LIFEFORCE (1985)

Quando assisti a LIFEFORCE há alguns anos, acho que na globo, fizeram o favor de cortar justamente algumas ceninhas que teriam me agradado mais na época. Acabei achando apenas uma ficção científica bacana, com uma história bagunçada e logo apaguei da memória. Revendo hoje, com um olhar um pouco mais maduro e, obviamente, a versão uncut, descubro uma autêntica obra prima do horror sci-fi da década de oitenta subestimadíssima!

E bons tempos quando colocavam muita grana nas mãos de gente talentosa pra fazer o que quiser… claro que isso já levou estúdios à falência, mas também acontecia filmes como LIFEFORCE, uma megaprodução pra época, fiasco de bilheteria pra variar, mas contava com roteiro de Dan O’Bannon e direção de Tobe Hooper; cada centavo investido é visto na tela em efeitos especiais de ponta, muita maquiagem, animatronics, maquetes realistas, bons atores e mesmo com a pompa de superprodução, acho que ninguém se importou em ter uma personagem transitando pelada por todo o filme (as tais cenas que a globo cortava…).

Além disso, é um filme muito britânico. Não por simplesmente se passar na Inglaterra, com todo aquele sotaque e os volantes dos veículos à direita, mas várias características, o estilo visual e a atmosfera típica do cinema britânico são impressos em LIFEFORCE. Se realizado nos anos 60, poderia ser uma produção da Hammer e faria uma bela double feature com UMA SEPULTURA PARA ETERNIDADE, do Roy Ward Baker. Não há indícios de que ele tenha sido dirigido por um texano e produzido pelos israelenses da Cannon.

A trama é bem simples, mas a forma como as coisas transcorrem é que deixa uma impressão de bagunça narrativa, mas até isso é um charme a mais, até porque a história é pretensiosa, mas Hooper mantém sempre os pés no chão. Em uma missão espacial, uma nave enorme e estranha é encontrada na cauda do Cometa Haley. Um grupo de astronautas entra no misterioso objeto voador e encontra restos de criaturas semelhantes a morcegos em uma escala maior. Encontram também três corpos humanos em ótimos estados, mantidos em caixões de vidro. A merda bate no ventilador quando esses corpos são levados pra Terra, acordam e começam a sugar e infectar a força vital de suas vítimas, transformando-as numa mistura de vampiros com zumbis!

Algumas sequências dessa sandice toda são antológicas, como a que Patrick Stewart faz a sua participação. E nada me tira da cabeça a imagem de Mathilda May, a vampira chefe, completamente nua zanzando pelos cenários… ai, ai… Mas como não é apenas isso que me interessa, destaco também o final, tenso pra cacete! De uma intensidade impressionante e belas imagens de puro horror. As ruas de Londres infestadas de vampiros/zumbis e almas sendo sugadas percorrendo o ar em fachos de luz, ao mesmo tempo em que rola um sexo artístico entre a vampira e o protagonista numa igreja… uma coisa linda!

LIFEFORCE é conhecido aqui no Brasil como FORÇA SINISTRA e foi lançada em DVD, vejam só, na versão uncut! Este exemplar já se esgotou e hoje é ítem raro e quem comprou na época, teve sorte grande!

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CANNIBAL! THE MUSICAL (1993)

Outro filme sugerido para o mês de horror aqui no blog foi este CANNIBAL! THE MUSICAL… er, embora não se enquadre muito bem ao gênero. Na verdade, foi realizado pelos criadores do desenho South Park, a dupla Trey Parker e Matt Stone, então seria um equívoco esperar algo sério por aqui, mas isso pouco importa! O filme é delicioso, estranho, engraçado e com altas doses de gore! As filmagens aconteceram quando os dois dementes ainda eram alunos do curso de cinema na Universidade do Colorado e algum tempinho depois a produtora Troma resolveu lançar essa tralha pelo mundo à fora.

E fizeram um bem danado! Lembro que perdi a chance de comprar o DVD quando fui na Master Class do Lloyd Kauffman em São Paulo, porque, se não estou enganado, o Felipe M. Guerra pegou o último exemplar que tinha à venda e eu acabei tendo que me contentar com o obscuro DEF BY TEMPTATION, que também deve ser uma maravilha… tem o Samuel L. Jackson no elenco e é dirigido por um cara chamado James Bond III!!! Quando eu der uma espiada, eu comento por aqui.

Mas voltando ao CANNIBAL, trata-se de um bizarrento musical que mistura elementos verídicos da história americana, western, aventura e, claro, antropofagia, como o título já indica, com direito à várias sequências grotescas de violência trash. O enredo segue a jornada de Alfred Packer, um ingênuo cowboy, com uma paixão animalesca por sua égua, que acaba se transformando no guia de uma expedição de seis homes em busca de ouro pelos confins dos Estados Unidos. Durante o percurso, uma galeria de personagens hilários cruza o caminho do grupo e várias atribulações comprometem a missão. O problema é que Packer é o único a retornar com vida da jornada e acabam lhe acusando de comer, literalmente, seus companheiros de viagem.

Momento desabafo: acho que o gênero comédia, de uma forma geral, se tornou um troço meio intragável a partir de determinado período, quando o politicamente correto parece ter virado um consenso. Por isso é sempre legal celebrar uns exemplares libertos, ácidos e com personalidade, como CANNIBAL, filme sem grandes pretensões, mas com um humor peculiar e ousadia de sobra! Uma pena Parker & Stone terem feitos  poucos trabalhos para cinema…

Parker, em especial, é um talento fora do comum e em CANNIBAL ele escreve o roteiro e todas as canções, dirige, estrela com muita desenvoltura e até empresta a sua voz nas cenas de cantoria. Matt Stone também dá a sua contribuição como produtor, roteirista e interpreta um dos caçadores de ouro. O resto do elenco é quase todo formado por amadores e mandam muito bem… inclusive Stan Brakhage também marca presença. Sim, o mestre do cinema experimental era professor da dupla na época. Tenho a impressão de que não era bem isso aqui que o sujeito esperava de seus aplicados alunos.

MIDNIGHT MOVIE MASSACRE (1988)

Ok, justamente quando pedi aos amigos leitores dicas e sugestões de filmes para o mês de horror de outubro, o tempo fechou por aqui com o trabalho e fiquei mais apertado que nó de soga em dia de chuva… com exceção deste MIDNIGHT MOVIE MASSACRE, não consegui parar para ver ou rever as outras recomendações ainda, mas vou atendendo aos pedidos na medida do possível. Então vamos começar com esta pérola aqui mesmo, também conhecida como ATTACK FROM MARS, uma simples, mas entusiasmada, homenagem aos b movies de horror e ficção científica dos anos 50, com muito humor e gore mal feito, e que não deixa de ser uma celebração àquela época quando ir ao cinema havia outra essência, a qual se perdeu completamente nos dias atuais…

Dirigido pela dupla Laurence Jacobs e Mark Stock, o filme é uma sucessão de situações acontecendo dentro do cinema durante uma sessão de um sci-fi nos anos 50, com uma variedade enorme de estereótipos forçados, sem protagonistas definidos. Temos os nerds (um deles começa a ter visões de uma loira gostosa), o casal beijoqueiro, a gorda comilona de pipoca com o marido magricela, os bad boys, o carinha que só pensa em traçar a namorada, e por aí vai… Todos reunidos em frente à telona.

Ao mesmo tempo, acompanhamos o filme dentro do filme, um ridículo exemplar de ficção científica onde um grupo de pratuleiros das galáxias persegue um cientísta maluco pelos confins do universo até chegar na terra, onde enfrenta robôs feitos de lata velha. A princípio, a produção de MIDNIGHT MOVIE MASSACRE fora iniciada com a idéia de que… er, este filme, dentro do filme, fosse o filme mesmo! Mas se o material filmado a partir disso realmente fosse o produto final, seria um troço extremamente constrangedor e de mal gosto. Felizmente alguém teve a idéia salvadora de transformar o filme em um filme dentro do filme… er… deu pra entender? E pra complementar essa mistura filosoficamente metalinguística, uma espaçonave realmente paira sobre o cinema e um alienígena esfumacento – e com uma cavidade bucal em forma de vagina de idosa – começa a aterrorizar a todos que entram em seu caminho estraçalhando um a um dentro do cinema.

As cenas de gore são engraçadas, quase sempre mostrada em closes, com sangue espirrando nas paredes e objetos, membros decepados feito com material porco de papelaria, mas acabam dando um efeito razoável e sincero, levando em consideração o baixo orçamento. As idéias é que realmente importam, na verdade. A cena em que o menino, chupando um pirulito, entra na sala do gerente do cinema e o vê todo esquartejado é sensacional! E o climax final, o confronto entre o alien com a gorda comilona me fez revirar o estômago… ugh! A mulher realmente come de tudo!

 


MIDNIGHT MOVIE MASSACRE
poderia render algo de qualidade menos duvidosa se tivesse alguns atores reconhecíveis no elenco (temos pequenas participações de Robert Clarke e Ann Robinson), efeitos especiais mais elaborados e a direção de um Joe Dante, por exemplo, que poucos anos mais tarde fez algo parecido, o filmaço MATINEE. Mas é justamente os defeitos especiais, as péssimas atuações, a falta de pretensão e o climão trash por excelência que, visto no devido humor, dão o charme para esta divertida tralha dos anos 80.