CHINA GIRL (1987), de Abel Ferrara

Acabei de ler no blog do amigo Vlademir que o novo filme do Abel Ferrara, NAPOLI NAPOLI NAPOLI, está previsto para ser lançado nos cinemas brasileiros em setembro. É uma notícia e tanto! Curiosamente, assisti ontem ao maravilhoso CHINA GIRL, que nas palavras do meu amigo Daniel, é uma versão hardcore de Romeu & Julieta! A definição é perfeita! Imaginem a peça de Shakespeare sem as situações “mela-cueca” entre os pombinhos apaixonados, focado muito mais no violento conflito entre duas gangues, formada por chineses e italianos, em plenos anos oitenta, que fazem fronteira em bairros novaiorquinos iluminados sob as luzes fluorescentes de neon e musicalmente acompanhados de uma trilha típica daquele período! Um filmaço destruidor! E quando Ferrara resolve acompanhar de perto o romance proibido entre a chinesinha Tye e o italiano Tony, ele transforma a situação na coisa mais linda do mundo! Não é a toa que o diretor já declarou que dentre seus próprios trabalhos, CHINA GIRL seria o seu favorito. A direção é inspiradíssima! Questão de movimentação de câmera, uma mais impressionante que a outra, até chegar num plano final antológico!

No elenco, temos James Russo como irmão mais velho de Tony. O sujeito é simplesmente um dos maiores atores injustiçados do cinema americano. Dono de um talento ímpar e de uma segurança estupenda para encenar situações dramáticas com perfeição, Russo nunca teve o destaque merecido. Basta ver sua atuação em OLHOS DE SERPENTE, também de Ferrara, para entender o que estou falando. David Caruso também marca presença, assim como James Hong e Russell Wong.

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ANATOMIA DE UM ASSASSINO (Body Parts, 1991)

EM BUSCA DO FILME ESQUECIDO

Bastou uma modesta sessão em VHS, quando eu tinha lá os meus nove ou dez anos para carregar algumas imagens deste filme na memória durante um bom tempo da vida. Só que era desses exemplares que comumente assistimos acidentalmente ainda moleque, sem saber o título, nome dos atores, na verdade não era nem para eu estar assistindo, e acaba esquecendo completamente. Quando se lembra, são apenas imagens desconexas que não formam sequer uma sinopse… Enfim, quando chegou a internet, imdb, baixação de filmes, resolvi tentar reencontrar algumas coisas, mas não consegui lembrar de informações suficientes para encontrar este aqui.

No ano passado, conversando com o meu amigo Osvaldo Neto, sobre um diretor de filmes B (óbvio, já que o Osvaldo é especialista no assunto) que havia feito um filme que ele tinha assistido, COHEN AND TATE, acabei tomando conhecimento do diretor Eric Red. Fui dar uma conferida no imdb, para ver o que o rapaz já tinha feito e pimba! Estava lá BODY PARTS. Só de ver a arte do cartaz e o título, as imagens do filme começaram a rondar a minha cabeça. Depois de ler a sinopse, confirmei que era o filme esquecido. Lembro até de comentar com o Osvaldo na nossa conversa que estava atrás daquele filme há anos, mas não lembrava de nada que me ajudasse a encontrá-lo… e o pior é que o enredo tem uma peculiaridade bem característica.

No último sábado, depois de quase um ano segurando o filme aqui, resolvi assistir. Claro que não é exatamente a mesma experiência que tive com o olhar da ingenuidade, mas pela mãe do guarda, juro que vivenciei alguns bons momentos diante dessa simplicidade fílmica, mas de uma grandeza inesperada! Chego a ficar constrangido por gostar tanto de um filme que, aparentemente, não possui nada fora do normal, mas acaba me atigindo de uma maneira notável. Não sei se chega a ser um “guilty pleasure”, porque o filme não é ruim, mas só mesmo um belo filme especial e torto causa esse tipo de reação em mim.

BODY PARTS não é uma obra prima, mas é um excelente thriller, possui uma trama urdida com criatividade, uma pitada de ação e ficção científica, além de ser uma esquisita e moderna releitura de Frankenstein. O bastante para surtir o seu efeito catártico sobre mim.

A trama gira em torno de um pacato psicólogo criminal, Bill Chrushank, que após um acidente de carro perde um braço. É preciso aceitar o tom fantástico do enredo que parte do princípio de que um transplante de braço vai substituir perfeitamente o antigo. E é isso que acontece, o protagonista recebe um braço novo que funciona 100 % em poucos meses, através de uma cirurgia experimental de ponta.

A partir daí, a vida de Bill muda de uma maneira negativa. Sua personalidade gradativamente se torna mais agressivas e estranha. Desconfiando que seu novo membro exerce essa influência sobre o seu comportamento, Bill inicia uma investigação para descobrir de quem era o braço, além de entrar em contato com outras pessoas que também receberam partes do mesmo corpo.

Entre suas inúmeras qualidades, Eric Red acerta em cheio ao colocar Jeff Fahey como protagonista. O ator, que já esteve em mais de 100 filmes e é bem conhecido pelos apreciadores do cinema de baixo orçamento, tem aqui uma atuação digna de nota. Quem também está ótimo é Brad Douriff, como um pintor medíocre que passa por uma fase inspirada, pintando quadros bizarros e macabros, após receber o outro braço do corpo em questão. A primera cena dele no filme é antológica!

O filme não possui muita ação. Temos a cena do acidente, que é um espetáculo. É rápida, visceral e sem frescuras. Há uma sequência envolvendo carros em alta velocidade que é de lascar também. Eric Red preza mais pelo climão de suspense. Red não chega a ser um mestre, mas BODY PARTS pode servir como uma autêntica aula de atmosfera, de montagem clássica e eficiente, para os cineastas da nova geração que acham que fazer suspense é dar sustos e aumentar o volume da trilha.

Recomendo para aqueles que curtem um simples, mas ótimo suspense a moda antiga, mesmo sabendo que não vão entender porque eu gosto tanto do filme, mas não tem problema. Certamente vocês devem ter vários filmes que eu não entendo como alguém pode gostar tanto…

A CENTOPÉIA HUMANA (The Human Centipede, 2009), de Tom Six

Gostando ou não, temos que admitir que seria preciso ter estômago (além de ser muito chato) pra ficar indiferente diante de A CENTOPÉIA HUMANA, filme que arregalou alguns olhares em suas exibições e levantou muita discussão trazendo um dos conceitos mais perturbadores que eu vi nos último anos: três pessoas são sequestradas por um médico maluco que realiza um experimento que consiste em interligar as três cobaias num único sistema digestivo.

A estória surgiu de uma idéia boba do diretor Tom Six, que dizia para seus amigos, enquanto assistiam TV  sempre que passava alguma reportagem sobre pedofilia, que as autoridades deveriam fazer o sujeito comer as fezes de um motorista de caminhão bem gordo como punição. Six sabia que isso poderia servir de base para um enredo de filme de terror e foi amadurecendo a idéia até chegar no resultado que foi visto na tela. Consultou até um médico cirurgião holandês que só aceitou ajudá-lo nos detalhes medicinais porque era fã de cinema (os desenhos do médico foram até utilizados no próprio filme, na cena em que o Dr. Heiter explica os procedimentos da sua operação).

Apesar da idéia ser realmente doentia e de revirar o estômago, e não faltam situações grotescas por conta disso, o resultado final não é tão subversivo assim. Visualmente, o filme é bem light e limpinho. Tá certo que chocar por chocar eu dispenso, mas A CENTOPÉIA HUMANA até teria um ótimo motivo, principalmente porque eu adoro um bom gore! O filme tem algumas falhas comuns do cinema de terror atual, mas gostei do jeito que ficou, embora não deixe de imaginar o que teria saído nas mãos de um diretor italiano no início dos anos 80, como um Joe D’Amato ou Lucio Fulci. Ou do alemão Jorg Buttgereit e o japonês Takashi Miike em seus dias de inspiração… haja estômago!

Algo que indiscutivelmente me agrada bastante é a presença do ator alemão Dieter Laser, que encarnou no Dr. Heiter, o médico maluco da trama, com muita força e expressividade. Um dos personagens mais bizarros e assustadores do horror moderno. O resto do elenco está bem, principalmente aos atores que fazem as três vítimas. É preciso uma certa coragem para submeter-se a papéis como estes. Cheguei a ler que várias pessoas que apareciam para os teste de escolha de elenco abandonaram o local quando tomavam conhecimento do que se tratava…

A CENTOPÉIA HUMANA foi pensado como um filme de dois volumes. A segunda parte está prevista para 2011. Tom Six não revela nada do que teremos a seguir, mas estarei esperando por mais uma dose dessa sandice toda.

2 ANOS DEMENTES

Diferente do ano passado, eu me lembrei do aniversário do DEMENTIA 13 na data certa este ano!

O blog possui atualmente quase 80.000 acessos e uma média diária de 200 visitantes. Pode parecer pouco para alguns de vocês, mas para um pobre infeliz que mora longe do circuito e que ainda está em fase de aprendizagem sobre o tipo de cinema que admira, é muito mais do que o esperado.

Portanto, meus agradecimentos sinceros aos leitores, aqueles que acompanham o blog desde o início até aquele que entrou hoje aqui pela primeira vez, e a todos os fiéis amigos que eu fiz durante este tempo, são vocês que sustentam a minha vontade de sempre continuar. Não vou citar nomes, pois são tantos e poderia fazer a injustiça de esquecer alguém. Vida longa ao DEMENTIA 13!