KEOMA (1976)

KEOMA deve ter sido o meu primeiro Spaghetti… ou será que foi TRÊS HOMENS EM CONFLITO? Não importa, a verdade é que esse filme marca a infância de qualquer moleque com um mínimo de interesse na sétima arte. Não que eu tivesse muita consciência deste interesse na época, mas até hoje me lembro daquela VHS da Poletel que meu velho alugou numa sexta feira no fim dos anos oitenta.

Na época em que KEOMA foi realizado, o spaghetti western já tinha esfriado. O ciclo já não rendia algo interessante há tempos, mas mesmo assim, a dupla Enzo G. Castellari e Franco Nero, que já haviam trabalhado juntos antes em uns três filmes, estavam convictos e centrados em realizar um projeto de faroeste, mas não qualquer faroeste, eles sentiam que KEOMA seria algo maior, e foram em frente na tentativa de arranjar financiadores.

Depois do sinal verde para a produção, o roteiro final só chegou nas mãos de Castellari três dias antes de começarem as filmagens. Ele próprio e Franco Nero não gostaram do que leram. Castellari diz em uma entrevista que jogou tudo fora e sem tempo pra reescrever começou a elaborar as cenas no dia a dia das filmagens, deixando as suas principais inspirações sublinharem a narrativa. De Ingmar Bergman à Sam Peckinpah, as influências foram absorvidas naturalmente e o resultado não poderia ser diferente: KEOMA foi um sucesso e se tornou um símbolo do Spaghetti Westen.

Todo mundo já deve conhecer a história, que é tratada em tons de tragédia clássica. Pra começar, Keoma (Franco Nero) é um mestiço, filho de uma índia com um fazendeiro branco. Após retornar da guerra civil, ele encontra a região onde vivia sendo comandada por Caldwell (Donald O’Brien). Como sabemos que isto aqui é um faroeste, não preciso nem dizer que tipo de sujeito é esse Caldwell, não é mesmo? Mas as coisas pioram quando Keoma descobre que seus três meio-irmãos (que sempre lhe trataram muito mal) estão do lado do facínora, para a desgraça do pai de todos eles, vivido por William Berger.

No elenco, ainda temos Woody Strode, Olga Karlatos, e uma série de figuras sempre presente nas produções populares do cinema italiano. Mas o grande nome do filme não poderia ser outro: Franco Nero, com uma atuação sólida e expressiva, provavelmetne a minha favorita de sua longa carreira.

Um dos grandes méritos de KEOMA é conseguir agradar tranquilamente os fãs do Western bruto, mais movimentado, e também aqueles que procuram algo com mais substância, e o que não falta por aqui são elementos filosoficamente dramáticos. E como de costume, a direção de Castellari constitui de algo absurdamente magistral. É de fazer chorar qualquer amante do cinema, desde os enquadramentos expressivos, as sacadas de montagem e, claro, as sequências de ação e tiroteios fazendo uso da câmera lenta ao melhor estilo Peckinpah.

Agora, vocês podem não concordar, até porque é apenas a minha opinião e estou aberto à boa e velha discussão, mas que KEOMA merecia uma música tema mais decente, eu acho que merecia. Não que eu não goste da que está lá, é muito marcante e até funciona. Mas se o visual colhe com êxitos momentos notáveis durante todo o filme, onde será que estava o Morricone pra fechar este spaghetti western crepuscular de forma sonoramente brilhante?

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PLAGUERS (2008)

Filme extremamente anacrônico, oitentista, esta ficção científica do diretor independente Brad Sykes. Botar alguém pra assistir sem informação alguma, o sujeito juraria que se trata de uma produção do Roger Corman de 25 anos atrás. Particularmente, acho isso maravilhoso! No entanto, reconheço também que não é um filme recomendável pra qualquer um, como veremos adiante, principalmente para o público jovem atual.

PLAGUERS segue a linha do horror sci-fi de ALIEN e todas as cópias que surgiram na época, só que no lugar de um monstro alienígena, temos uma tripulação de uma nave espacial transformada em zumbis alienígenas. Foi realizado com um orçamento baixíssimo, o único rosto reconhecível é do Steve Railsback, um dos protagonistas de LIFEFORCE, do Tobe Hooper, que eu comentei aqui outro dia; o filme possui também algumas coisas legais, como um grupo feminino de piratas espaciais usando um modelito bem sexy e uma bola verde de energia alienígena. É justamente este item que começa a liberar algo estranho transformado alguns tripulantes em zumbis-aliens dentuços que parecem saídos de DEMONS, do Lamberto Bava.

Sim, parece que PLAGUERS é tão divertido quanto a minha descrição, com todos esses ingredientes que me conquistam fácil. E eu realmente gosto do filme. Dá pra perceber que estamos diante de uma produção de pouco recurso financeiro e que o diretor se desdobra como pode para se sair bem. O resultado é um trabalho acima da média dentro do gênero, quando se trata de um orçamento como este. Pontos para Brad Sykes!

Mas vamos ver o lado ruim da coisa. Eu não recomendaria PLAGUERS a qualquer um porque todo esse universo criado aqui é tratado com uma desnecessária seriedade. O filme é despretensioso, mas Sykes lida com determinadas situações como se estivesse na obrigação de fazer um sucesso de bilheteria mundial. Isso torna vários momentos pedantes e arrastados, nem mesmo a atmosfera claustrofóbica constante e o visual retrô dão conta de segurar a atenção do espectador moderno, acostumado com edição “videoclíptica” e muita barulheira.

Talvez um pouco de ousadia e exploração em detalhes que realmente importam já resolveria grande parte do problema. Por exemplo, o cara possui um grupo de atrizes gostosas e de vestido curto e não as coloca pra tirar a roupa em momento algum! Não temos uma cena sequer com peitos de fora!

Mas voltemos às boas coisas que o filme tem para oferecer. A principal delas são os momentos de violência gráfica, com efeitos gore old school, muito sangue, muita maquiagem de látex utilizada para o visual dos zumbis e da criatura que surge no final. A cena em que o personagem chamado Riley tem seu corpo rasgado ao meio por um grupo de zumbis é digna de um George Romero dos velhos tempos. Até mesmo os efeitos de computação gráfica da nave se deslocando no espaço lembra os efeitos primitivos do CGI dos anos 90.

Já o elenco não é lá grandes coisas, mas aí também é exigir demais e geralmente atuações ruins me divertem neste tipo de produção, então não tenho do que reclamar. Embora no caso da atriz Alexis Zibolis, que faz a protagonista, ela manda muito bem! E Railsback não é tão aproveitado quanto podia, mas sempre que aparece rende bons momentos.

PLAGUERS é isso. Funciona perfeitamente como um bom entretenimento caseiro, mesmo com o gostinho de que “podia ser melhor no fim das contas”, especialmente se você é fã de sci-fi retrô e generoso com tralhas de baixo orçamento, cheia de imperfeições. Aqui está uma boa pedida.

DRUNKEN TAI CHI (1984)

Apesar de ser dirigido por Yuen Woo Ping, um mestre do cinema de artes marciais já naquela época, DRUNKEN TAI SHI marca a estréia do astro Donnie Yen como ator. O filme segue a mesma linha de alguns exemplares do Jackie Chan e Sammo Hung, que misturam comédia pastelão com altas doses de elaboradas sequências de pancadaria old school.

Yen interpreta Ching, um sujeito um pouco arrogante que, junto com seu irmão, arrumam confusão com o filho de um nobre local, que acaba ficando louco. Para se vingar, o nobre contrata um perigoso assassino, conhecido como Bird Killer, para matar Ching e sua família. Quase consegue, mas o protagonista escapa e é acolhido por um casal completamente maluco que lhe ensinam a letal arte marcial do Tai Chi para o inevitável confronto de Ching contra os responsáveis pela morte de sua família.

Logo de cara, percebe-se que não temos nada de muita novidade em termos de história. Dentro do gênero existem milhares de exemplares onde um jovem lutador precisa ser treinado por um mestre mais experiente para derrotar um oponente mais forte, seja lá por qual motivo. No entanto, quando temos um ator tão carismático como Donnie Yen demonstra ser neste seu primeiro trabalho – além das habilidades físicas e de lutas – somados a um ritmo ágil e divertido, você nota que não precisa de nenhuma inovação no gênero para ter noventa minutos de passatempo de qualidade.

E DRUNKEN TAI CHI não para um segundo! Quando não é com momentos de humor, é com sequências de ação que vão agradar facilmente os ávidos admiradores de kung fu old school. Algumas são memoráveis, como a cena dos fogos de artifício; o confronto entre Yen e a mulher gorda é um ótimo exemplo de que comédia e lutas podem andar juntas de vez em quando; as duas longas cenas de luta do protagonista com o assassino também são bem boas.

Embora tenha me divertido pacas com este filme, ainda prefiro um DRUNKEN MASTER, também do Woo Ping, cujo lado do humor não chega a ser tão exagerado como neste aqui. Guardando as devidas proporções e épocas, lembra mais um dos filmes recentes do Stephen Chow no quesito comédia, tirando, claro, o CGI. De qualquer forma, é impossível não sair satisfeito após o show de pancadaria e boas risadas que DRUNKEN TAI CHI proporciona.

SHAKEDOWN, aka BLUE JEAN COP (1988)

Peter Weller é desses atores subestimados que deveria ter mais destaque aqui no blog, por isso grifei, negritei e sublinhei o nome dele… pra dar mais destaque. Piadas sem graça à parte, o cara é o Robocop, pô! Trabalhou com Cronenberg, Verhoeven, Kershner, Ferrara, Duguay, Woody Allen, e não podemos esquecer que dedicou grande parte da sua filmografia recente em produções de ação de baixo orçamento, assim como Cuba Golding Jr. e Val Kilmer vem fazendo atualmente… esses caras tem o meu respeito!

Mas em SHAKEDOWN, Weller estava no auge de sua carreira. Ele vive Roland Dalton, um advogado que possui um cliente, traficante de drogas, acusado de assassinar um policial. Sam Elliott, que também é um cara legal, encarna Richie Marks, um policial casca grossa típico dos filmes policiais dos anos 80. Durante as investigações do crime que envolve o traficante, a dupla começa a se deparar com suspeitas intrigantes de corrupção dentro da força policial. Ao mesmo tempo, o filme resolve focar num lado pessoal do advogado. A promotora que cuida do caso é uma antiga paixão de colégio de Dalton e os dois resolvem reacender o namorico, apesar do protagonista já ser noivo de outra mulher. Que drama…

A direção é de James Glickenhaus, um sujeito completamente maluco. O cara gosta de subverter de maneira escancarada certos elementos de seus filmes. Nunca vou esquecer de uma cena em McBAIN, na qual Christopher Walken derruba um caça da força aérea com um único tiro de pistola disparado de outro avião!!! É ver para crer. SHAKEDOWN possui uma ação plausível, até certo ponto. Há os exageros habituais dos filmes de ação oitentistas, tiroteios onde os heróis nunca são alvejados e suas balas nunca acabam, perseguições em alta velocidade, peripécias exacerbadas, especialmente do personagem de Sam Elliot, mas até aí tudo bem.

A insanidade do diretor pode ser diagnosticada com uma certa cena do final… Fico pensando na equipe de filmagem realizando tal proeza ou os editores tentando encaixá-la no filme. É algo inacreditável, uma trama até então “normal”, dentro do padrão, e de repente Glickenhaus resolve testar os limites entre o que é verossímil com o que é absolutamente ridículo dentro do cinema de ação. Genial, na minha opinião! Dei altas gargalhadas. Quem já viu, sabe que não estou exagerando. Não vou contar o que é, mas digamos que temos aqui uma espécie de homenagem bizarra ao Dr. FANTÁSTICO, de Stanley Kubrick. Hehehe!

Uma boa referência pra medir o impacto do final pode ser o DEAD OR ALIVE, do Takashi Miike, embora não seja tão devastador… é apenas ridículo mesmo. Mas não é só por isso que SHAKEDOWN vale uma redescoberta ou uma assistida obrigatória pra quem não viu. É um belo filme policial oitentista, com boas cenas de ação sem frescuras, diálogos impagáveis e maravilhosa performance de Peter Weller. Mas que o final absurdo é um bônus para os amantes de uma bizarrice, pode apostar que é…

O VINGADOR ANÔNIMO, aka Street Law (Il cittadino si ribella, 1974)

Franco Nero marca presença como protagonista pela segunda vez num filme de Enzo G. Castellari, encarnando o engenheiro Carlo, sujeito pacato numa cidade onde o crime e a violência reinam desenfreadamente, como é mostrado nos créditos de abertura de STREET LAW. Assassinatos, roubos, vandalismo, os bandidos fazem a festa neste magnífico poliziottesco. E se no filme anterior do diretor o título italiano dizia que “a policia incrimina e a lei absolve”, neste aqui a situação fica ainda pior. A policia é tão corrupta quanto um deputado em Brasília, a lei não serve pra porra nenhuma e o nosso herói, cidadão comum, precisa botar a mão na massa por justiça.

O problema é que Carlo vai ao banco depositar seu dinheiro suado no mesmo horário que três bandidos decidem assaltar o local. Na fuga, escolhem o protagonista como refém, que após o acontecimento fica traumatizado e tremendamente decepcionado com a forma pela qual a polícia cuida do caso. Aos poucos, e contando com a ajuda de um ladrãozinho, localiza os bandidos e planeja sua vingança.

Divagando um bocado sobre o gênero, eu acho que o poliziottesco poderia ser dividido em três categorias: os exemplares protagonizados por policiais, como HIGH CRIME, NAPOLI VIOLENTA, etc; Temos também os estrelados por bandidos/mafiosos, abordando esse universo do crime organizado, como MILANO CALIBRO 9 e LA MALA ORDINA; e teríamos a categoria que STREET LAW se encaixa, a do sujeito comum, que por determinado motivo resolve pegar uma arma e mandar chumbo nos meliantes, como é o caso também de MANHUNT IN THE CITY, do Umberto Lenzi.

E novamente é preciso destacar o belíssimo desempenho de Franco Nero. Diferente de um vingador como Charles Bronson em DESEJO MATAR, Nero constrói um civil repleto de fraquezas, todo desajeitado nessa busca por vingança, e ganha muita veracidade nas expressões do ator. Aliás, o motivo para ir atrás dos bandidos nem é tão grave como vemos em outros filmes. Tudo bem que o cara foi levado como refém, levou umas cacetadas, mas é só… até a namoradinha, vivida por Barbara Bach, sai ilesa. Paul Kersey saiu às ruas empunhando um revolver para vingar a filha estuprada e a esposa assassinada por uns malucos que invadiram sua casa. Um motivo bem mais contundente.

STREET LAW não tem muita ação, é mais focado nas investigações de Marco e as burradas que faz pelo caminho. O tiroteio final, por exemplo, é filmado de maneira que remete à natureza do protagonista… o cara fica escondido o tempo todo atrás de umas caixas e atira a esmo sem saber direito o que faz. Mas é sensacional! É uma ação intencionalmente feia, mas brilhantemente conduzida por Castellari, que novamente destrói com mais uma aula de enquadramento, movimentos de câmera, câmera lenta, utilização de trilha sonora…

Engraçado que o diretor William Lustig, nos comentários em áudio do DVD lançado pelo seu selo, a Blue Underground, comenta com Castellari que STREET LAW serviu de inspiração para o seu VIGILANTE. O curioso é que STREET LAW foi lançado em video na Inglaterra como VIGILANTE 2. O filme que serviu de inspiração para a produção de Lustig acabou tornando-se também a sua continuação.

Outra curiosidade interessante é em relação ao poster de STREET LAW na Turquia, cuja arte recebeu uma imagem adicional de uma mulher nua com uns peitões de fora, algo que não havia no cartaz original e de outros países, muito menos no próprio filme! Esses turcos são picaretas até nisso! Hahaha!