JOHNNY HAMLET (1968)

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O famoso personagem de Shakespeare já foi adaptado para as telas do cinema nas mais possíveis contextualizações. Mas imaginem ver Hamlet, com toda a carga de conflitos que o sujeitinho carrega na obra do dramaturgo inglês, só que na pele de um jovem rápido no gatilho do velho oeste. É exatamente o que temos em JOHNNY HAMLET, um autêntico encontro de Shakespeare com o Spaghetti Western, sob o olhar inspirado de Enzo G. Castellari.

Johnny Hamilton (Andrea Giordana) é um jovem soldado confederado que retorna, após dois anos, da guerra civil americana. Ele descobre que durante sua ausência seu pai foi morto misteriosamente e sua mãe está casada com seu tio, Claudius (Horst Frank), que agora é dono de todas as terras de seu falecido irmão. A culpa pelo assassinato de seu pai caiu para cima de um bandido chamado Santana, que, aparentemente, já foi morto por Claudius. Achando tudo isso meio estranho, Johnny, com a ajuda de Dazio (Gilbert Roland), um amigo de seu pai, tenta descobrir o que realmente aconteceu.

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Quem conhece a peça Hamlet, vai perceber que a maioria dos personagens permanece fiel aos escritos de Shakespeare, como Claudius, a mãe, Polonius, que aqui surge como o xerife, Rozencrantz e Guildenstern… Emily, uma jovem que serve de par romântico a Johnny é claramente inspirada em Ophelia. A trama, de uma forma geral, possui reviravoltas e situações bem mais condizentes a um spaghetti, para manter um ritmo mais movimentado, mas são todas alterações bem-vindas que surtem efeitos positivos ao resultado do filme e podem agradar até o apreciador mais exigente, tanto de spaghetti quanto de Hamlet

Na verdade, não duvido que JOHNNY HAMLET agrade a qualquer pessoa que realmente goste de cinema, que valoriza a forma, um visual criativo, porque é impossível escrever qualquer coisa sobre esta obra sem destacar o trabalho notável da direção de Enzo G. Castellari. O sujeito dá ao filme uma riqueza estética impressionante, equivalente aos grandes mestres do gênero. Somos fisgados a partir da primeira cena, onde vemos uma sequência de sonho, cheia de elementos de horror e um belíssimo uso das cores. Logo depois, o nosso protagonista acorda em uma praia com uma trupe circense, um universo surreal que serve de introdução para o famoso monólogo “ser ou não ser”. E o nível de qualidade estética se mantém firme até o último segundo desta bela obra-prima do gênero.

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E pensar que a ideia original de JOHNNY HAMLET surgiu de outro diretor italiano, Sergio Corbucci, que teve de abandonar o projeto pelo seu envolvimento com outras produções. Corbucci também era um mestre do gênero, mas seu estilo talvez não tivesse a mesma força poética do olhar de Castellari. Num exercício de imaginação, não trocaria o que temos aqui por nada…

Como muitos Spaghetti Westerns, JOHNNY HAMLET foi retitulado em outros países como mais um filme da série DJANGO. Um detalhe que não custa lembrar é que esses italianos eram todos picaretas. Mudavam títulos, redublavam cenas, faziam o que fosse possível para promover seus filmes. Naquela época, DJANGO, do já citado Corbucci, foi um dos grandes sucessos do gênero e o que surgiu de produção explorando a popularidade do personagem não é brincadeira! No Brasil, foi lançado em DVD pela distribuidora Ocean há alguns anos, como JOHNNY HAMLET mesmo. A capa é feia e pode parecer apenas mais um exemplar comum do gênero, no entanto, trata-se de um filme obrigatório em todos os sentidos.

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2 pensamentos sobre “JOHNNY HAMLET (1968)

  1. Pois é. Um dos melhores trabalhos do Enzo. Bem diferente do habitual no género, ainda que existam mais alguns spaghettis feitos sobre a obra de Shakespeare (Dove si spara di più, etc.)

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