A ILHA DO MEDO (Shutter Island, 2010), de Martin Scorsese

Esperei quase dois dias para escrever alguma coisa para ter certeza de que a minha euforia não havia sido precipitada. Acho que já digeri bem o novo filme do Scorsese e a minha percepção pessoal é de que se trata de um trabalho notável, o melhor filme do diretor desde GANGUES DE NOVA YORK. Como suspeitei desde o princípio, o cinema estava lotado de adolescentes irritantes que saíram revoltados quando a sessão terminou. Ou seja, eles caíram direitinho na jogada de marketing que vendia o filme como uma coisa que ele não é. Não saberia nem como começar qualquer tipo de análise, nem pretendo mudar a opinião de ninguém. Já notei que pouca gente se empolgou com o filme como eu, mas tudo bem. O filme tem problemas, é torto, com vários motivos para que os potenciais detratores possam escolher sobre o que falar mal. Mesmo assim, achei o filme ótimo! O que eu posso fazer? Para mim foram duas horas e meia de puro cinema num thriller estilístico de atmosfera noir e estilizada, complexo e instigante, conduzido brilhantemente por um dos diretores americanos mais lúcidos da atualidade o qual há muito tempo não precisa colocar em prova sua capacidade de contar uma boa estória. Eu nunca li nada de Dennis Lahane (o mesmo de SOBRE MENINOS E LOBOS), cujo livro inspirou o roteiro de A ILHA DO MEDO, mas acredito que quanto menos souber a respeito da trama, melhor será a experiência. Digamos apenas que é o melhor horror psicológico feito em Hollywood em muito tempo!

Sobre o elenco, eu acho que é bom um parágrafo à parte. Muita gente reclama da parceria entre Di Caprio e Scorsese e até eu mesmo, se tivesse esse poder, escolheria um Daniel Day Lewis para viver o protagonista. Mas é inegável o fato de que o rapaizinho vem melhorado a cada filme e sua atuação em A ILHA DO MEDO é digna de nota. Finalmente ele está com cara homem grande, contracenando de igual para igual com gente do calibre de Ben Kingsley e o imortal Max Von Sydow. Mark Ruffalo também está ótimo e seu personagem é um ponto chave muito bem explorado para desvendar o enigma da trama (como apontou o Sergio Alpendre). O time de atores ainda possui nomes de peso como Jackie Earle Haley, Elias Koteas e Ted Levine, todos os três em pequenas, mas muito expressivas, participações. Michelle Williams, Emily Mortimer e Patricia Clarkson completam com a parte feminina do elenco.

Já o tal “enigma” que eu citei ali em cima, que é revelado ao final, é bem previsivel e óbvio (ou fraco, para alguns), mas acho que o Scorsese está pouco ligando para “surpresinhas espertinhas.” A grande força do filme se concentra justamente em como ele desenvolve a idéia central, independente se o publico vai matar a charada facilmente. A forma como ele desconstrói esse enigma é que é interessante, brincando com a noção de realidade, delírio, sonho, lembranças, em sequências antológicas lindamente iluminadas e com uma trilha sonora das mais eficazes… enfim, sei que não se trata aqui de uma obra prima inquestionável, mas é o tipo de filme torto que me encanta. E se existe algum ponto que lembra os últimos filmes do De Palma (como acha meu amigo Daniel, e respeito sua opinião, apesar de discordar) é exatamente isso, ambos são filmes questionáveis que dividiram as opiniões e nos dois caso, eu escolhi gostar.

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68 pensamentos sobre “A ILHA DO MEDO (Shutter Island, 2010), de Martin Scorsese

  1. > Mas valeu os elogios, caso não sejam sarcásticos, tanto do Herax quanto do Perrone, mas acho que ainda tenho certas falhas sérias na comunicação de minhas idéias.

    Fala Davi! Nada de sarcasmo, o elogio foi totalmente verdadeiro.

  2. Ainda não é minha intenção, ao assistir a um filme, ficar esperando que os realizadores busquem renovações e formas inesgotáveis de soluções visuais a cada plano quando aparentemente, para um leigo como eu, está tudo ótimo!

    Também não é minha intenção. É o caso exclusivo de alguém como o Scorsese, que sempre se diferenciou por isto. E eu também assisto como leigo, acho.

    Nenhunzinho, nadica de nada… Se os caminhos que ele escolhe para conduzir seus filmes são preguiçosos e burocráticos, quem me dera se alguns diretores sem personalidade fossem atrás puxando uma fila.

    Eu não disse filmes. É exclusivo ao “A Ilha do Medo”.

    Pode ser uma visão pobre, que acaba por me enclinar demais a gostar de obras tortas (como até reconheci A Ilha do Medo como tal no meu texto) que não merecem tanta admiração.

    Eu também gosto de obras tortas. Olhe meus favoritos dele. Fora “Vivendo no Limite”, não coloco minha mão no fogo pela perfeição de nenhum dos filmes, pois me queimaria. Mas adoro exatamente os “defeitos” que são do Scorsese.

    Não gosto de julgar nos mínimos detalhes as escolhas de um diretor e sua equipe técnica ao ver um filme. Eu tenho consciência do que gosto e do que não gosto e pra mim isso basta. Não sou crítico de cinema e nem pretendo ser, minha paixão pelo cinema se deve ao prazer que ele me proporciona (ui!) e pronto.

    Também não tenho intenção de ser crítico nem nada. Vou pelo que gosto e desgosto e não fico julgando cada detalhe, mas aqueles que me chamam atenção por parecerem não pertencer ao filme que assisto. Eu também respeito os gostos alheios, então espero não ter desrespeitado em nenhum dos meus comentários, de forma acidental. No mais, te acho qualificado para ser crítico. Assim como Herax, Ailton e outros blogs que leio.

    Porém acho os textos do Davi muito interessantes, mesmo quando não concordo com eles (me refiro especialmente ao Distrito 9 e ao
    Dead Snow, hehe).

    Tipo, eu pareço um macaquinho no laboratório aprendendo o ABC do cinema? : P Mas valeu os elogios, caso não sejam sarcásticos, tanto do Herax quanto do Perrone, mas acho que ainda tenho certas falhas sérias na comunicação de minhas idéias.

    E sério, não quero parecer fanzoca xita, mas a voz do DiCaprio compõe o resto das suas qualidades artísticas muito bem, sendo voz de garoto ou não.

    Concordo plenamente com isso.

    E inclusive discordo do Davi q DiCaprio não deveria chorar.

    Reitero minha opinião, se for pela cena de “A Ilha do Medo”. Além de ser a cena mais mal filmada (segundo minhas sensibilidades) da carreira do Scorsese, o choro dele parece um tanto quanto pouco natural, dentro da forma como ele articula. E aquele “Nãããaãããaão” me deu flashbacks de “Wolverine”.

  3. Não achei a cena do fuzilamento inesperada. Achei, como muitas coisas no filme, conceitualmente genial. O que me incomodou foi a forma como foi realizado o momento, aquele travelling é uma das coisas mais sem graça que já vi no cinema do Scorsese[2]

    Toda aquela sub-história do passado na segunda guerra parece pertencer a um outro filme, se destoa demais de todo o resto e apesar de, novamente ser visualmente instigante, é substancialmente desinteressante.

    PS: Pra mim absurdo é qualificar a qualidade de um filme por ser comercial ou não. Fin.

  4. É que o Scorsese é um nome que anda gerando polêmica por essas bandas faz tempo. 😀

    “Sobre o Scorsese ser grandioso nos filmes recentes”

    Tb nunca discordei disso, mas assino embaixo com o complemento do Davi, que começou em New York, New York.

    E sério, não quero parecer fanzoca xita, mas a voz do DiCaprio compõe o resto das suas qualidades artísticas muito bem, sendo voz de garoto ou não. Percebi isso na cena do Nicholson dando porrada no braço engessado do DiCaprio em Departed, como aqueles gritos com aquela voz dele tinham se tornado, finalmente, algo característico da sua persona. Altamente identificável. Assim como Jack atua com suas sombrancelhas, O De Niro com sua respiração e o contraste da alteração de tom de voz do Pacino enquanto discursa em alguma cena intensa. E inclusive discordo do Davi q DiCaprio não deveria chorar. Inclusive acho que ele faz isso muito melhor q o De Niro (Q nunca me convenceu chorando, mesmo no começo da carreira como em Mean Streets, sempre parecendo que no fundo ele está se auto-parodiano como em Máfia No Divã) E aquela cena final do filme me comoveu bastante, inclusive, pq DiCaprio atua tão bem e consegue parar na hora certa.

  5. Penso igual ao Ronald. Já pensei em estudar cinema, em conhecer mais sobre critica e teoria, mas hoje me afasto 100% disso, prefiro obter uma impressão completamente bruta dos filmes que assisto. Porém acho os textos do Davi muito interessantes, mesmo quando não concordo com eles (me refiro especialmente ao Distrito 9 e ao Dead Snow, hehe).

  6. Continuando…

    Não sou crítico de cinema e nem pretendo ser, minha paixão pelo cinema se deve ao prazer que ele me proporciona (ui!) e pronto.

    Eu tenho certeza que vocês buscam a mesma coisa, só que de maneira diferente. E respeito a de todos. 🙂

  7. Mas aí é exigir demais de um pobre rapaz como eu… 😉

    Ainda não é minha intenção, ao assistir a um filme, ficar esperando que os realizadores busquem renovações e formas inesgotáveis de soluções visuais a cada plano quando aparentemente, para um leigo como eu, está tudo ótimo! Isso desviaira demais a minha atenção que já nao é das boas, e também porque neste caso específico eu não tenho mesmo do que reclamar, já que todas as escolhas estilísticas do diretor funcionam muito bem pra mim. Talvez essa falta de exigência da minha parte ajude a gostar tanto do filme. Não vejo problema algum com o visual, direção, ritmo, etc, dos filmes do Scorsese. Nenhunzinho, nadica de nada… Se os caminhos que ele escolhe para conduzir seus filmes são preguiçosos e burocráticos, quem me dera se alguns diretores sem personalidade fossem atrás puxando uma fila.

    As cenas nas pedras (que me lembraram muito Hitchcock em Intriga Internacional), a sequencia dos fósforos, todas as cenas de sonho e lembranças, inclusive o fuzilamento, adorei tudo da forma que chegou aos meu olhos…

    Não quero dizer com isso que você (ou eu) está certo ou errado. mas só estou explicando a minha visão e comportamento diante do ato de ver um filme. Pode ser uma visão pobre, que acaba por me enclinar demais a gostar de obras tortas (como até reconheci A Ilha do Medo como tal no meu texto) que não merecem tanta admiração.

    Não gosto de julgar nos mínimos detalhes as escolhas de um diretor e sua equipe técnica ao ver um filme. Eu tenho consciência do que gosto e do que não gosto e pra mim isso basta. Não sou crítico de cinema e nem pretendo ser, minha paixão pelo cinema se deve ao prazer que ele me proporciona (ui!) e pronto.

  8. 1. Sobre o Scorsese ser grandioso nos filmes recentes.
    Concordo que sim tanto em “O Aviador” quanto “Gangues de Nova Iorque”, mas isso vem da carreira dele desde “New York, New York”, passando por “A Época da Inocência” até mesmo “Os Bons Companheiros” e “Cassino” que são óperas do crime. Parece-me que com “Os Infiltrados” ele realmente foi a fundo no seu estudo dos filmes de crime dos anos 40 e posteriores e saiu com algo bem particular. É muito mais B que “Cabo do Medo” e “A Ilha do Medo”. Como disse em discussões anteriores, acho incrível que ele siga cada “beat” de “Conflitos Internos” e sempre que assisto cada um dos filmes vejo o quão diferentes são.
    “Os Bons Companheiros” tem a sensação de um mundo bem menos claustrofóbico e menos sujo que o de “Os Infiltrados”, até quando ocorrem mortes. Afinal, são “os bons tempos”, a vida é boa e o crime é só um emprego. Para falar a verdade, acho que algumas decisões de câmera de “A Ilha do Medo” me lembraram algumas punhetagens (que funcionam) de “Os Bons Companheiros”. O uso de steadycam excessivamente descritiva, que no caso do último filme (e aí concordo com o Leandro) afetam o ritmo. Acho que não existe cena tão truncada em termos de ritmo, no cinema de Scorsese, quanto do corredor com os fósforos. Uma cena conceitualmente genial e que nas mãos de um mestre devia ser genial, mas que parece excessivamente burocrática, sem nenhum sabor novo.

    2. Sobre mais do mesmo:
    Aí discordo completamente, Perrone. Eu vou aos filmes de mestres para ser surpreendido. São eles que normalmente puxam o cinema para novos caminhos, mesmo citando os filmes passados, eles se perguntam “como pode se fazer isso de maneira que nunca foi vista antes?”. E não estava falando do começo estabelecer um uso particular de gramática que funcione. A sensação que tenho é que os planos “novos” se esgotam na entrada do hospício e daí sim vem “mais do mesmo”. Os corredores que já vi em diversos filmes, sem desvios, sem a pequena reviravolta dentro da cena ou plano que Scorsese realiza, em diversos de seus filmes. É um caminho burocrático que me parece a cara do novo milênio, ao invés da particularidade que se aparenta anacrônica (afinal, é a época do cinema diet, sem identidade) de cineastas como Scorsese e Tarantino que gostam de trazer temperos novos. Não achei a cena do fuzilamento inesperada. Achei, como muitas coisas no filme, conceitualmente genial. O que me incomodou foi a forma como foi realizado o momento, aquele travelling é uma das coisas mais sem graça que já vi no cinema do Scorsese. Como disse, sem sabor de novo. Recauchutado. Citei o Snyder porque ele tem um plano igual em “Watchmen”, quando o Rorschach entra na base onde está o Dr. Manhattan. Tem um corte no meio e é da direita para a esquerda, ao contrário do Scorsese, mas a sensação da “montagem” interna dos planos é a mesma.

    3. E eu também quero completar a filmografia do Scorsese assim como revisar filmes que não vejo desde a época do VHS! Os que não tenho ainda são “Vesuvius VI” e “Street Scenes” que segundo o Daniel só o próprio Scorsese tem.

  9. Nossa, eu preciso ver a filmografia inteira do Scorcese! Com todo o sangue, glória e fúria presentes nesses comentários eu diria que o Scorsese poderia começar a adaptar jogos de video-game o resto da vida, como um Uwe Boll, que o cara já garantiu seu espaço de gênio. Sem sacanagem, foi uma das leituras mais enriquecedoras que tive nos últimos tempos, agradeço a todos vocês.

  10. “O Aviador” é o melhor dos últimos filmes do Scorsese, e o que traz o Di Caprio em grande performance.

    Mas continuo pegando no pé quanto a montagem e ritmo. Quem dera que o resto de “Os Infiltrados” fosse do mesmo nível que os primeiros 18 minutos. Scorsese tem que mudar de montador. Sorry, Thelma.

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