUA*, 1966); Dir. Michelangelo Antonioni, com David Hemmings, Vanessa Redgrave, Sarah Miles.

Observação: a princípio Blow-Up não poderia estar na lista por ter co-produção americana, mas decidi incluir porque é difícil encontrar um filme com espírito mais europeu que esse!

ARMADILHA DO DESTINO (Cul-de-sac, Reino Unido, 1966);
Dir. Roman Polanski, com Donald Pleasence, Françoise Dorléac, Lionel Stander.

O ESTRANHO CAMINHO DE SÃO TIAGO (La Voie Lactée, França/Itália, 1967);
Dir. Luis Buñuel, com Paul Frankeur, Laurent Terzieff, Michel Piccoli.

A HORA DO LOBO (Vargtimmen, Suécia, 1968);
Dir. Ingmar Bergman, com Max Von Sydow e Liv Ullmann

O VINGADOR SILENCIOSO (Il Grande Silenzio, Itália/França, 1968); Dir. Sergio Corbucci, com Jean-Louis Trintignant, Klaus Kinski, Frank Wolff e Vonetta McGee.

O AÇOUGUEIRO (Le Boucher, França/Itália, 1970);
Dir. Claude Chabrol, com Stéphane Audran e Jean Yanne

UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER (Una Lucertola con la Pelle di Donna, Espanha/França/Itália, 1971).
Dir. Lucio Fulci, com Florinda Bolkan, Stanley Baker, Jean Sorel.

O MÉDICO E A IRMÃ MONSTRO (Dr. Jekyll and Sister Hyde, Reino Unido, 1971);
Dir. Roy Ward Baker, com Ralph Bates, Martine Beswick, Gerald Sim.

A CASA DA NOITE ETERNA (The Legend of Hell House, Reino Unido, 1973);
Dir. John Hough, com Pamela Franklin, Roddy McDowall, Gayle Hunnicutt.

LOVE LETTERS OF A PORTUGUESE NUN (Die Liebesbriefe Einer Portugiesischen Nonne, Alemanha/Suiça, 1977);
Dir. Jess Franco, com Susan Hemingway, William Berger, Herbert Fux.

ARREBATO (Espanha, 1980);
Dir. Iván Zulueta, com Eusebio Poncela, Cecilia Roth, Will More.

OS OLHOS DA CIDADE SÃO MEUS (Angustia, Espanha, 1987);
Dir. Bigas Luna, com Zelda Rubinstein, Michael Lerner, Talia Paul.

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F.I.S.T (1978)

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CARTAS DE AMOR DE UM BADASS #04

POR GUSTAVO SANTORINI

Sylvester Gardenzio Stallone.
A simples menção a esse nome é capaz de lhe despertar quais lembranças? Caso você tenha ultrapassado a casa dos 30 anos, ou dela já se encontre próximo, como eu, certamente será envolvido por imagens de heróis destemidos que nos inflamavam as noites preenchidas com Domingo Maior ou Tela Quente, as quais nos infundiam um animo tal que fantasiávamos investir a mesma fúria avassaladora no dia seguinte, contra aqueles valentões que tanto nos azucrinavam na escola. Em nosso imberbe senso de justiça, queríamos ser como Stallone e tocar o “zaralho” entre os coleguinhas, ser considerado o mais badass da vizinhança, e se ainda viesse um beijo da menina mais bonita como bônus, aí a fantasia estaria plenamente realizada. Porém, passado alguns anos e tendo ampliado nossa percepção sobre a vida, começamos a avaliá-la de outra forma, e essa aquisição de maturidade também é capaz de lançar um novo olhar sobre os heróis que povoavam nossa infância. Nós mudamos, e os filmes mudam conosco. Revendo a filmografia de Stallone, por exemplo, chegamos a duvidar se sua persona heroica era tão inabalável quanto parecia tempos atrás, e então a crença lúdica se desfaz com personagens que ganham novos contornos, oscilando entre a tenacidade aparente e a mais pungente vulnerabilidade; personagens trágicos como John Rambo, um ex-combatente transformado em pária, ou o Frank Leone de Condenação Brutal, detento que, em vias de conseguir a anistia da pena, é acossado pelo malévolo diretor do presídio. Assim, descobrimos que a fúria que nos encantava na infância só explode após um longo e penoso processo de absorção, e jamais configura uma reação intempestiva ou descerebral. Talvez fosse por esse motivo que seus personagens nos inspirassem tanto e os diferenciasse dos “exércitos de um homem só” encarnados por Arnold & Cia. Sly, como é carinhosamente chamado pelos amigos, é o único astro de filmes de ação a possuir uma veia autoral, algo que o eleva bem além de seus pares e até tornaria a epítome de “action hero” depreciativa, não tivesse ele próprio se empenhado tanto em cultivá-la.  E não é apenas por escrever e dirigir boa parte de seus filmes. Sua assinatura se impõe mesmo quando não dirige ou escreve, e é capaz de se manifestar nos dois extremos, como vemos em COPLAND, um faroeste urbano da melhor qualidade, e MISSÃO PERIGOSA, talvez seu pior filme.

Muito mais que um cronista da superação, Sly é um profundo conhecedor das engrenagens que movem o determinismo social, e é uma pena que tenha desperdiçado essa verve em uma sucessão de filmes medíocres ao longo da carreira. Num caminho inverso ao de Clint Eastwood, os mesmo críticos que hoje o ridicularizam são os mesmos que o exaltavam no inicio da carreira. O lendário Roger Ebert, por exemplo, o elevou a condição de “O sucessor de Marlon Brando”. Ao analisarmos o inicio fulgurante da carreira de Sly, veremos que a analogia não é de toda equivocada. Após trabalhos menores em filmes B e aparições fantasmas em filmes de sucesso (quem conseguir achá-lo em KLUTE: O PASSADO CONDENA, merece um premio), Sly bebeu da fonte de SINDICATO DE LADRÕES e transformou Terry Malloy, personagem de Brando, um ex-pugilista amargurado que ao se apaixonar por uma mulher tenta se redimir de uma vida errante, em Rocky Balboa, o qual, adivinhem, é justamente movido pelo amor que tenta encontrar mecanismos de escape a uma vida fadada ao fracasso, tudo isso num contexto político relevante, pois estamos em 1976, com os norte-americanos amargando uma ressaca moral pós-Watergate e Vietnã. Assim, o então “Mr. Nobody” Stallone canaliza as angustias do período e desponta nesse cenário sombrio como uma espécie de catalisador de mudanças, de quem as pessoas comuns se espelhavam e podiam compartilhar de seu triunfo. Sly alcançou o sétimo céu. Entrou no seleto grupo de atores a serem indicados ao Oscar como intérprete e roteirista. Foi bajulado pelos estúdios e alvo de adjetivos superlativos da mídia. Ainda assim, ele preferiu contrariar a legião de afoitos que clamavam por uma sequencia de Rocky e partiu para um projeto que poucos atores recém-chegados ao status de “astro” teriam a ousadia de escolher, um épico marcado pelo tom pessimista e que representa um desvio na temática redentora, e é dessa forma que chegamos a F.IS.T.

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Escrito em parceria com Joe Eszterhas, um jornalista musical da “Rolling Stone” que se tornou o roteirista mais bem pago do cinema nos anos 90 depois de escrever INSTINTO SELVAGEM, e dirigido pelo grande Norman Jewison, autor de clássicos como NO CALOR DA NOITE e FEITIÇO DA LUA, esta é uma obra seminal e infelizmente esquecida, além de ser o principal atestado de Sly como grande ator de performances minimalistas. A exemplo do anterior, este aqui também captura a atmosfera de SINDICATO DE LADRÕES, com o mérito de não soar um pastiche do mesmo. Na verdade, trata-se de uma cinebiografia disfarçada do líder sindical Jimmy Hoffa, cujo desaparecimento está até hoje entre os capítulos mais nebulosos da historia americana. No lugar de Hoffa temos Johnny Kovak, um operário idealista que, revoltado com as péssimas condições oferecidas aos trabalhadores, resolve se filiar ao Sindicato Interestadual dos Caminhoneiros (Federation Interstate Truckers – F.I.S.T.)  na década de 30.  Após sofrer intimidações de todo tipo, resultando inclusive na morte do presidente do sindicato, Kovak percebe que só terá chances de fazer valer sua causa se revidar as agressões sofridas, e então se envolve com mafiosos locais, que passam a proteger a organização. De posse de uma oratória inflamada, Kovak arrebanha uma multidão e obtém vitorias expressivas nas reivindicações trabalhistas, o sindicato passa a ficar mais rico e é temido pelos empresários. Tudo seria perfeitamente louvável, caso os mafiosos não tivessem se alojado na organização, exigindo contrapartidas que desafiam a moral de Kovak. Este não se faz de rogado, mas segue a lógica pragmática de sempre: os valores pessoais devem ser sacrificados pelo bem de uma causa maior. Assim, nosso herói da classe trabalhadora vende sua alma e aos poucos vai assumindo ares de gangster, se mostrando cada vez mais truculento nas negociações.  Repare na cena em que, informado sobre um empresário que se recusa a filiar-se ao sindicato, Kovak é categórico: “Todo mundo tem que se filiar”, e vai até a casa do tal sujeito a fim de persuadi-lo. Kovak chega com fidalguia, tece elogios à árvore de natal da família, mas não recebe o mesmo trato. O empresário se nega prontamente, argumentando que não vê motivos para a filiação, uma vez que oferece a seus funcionários os melhores benefícios do mercado. Por fim, ordena a Kovac que se retire. Sem desmanchar o sorriso, este lhe dá um ultimato: “Não pode haver exceção”. Capangas vão até a casa e agridem a mulher do empresário, que não vê outra escolha. Em outras cenas, quando confrontado por problemas de ultima hora, sua resposta é padrão: “Deixe-me cuidar disso”. O modo como conduz os interesses comuns da organização só diz respeito a ele próprio. Essa autonomia nos faz lembrar da célebre frase de Don Corleone: “Vou fazer uma proposta que ele não vai recusar…”. Contudo, Kovak diz ser contrario a métodos violentos, e tem preferência pelas artimanhas políticas, o que não deixa de ser a mesma coisa. Vejamos a sequência em que ele vai até Max Grahan (Peter Boyle), o então presidente do sindicato, e revela saber as falcatruas cometidas por ele. Todos esperam uma punição exemplar, inclusive seu melhor amigo, o autor da denuncia. Logo depois, vemos Max Grahan ir a publico e anunciar sua aposentadoria por “motivos pessoais”, empossando Kovak ao cargo. Ambos são aclamados pela multidão, enquanto o amigo assiste chocado ao aperto de mãos entre os dois.

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Creio que a incursão de Sly a comédia nos anos 90 fora malsucedida, em grande parte, devido à aura trágica que carrega em seus filmes. Ele é incapaz de alcançar a graça despojada, a distensão espontânea, algo que a postura rígida e a paralisia facial parecem corroborar. O riso só brota em seus filmes quando acompanhado de um certo lirismo chapliniano, vide a sequência em que Kovak se empenha em conquistar Anna, sua futura esposa. Primeiro ele tenta impressioná-la com um calhambeque, depois a convida para jantar, e por fim acabam dividindo um sorvete de casquinha. Mas Anna não o deixa passar do ponto. Apaixonado, ele vai até a casa de sua amada com um arranjo de flores murchas, “compradas em promoção”, segundo ele. Esse deslocamento se confunde com a do próprio intérprete, algo que extravasa as telas e cativa por sua simplicidade. Mas favor não confundir com Balboa e Adrian. O amor aqui não é a tônica dominante, e sim um dos itens sacrificados pelo bem da causa… Justifica não saber que se pode perder tanto?

O império de Johnny Kovac começa a ruir quando o faminto senador Andrew Madison (o genial Rod Steiger), que preside uma comissão contra a corrupção, o investiga por ligações com a máfia. Sly exprime o caos interior do personagem com gestos mínimos, sem jamais didatizar. Um exemplo? À medida que ele é caçado pelo senador, repare em sua postura levemente curvada, o andar vacilante, como se tivesse todo o peso do mundo sobre os ombros. É um recurso muito mais eficaz que a maquiagem carregada, ou as mechas de fios brancos, que mais parecem manchas de liquid paper. No confronto com o senador, a primeira impressão que temos é a de que Steiger, famoso pelas atuações expansivas, irá engolir Stallone em cena. Ledo engano. O que assistimos é um duelo de titãs no mesmo nível.

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ROCKY fora alçado ao panteão dos clássicos de forma tão instantânea que Sly já se dava ao luxo de emular a si mesmo em F.I.S.T, e isto com um intervalo de apenas dois anos entre ambos! É só olhar a cena em que, humilhado em audiência pública com o senador Madison, Kovac se levanta e sai furioso do tribunal, sendo recebido por uma multidão de rostos embevecidos na escadaria do lado de fora, punhos erguidos, bradando em uníssono: “Fist! Fist! Fist!” Uma cena majestosa, embalada pela trilha de Bill Conti, e um brilhante exercício de antítese sobre a icônica cena da escadaria. Pois, se antes Balboa se encontrava solitário e aos pulos naquela manhã esmaecida, ainda assim o acompanhávamos em jubilo, revigorados por sua energia febril; Kovak, no entanto, mesmo exaltado por milhões, sabe que o poder lhe encapsulou numa redoma de solidão e desamparo sem fim, conforme explicitado na cena seguinte, quando ele quase suplica a um funcionário que o acompanhe em um drink: “É que estou precisando conversar com alguém, sabe…

Terry Malloy e Rocky Balboa alcançaram a redenção. Aqui nós não a encontramos. O fato de o filme reservar um martírio ao final não torna a paisagem menos desoladora.

O PROFISSIONAL (Le Professionnel, 1981)

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CARTAS DE AMOR DE UM BADASS #03
POR GUSTAVO SANTORINI

– Eu vou morrer?
– Sim. Está com medo?
– Não… Por quê?
– Se fosse eu, teria.
– Isso é porque você vai para o inferno.

O diálogo acima, travado entre dois homens que acabaram de escapar da prisão, e cujas palavras soariam grosseiras se não estivessem imbuídas de uma sinceridade tocante, ocorre logo nos primeiros vinte minutos de filme. O primeiro homem fora baleado gravemente durante a fuga e agora se encontra as portas da morte, a cabeça apoiada no colo do segundo, que escapara ileso. A cena é poderosa por revelar o único instante de genuína afeição do protagonista por outra pessoa, além de ressoar como um acorde sombrio durante a projeção. Seu destino final é tristemente previsível, mas isso é o que menos o preocupa.

LE PROFESSIONNEL, ou O PROFISSIONAL, título que em português pode confundir com o badalado filme de Luc Besson de 1994 (ambos guardam vagas semelhanças, a começar pelo personagem principal, um francês exímio matador), é uma daquelas joias pouco comentadas que, ao desencavarmos quase que ao acaso, sentimos um misto de orgulho e gratidão por tê-las conosco. Durante os créditos iniciais, quando surgem as primeiras notas da esplêndida canção composta pelo maestro Ennio Morricone, pontuadas por imagens esparsas que ao final se revelarão momentos importantes dentro do filme (um recurso que seria copiado a exaustão em outras obras), temos a sensação de que estamos em boas mãos e dificilmente iremos nos decepcionar. O enredo, co-escrito por Jacques Audiard, que no futuro faria sucesso dirigindo dramas criminais, como O PROFETA (2010), é simples como um saboroso pão com mortadela. Joss Baumont (Jean Paul Belmondo) é um agente secreto enviado para uma republiqueta qualquer da África, a fim de matar o presidente Njala. Entretanto, no ultimo momento a situação política muda e o serviço secreto francês entrega o agente de bandeja às autoridades africanas, fazendo com que ele seja condenado a prisão. Abandonado a própria sorte, Baumont consegue escapar, e então retorna a França para concluir o serviço, o qual talvez seja o último. Ele faz questão de avisar seus ex-chefes sobre sua presença, prometendo matar Njala, que está em visita oficial ao país. Assim que o alarme é soado, a alta cúpula do serviço secreto fica em polvorosa, conforme expressa um dos funcionários ao ministro: “Olha para nós, senhor. Essa é apenas a nossa primeira noite sem dormir. Haverá outras.” Um jogo de gato e rato se inicia, e o ex-agente passa boa parte do filme se divertindo com o embaraço de seus algozes que chegamos a desconfiar de suas verdadeiras intenções.

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Ao reencontrar a esposa após um hiato de dois anos, ambos tiram o atraso. Passado o gozo, ela o interpela: “E agora, o que vai ser de nós?”. Os modos gentis de Baumont não suavizam a aspereza da resposta: “Enquanto certas pessoas estiverem vivas, não haverá nós”. Se em ACOSSADO, seu papel mais emblemático, Belmondo faz um tipo presunçoso que finge ser mais fodão do que é, em LE ROFESSIONNEL ele não perde tempo fingindo. A fim de comprovar sua astúcia sobre os demais, o ex-agente não hesita em usar a própria esposa, como vemos na sequencia magistral em que, após chegar ao apartamento da mulher, ele liga para seus perseguidores e se esconde a um canto, aguardando a chegada deles, que mordem a isca. Uma agente arrasta a esposa até a banheira e a afoga, a fim de forçá-la a dar o paradeiro do marido, enquanto o inspetor aguarda na sala. Beumont sai do esconderijo e salva a esposa, lançando a agente na banheira. Os ruídos e soluços chegam ao outro cômodo, e dão a entender que se trata da esposa sendo torturada. Quando esta reaparece na sala, sozinha e incólume, o inspetor ergue os olhos em assombro. Trata-se de um momento impagável, e como esse há dezenas. Difícil é escolher o melhor. Quer outro? Então aqui vai: enquanto um algoz faz um lanche numa padaria, Baumont chega por trás do sujeito e mergulha o croissant em seu cappuccino, mordendo em seguida. Sobressaltado, o homem ergue os braços e começa a se desculpar: “Eu não quis bater em sua esposa, é que me pediram.” A resposta vem com um soco potente no nariz, acompanhado de um argumento: “Eu também não quis te bater. Foi minha esposa que pediu.

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Seguindo o padrão dos filmes europeus, aqui temos uma exuberância de mise em scene, os enquadramentos elegantes, mas quando se trata de afundar o pé no acelerador, o filme demonstra extrema habilidade, sem perder a direção momento algum. Prova disso é a sequência de fuga, conduzida de forma crua pelo diretor George Lautner, que nos faz sentir como se estivéssemos realmente na linha de fogo. Em que pese o saudosismo, é impossível não assistir a cena e compará-la com o anêmico cinema de ação atual, contaminado por maneirismos de câmera tremida e floreios de edição que só mascaram ausência de estilo. Tais diretores ignoram que, ao distorcer as imagens e impedir a imersão do espectador nas cenas, acabam por cometer um delito ainda maior, que é o de quebrar a comunhão entre o publico e os personagens, uma vez que é nos momentos de conflito que eles têm nossa completa atenção, e sem isso não há empatia. Consideremos outra sequencia monumental, uma perseguição de carros em plena Champ de Mars, onde o protagonista passa de presa a caçador e empurra o veiculo do oponente escadaria abaixo, com a Torre Eiffel em último plano. O embate frenético confere um ar selvagem à “Cidade da Luz”, tornando o cartão postal ainda mais atraente.

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É divertido ver os franceses saindo de sua finesse habitual e proferir sentenças no mínimo rudes, como o inspetor diante da prostituta que se recusa a cooperar em sua cruzada contra Baumont: “Se você não me ajudar, vai sofrer um acidente. Dentro do elevador, por exemplo. O cabo irá partir e vão achá-la seis andares abaixo, com os saltos altos cravados na garganta…”. O filme ainda nos brinda com um duelo final entre Baumont e o mesmo inspetor casca grossa, emulando o clímax de western spaguetti, e dilatando a tensão em níveis agudos ao inserir um desavisado em cena. O sujeito vai pedir informação (!) aos dois homens postados um diante do outro, e ao tropeçar, sua queda acaba servindo de estopim aos disparos. Essa é a referida cena de abertura dos créditos. Vencedor do duelo, Baumont vira as costas e segue seu caminho. Ele já não parece se divertir tanto assim.

Ícone da nouvelle vague, Jean Paul Belmondo jamais se deixou limitar aos experimentalismos do movimento, aproveitando para demonstrar sua versatilidade em obras de forte apelo popular. Aqui ele tem a atuação mais despojada de sua carreira, e olha que estamos falando de alguém que em matéria de desempenho cool só encontrava rival em Steve McQueen. Inconfundível pela estatura elevada e um rosto anguloso perfeito para cartunistas, o astro francês não é o que se pode chamar de um sujeito “boa pinta”, embora compense a falta de atributos físicos com um tipo de carisma singular, transitando entre a elegância e a vulgaridade. É até crível o fato de as duas mulheres mais belas do filme caírem de amores por ele.

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Uma grande questão a perpassar a obra é porque diabos Beumont arriscou a própria vida para levar a cabo um plano que fora abortado pelos próprios superiores e do qual não lhe traria beneficio algum, sendo que poderia simplesmente pegar sua graciosa esposa ou a amante estatuesca (ou ambas) a tiracolo e sumir do mapa. A exemplo dos samurais clássicos, estaria ele movido por um código de honra, no sentido de terminar o que começou, ou o motivo seria menos nobre, uma simples sanha vingativa? Creio que ambas seriam justificativas demasiado simplistas. É óbvio que a trama se move nos trilhos de uma necessidade dramática, de modo que se não houvesse a tal obsessão do protagonista, não haveria filme. No entanto, sob essa camada se deslinda uma outra, e sem querer emprestar ao filme uma ressonância maior do que lhe é devido, enxergamos na figura do hitman alguém que no curso de seu oficio fora desumanizado a ponto de virar uma bomba relógio pronta para implodir o estado de coisas que o moldara.

O desfecho comprova que, quando isso acontece, é impossível neutralizá-la.