ESPECIAL McT #2: O PREDADOR (Predator, 1987)

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O legal de fazer uma peregrinação pelo cinema de John McTiernan é que sua filmografia não possui má fase. Tá certo que 13º GUERREIRO não é lá grandes coisas – preciso rever, só lembro que não gostei – mas a carreira do homem é coerente no seu excelente nível de qualidade. E logo após a estreia com NOMADS, o sujeito já ataca com O PREDADOR, daqueles filmes que representa tudo que há de melhor no cinema de ação truculento dos anos 80. E ainda acrescenta um elemento sci-fi para deixa a coisa ainda mais interessante.

McTiernan tem a capacidade de fazer filmes que se tornam mais sublimes a cada novo contato. Pelo menos os principais têm essa proeza de nunca perderem a força: DURO DE MATAR (88), O ÚLTIMO GRANDE HERÓI (93), DURO DE MATAR III (96) e, claro, este aqui, que revi pela milésima há poucos dias e, não teve jeito, permanece a belezura de sempre.  

Na trama, o major Dutch, vivido pelo Arnold Schwarzenegger, comandante de um grupo de veteranos do Vietnam especializado em missões especiais, é convocado para resgatar militares que, possivelmente, foram sequestrados por guerrilheiros nas selvas de algum país latino-americano após a queda do helicóptero que os transportavam. Em pouco tempo de busca, os militares são encontrados… mortos. Com os corpos totalmente esfolados, pendurados nas árvores de cabeça para baixo. A partir daí, a busca passa a ser dos assassinos dos companheiros pela floresta adentro, já que ninguém pode sair impune de tamanha barbárie.

No entanto, Dutch e seus homens, aos poucos, começam a perceber, da pior maneira possível, que seu inimigo não é um guerrilheiro, não é nem sequer humano, mas algo desconhecido, com habilidades notáveis e um poder de fogo assustador. A coisa vai esquentando e a tensão subindo à medida em que cada personagem é abatido de forma brutal, até chegar num inevitável confronto, o embate derradeiro e arrasador do homem vs criatura.

Podem não acreditar, mas a gênese de O PREDADOR surgiu como uma brincadeira entre os roteiristas, os irmãos Jim e John Thomas, do tipo “e se rolasse o encontro entre Rambo e E.T. – O EXTRATERRESTRE?“.  Claro que a coisa precisou se desenvolver bastante até se transformar nesta espécie de WILD BUNCH com anabolizantes. Especialmente em relação ao visitante do espaço. E não deve ter sido fácil controlar os egos de todos os brutamontes que conseguiram reunir por aqui. 

Uma das proezas dos roteiristas foi exatamente conseguir criar um conjunto preciso de características para cada personagem, o que deve ter ajudado a manter os egos controlados. Mesmo que alguns sejam um bocado estereotipados, todos têm uma personalidade singular e, enquanto não sobra apenas o Arnoldão no final, TODOS têm praticamente a mesma importância na aventura e possuem seus momentos de protagonismo. 

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Além do Arnie, o elenco parrudo é formado por Bill Duke, Carl Weathers, Sonny Landham, e Jesse Ventura, que tenta roubar a cena. Embora seja um dos primeiros a vestir o terno de madeira, seu personagem, arrogante ao extremo, foi agraciado com algumas das falas mais legais de PREDADOR. “I ain’t got time to bleed” é uma das minhas favoritas. Landham também faz uma figura legal, com toda a mística indígena, trazendo elementos de faroeste para o filme. Curioso que no seu contrato o ator deveria estar sempre acompanhado de um guarda-costas. Mas não era para protegê-lo, mas sim proteger os outros do Landham, que tinha fama de brigão. Do lado menos robusto temos Shane Black, o roteirista criador de MÁQUINA MORTÍFERA, fazendo o papel do cara de óculos menos musculoso do grupo, e Richard Chaves, que não possui tanta presença física, mas consegue se destacar entre os fortões.

No entanto, dentre os brutamontes reunidos aqui, incluindo o próprio Predador, quem se sobressai mesmo é o bom e velho Schwarzenegger. Dutch é um de seus melhores personagens, o primeiro que uniu toda a áurea do action hero com um jeitão totalmente cool. Seja com o charuto no canto da boca e a polo vermelha no início do filme ou com o corpo coberto de lama, segurando uma tocha e gritando à plenos pulmões para atrair o Pedrador para suas armadilhas estilo Rambo. Poucos atores conseguiram chegar no seu nível de presença física, de caracterização do herói cinematográfico, de maneira tão contundente a partir dos anos 80.

Um dos elementos essenciais de PREDADOR em relação aos atores se estabelece logo no início, quando Dutch reencontra um velho companheiro de guerra, Dillon (Carl Weathers). Conan/John Matrix encontra Appolo Creed/Action Jackson! Ambos se vêem, trocam piadas, um chama o outro de filho da puta e dão as mãos para se cumprimentarem. Nesse ato de tocar as mãos, inicia uma pequena disputa de queda de braço e a câmera foca nos músculos avantajados de ambos, especialmente do ex-miss universo que possuía um baita muque.

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O físico, a força bruta, dos atores funciona como componente dramático-visual. Esses caras, pelo menos a maioria, desempenham seus papeis não apenas através do gesto corporal, das expressões faciais, da fala e suas entonações, mas também na maneira como o bíceps aparece na tela, como os músculos do pescoço se comportam no enquadramento, como as veias sobressaltam na pele somando valor estético, o que torna PREDADOR um dos filmes mais físicos que existe.

E ver como esse bando de machões musculosos começa a demonstrar fragilidade e medo diante da ameaça desconhecida é uma das ideias mais incríveis do filme. Há uma cena em que Landham diz, com toda frieza do mundo, que está com medo. E Chaves retruca “Bullshit. You ain’t afraid of no man.“. “There’s something out there waiting for us, and it ain’t no man. We’re all gonna die.“, arremata Landham. Ainda assim, na hora do “vâmo vê”, o sujeito larga a metralhadora, e pega uma faca para esperar uma morte honrosa enfrentando o adversário de frente.

Quando o Predador finalmente aparece em cena, percebe-se que os personagens realmente tinham motivos para temer. A ideia da camuflagem é ótima, bem feita com os efeitos especiais da época, mas é em seu estado natural, e sem a máscara, que a coisa impressiona. E pensar que tudo poderia ser diferente, no mau sentido… Sim, aquela história de que Jean-Claude Van Damme havia sido escalado para ser o Predador é verdadeira. O belga chegou a participar de algumas filmagens, mas sua participação foi interrompida e, aparentemente, suas cenas não chegaram a ser utilizadas. O problema foi quando a fantasia de alienígena, na concepção original (foto abaixo) chegou à locação para as filmagens. A produção percebeu que o visual era absurdamente inapropriado. Parecia um besouro gigante, um monstro de ficção científica dos anos 50. No papel funcionava, mas na prática não.

Acreditem. Dentro daquela roupa está JCVD.

Acreditem. Dentro daquela roupa está JCVD.

Após algumas tentativas, decidiram que atitudes drásticas deveriam ser tomadas. Contrataram o mestre Stan Winston, que em tempo recorde criou o visual do alien que aparece no filme. Trocaram o dublê (Van Damme) que vestiria a fantasia, pegaram um sujeito de dois metros de altura, e voilà, estava pronto um guerreiro das estrelas, com visual badass, dreads, e uma imponência de dar calafrios. Além disso, Van Damme é baixinho, não fazia muito sentido tê-lo como um perigoso alienígena. O que ele faria no confronto com o Arnie? Daria um chute rodado?

O Predador não possui qualquer de background nesse primeiro filme. Sabemos que é um visitante de outro planeta porque logo na abertura uma nave espacial chega à Terra. Em PREDADOR 2 é possível conhecer alguns detalhes a mais. No entanto, o que importa aqui é a ameaça ele representa. É a perfeita personificação do mal, um colecionador de crânios humanos querendo aumentar seu mostruário. E isso basta para embarcar na aventura de Arnie e seus companheiros. El Diablo cazador de hombres, como bem define Elpidia Garrillo, a única mulher no filme.

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E parece que o Predador se diverte bastante com essa sua atividade, brincando de “quem eu vou matar primeiro?“. Claro que ele facilita as coisas para o seu lado com seus aparatos alienígenas de última geração pra cima de indivíduos inferiores como nós, terráqueos. Deve ser para não correr muitos riscos. Mas não desperdiça a chance de uma boa briga de mãos limpas, como no final, quando tira o capacete, as armas e decide encarar o Shwarza no mano a mano.

Dentre todos os envolvidos em O PREDADOR, talvez o mais casca-grossa mesmo seja o McTiernan, cuja carreira de diretor estava dando ainda os primeiros passos, mas encarou o projeto, pegou vários brutamontes, jogou todos no meio do mato e filmou como gente grande. Após essa experiência o sujeito estava pronto pra outra. E não foi a toa que no ano seguinte revolucionou o cinema de ação com DURO DE MATAR.

Toda a trama de O PREDADOR é uma grande aventura, um grande thriller, com tiros e explosões pontuais distribuídas pela narrativa, mas bastante focado no suspense, na ideia do monstro que pode atacar a qualquer instante. Um dos grandes momentos do filme faz exatamente essa mistura de suspense e a ação exacerbada típica dos anos 80:

Após a tensão de um iminente encontro com a criatura, Bill Duke chega ao local onde Ventura fora atingido por um laser e só dá tempo de ver o Predador piscando os olhos para ele. Num ato de desespero instintivo, o sujeito pega a minigun e começa a cuspir fogo na direção que o nariz aponta. Aos poucos, os outros companheiros vão chegando e, mesmo sem fazer a mínima ideia em quem ou o que o Duke está atirando, não pensam duas vezes e começam a atirar também! E quando a munição do pente acaba, eles trocam e continuam atirando! São 64 segundos da mais pura dose de truculência cinematográfica!

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Ação urgente e frenética, com troca de tiros, facadas e pirotecnia, ao estilo COMANDO PARA MATAR, só acontece em um momento, o ataque ao acampamento dos guerrilheiros. Mas é para arregaçar! McTiernan conduz o espetáculo de maneira clássica e artesanal, com muito domínio da gramática da ação, filmando apenas o essencial. O resultado não poderia ser mais expressivo, classudo e fisicamente exagerado. Especialmente quando temos Jesse Ventura com sua minigun! É de encher os olhos dos aficcionados pelo gênero, graças, também, ao trabalho excepcional do coordenador de dublês, Craig R. Baxley, que dirigiu alguns filmes interessantes, como ACTION JACKSON, STONE COLD e I COME IN PEACE.

A verdade é que com o elenco que temos aqui, a construção dos personagens e a trama estilo jungle war, não precisaria nem de um alienígena assassino na jogada para termos um bom filme de ação oitentista. Mas, como temos um ingrediente que torna o filme mais especial do que já seria, ao final rola o confronto épico entre Arnold e a criatura do espaço para arrematar um filme perfeito, simples e sem excessos. O estilo aqui é diferente da ação anterior, mais cadenciada, atmosférica e estratégica, mas não menos física. Quando os dois personagens partem para a trocação, o austríaco leva a maior surra de sua carreira, mas McTiernan cria algumas das imagens mais emblemáticas do cinema de ação e ficção científica dos anos 80.

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Como todo clássico instantâneo daquele período que se preze, PREDADOR, numa original mistura de gêneros, também influenciou algumas produções menos abastadas, que aproveitavam as principais ideias de filmes de sucesso, gerando os famigerados rip-off’s. Da mesma maneira que MAD MAX II, FUGA DE NY e O SEGREDO DO ABISMO, PREDADOR foi responsável por imitações como ROBOWAR, de Bruno Mattei, BANGIS, DNA, com Mark Dacascos, e vários outros.

Também vieram as continuações. PREDADOR 2, dirigido por Stephen Hopkins, acontece na cidade grande, na selva urbana, e temos Danny Glover como policial tentando resolver a situação. Gosto dessa sequência, só não vi tantas vezes quanto o original. E já está meio que na hora de rever… PREDADORES, de 2010, é bem fraco. Agora, os crossovers do universo ALIEN com PREDADOR, confesso que nunca tive interesse algum em conferir. Prefiro continuar revendo de vez em quando esta  maravilha aqui.

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26 pensamentos sobre “ESPECIAL McT #2: O PREDADOR (Predator, 1987)

  1. Pingback: ESPECIAL McT POST FINAL: FILMOGRAFIA NO BLOG | DEMENTIA¹³

  2. Curiosamente revi a sequela recentemente na TV. Não me recordava de ser tão entretida, ainda que obviamente este aqui seja muito melhor.
    Uma coisa que reparei na sequela foi nas cenas finais surge uma imagem dos troféus dos predadores e se não foi ilusão óptica minha, parece estar lá um crânio de um alien. Alguém confirma isto?

  3. “If it bleeds, we can kill it.”

    Além de toda a fodice que você citou, achei genial a forma como Arnoldão e o Predador vão “retrocedendo”, abandonando pouco a pouco as suas armas, até chegarem ao extremo do primitivismo e se enfrentarem corpo a corpo naquela sequência épica. Aliás, Schwarzenegger descobre, por acaso, o modo de não ser visto pelo alienígena, dependendo para sobreviver de lama em seu corpo.

    Esse filme merecia um texto praticamente completo quanto esse, procurei pela internet e não achei quase nada. Finalmente temos um!

    • Sim, a genialidade da coisa está nesses detalhes… o primitivismo, a lama… É um filme muito rico! E acho que tem muita coisa ainda pra explorar pra ficar mais completo! Um dia, quem sabe, dou uma revisada e uma aumentada…
      Valeu! 😀

      • O ÚLTIMO GRANDE HERÓI é uma das homenagens mais perspicazes do cinema de ação exagerado, um comentário sarcastico e uma brincadeira em tom de análise do cinema que o próprio Schwarzenegger ajudou a desenvolver. Além de ser uma aula de metalinguagem, a maneira como McTiernan trabalha os limites da realidade e ficção, sem nuca ser chato. Fora que é bem dirigido pra cacete! Ou seja, não acho que seja ruim não. Há quem não goste, claro, cada um tem seus motivos, mas não dá pra impor como uma verdade absoluta: “É UM FILME RUIM”.

  4. O Último Grande Herói lembro q vi n época do lançamento n cine e foi uma decepção total p mim e tds os fãs do Sharza q tinham em mente filmes como predador o exterminador conan e talz… acho q vc é novo eu ja tenho 46 anos e vc deve ter visto em video ou n tv bem depois . mas te garanto n época poucos gostaram!

    • Sim, eu vi em video, mas não foi bem depois. Vi na época do lançamento em video, lá por 94. O filme é 93. E eu me lembro que poucos gostaram, mas para um garoto da minha idade, uns 10 ou 11, naquele período, foi uma experiência fascinante! De lá pra cá toda vez que revejo descubro como é sensacional, descubro cada vez mais detalhes… Estou com 30 hoje, já não sou tão novo assim, e cada vez mais adoro O ÚLTIMO GRANDE HERÓI.

      • Acho muito pretensioso o último grande herói ….outro q n curti ( vi tds n cine até aquele medonho do um Herói de Brinquedo ) foi Queima de Arquivo , Júnior , Um Tira n Jardim de Infância ….. Um q é diferente mas ADOREI foi True Lies ….. Sim Ronald c 10 / 11 anos eu amaria tbm O último……. pena q ja tinha 26 anos hehehhehe Abração !

        • Pois é, essa diferença de idade pode ter estragado a experiência. Mas recomendaria uma revisão, tendo em mente que se trata de uma brincadeira com o gênero. E TRUE LIES é obra-prima mesmo! QUEIMA DE ARQUIVO acho divertido… Os outros também não sou muito chegado, especialmente JUNIOR, que detesto. Preciso rever UM TIRA NO JARDIM… nunca achei esse grandes coisas, nem quando era moleque. Abraço!

  5. Excelente texto.
    “WILD BUNCH com testosterona”.
    Testosterona os bandidos da obra-prima do Peckinpah já tinham de sobra, o que faltava em relação aos de O PREDADOR eram os anabolizantes mesmo. hahaha

  6. Texto excelente sobre um filme espetacular. Acho que só faltou falar sobre a trilha sonora e os efeitos, que sao estupendos. Quanto aos Aliens x predador. ..nem perca seu tempo….sao ridículos.

  7. O Predador de 2010, com o Adrien Brody, queiram ou não, apresenta os mesmos elementos que esse de 1987. O medo de enfrentar um inimigo desconhecido, a sensação de estarem um território inóspito, ou seja, tudo está ali. O diferencial positivo é que, nesse pelo menos, há uma mulher (Alice Braga) no meio de tantas “bolas”. E ela tem participação ativa, não é apenas um mero prêmio de resgate. Inclusive o próprio Adrien Brody pode não ter (e nem fez questão de ter) o mesmo carisma do Arnoldão, mas se saiu bem como um cara que interpretava as artimanhas dos Predadores.

    O grande defeito desse novo Predador foi sub aproveitar o Danny Trejo, que entrou e saiu de cena sem dizer a que veio. A reviravolta no final, que todo mundo reclamou, pelo menos para mim, não incomodou.

    • Sim, aproveita os mesmos elementos e está tudo ali, mas de maneira bem reciclada, sem a força do original e com vários cacoetes do cinema atual. No fim das contas acaba sendo um genérico e nada mais além disso, na minha opinião. Diferente do original que representou uma época. Acho até algumas citações bem forçadas, como o japonês que fica pra trás com a espada samurai.

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