PELOS CAMINHOS DO INFERNO (1971)

… aka Wake in Fright
… aka Outback

Só de olhar pra essa arte aí em cima eu já começo a sentir um calor desgraçado, uma das tantas sensações que este filme provoca. Na verdade, WAKE IN FRIGHT foi uma das experiências mais intensas que eu tive este ano em termos de cinema. E olha que já tinha visto antes! Mas é um caso curioso, porque até há algum tempo este filme australiano rolava por aí numa versão de péssima qualidade, acho que tirada de um VHS ou ripada da TV, mas que não fazia juz à grandeza desta obra prima de força descomunal, algo que eu só pude realmente sentir quando conferi a versão restaurada lançada em 2009.

Este pesadelo filmado é uma coisa desesperadora, tem direção de Ted Kotcheff, responsável pelo primeiro RAMBO, e é estrelado por Gary Bond como John Grant, professor de uma escola no meio do outback, o deserto australiano, e que consegue suas almejadas férias na qual pretende ir a Sidney, curtir uma praia e reencontrar sua garota… só que a viagem é uma merda. Primeiro pega um trem até uma cidade chamada Bundanyabba, onde precisa esperar uma noite inteira para pegar um avião no outro dia até o seu destino final. No entardecer, o nosso amigão resolve sair para tomar uma bebidinha… e é o suficiente para uma descida ao inferno tão angustiante que não desaponta o título dado ao filme aqui no Brasil!

Primeiro, o sujeito vai à um bar gigantesco, abarrotado de pessoas entornando cerveja e logo de cara percebe-se que John se sente totalmente deslocado. Não é apenas o público que acha aquelas pessoas e o sotaque estranho (assisti ao filme sem legenda e o inglês australiano é bem complicado de seguir), mas o próprio protagonista se sente um estrangeiro em Bundanyabba, com seus rituais insólitos e uma bebedeira frenética sem fim. Ele conversa com algumas pessoas, com o xerife, e todo mundo bebe canecas de cervejas em uma virada e lhe pagam cerveja atrás de cerveja, fazendo-o beber da mesma forma que eles e putz, nunca vi na minha vida tanta cerveja sendo bebida desse jeito… em dez minutos eu já estava tonto de ver tanta cerveja entornada goelas a baixo. Ao fim da sessão eu precisava de um banho e dormir, sabendo que ia acordar com uma puta ressaca!

E os habitantes pancados adoram Bundanyabba, acham o lugar um paraíso… Paraíso ou inferno, o negócio é que John fica literalmente preso no local – como os personagens de O ANJO EXTERMINADOR, de Buñuel, só que de maneira mais realista – à partir da primeira bebedeira… Perde todo o dinheiro em um jogo de moedas, bebe, conhece pessoas cada vez mais estranhas, mas que ficam lhe dando cerveja a todo instante – e quando recusa, se sentem ofendidos, como se tivesse jogado merda na bandeira australiana – então ele bebe mais ainda, os dias vão passando e ele tentando arranjar dinheiro pra sair dali, joga, se envolve com a filha de um sujeito que lhe ajuda, bebe, sai pra caçar cangurus, bebe de novo, luta com os amigos bêbados, sempre com a mesma roupa, cada vez mais sujo, suado e tudo indica que tenha perdido a virgindade da “parte traseira” com o personagem do Donald Pleasence! Aí que o cara surta de vez…

Mas as cenas mais impressionantes são as da caça aos cangurus, hiperrealistas e cruas. Na verdade, a sequência é uma autêntica prova de tolerância para o espectador, com os animais sendo abatidos cruelmente na tela, sem cortes, sem poupar o público de qualquer imagem mais impressionante. No final do filme há uma nota da produção informando que todas as cenas foram filmadas na época de caça, de forma legalizada, por profissionais. Mas isso pouco importa, a maneira como tudo é mostrado e editado deixa uma sensação extremamente depressiva.

Como disse, é um pesadelo filmado, WAKE IN FRIGHT é uma obra prima que deveria ter a mesma importância que WALKABOUT, de Nicholas Roeg, para o cinema australiano, que começava a ganhar uma forma. E nada melhor que subverter. A coisa aqui é barra pesada, mas maravilhosamente bem filmada. O filme mexeu com meus nervos com muito mais eficiência que maioria dos filmes de terror que existem por aí… Rola uma história de que por muito tempo o negativo original havia se perdido e encontrado lá pelo ano de 2004, por isso sua restauração é tão recente. Mas sua redescoberta é obrigatória! a versão vagabunda, que eu assisti há alguns anos encontra-se disponível até no youtube. Recomendo, no entanto, a versão restaurada para uma experiência quase única, que tanto pode tangir o sublime quanto o perturbador.

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10 respostas para PELOS CAMINHOS DO INFERNO (1971)

  1. Caio disse:

    Assisti as duas versões, um dos meus preferidos da vida!

  2. J. Luca disse:

    Parece ser muito bom este filme. Fiquei com vontade de vê-lo!

  3. Hey, Mr. Fidani! Retorne sim! O novo filme do Carpenter eu já vi, mas não escrevi… estou cheio de dúvidas ainda sobre o meu sentimento com o filme. Sei que gostei! Mas o quanto eu gostei, vou precisar rever pra saber e poder fazer um texto mais bonito… hehe

    Abraço!

  4. Oi Ronald. Ando meio sumido da blogosfera, mas aos poucos eu retorno… dei uma rápida olhada nas suas últimas postagens mas não vi ainda uma crítica sua sobre o novo trabalho do mestre Carpenter… Como é, ainda não viu?!?

  5. Vitor disse:

    Tenho esse filme aqui, mas o que me desanima em assisti-lo é justamente o que vc disse Ronald, o ingles australiano realmente é muito dificil de acompanhar!

  6. Assisti a primeira versão faz muito tempo, numa cópia ruim e dublada, mas mesmo assim me pareceu fascinante. Pena que essa versão restaurada provavelmente nunca será lançada por aqui. E sim, o Kotcheff é muito bom!

  7. Octavius disse:

    Fala Ronald,
    Peguei essa versão restaurada rescentemente e ao ler seu texto só me deixou mais empolgado em assistir.

    Um abraço.

  8. Marcelo disse:

    Já assisti a versão antiga, que tu citaste, com a imagem e som muito ruins.
    É demais essa descida ao inferno, muita cerveja, briga e tal.
    Mas tenho que admitir, que a cena dos gangurus me derruba, apesar de ser muito bem filmada e editada.
    É aquela velha história manjada, gosto de CannibalHolocaust, mas acho as mortes reais dos bichos desnessárias. Assim como tenho certeza que WakeinFright é um bomdemais, mas …

  9. Vlademir disse:

    Tô com esse pra ver, o Kotcheff é mesmo um diretor que merecia ser mais valorizado.

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