GAROTAS DURAS NA QUEDA (…All the Marbles, 1981)

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Um dos motivos que eu elegi GAROTAS DURAS NA QUEDA para homenagear Peter Falk, que morreu recentemente, foi seu grande desempenho aqui, um dos melhores na minha opinião. Mas outros detalhes também contribuiram para a escolha. É um filme sobre belíssimas garotas, em trajes interessantes, trocando sopapos e desaforos em cima de um ringue e dirigido pelo mestre Robert Aldrich, em seu último trabalho como diretor! Motivos suficientes para a escolha, não?!

Além de mostrar um pouco os bastidores do universo da luta livre feminina, o roteiro é inteligente o bastante para explorar também o lado humano de seus personagens, seus conflitos e dilemas nesse universo de dureza. Peter Falk é o empresário de duas belas lutadoras, Iris (Vicky Frederick) e Molly (Laurence Landon), e possui uma relação de amor e ódio com elas. Estão sempre viajando pelo país de carro, arranjando lutas, quebrando a cara, tentando vencer na vida…

Mas embora seja bastante focado no drama, Aldrich nunca abre mão de entreter seu público. E, oh boy, o sujeito sabe muito bem como fazer isso. Se você for hétero, é bem provável que também ache que briga entre mulheres é algo sempre bom de observar e há ainda algumas ceninhas de nudez para apimentar, como na sequência da luta na lama. As atrizes são lindas, receberam treinamento profissional para as cenas de luta – impossível desviar os olhos dessas beldades – e encaixam muito bem no espírito feminino ligado à violência que Robert Aldrich adora abordar.

Apesar de ser feio, baixinho e caolho, também é impossível tirar o olho do nosso homenageado, Peter Falk, este puta ator que nos deixou na semana passada e que possui momentos inspirados aqui, retratando um dedicado empresário, às vezes com um coração de ouro, outras vezes como um misógino de traço violento… Das cenas mais exageradas em que berra sem parar aos detalhes mais intimistas de sua presença em cena em GAROTAS DURAS NA QUEDA, Falk demonstra talento e expressividade, criando um personagem único que impressiona os amantes de boas atuações e representa muito do que o ator era capaz. O filme ainda conta com o sempre ótimo Burt Young no elenco.

E pode parecer estranho para Robert Aldrich terminar sua carreira com um projeto como este, mas GAROTAS DURAS NA QUEDA, realizado pelo sua própria produtora, possui vários dos elementos e temas que fazem parte da sua carreira. Sem contar que é muito bem dirigido, especialmente as cenas de lutas perfeitamente encenadas. A sequência final, do “campeonato de 30 minutos”, é algo de tirar o fôlego e quase dura em tempo real os 30 minutos na tela.

Por muito tempo, o filme rolou pelos cantos da internet em uma versão ripada da TV, com alguns cortes, mas agora já se encontra disponível esta versão na qual eu revi, que possui algumas ceninhas de nudez, essa imagem linda e o formato de tela original, eu suponho, que é a maneira obrigatória de se ver essa pequena maravilha dos anos 80.

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JOHNNY HAMLET (1968)

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O famoso personagem de Shakespeare já foi adaptado para as telas do cinema nas mais possíveis contextualizações. Mas imaginem ver Hamlet, com toda a carga de conflitos que o sujeitinho carrega na obra do dramaturgo inglês, só que na pele de um jovem rápido no gatilho do velho oeste. É exatamente o que temos em JOHNNY HAMLET, um autêntico encontro de Shakespeare com o Spaghetti Western, sob o olhar inspirado de Enzo G. Castellari.

Johnny Hamilton (Andrea Giordana) é um jovem soldado confederado que retorna, após dois anos, da guerra civil americana. Ele descobre que durante sua ausência seu pai foi morto misteriosamente e sua mãe está casada com seu tio, Claudius (Horst Frank), que agora é dono de todas as terras de seu falecido irmão. A culpa pelo assassinato de seu pai caiu para cima de um bandido chamado Santana, que, aparentemente, já foi morto por Claudius. Achando tudo isso meio estranho, Johnny, com a ajuda de Dazio (Gilbert Roland), um amigo de seu pai, tenta descobrir o que realmente aconteceu.

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Quem conhece a peça Hamlet, vai perceber que a maioria dos personagens permanece fiel aos escritos de Shakespeare, como Claudius, a mãe, Polonius, que aqui surge como o xerife, Rozencrantz e Guildenstern… Emily, uma jovem que serve de par romântico a Johnny é claramente inspirada em Ophelia. A trama, de uma forma geral, possui reviravoltas e situações bem mais condizentes a um spaghetti, para manter um ritmo mais movimentado, mas são todas alterações bem-vindas que surtem efeitos positivos ao resultado do filme e podem agradar até o apreciador mais exigente, tanto de spaghetti quanto de Hamlet

Na verdade, não duvido que JOHNNY HAMLET agrade a qualquer pessoa que realmente goste de cinema, que valoriza a forma, um visual criativo, porque é impossível escrever qualquer coisa sobre esta obra sem destacar o trabalho notável da direção de Enzo G. Castellari. O sujeito dá ao filme uma riqueza estética impressionante, equivalente aos grandes mestres do gênero. Somos fisgados a partir da primeira cena, onde vemos uma sequência de sonho, cheia de elementos de horror e um belíssimo uso das cores. Logo depois, o nosso protagonista acorda em uma praia com uma trupe circense, um universo surreal que serve de introdução para o famoso monólogo “ser ou não ser”. E o nível de qualidade estética se mantém firme até o último segundo desta bela obra-prima do gênero.

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E pensar que a ideia original de JOHNNY HAMLET surgiu de outro diretor italiano, Sergio Corbucci, que teve de abandonar o projeto pelo seu envolvimento com outras produções. Corbucci também era um mestre do gênero, mas seu estilo talvez não tivesse a mesma força poética do olhar de Castellari. Num exercício de imaginação, não trocaria o que temos aqui por nada…

Como muitos Spaghetti Westerns, JOHNNY HAMLET foi retitulado em outros países como mais um filme da série DJANGO. Um detalhe que não custa lembrar é que esses italianos eram todos picaretas. Mudavam títulos, redublavam cenas, faziam o que fosse possível para promover seus filmes. Naquela época, DJANGO, do já citado Corbucci, foi um dos grandes sucessos do gênero e o que surgiu de produção explorando a popularidade do personagem não é brincadeira! No Brasil, foi lançado em DVD pela distribuidora Ocean há alguns anos, como JOHNNY HAMLET mesmo. A capa é feia e pode parecer apenas mais um exemplar comum do gênero, no entanto, trata-se de um filme obrigatório em todos os sentidos.

ALMIGHTY THOR (2011)

Este aqui é complicado… Não sei nem por onde começar. Mas tudo bem, vamos pela história, que não possui qualquer relação com os quadrinhos do Deus do Trovão, mas já sabemos de antemão que se trata de mais uma produção da The Asylum, então não é surpresa alguma. Em ALMIGHTY THOR, Loki (Richard Grieco) não é irmão de Thor (Cody Deal), mas uma espécie de feiticeiro que surge sem muita explicação e usa seus poderes e umas criaturas que parecem cachorros misturados com dinossauros, feitos em um CGI bem fuleiro, para destruir Asgard em busca de um tal martelo da invencibilidade!
Odin, antes de ser morto (ah, não se preocupem com spoilers), se livra do martelo através de um portal mágico. Seu filho, Thor, junto com uma guerreira local, consegue passar pelo portal e vem parar aqui na terra, onde tenta encontrar o artefato para derrotar Loki!
Sim, até parece ser um filmaço, mas não se engane pela minha descrição, nem pelo poster ou trailer. ALMIGHTY THOR é uma porcaria extremamente mal dirigida, com efeitos especiais pobres, um roteiro risível, atuações constrangedoras, pós produção mal acabada, etc. Claro que tudo isso são detalhes que dão um charme às produções da The Asylum e divertem aqueles que sabem apreciar esse tipo de tralha. O problema é a “seriedade” com a qual a coisa é levada. O filme é arrastadíssimo, chato e sem graça… e nem cabe aqui a desculpa da falta de dinheiro da produção. Falta mesmo é bom senso dos realizadores…
As cenas da batalha do início dão vergonha alheia. A noção de tempo, espaço e continuidade é lançada às favas e é preciso ter estômago pra aceitar alguma coisa. Quando a trama passa a transcorrer na Terra, a impressão é de que o filme vai melhorar. Mas infelizmente consegue ficar pior!!! É uma encheção de linguiça que tem certa graça no início pela situação ridícula, do tipo tão ruim que chega a ser bom, mas depois meia hora assistindo a mesma coisa, fica difícil… De tempos em tempos temos umas ceninhas de ação, mas são rápidas e não dá pra animar muito a vida do espectador.
Das poucas centelhas de genialidade (sim, temos algumas, haha!), uma delas é este plano acima, onde Thor parte pra cima de Loki com uma UZI!!!! O martelo não é suficiente?! Esse era o espírito que o filme deveria manter do início ao fim, mas não consegue… Quem consegue é Richard Grieco, o único que parece à vontade, percebeu a bomba que se meteu e não está nem aí, apenas ri de si mesmo. Cody Deal faz um Thor patético, abobalhado, bunda mole e chorão…difícil, muito difícil…
Mas ainda assim, prefiro ALMIGHTY THOR do que o THOR do Kenneth Branagh!

PS: A direção é de Christopher Ray, filho do Fred Olen Ray!

BURKE AND HARE (2010)

Eu não ando muito ligado nas comédias atuais, mas resolvi me arriscar neste aqui porque a) me pareceu ser um bom caso do típico humor britânico; b) além do tipo de humor, me pareceu ter uma mescla interessante com mistério e terror; c) tem o Simon Pegg, que é dos poucos rostos do gênero que acho bacana atualmente e d) o motivo principal, é que BURKE AND HARE é o retorno de John Landis à direção depois de não sei quantos anos sem fazer algo para cinema.

Duas escolas de anatomia na cidade de Edimburgo, por volta de 1820, competem pelo posto de melhor instituição, uma liderada pelo Dr. Monro (Tim Curry) e outra pelo Dr. Knox (Tom Wilkinson), que se vê obrigado a adquirir corpos por meios ilegais, já que Dr. Monro consegue um monopólio sobre a oferta de cadáveres na cidade. É aí que entram Burke (Pegg) e Hare (Andy Serkis), dois malandros que estão dispostos a tudo para ganhar uns trocados, o que incluí conseguir alguns defuntos para o Dr. Knox, mesmo que nem sempre encontrem o artefato sem vida.

O filme é ligeiramente baseado em histórias verdadeiras, inspiradas em assassinatos reais da época, e possui um tema interessante para criar situações engraçadas. Pena que na prática a coisa não funcionou tão bem pra mim. BURKE AND HARE não é ruim ao ponto de você desistir no meio do filme, mas também não possui nada de mais para chegar ao fim como uma experiência agradável. É longo demais e perde tempo com situações desinteressantes (como o romance de um dos protagonistas) e, já que estamos falando de algo assumidamente dentro do gênero comédia, falha por ser sem graça na maior parte do tempo. Não existem sequências memoráveis que ficam marcadas na mente, a não ser a curta cena onde Christopher Lee dá as caras.

Por outro lado, John Landis mantém a mão firme para o suspense e em alguns momentos envolvendo uma atmosfera mais densa o filme ganha um pouco de força. Não deixa ainda de ser meia boca o resultado final, mas prefiro um Landis ou John Carpenter fazendo filmes menores como este do que vê-los “coçando o saco em casa”.