EAGLES OVER LONDON (1969)

aka O ESQUDRÃO DAS ÁGUIAS
direção: Enzo G. Castellari
roteiro: Tito Carpi, Vincenzo Flamini, José Luis Martínez Mollá, Guilles Morris Dumoulin, Enzo G. Castellari

Depois de orquestrar batalhas épicas no divertido MATE TODOS ELES E VOLTE SÓ, o primeiríssimo trabalho de Enzo G. Castellari fora do gênero Spaghetti Western só poderia ser um grandioso filme de guerra! À princípio, O ESQUADRÃO DAS ÁGUIAS seria dirigido por Alberto de Martino e Castellari seria responsável apenas pelas cenas de montagens com o efeito de split screen utilizando imagens reais da Segunda Guerra – sendo que o sujeito nem sabia o que era isso, obrigando os produtores a lhe mostrarem filmes como CROWN, O MAGNÍFICO e O HOMEM QUE ODIAVA AS MULHERES. O trabalho do homem ficou tão bom, que acabou sendo contratado pra dirigir o filme inteiro!

É claro que a primeira coisa que fez foi pegar um dos roteiristas e transformar o dramalhão que era a história original em um filme de ação! É por isso que eu amo esse diretor! Mas não quer dizer que o filme não tenha seu lado dramático e burocrático. As subtramas, que devem ter sido impossíveis de alterar, deixam o filme com um tom meloso de novela, em determinados momentos. Basicamente, a premissa envolve um grupo de espiões nazistas infiltrados no exército inglês em plena capital britânica e os esforços de um capitão, vivido por Frederick Stafford, em desmascarar a operação dos alemães em seu próprio país. O ponto de vista se desenrola em ambos os lados, mas um detalhe que o roteiro explora é uma espécie de amizade entre o nazista interpretado por Francisco Rabal e o capitão britânico, que desconhece a nacionalidade de seu novo “amigo”.

Utilizando dinheiro americano, a grandiosidade de O ESQUADRÃO DAS ÁGUIAS, em termos técnicos, é percebida já nas primeiras sequências de batalhas, com explosões de todo tipo de escalas, milhares de figurantes, efeitos especiais, aviões fazendo perigosas acrobacias, navios, etc. As cenas de ação seguintes, nuncam chegam no mesmo nível da inicial, mas pontuam um filme que, à princípio, poderia ser muito chato. A direção sempre firme e criatica de Castellari é um grande destaque, com seus enquadramentos e movimentos de câmera inusitados, especialmente nas várias cenas de ação. O elenco também é ótimo, além de Stafford e Rabal, temos grandes nomes como Van Johnson e Luigi Pistilli, figurinha carimbada no cinema popular italiano.

Comparações podem ser evitadas, mas Castellari retornaria à segunda guerra alguns anos depois no clássico “ASSALTO AO TREM BLINDADO”, que é muito superior a este aqui. No entanto, a importância de O ESQUADRÃO DAS ÁGUIAS no currículo do diretor é evidente, e se não é uma obra prima, pelo menos não deixa de ser um sólido filme de guerra e com certeza tem grande valor para o gênero “Macaroni Combat”!

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BLOODLUST ZOMBIES (2011)

As produções de baixíssimo orçamento que tendem a dar certo, geralmente, apelam para alguns elementos que este tipo específico de público espera de antemão, já que a grande maioria não assiste a um filme feito com uma merreca esperando um novo CIDADÃO KANE. Temas tabus, sangreira exagerada e mulher pelada são os favoritos da moçada. Qualquer um desses elementos utilizado de maneira eficiente não vai transformar a obra num clássico, talvez nem mesmo num bom filme, mas ao menos diverte por alguns instantes o espectador menos exigente. Isso é fato e todo mundo já deve estar careca de saber…

BLOODLUST ZOMBIES, infelizmente, não consegue atender a estes requisitos com eficiência. Mas quase chega lá… Como o título informa, é um zombie movie. O filme se passa inteiramente num mesmo ambiente, um laboratório, onde uma experiência transforma vários empregados do local em criaturas sedentas por carne humana. Logo de cara percebe-se a pobreza da produção, com vários atores amadores se levando à sério, efeitos especiais risíveis e a direção se matando para aproveitar o mesmo cenário. Até aí, tudo bem, bastava colocar um banho de sangue com a zumbizada e a coisa iria alegrar os amantes do cinema de baixo orçamento. Até temos uma ceninha ou outra divertidinha, mas o diretor preferiu enrolar o espectador com diálogos chatos e situações que prolongam muito mais que o esperado. E quando finalmente parece que a coisa vai explodir para um desfecho alucinante de gore e zumbis sendo massacrados… puff!!! O filme acaba!

Isso mesmo, BLOODLUST ZOMBIES é uma porcaria. Mas, nem tudo está perdido. Eu deixei um detalhe importante para este parágrafo. É que estamos falando da primeira participação da pornstar avantajada Alexis Texas como protagonista de um filme em que ela não precisa demonstrar seu desempenho a dois (ou a três, quatro, cinco…) de forma explícita! Apesar de não ser nenhuma Bette Davis, até que a moça se comporta muito bem na frente das câmeras quando lhe é exigido:

De qualquer maneira, apesar dessas imagens sensacionalistas, o filme é uma perda de tempo total. Fica claro a falta de recursos, como eu já disse, mas uma dose de sangue a mais, especialmente antes do final frustrante, resolveria um pouco do problema. Quer ver a Texas pelada, vai caçar na internet, não precisa aguentar esta tralha aqui.

ATTACK OF THE 60 FOOT CENTERFOLD (1995)

aka ALTAS CONFUSÕES
diretor: Fred Olen Ray
roteiro: Steve Armogida

Quando eu me deparei com ATTACK OF THE 60 FOOT CENTERFOLD, sobre uma modelo que vira gigante, eu logo pensei que se o Fred Olen Ray não mostrar um topless de maior escala, seria um desperdício total de material, por mais que a história funcionasse, fosse engraçada, etc! O topless é a essência disso tudo! Mas o sujeito sabe o que faz, e fico feliz de poder dizer que o que não falta aqui são doses de uns belos peitões balançando na tela!

Sendo assim, temos aqui três modelos disputando o primeiro lugar do concurso da revista Centerfold, que elege a mais exuberante do ano. A competição rola na mansão do editor da revista, numa praia afastada da cidade, onde as modelos passarão o fim de semana junto com um fotógrafo enquanto o editor analisa as moças para eleger a melhor. Uma delas, no entanto, J.J. North, resolveu beber uma fórmula secreta para realçar a beleza, mas acabou obtendo uns efeitos colaterais desagradáveis… pra ela! Para nós, pobres espectadores, uma mulher peladona da mesma altura de um prédio desfilando na tela é algo realmente interessante…

 

Além da loira gigante chamando toda a a atenção do filme para si, ATTACK OF THE 60 FOOT CENTERFOLD até que é uma comediazinha divertida, mas agrada ainda mais os fãs desse tipo de produção pelas homenagens e elementos da ficção científica de baixo orçamento – claramente inspirados em ATTACK OF THE 50 FOOT WOMAN, de Nathan Juran – com efeitos especiais datados e que são um charme a mais! As cenas que se passam no laboratório onde a fórmula foi criada são hilárias, com um rato gigante dando trabalho aos cientistas! O elenco também é cheio de figuras reconhecíveis no cenário B, especialmente pra quem já está familiarizado com o cinema de Fred Olen Ray, como Tim Abell, Peter Spellos, Nikki Fritz, Michelle Bauer (que infelizmente não tira a roupa neste aqui), John Lazar e até uma rápida aparição do Jim Wynorski!

Bom, acho que não preciso dizer mais nada… muita gente já deve ter se convencido de assistir a esta pérola o mais rápido possível.

 

CYCLONE (1987)

… aka DURO NA QUEDA

Da fase oitentista de Fred Olen Ray, CYCLONE, ao lado de RESPOSTA ARMADA, é um dos filmes mais divertidos do diretor! O título se refere a uma moto ultra avançada, cheia de parafernalhas bélicas e de design futurista (pra época) e que possui uma fonte de energia secreta. Até o capacete solta lasers! Jeffrey Combs, de RE-ANIMATOR, interpreta Rick Davenport, um sujeitinho estranho, meio nerd, que é justamente o cientista que desenvolveu cyclone

Por algumas razões que eu não consegui descobri, a namorada de Rick é Teri Marshall, interpretada por Heather Thomas, uma loura devastadora, linda e exuberante. E parece gostar mesmo dele! Enfim, ela acaba se transformando na nossa protagonista quando Rick é assassinado e precisa fugir de tudo e de todos que desejam colocar as mãos na fonte de energia da moto, inlcusive há toda uma conspiração que vai até o topo da cadeia alimentar capitalista sedenta pelo troço! Ah, e não reclamem, não chega a ser um spoiler tão gritante a morte de Rick, porque acontece logo no início do filme e não atrapalha o prazer de quem assiste. Aliás, prefiro bem mais acompanhar uma loura deliciosa fugindo de moto, do que o cuecão do Combs, por mais que eu seja fã dele!

Além do Combs, CYCLONE reúne um elenco bacana, com alguns nomes de peso, como Robert Quarry, Troy Donahue e Martin Landau! Mas é Heather Thomas quem carrega o filme com muito carisma, mas é óbvio que com esse time de atores em cena a coisa fica melhor ainda.

Em RESPOSTA ARMADA já dava pra perceber que o Olen Ray tinha talento para a ação, dirigindo cenas de tiroteios sem frescuras e etc. CYCLONE apenas confirma que o sujeito sabe o que faz. O final, por exemplo, tem umas perseguições em alta velocidade com ótimo trabalho de dublês, muita explosão, tiros e raios lasers pra todo lado! Há também um boa dose de sangue e uma pancadaria entre garotas! Vale a pena uma conferida na obra, especialmente pra quem curte Fred Olen Ray, boa ação, elencos interessante e, claro, uma loura estonteante como protagonista!

PELOS CAMINHOS DO INFERNO (1971)

… aka Wake in Fright
… aka Outback

Só de olhar pra essa arte aí em cima eu já começo a sentir um calor desgraçado, uma das tantas sensações que este filme provoca. Na verdade, WAKE IN FRIGHT foi uma das experiências mais intensas que eu tive este ano em termos de cinema. E olha que já tinha visto antes! Mas é um caso curioso, porque até há algum tempo este filme australiano rolava por aí numa versão de péssima qualidade, acho que tirada de um VHS ou ripada da TV, mas que não fazia juz à grandeza desta obra prima de força descomunal, algo que eu só pude realmente sentir quando conferi a versão restaurada lançada em 2009.

Este pesadelo filmado é uma coisa desesperadora, tem direção de Ted Kotcheff, responsável pelo primeiro RAMBO, e é estrelado por Gary Bond como John Grant, professor de uma escola no meio do outback, o deserto australiano, e que consegue suas almejadas férias na qual pretende ir a Sidney, curtir uma praia e reencontrar sua garota… só que a viagem é uma merda. Primeiro pega um trem até uma cidade chamada Bundanyabba, onde precisa esperar uma noite inteira para pegar um avião no outro dia até o seu destino final. No entardecer, o nosso amigão resolve sair para tomar uma bebidinha… e é o suficiente para uma descida ao inferno tão angustiante que não desaponta o título dado ao filme aqui no Brasil!

Primeiro, o sujeito vai à um bar gigantesco, abarrotado de pessoas entornando cerveja e logo de cara percebe-se que John se sente totalmente deslocado. Não é apenas o público que acha aquelas pessoas e o sotaque estranho (assisti ao filme sem legenda e o inglês australiano é bem complicado de seguir), mas o próprio protagonista se sente um estrangeiro em Bundanyabba, com seus rituais insólitos e uma bebedeira frenética sem fim. Ele conversa com algumas pessoas, com o xerife, e todo mundo bebe canecas de cervejas em uma virada e lhe pagam cerveja atrás de cerveja, fazendo-o beber da mesma forma que eles e putz, nunca vi na minha vida tanta cerveja sendo bebida desse jeito… em dez minutos eu já estava tonto de ver tanta cerveja entornada goelas a baixo. Ao fim da sessão eu precisava de um banho e dormir, sabendo que ia acordar com uma puta ressaca!

E os habitantes pancados adoram Bundanyabba, acham o lugar um paraíso… Paraíso ou inferno, o negócio é que John fica literalmente preso no local – como os personagens de O ANJO EXTERMINADOR, de Buñuel, só que de maneira mais realista – à partir da primeira bebedeira… Perde todo o dinheiro em um jogo de moedas, bebe, conhece pessoas cada vez mais estranhas, mas que ficam lhe dando cerveja a todo instante – e quando recusa, se sentem ofendidos, como se tivesse jogado merda na bandeira australiana – então ele bebe mais ainda, os dias vão passando e ele tentando arranjar dinheiro pra sair dali, joga, se envolve com a filha de um sujeito que lhe ajuda, bebe, sai pra caçar cangurus, bebe de novo, luta com os amigos bêbados, sempre com a mesma roupa, cada vez mais sujo, suado e tudo indica que tenha perdido a virgindade da “parte traseira” com o personagem do Donald Pleasence! Aí que o cara surta de vez…

Mas as cenas mais impressionantes são as da caça aos cangurus, hiperrealistas e cruas. Na verdade, a sequência é uma autêntica prova de tolerância para o espectador, com os animais sendo abatidos cruelmente na tela, sem cortes, sem poupar o público de qualquer imagem mais impressionante. No final do filme há uma nota da produção informando que todas as cenas foram filmadas na época de caça, de forma legalizada, por profissionais. Mas isso pouco importa, a maneira como tudo é mostrado e editado deixa uma sensação extremamente depressiva.

Como disse, é um pesadelo filmado, WAKE IN FRIGHT é uma obra prima que deveria ter a mesma importância que WALKABOUT, de Nicholas Roeg, para o cinema australiano, que começava a ganhar uma forma. E nada melhor que subverter. A coisa aqui é barra pesada, mas maravilhosamente bem filmada. O filme mexeu com meus nervos com muito mais eficiência que maioria dos filmes de terror que existem por aí… Rola uma história de que por muito tempo o negativo original havia se perdido e encontrado lá pelo ano de 2004, por isso sua restauração é tão recente. Mas sua redescoberta é obrigatória! a versão vagabunda, que eu assisti há alguns anos encontra-se disponível até no youtube. Recomendo, no entanto, a versão restaurada para uma experiência quase única, que tanto pode tangir o sublime quanto o perturbador.