DIRTY LOVE (Amore Sporco, 1988)

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Aqueles filmes dos anos 80 que retratam a dura vida no universo da dança profissional, tipo FLASHDANCE, DIRTY DANCING e FOOTLOOSE, serviram de inspiração para Joe D’Amato em DIRTY LOVE. A trama é sobre uma moça que resolve encarar a cidade grande em busca do sonho de fazer parte de uma companhia de dança e conseguir uma acirrada vaga numa peça musical. Bem básico. Mas quem já conhece o trabalho do diretor sabe muito bem que D’Amato não está nem um pouco interessado no drama de sua protagonista em busca do seu lugar ao sol. Poucos diretores tiveram colhões quanto D’Amato, e sua obra é das mais ousadas, corajosas e picaretas e toda e qualquer idéia, por mais perturbadora, iconoclasta, sádica e imoral que tivesse, era muito bem aproveitada em seus filmes. Portanto, o interesse principal do D’Amato em DIRTY LOVE é este aqui:

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Ou seja, é bem melhor que qualquer FLASHDANCE da vida…

Dois pontos a se destacar. Primeiro, a direção do D’Amato, que me surpreendeu e é realmente boa, com um acabamento bem acima do nível de algumas bagaceiras que o sujeito tinha no currículo. Não sei o que deu no homem, mas demonstra habilidade de um Verhoeven nos movimentos de câmera, enquadramentos elaborados, ritmo. Pena que a produção do filme não devia ter dinheiro pra contratar coreógrafos mais talentosos para as cenas de dança, que são bem fraquinhas, chega a ser constragedor. Mas D’Amato consegue extrair até demais com a câmera. Se bem que isso não importa tanto…

Fiquei na dúvida por um momento se o próprio D’Amato se encarregou do trabalho de diretor de fotografia, algo comum em sua obra, sempre assinando com seu nome verdadeiro, Aristide Massaccesi. Aqui aparece um tal de Federico Slonisco. Mas, já confirmei, trata-se mesmo de D’Amato inventando mais um pseudônimo. Verdade seja dita, o homem é um baita diretor de fotografia e, além dos seus próprios filmes, realizou essa função para alguns nomes importantes do cinema popular italiano, como Demofilo Fidani, Alberto de Martino e Massimo Dallamano.

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O segundo ponto que merece atenção só poderia ser essa belezinha aí em cima. Valentine Demy não é atriz de profundo talento dramático, mas é deslumbrante, fogosa e não tem receio algum de tirar a roupa. Perfeita para o papel num filme como este, em que é explorado mais a sua avidez sexual do que o talento pra dança ou drama.  Mas não pensem que a personagem é vagabunda, pelo contrário, é uma mulher forte, liberta e de disponibilidade safa que faz questão de esnobar os boçais, machistas e provincianos que tentam lhe tirar proveito. Nascida na região da Toscana, Valentine começou a trabalhar como atriz no fim dos anos 80 com diretores do calibre de D’Amato e Tinto Brass. No anos 90 não conseguiu segurar o fogo entre as pernas e entrou no universo dos filmes hardcore. Chegou a atuar sob a direção de grandes autores do gênero no país da bota, como Silvio Bandinelli e Mario Bianchi. Curioso que nunca mais voltou a trabalhar com D’Amato, que passou a década de 90 quase toda fazendo pornografia. Ainda hoje na ativa, já não vale muito a pena vê-la em ação. Não por ser mais velha, isso não é problema, mas por ter se dedicado alguns anos como fisiculturista, seu corpo ganhou uma forma que já não me agrada tanto, além de ter enchido os seios de silicone…

No entanto, DIRTY LOVE e outros exemplares da época estão aí, para serem vistos e revistos. Em tempos púdicos como os que vivemos, sob a égide do politicamente correto, um filme como este aqui chega a ser um frescor.

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PS: É preciso apontar também a presença de Laura Gemser numa pequena participação. Musa de D’Amato, tendo estrelado vários filmes do homem, ela aparece aqui como uma massagista que resolve colocar as mãos em áreas, digamos, mais erógenas da protagonista…

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LES TROTTOIRS DE BANGKOK (1984)

bscap0011Então em vez de conferir algum dos mais conhecidos filmes do francês Jean Rollin que eu ainda não vi, resolvi encarar este petardo do sujeito da fase oitentista. Mas até que foi uma boa surpresa! Nessa época o diretor se afastava um bocado dos filmes de horror que o consagrou na década anterior, com as vampiras belas e sexys que povoavam a maioria de suas narrativas, e desbravava novos temas. Além de uns pornozinhos habituais que ajudavam a bancas suas produções mais “sérias”, começou a aparecer na filmografia do Rollin alguns thrillers como LE PAUMÉES DU PETIT MATIN (81), e este LES TROTTOIRS DE BANGKOK, um thriller de ação e espionagem que lembra um bocado alguns trabalhos tardios de Joe D’Amato e Jess Franco.

Aliás, santa trindade: D’Amato, Franco e Rollin. Mas a real é que o tom da trama de BANGKOK é, antes de tudo, Hitchcockiano, com uma personagem inocente sendo perseguida pra todo lado, envolvida num mistério, além de um típico MacGuffin, um cilindro contendo uma perigosa arma química desejado por agentes secretos sem escrúpulos e quadrilhas que pretendem vender o artefato no mercado negro. Ou seja, é o mesmo enredo de quinhentos milhões de filmes de espionagem que o cinema sempre produziu, a diferença é o olhar do Rollin, repleto de toques geniais e que transformam uma história besta como esta aqui em algo bem mais apetitoso.

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BANGKOK começa com a morte do agente secreto Rick, cravado de balas pelo próprio diretor nas ruas da cidade que aparece no título (embora o filme tenha sido rodado na França e todas as cenas em que Bangkok aparece na tela são enxertos de outras produções). Rick estava na cidade com a missão de encontrar a tal arma biológica que todos querem. A última vez que ele foi visto com vida foi na companhia de Eva, uma dançarina de casa noturna que acredita-se ter recebido e escondido o objeto. E a partir daí começa a jornada da pobre moça, que acaba indo parar em Paris, sendo perseguida por todo tipo de pessoas com más intenções sem entender o porquê.

No meio disso tudo, uma galeria de personagens interessantes se apresenta em cena: um clone do Fu Manchu, dançarinas exóticas, belas agentes que não têm receio de tirar a roupa, espiões cascas-grossas e até um cão policial estilo Rin Tin Tin, versão de araque. Eva também é ótima personagem. Creditada apenas como Yoko (a oriental cuja imagem abre o post), é uma péssima atriz, mas tem certo carisma e a fragilidade necessária que o papel exige.

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Com duração que não chega aos 90 minutos, o ritmo frenético com o qual BANGKOK é narrado pode espantar os acostumados pela poética e lentidão dos filmes de horror de Rollin. A exceção são as longas cenas de danças na casa noturna, briga de mulheres na lama e massagens eróticas, todas com várias mulheres gratuitamente nuas e que – pensei que nunca diria isso na vida – quebram o bom ritmo do filme e poderiam ser mais enxutas. Até isso contribui para ser um exemplar bem fora das convenções do Rollin.

Mas nada que atrapalhe o andamento de BANGKOK de maneira tão grave… Mulheres nuas nunca são problemas. Há até alguns momentos específicos que só poderiam ter saído da mente de um diretor como ele (e como o D’Amato/Franco): Eva é amarrada e açoitada sob câmeras de vigilância para o deleite da mente criminosa por trás de sua captura, uma loura cinquentona e robusta que utiliza as imagens para se excitar e abrir as pernas para o seu capanga. Coisa de gênio!

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Vários outros momentos como este tornam BANGKOK um filme assistível  para quem curte uma boa bagaceira – a participação do cão, por exemplo, é nível de um Samuel Fuller ou Howard Hawks – e até delicioso para quem já conhece e admira o trabalho do Rollin e deseja conferir como o sujeito se sai fora da sua zona de conforto. E preparem-se que adentrei 2014 num clima de “Eurotrash” e pretendo compartilhar com vocês algumas experiências. Stay tuned!

ESPECIAL McT #4: A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO (The Hunt for Red October, 1990)

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Voltando aos poucos com as atividades por aqui, após uma pausa para descanso e viagens, prosseguimos com a filmografia do John McTiernan pra variar. A CAÇADA AO OUTUBRO VERMELHO foi meio injustiçado por minha pessoa durante muito tempo. Uma revisão em 2013 ajustou as coisas. É um filmão! Embora ainda não ache dos melhores trabalhos do diretor, consegue tranquilamente ser um thriller de uma eficiência absurda na construção e condução de sequências de tensão, e isso sem precisar apelar para a carga de ação deflagradora que havia em PREDADOR ou DURO DE MATAR.

É um trabalho, digamos, mais sério e político, se comparado aos outros dois filmes citados do McT, apesar de que já em 1990 o tema “Guerra Fria” estava um bocado defasado. Trata-se de uma adaptação do livro homônimo de Tom Clancy, que por sua vez foi inspirado num episódio real ocorrido em 1975, no qual um pequeno navio de guerra soviético foi amotinado e sua tripulação pediu asilo no ocidente.

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No caso do filme (e do livro do Clancy), um moderníssimo submarino russo, chamado de Outubro Vermelho, dirige-se em direção aos Estados Unidos munido com poder de fogo nuclear suficiente para iniciar (e terminar) a terceira guerra mundial num piscar de olhos. O governo soviético alega não ter nada a ver com isso; os americanos não vão esperar o submarino chegar mais perto para perguntar “qualé?”. Nisso, entra em cena o analista da CIA Jack Ryan (Alec Baldwin), que contém informações sobre o comandante do submarino, encarnado pelo Sean Connery, e acredita na possibilidade do sujeito ter desertado e está, na verdade, tentando escapar para os Estados Unidos. Enquanto ninguém sabe exatamente o que se passa, inicia-se a tal caçada ao Outubro Vermelho

Jack Ryan é uma figurinha carimbada na literatura e no cinema. Harrison Ford interpretou duas vezes (JOGOS PATRIÓTICOS e PERIGO REAL E IMEDIATO), Ben Affleck também em A SOMA DE TODOS OS MEDOS, e está para ser lançado JACK RYAN: SHADOW RECRUIT, com Chris Pine no papel (que, aparentemente, parece ser uma bela merda). Mas é em OUTUBRO VERMELHO que o personagem criado por Clancy aparece pela primeira vez na tela grande. É curioso, porque Ryan não é um agente de campo, não é um homem de ação, portanto é bem diferente do tipo de herói que McTiernan havia desenvolvido nos seus trabalhos anteriores no gênero ação, como o Dutch (Schwarzenegger, em PREDADOR) ou McClane (Willis, em DURO DE MATAR). No único tiroteio do filme, Ryan precisa mandar chumbo como um completo principiante, tremendo nas bases, diante da situação de perigo.

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Como disse antes, o filme não apela para sequências de ação. É mais focado na construção atmosférica de tensão, intrigas e, claro, a sensação claustrofóbica de se ambientar uma narrativa quase inteiramente dentro de submarinos. Tudo isso revestido por um thriller político inteligente, bem articulado e cuidadosamente dirigido pelo McTiernan – os combates de submarinos, embora lentos e táticos, são de deixar a mão suando!

Mas o grande destaque de OUTUBRO VERMELHO é o desempenho de Sean Connery no papel do comandante russo. Belíssima atuação, o sujeito constrói uma figura repleta de fraquezas e ambiguidades encobertas pela pompa e imponência de um maioral soviético. Sem sombra de dúvida um dos grandes momentos da carreira de Connery e provavelmente o tour de force de OUTUBRO VERMELHO. Apesar de ter ficado mais famosinho, Jack Ryan acaba por ser um mero coadjuvante por aqui. Fica claro que o filme é um veículo para Connery demonstrar seu talento.  A produção conta ainda com Scott Glenn, Sam Neill, James Earl Jones, Tim Curry, Stellan Skarsgård e vários outros.

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Para finalizar e encher mais um pouco a bola do McTiernan, há uma pequena sacada em OUTUBRO VERMELHO que demonstra porque o sujeito é um dos grandes do cinema americano: o diretor resolve toda a questão do idioma russo, que é transitado para o inglês, num simples movimento de câmera que é de uma genialidade de arrepiar. É logo no início do filme e não vale ficar descrevendo, mas não tem como não perceber ou ficar indiferente quando acontece. É mágico! E são momentos como esse que o cinema guarda seus encantos.