INVENTÁRIO EUROCULT #14

O Daniel Vargas edita o blog Top Bad Dates with De Niro, já é um colaborador oficial por aqui (na verdade, só escreveu este texto, mas vem mais por aí) e enviou uma lista com seus filmes europeus favoritos para ser anexada ao Inventário Eurocult:

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A ÚLTIMA GARGALHADA (Der letzte Mann, Alemanha, 1924);
Dir. F. W. Murnau, com Emil Janning, Maly Delschaft e Max Hiller

Poderia muito bem ser chamado também de “O Último Suspiro” ou “A Morte de um Porteiro”.

M – O VAMPIRO DE DÜSSELDORF (M, Alemanha, 1931);
Dir. Fritz Lang, com Peter Lorre

Em tempos de linchamento público, um clássico mais do que atual.

MORANGOS SILVESTRES (Smultronstället, Suécia, 1957);
Dir. Ingmar Bergman, com Victor Sjöström, Bibi Andersson e Ingrid Thulin

Os eternos fantasmas das decisões da vida que tomamos no passado.

OS INCOMPREENDIDOS (Les quatre cents coups, França, 1959);
Dir. François Truffaut, com Jean-Pierre Léaud

A dor da necessidade de ser notado e amado.

LAWRENCE DA ARÁBIA (Lawrence of Arabia, Reino Unido, 1962);
Dir. David Lean, com Peter O’Toole, Omar Sharif, Alec Guinness e Anthony Quinn

O homem que queria ser o rei de outro mundo.

AGUIRRE: A CÓLERA DOS DEUSES (Aguirre, der Zorn Gottes, Alemanha, 1972);
Dir. Werner Herzog, com Klaus Kinski,

O homem que queria ser o rei do seu PRÓPRIO mundo.

MEANTIME (Reino Unido, 1984);
Dir. Mike Leigh, com Tim Roth, Gary Oldman e Alfred Molina

Classe operária britânica não vai ao paraíso.

A FRATERNIDADE É VERMELHA (Trois couleurs: Rouge, França/Suíça/Polônia, 1994); Dir. Krzysztof Kieslowski, com Irène Jacob e Jean-Louis Trintignant

Um coração solitário também.

A AGENDA (L’emploi du temps, França, 2001);
Dir. Laurent Cantet, com Aurélien Recoing e Karin Viard

Neto de “A Última Gargalhada” e o eterno fantasma da incerteza em pleno século 21.

LILYA 4-EVER (Lilja 4-ever, Suécia/Dinamarca, 2002);
Dir. Lukas Moodysson, com Oksana Akinshina e Artyom Bogucharskiy

O começo até o fim da destruição completa de um ser humano perante nossos olhos impotentes.

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FINALMENTE, PHANTASM V

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Para entenderem a noção do “perigo”, a série PHANTASM, iniciada em 1979 e criada por Don Coscarelli, é simplesmente uma das coisas mais geniais já realizadas no horror americano e cada um de seus quatro filmes mostra um universo dos mais fascinantes que já vi. O último episódio, lançado em 98, além de deixar toda a saga em aberto, sem um desfecho, deixou também os fãs da série em polvorosa ao longo dos anos sedentos por um capítulo final que não chegava nunca… De vez em quando Coscarelli soltava indícios que retornaria ao universo de PHANTASM, mas tudo resultava em furada…

Um detalhe que pegava nisso tudo é que um dos personagens principais da série, o vilão Tall Man, é interpretado por Angus Scrimm, um ator que já na sua primeira participação, em 79, tinha 53 anos nas costas. Em 98, no último filme, já era então um senhor de 72 anos. E nenhum fã que eu conheça consegue imaginar um novo PHANTASM sem a presença de Scrimm encarnando novamento o personagem, soltando aos quatro ventos o seu famigerado “Boooooooyyyyy!!!!“. Pois é, ao passar dos anos, a possibilidade do ator bater as botas a qualquer momento vem aumentando ainda mais a ansiedade dos fãs. Até agora, Scrimm não morreu…

No final de 2012, após 10 anos sem filmes novos (o último havia sido BUBBA HO-TEP), Coscarelli lançou JOHN DIES AT THE END, comprovando que ainda tinha bala na agulha. Nessa ocasião, o assunto PHANTASM novamente veio à tona: “Well here is the thing… ever since we’ve been doing the publicity on JOHN DIES AT THE END, I’ve been overwhelmed in every situation with the question, ‘When’s the next one?’ and I didn’t realize that thirty years on that there is still interest in that. The good news is that the PHANTASM actors are all in great shape, in fact Angus Scrimm’s got a great role in JOHN DIES AT THE END. I think after this is over, its something I’m going to seriously consider because if so many people want it how can you say no?

Opa, parecia que agora ia, né? Bom, demorou, mas depois de dois anos, nesta semana para ser exato, um teaser poster de PHANTASM V surgiu na rede. E já com um subtítulo de acompanhamento: RAVAGER!

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Mesmo assim, o pé continuou atrás. Qualquer mané que sabe mexer num photoshop faz um poster hoje em dia e acaba enganando meio mundo… Mas eis que no dia seguinte surgem duas notícias para esquentar as coisas:

1. PHANTASM V: RAVAGER já está pronto! Sim, era isso que dizia a notícia. As filmagens começaram em 2008 e foram acontecendo de forma lenta desde então até a sua conclusão recente. Ou seja, Coscarelli tava na zoeira com aquele papinho em 2012. As filmagens já estavam rolando…

2. Don Coscarelli NÃO é o diretor de RAVAGER. O responsável pelo feito é o animador e ilustrador David Hartman. Claro, uma notícia dessas é praticamente um banho de água fria. Mas não sei, parece que as filmagens tiveram toda a supervisão e acompanhamento do Coscarelli, portanto não vejo lá como um grande prejuízo. O importante é ter o espírito dos filmes anteriores.

Mas será que tudo isso ainda seria verdade? Após tantos anos de boatos, não me surpreenderia se tudo não passasse de história para boi dormir mesmo com os sites de notícias afirmando que era tudo informação oficial.

No entanto, para coroar a semana repleta de novidades em relação a este tão aguardado capítulo da série PHANTASM, hoje lançaram um trailer que comprova a veracidade de tudo que foi dito aí em cima! Confiram:


Wow! Além de trazer os elementos da série de volta, como as esferas mortais, e os atores dos filmes originais, como Reggie Bannister, é possível ver o grande Angus Scrimm em carne, osso e muitas rugas, no auge dos seus 87 anos, marcando presença novamente como Tall Man! Agora não tem jeito, não tem volta! O capítulo final de PHANTASM é uma realidade e só nos resta, finalmente, esperar a oportunidade de assistir.

Com a palavra, o próprio Coscarelli: “The PHANTASM films have been a guerrilla operation for decades now, totally outside of the studio system. We do them for the fans, and I think RAVAGER will definitely please them. In the past few years several studios have made offers to remake PHANTASM with large budgets, but the fans were very vocal that they wanted the original cast to return and finish this iteration of the story with class. And for the first time there’s an extended sequence on the Tall Man’s home world. I know PHANTASM fans will be as excited as I am to see it.

O ÚLTIMO BOY SCOUT (The Last Boy Scout, 1991)

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CARTAS DE AMOR DE UM BADASS #02
por GUSTAVO SANTORINI

Joe Hallenbeck não vive seus melhores dias.

Ex-agente do serviço secreto americano, o agora detetive pé de chinelo passa os dias chafurdando no álcool, é odiado pela filha rebelde e ainda chega ao cúmulo de aceitar uma oferta de trabalho do homem a quem acabara de flagrar dentro do armário da esposa. Descobrir que o tal sujeito era seu melhor amigo não lhe motiva a recusar o serviço, afinal de contas, “quinhentos dólares são quinhentos dólares”, ele justifica, embora saiba que, no fundo, esse está longe de ser o verdadeiro motivo. Ocorre que o próprio Joe Hallenback não vê a si com bons olhos, e sufocar o orgulho diante de seu traidor é a forma mais abjeta de autopunição ao alcance. O serviço, aliás, também não é grande coisa. Sua função é proteger Cory (Halle Barry, apetitosa), uma stripper que vem sofrendo ameaças de morte. Ela afirma desconhecer os autores, mas é provável que esteja encobrindo algo. A despeito dos riscos envolvidos, o maior desafio de Joe será lidar com o namorado insuportavelmente irritante da moça, Jimmy Dix (Damon Wayans, canastrão na medida certa), um ex-jogador de futebol americano que poderia ter sido grande, caso não tivesse se envolvido no esquema ilegal de apostas. Quando Cory é assassinada, ambos resolvem unir forças para investigar a autoria do crime, e entre trocas de sopapos e insultos, as pistas os levarão a alta cúpula do esporte e da política de Los Angeles. E isso, caro leitor, é apenas o bilhete de entrada para uma montanha russa de intrigas, humor corrosivo e muita, muita ação de altíssima voltagem.

Mas não só isso.

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Os buddy movies, como são chamados os filmes cujo cerne temático é a convivência indesejada entre duas pessoas de personalidade opostas, constitui um subgênero dos mais férteis no cinema americano. Entre alguns exemplos de duplas icônicas, seria uma heresia não mencionar Bud Abott & Lou Costello, Jerry Lewis & Dean Martin (16 filmes juntos!), Walter Matthau & Jack Lemmon, Paul Newman & Robert Redford, Richard Pryor & Gene Wilder. A narrativa que envolvia essas duplas explorava com humor as situações antagônicas, e mesmo quando flertava com outros gêneros, raramente fugia do tom predominantemente escapista (uma exceção que me vem à mente é ACORRENTADOS, 1958, de Stanley Kramer). Em 1969 o conceito ganharia uma reinvenção com o denso PERDIDOS NA NOITE, o único de censura 18 anos a vencer o Oscar de melhor filme, a reboque das magníficas atuações de Dustin Hoffman e John Voight. A ruptura permitiu que outras variações começassem a surgir (OPERAÇÃO FRANÇA ganhou o Oscar dois anos depois), e o caso mais emblemático são os buddy cop movies dos anos 80. Pérolas como 48 horas, MÁQUINA MORTÍFERA, TOCAIA, INFERNO VERMELHO e FUGA A MEIA NOITE fizeram a alegria de toda uma geração de cinéfilos, sendo reprisadas a exaustão no saudoso Domingo Maior, da Rede Globo. No final da década, porém, a fórmula já se mostrava desgastada, vide o fracasso de TANGO & CASH (1989), o que contribuiu para a fria recepção de O ÚLTIMO BOY SCOUT. É uma pena, pois para mim esse é o exemplar mais rico que o subgênero apresentou.

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A primeira razão disso identificamos no eixo narrativo. A rigor, o filme tem consciência de que pertence a um nicho de arcabouço rígido, com começo, meio e fim muito bem delineados, e ainda assim não tem o menor pudor em remexê-lo numa argamassa extravagante. O tom deliciosamente histérico já nos pega na abertura, um clipe de futebol americano com uma explosão de fogos e cores vivas, onde atletas indômitos dividem a arena com voluptuosas cheerleaders de sorriso fácil, a bandeira americana ao fundo, e um cantor alucinado a esgoelar uma balada pop fanfarrona. Passado o espalhafato do inicio, somos jogados no meio de uma tensa partida de futebol, sob uma chuva abundante. Durante o intervalo do jogo, Billy Cole, um dos astros em campo – interpretado por Billy Blanks, um dos maiores badass de videolocadora dos anos 90, aqui numa rara aparição em blockbuster – recebe uma ligação em que é ameaçado de morte caso não decida a partida em favor de seu time. A pressão causa um abalo emocional no jogador, que sai com a bola em disparada pelo campo e, num touchdown insano, saca um revolver da cintura e baleia o rosto do jogador adversário, acerta outros dois pelo caminho, e ao final, antes de atirar contra a própria têmpora, exclama a seguinte frase: “Puta que pariu, que vida estúpida!”. A sequência é pintada como um pesadelo noir, e então o filme corta para a cena de apresentação do personagem de Bruce Willis largado no carro após uma noite de bebedeira. Roncando, Joe Hallenbeck é alvo das travessuras de um grupo de crianças. Quando abre os olhos, a raiva não é tanto por ser incomodado, mas por ainda estar vivo para se deixar incomodar. Dele passamos para o personagem de Damon Wayans, ridicularizado por um colega de farra. Ele até consegue revidar a ofensa, mas não sem o custo de expor sua fissura emocional. A mensagem no subtexto é simples: estamos diante de dois Billy Coles, tão esmagados pela letargia quanto o primeiro. Porém, um acerto do roteirista Shane Black – o qual deu ao mundo o já citado MÁQUINA MORTÍFERA, filme síntese dos buddy cop movies, e cuja estreia na direção se deu com BEIJOS E TIROS, outra variação do subgênero – é evitar adoçar o caldo de mea culpa. Pelo contrário, o estranhamento entre a dupla rende momentos cômicos de rachar o bico, como na sequência em que os personagens se encontram pela primeira vez, numa boate. Jimmy Dix se arde em ciúmes ao ver Joe na cola de sua garota, e o confronta: “Se minha namorada está precisando de ajuda, eu deveria ter sido informado”. Joe o responde com polida desfaçatez: “A água é clara, o céu é azul e as mulheres têm segredos. E daí?”. Mais adiante, há outro diálogo surreal, quando Joe adverte o parceiro sobre os riscos da investigação: “Isso não é brinquedo, garoto. Armas de verdade, balas de verdade, é perigoso.” “Perigo é meu nome”, responde Jimmy. Além de hilária, a conversa é extremamente eficaz por existir somente no universo peculiar do filme, e quando isso acontece, mal sabemos que já fomos inteiramente fisgados por ele.

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Embora seja eficiente na tarefa de oferecer pão e circo, o filme também se mostra interessado em desnudar o caráter ambíguo dos personagens, e em momento algum os perde de vista, mesmo nas sequencias de alívio cômico. A cena em que Wayans imita os trejeitos andróginos de Prince enquanto dirige, por exemplo, caminha na linha tênue entre a graça e o ridículo, e só não a ultrapassa porque enxerga-se na pantomima não apenas uma tentativa de sociabilidade, como uma forma de abstrair a tensão do perigo iminente. A sua maneira cínica, Joe poderia tê-lo rechaçado, e só não o faz porque compartilha dessa mesma necessidade. No final das contas, é seu sorriso amarelo que sela a camaradagem tácita entre os dois. Mais adiante, Jimmy descobre que Joe era um fã seu, e que desistiu de acompanhar os jogos da Liga de Futebol após sua aposentadoria precoce; Joe percebe que Jimmy só ostenta a fachada de arrogante em autodefesa, e dessa equação resulta a regra de ouro dos buddy movies, isto é, a ideia de que todo antagonismo só sobrevive na superfície, uma vez que quanto maior for a convivência entre indivíduos distantes entre si, tanto menor se revelarão as diferenças.

Se num primeiro momento o triste fim de Billy Cole se anunciava como o paradigma que a dupla estava fadada a seguir, eles acabam por descobrir a si próprios como merecedores de um epílogo mais honroso. Em meio a um salceiro de explosões e hematomas, ambos se revezam na tarefa de salvar a pele um do outro com tanta frequência que o fato de estarem com a cabeça a prêmio até ganha um contorno fraternal. Vê-los sofrer nas mãos dos bandidos pode ser tão divertido quanto angustiante, e há uma sequencia em especial que exemplifica essa dualidade: capturado no covil do chefão, Joe pede um cigarro a um dos capangas, e é atendido. Na hora de pegar o isqueiro, recebe um soco certeiro no rosto. Sangue esguichando, Joe torna a pedir o “fogo”, e após ser novamente esmurrado, é ele quem dá o troco, e o faz tão bem que coloca o sujeito pra dormir. Um engomadinho então aparece em cena, e quando vai se apresentar ao detetive, este o interrompe: “Que diferença faz a porra do seu nome? eu já sei que você é o vilão”. A piada metalinguística é divertida, mas Joe está equivocado. O verdadeiro Bad Guy surge logo depois, mergulhando o corpanzil na piscina da sala. Trata-se de Sheldon Marcone, um magnata do futebol americano. Surpreso, Joe o reconhece: “Oh, Shelly Marcone em pessoa”. A ameaça incutida na resposta do vilão só não é maior que sua espirituosidade: “Cuidado, filho. Só amigos me chamam de Shelly”… E o pobre Joe é submetido a novas surras. Antes que o pior aconteça, Jimmy consegue chegar a tempo.

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A dupla descobre que a stripper fora apenas mais uma vitima do esquema de corrupção no esporte. Os criminosos são rigorosamente punidos, ainda que tudo se encaminhasse para o contrário. A filha de Joe toma consciência de que é o espelho do pai a quem pensava odiar, e o ajuda no momento mais crítico. A mulher infiel tem sua chance de se redimir. Assim, o caos serve de reparo às fendas da família Hallenback, que agora recebe Jimmy Dix como novo integrante. Previsível, certo? Não necessariamente. É a forma como esses elementos são depurados, e não uma pretensa quebra de linguagem sob um truque inovador, que elevam O ÚLTIMO BOY SCOUT a um patamar acima de sua categoria.

É verdade que Bruce Willis já se encontrava numa certa zona de conforto action hero, o que não significa que o desempenhasse no piloto automático. Sua atuação possui o frescor de um novato. Ele e Damon Wayans parecem se divertir horrores. Por ironia, Willis lograria êxito comercial com um filme semelhante em DURO DE MATAR: A VINGANÇA, ao pegar um personagem já querido pelo público e adicionando Samuel L. Jackson a mistura, ambos recém-saídos do Big Bang chamado PULP FICTION, ele transformou o terceiro exemplar da franquia em um autentico filme de camaradas, o que não tinha como errar. Foi o canto de cisne da série, que depois seguiria ladeira abaixo com duas sequências sofríveis. Wayans também tentou repetir a fórmula em A PROVA DE BALAS, dessa vez acompanhado pelo mala do Adam Sandler. O filme é um festival de exageros e até diverte em alguns momentos, mas o maior atrativo é ver James Caan compor uma figura malévola digna de um episódio de Scooby doo.

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O diretor Tony Scott já prenunciava o estilo hiperativo com o qual se notabilizaria na década seguinte, em petardos como CHAMAS DA VINGANÇA e DOMINO. É curioso analisar sua carreira à luz do irmão Ridley, pois mesmo tendo este ultimo gozado da benevolência dos críticos, é na filmografia de Tony que reconhecemos um DNA autoral. Ridley padece de uma certa esquizofrenia temática que o faz atirar em todas as direções. Se por um lado realizou obras mais notáveis que o irmão caçula (ALIEN, BLADE RUNNER, PERIGO NA NOITE…), por outro deixou um numero maior de obras ruins. Sim, porque a favor de Tony pesa o fato de jamais ter torturado o espectador com uma iguaria do porte de um ATÉ O LIMITE DA HONRA, ou uma fábula canhestra como A LENDA, só pra citar dois exemplos. E foi justamente num momento de consolidação estética, quando até parte da intelligentsia começava a reavaliá-lo, que o cineasta pôs fim a própria vida, em agosto de 2012. As circunstâncias que o levaram ao ato continuam nebulosas. Ao contrário dos personagens com potencial trágico de O ÚLTIMO BOY SCOUT, é provável que os fantasmas o tenham finalmente alcançado. O que fica, porém, é o registro de uma filmografia robusta, recheada com momentos de pura cinefilia inflamável, e cuja ausência deixou uma lacuna irreparável no cinema de ação mainstream.

INVENTÁRIO EUROCULT #13

Rafael Medeiros é um sujeito gente boa, aficcionado por Tokusatsu e mantém o blog Cine Tosco. É ele quem enviou a lista com os seus filmes europeus de gênero favoritos para o Inventário Eurocult dessa semana. Uma lista bem curiosa, aliás, com um ou outro título habitual, mas recheado de surpresas que nunca imaginei que veria nessas listas. Viva a diversidade:

6ugL0nkAk9AcraN6ZActTfsuq7G taxidermia_xlgO GABINETE DO DR. CALIGARI (Das Cabinet des Dr. Caligari, Alemanha, 1920);
Dir. Robert Wiene, com Werner Krauss e Conrad Veidt

HAMLET (Reino Unido, 1948);
Dir. Laurence Olivier, com Laurence Olivier, John Laurie e Anthony Quayle

O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE (L’Armata Brancaleone, Itália/França/Espanha, 1966); Dir. Mario Monicelli, com Vittorio Gassaman, Gian Maria Volonté e Barbara Steele

A DUPLA EXPLOSIVA (…altrimenti ci arrabbiamo!, Itália/Espanha, 1974);
Dir. Marcello Fondato, com Terecen Hill, Bud Spencer e Donald Pleasence

O ANTICRISTO (L’anticristo, Itália, 1974);
Dir. Alberto De Martino, com Carla Gravina, Mel Ferrer, Arthur Kennedy e Alida Valli

CANIBAL HOLOCAUSTO (Cannibal Holocaust, Itália, 1980);
Dir.: Ruggero Deodato, com Robert Kerman, Francesca Ciardi e Perry Pirkanen

HELLRAISER: RENASCIDO DO INFERNO (Hellraiser, Reino Unido, 1987);
Dir. Clive Barker, com Andrew Robinson, Claire Higgins, Ashley Laurence e Doug Bradley

A VIDA É BELA (La vita è bella, Itália, 1997)
Dir. Roberto Benigni, com Roberto Benigni e Nicoletta Braschi

[Rec] (Espanha, 2007)
Dir. Jaume Balagueró e Paco Plaz, com Manuela Velasco e Ferran Terranza

TAXIDERMIA (Hungria/Áustria/França, 2006);
Dir. György Pálfi, com Csaba Czene, Gergely Trócsányi e Marc Bischoff

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ESPECIAL McT #8: O 13º GUERREIRO (The 13th Warrior, 1999)

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Após o lançamento de DURO DE MATAR: A VINGANÇA, John McTiernan entrou numa furada chamada O 13º GUERREIRO. Filmado em 1997, o filme só chegou aos cinemas em 1999, demonstrando que desde a sua produção alguma coisa estava errada, e foi um fracasso de crítica e público. O pior é que tinha tudo para ser uma fascinante aventura épica, uma releitura de OS SETE SAMURAIS no universo Viking, sob o olhar de um árabe, interpretado pelo Antonio Banderas, com batalhas grandiosas e os efeitos especiais charmosos da época. E ainda evocaria alguns elementos do cinema de McTiernan, que explorava aqui novas possibilidades, um épico histórico, talvez para não ficar tão estigmatizado como diretor de ação, após ter redefinido o gênero com DURO DE MATAR (88), brincado com as suas estruturas em O ÚLTIMO GRANDE HERÓIS (93), e levado o conceito de ação às últimas consequências em DURO DE MATAR: A VINGANÇA (95). McTiernan, naquele período, possuía um certo prestígio em Hollywood. Era dos poucos auteurs, no sentido mais cahiers possível, a conseguir trabalhar no studio system sem sofrer grandes interferências, mantendo sua visão de cinema e de mundo intacta.

Até que um dia resolveu encarar O 13º GUERREIRO

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O filme é baseado num livro de 1974 de Michael Crichton, que além de romancista era produtor, roteirista e diretor de filmes. Fez até alguns exemplares de ficção científica obrigatórios, como WESTWORLD (73), precursor de O EXTERMINADOR DO FUTURO (84), com o Yul Brynner fazendo papel de andróide com “defeito” que resolve exterminar indivíduos inocentes. Filmaço! Enfim… o fato é que Crichton é um dos produtores de 13º GUERREIRO, e entregou a sua criação literária nas mãos do McTiernan. Nunca li o tal livro, não posso fazer nenhum tipo de análise detalhada, mas o que se sabe é que McT e os roteiristas fizeram todo o tipo de modificações que bem entenderam. Crichton não gostou do resultado e, após umas sessões de testes negativas, o próprio Crichton resolveu retornar aos sets para filmar e refilmar algumas sequências. E deu no que deu…

Com a qualidade da obra já comprometida, restava apostar na figura do Banderas estampando os materiais promocionais do filme para atrair publico. O espanhol estava em alta em meados dos anos 90, pagando de herói galã após encarnar o Mariachi matador em A BALADA DO PISTOLEIRO e personificar o lendário Zorro, na superprodução A MÁSCARA DO ZORRO. Aqui ele vive Ahmed, um poeta árabe que se apaixona pela esposa de seu rei e, por conta disso, é enviado numa missão cujo propósito é simplesmente afastá-lo da amada. Podia ter sido pior, o rei poderia ter ordenado sua cabeça ou que cortassem os seus bagos… Mas não, o sujeito pôde pegar seu conselheiro, o veterano Omar Sharif, e rumou para o norte onde acaba se reunindo com um grupo de guerreiros escandinavos. Em determinado momento, um pedido de socorro de um vilarejo Viking é enviado e faz com que treze guerreiros sejam escolhidos para enfrentar a ameaça. Ahmed é destinado a ser o 13º e inicia uma jornada de transformações pessoais.

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Os filmes de McTiernan costumam ser mais do que simples exemplares de gênero. Para cada grande sequência de ação de um PREDADOR, há um estudo de personagem, há um detalhe que é trabalhado para suscitar a reflexão. Portanto, é natural esperar que a aventura de Ahmed pudesse render algumas lucubrações, e realmente há uma tentativa de colocar o personagem em momentos de inquietações e conflitos espirituais e psicológicos que uma jornada dessas poderia render. Mas é frustrante perceber que o filme acaba desistindo desse caminho e não vai a fundo no estudo do personagem. É tudo muito superficial e genérico.

Há certos momentos, detalhes e algumas boas sacadas, no entanto, que me chamaram a atenção nesta revisão. Percebe-se a mão de McTiernan em alguns casos, como a sequência que mostra Ahmed aprendendo o idioma de seus novos companheiros, que me lembrou a forma que o diretor utilizou para resolver a questão da língua falada em A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO. A invasão dos guerreiros Vikings à caverna onde a tribo inimiga se esconde é outro ponto alto, com boa dose de tensão e um trabalho atmosférico bem cuidado. Mas momentos com esses quesitos são raros, já que a maioria das cenas de ação no decorrer do filme decepciona, apesar da violência gráfica e extrema. A “grande” batalha final, por exemplo, mostrada numa câmera lenta tosca, sem emoção alguma, fecha com chave de ouro o desperdício de tempo que é uma sessão de O 13º GUERREIRO.

Não dá pra colocar a culpa toda no McTiernan, já que não veremos a sua versão pra saber se era realmente pior ou se era uma obra-prima destruída pelo Crichton, que ficou encucado com as mudanças realizadas em sua criação. Mas se um dia McT conseguir lançar a sua director’s cut eu seria o primeiro da fila para conferir.