HOMEM DE GUERRA (1994)

Falta pouco mais de um mês para a estréia de OS MERCENÁRIOS 2 no Brasil, e confesso que estou bastante ansioso. Então, para ir entrando no clima, vamos com HOMEM DE GUERRA, um desses filmes de mercenários bem casca grossa dos anos noventa. Além disso, aproveito para matar a saudade do Dolph Lundgren, um dos meus action heroes favoritos, que não pinta por aqui há alguns meses e também estará no filme “do” Stallone.

Na verdade, eu conferi HOMEM DE GUERRA no início do ano, quando estava numa onda braba em assistir a exemplares do Dolph. Então, devo ter esquecido alguns detalhes, mas vou lembrando de algumas coisas à medida que vou escrevendo…

A trama, por exemplo. Dolph lidera uma equipe de soldados venais cuja missão é ir a uma ilha tropical asiática para “convencer” os habitantes locais a assinarem a venda do território para uma grande corporação americana, que quer extrair as riquezas naturais da região. Caso rejeitem a oferta, o couro vai comer. O negócio é que ao chegar ao local, a equipe de mercenários é tão bem recebida, tão bem cuidada pelos nativos, querendo apenas viver suas vidinhas simples, que chega ao ponto em que Dolph e sua turma decidem deixar a missão de lado, começam a se sentir humanos novamente, após anos de matança e violência…

É claro que alguns membros do grupo não concordam, querem realizar o trabalho e receber a grana a todo custo. E no fim, uma inevitável e épica batalha acontece, com Dolph, seus mercenários remanescentes e os nativos lutando contra um exército inteiro enviado pela poderosa corporação.

Pode parecer estranho, mas uma primeira versão do roteiro de HOMEM DE GUERRA foi escrita pelo renomado John Sayles, autor de vários filme do cenário independente americano e não sei como, diabos, surgiu este aqui na sua filmografia. Talvez sua versão fosse mais poética, mais elegante, seria dirigido pelo John Frankenheimer e provavelmente não teriam escalado o Dolph como protagonista. Acabou virando mesmo um truculento filme de ação nas mãos do diretor Perry Lang, mas é possível notar uns alguns lapsos humanos, filosóficos e introspectivos que restaram do roteiro de Sayles, com Dolph se apaixonando pela nativa interpretada por Charlotte Lewis, e as transformações que seu personagem sofre no âmago de seu ser… Ui!

Bah, mas o que estou falando? O que realmente importa aqui é ação, as frase de efeitos, alguns peitinhos asiáticos e Trevor Goddard alucinado fazendo um dos vilões mais afetados e ridículos que já vi. É como se o sujeito tivesse cheirado em tempo recorde todo estoque de pó reservado para produção inteira antes de entrar em cena! O elenco que temos aqui também é destaque, umas figuras simpáticas como BD Wong, Don Harvey, o grandalhão Tommy “Tiny” Lister, o veterano Aldo Sambrell e outros. O velho Dolph, com seu carisma de sempre, se sobressai, mas Goddard rouba a cena com seus exageros constrangedores. É tão ruim que chega a ser bom!

HOMEM DE GUERRA possui, relativamente, poucas sequências de ação. A narrativa é lenta e toma seu tempo antes de explodir com tudo nos últimos vinte minutos, quando ocorre a batalha brutal que já se espera de antemão. E Perry Lang não decepciona o fãs de cinema de ação de baixo orçamento com seu estilo grosseiro e old school, boas doses de explosão, tiroteios frenéticos, muitos dublês trabalhando pesado, contagem de corpos altíssima, violência sem frescura, do jeito que tem que ser. E sobra tempo ainda para uma trocação de porradas entre Dolph e Goddard, que é o paroxismo da truculência no cinema de ação. E tudo isso num belíssimo pano de fundo, as paisagens tropicais muito bem utilizada pelo diretor de fotografia Ron Schmidt (O NEVOEIRO).

Uma dica: encontrei o DVD de HOMEM DE GUERRA dando sopa numa Americanas daqui por uns 5 mangos. Apesar de estar fullscreen e a imagem não ser das melhores, valeu a compra.

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BACK IN ACTION (1993)

O criador do Tae Bo, Billy Blanks (que aquela altura se metia a fazer filmes de porrada), encarna um ex-soldado das forças armadas americanas que agora trabalha como taxista. O problema é sua irmã, que vive se metendo (e metendo) com a escória, meliantes, gangsters e traficantes de drogas. Dividindo a tela, temos o típico policial casca grossa, vivido pelo ex-wrestler canadense “Rowdy” Roddy Pipper.

Com essas duas figuras em ponto de bala, BACK IN ACTION começa quente: O cenário é um cemitério onde ocorrerá uma negociação de entorpecentes. De um lado, a bandidagem (com a irmã do Blanks pagando de gostosa), do outro, a polícia agindo sob disfarce. E nas beiradas, Blanks tentando tirar a irmã dessa vida.

É claro que a negociação vai pelos ares e começa um tiroteio de lascar. O parceiro de Piper leva chumbo e morre, a irmã de Blanks acaba sequestrada. Piper e Blanks cruzam o caminho um do outro, trocam umas porradas num bar e mais tarde juntam forças para chutar a cara, metralhar e explodir vagabundos ao melhor estilo ação desenfreada dos anos 80/90.

Dirigido pela dupla Steve DiMarco e Paul Ziller (este último fez muita coisa… digamos, que nos interessa), o enredo importa bem pouco, porque a essência está na ação desses dois brutamontes e na química que resulta dessa parceria na luta contra o crime. Blanks nunca foi um ator talentoso, mas até que está bem à vontade por aqui, o que realmente vale é a sua eficiência nas sequências de luta. E se Roddy Pipper não é nenhum Orson Welles na atuação, ao menos possui carisma de sobra. Não vamos esquecer que o sujeito é o protagonista de ELES VIVEM, um dos filmes mais geniais de um dos diretores mais geniais que existe: John Carpenter. Piper e Blanks voltariam ainda a juntar forças alguns anos depois em TOUGH AND DEADLY.

A produção evidencia o baixo orçamento, no entanto, como vários filmes B de ação desse período, nota-se que boa parte do dinheiro foi muito bem gasta para a construção de sequências de ação, especialmente no departamento de dublês. O filme inteiro é recheado de cenas de pancadaria, tiroteiros, explosões e até uma ótima perseguição de carros pelas ruas movimentadas. A contagem de corpos é bem alta. Só não esperem algo do nível dos caros exemplares de ação de um Schwarzenegger ou Stallone. BACK IN ACTION tem pretensões mais discretas,mas para os amantes de um pequeno B movie de ação, diverte na medida certa.

O IMPERADOR DO NORTE (Emperor of the North, 1973)

Sou da mesma opinião do velho amigo Osvaldo Neto, meu filme favorito estrelado pelo Ernest Borgnine, que faleceu essa semana aos 95 anos, é O IMPERADOR DO NORTE, do mestre Robert Aldrich. Mas não tinha como ser diferente. Borgnine sempre cativou o público com seus personagens simpáticos e sorridentes, mesmo em exemplares mais duros, como MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, de Sam Peckinpah (que seria o diretor deste aqui, após Martin Ritt desistir, mas acabou não concordando com o orçamento).

“O que aquele gordinho de cara engraçada está fazendo no meio dessa corja?!” Era essa a tônica de Borgnine… Mas aqui não! Em O IMPERADOR DO NORTE essa áurea de bonzinho vai às favas, num dos personagens mais brutais e sádicos que alguém poderia imaginar sob a figura de Ernest Borgnine! Ele vive o condutor responsável de um trem de carga, durante o climax da depressão americana, que ganhou fama por não dar moleza aos viajantes clandestinos que resolvem pegar “carona” em sua preciosa locomotiva. Apesar disso, outra grande figura surge em cena para o confronto, Lee Marvin, cujo persoangem também possui um reputação a zelar: a de maior caronista clandestino de trem que existe!

Sem perder tempo com estudos sociológidos do período em questão (embora as classes estejam obviamente demarcadas nas duas figuras centrais), O IMPERADOR DO NORTE é um filme solto, mais em clima de aventura do que um recorte fiel e chato da depressão americana, e se desenvolve em cima do duelo físico e psicológico desses gigantes, o “vagabundo” liberto e o durão empregado da ferrovia. E Aldrich é de uma inteligência impressionante, conduzindo todas as situações de modo que o confronto seja inevitável, intensamente dramático… E quando finalmente ocorre, é como duas núvens carregadas que se chocam, causando estrondos ensurdecedores!

Belo filme, cinematograficamente potente, ótima recriação do clima da época, os traços da miséria, os programas de rádio, as roupas velhas e rasgadas, um sentimento que parece saído de um livro de John Steinbeck (apesar de inspirado em Jack London). E aqui vai o meu adeus ao velho Borgnine. O bom é que o sujeito deixou alguns duzentos filmes para estarmos sempre nos reencontrando…