[REC] (2007) & [REC]² (2009)

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[REC], de Jaume Balagueró e Paco Plaza é um Zombie Movie espanhol que inicia quando uma repórter de TV, Ângela, e seu cameraman, Pablo, visitam um departamento de bombeiros para realizar uma matéria sobre esta profissão. Quando soa o alarme, os dois acompanham os bombeiros responsáveis pela chamada até um prédio onde a polícia já se encontra em cena e quase todos os moradores estão na portaria.

A coisa fica feia quando uma mulher em um apartamento ataca um dos policiais enquanto Pablo e Ângela gravam tudo. Na tentativa de sair do prédio para levar o ferido, eles são impedidos e o edifício fica bloqueado prendendo todos os residentes, os repórteres, policiais e os bombeiros do lado de dentro sem qualquer explicação.

O filme todo é acompanhado pela câmera subjetiva de Pablo. É a linguagem found footage que estava em voga no momento, principalmente para filmes de terror, como foi em CLOVERFIELD e o DIÁRIO DOS MORTOS, de George Romero. Embora este tipo de montagem renuncie elementos que poderiam fornecer uma atmosfera mais densa, é uma forma interessante de narrar os fatos absurdos com certo realismo e veracidade. Não chega a ser um filmaço surpreendente de outro mundo, mas está acima da média, assim como sua continuação, que é muito boa e consegue manter o nível.

REC² inicia 15 minutos após o desfecho do primeiro filme, agora com a câmera de um esquadrão da polícia servindo como ponto de vista para que o espectador acompanhe cada momento dentro do mesmo prédio do filme anterior. A sacada do roteiro foi acrescentar um outro elemento de terror na trama. Não vou contar pra não estragar o vislumbre, mas o final do primeiro criava essa possibilidade. A direção de atores continua excelente e o elenco corresponde muito bem às situações aterradoras da trama com ótimas encenações, muita criatividade e veracidade. Quem curtiu REC vai gostar de revisitar o velho prédio do centro de Barcelona recheado de zumbis.

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O MONSTRO DO ÁRTICO (The Thing From Another World, 1951)

 E para me desintoxicar do filme do post anterior, ainda neste domingo revi O MONSTRO DO ÁRTICO, produção de um dos mestres supremos do cinema americano, Howard Hawks, vagamente inspirado num conto de John Campbell e considerado hoje como uma das pedras fundamentais do gênero da ficção científica, tornando-se paradigma seguido durante muito tempo. Ganhou uma refilmagem em 1982 nas mãos de John Carpenter, O ENIGMA DO OUTRO MUNDO. O filme começa com a suspeita de que um avião caiu na Antártida. Uma unidade do exército é chamada para reunir-se com um grupo de cientistas e ir ao local do acidente, quando se descobre que, na realidade, o que havia caído era uma nave alienígena. Acidentalmente, o objeto é destruído na tentativa de descongelar o revestimento de gelo que o cobria, mas conseguem encontrar um corpo estranhamente congelado numa grande pedra de gelo. Levado à base, a criatura se descongela acidentalmente. A idéia da “coisa” que causa o terror no local é totalmente diferente da versão de John Carpenter, que apesar de fã de carteirinha de Hawks, optou por ser mais fiel aos escritos de Campbell. O extraterrestre de O MONSTRO DO ÁRTICO é um ser com forma humana (embora se descubra que sua formação tem base vegetal), mas com uma força descomunal e que se alimenta de sangue. Seu único objetivo parece ser matar e tentar sobreviver e mesmo com todos os militares querendo sua pele, surge o velho clichê do cientista maluco querendo capturá-lo vivo em prol de suas pesquisas científicas, ainda que isso coloque em risco a vida de todos. Aqui também se configura o cenário clássico do ambiente claustrofóbico e do monstro aterrorizando a vida de um grupo de pessoas, da mesma forma que outros clássicos mais modernos estabeleceram suas atmosferas, como ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO, para se ter uma idéia. A direção ficou a cargo de Christian Nyby, apesar de todos os elementos do cinema de Howard Hawks estarem bem presentes no decorrer da narrativa, tanto que seu nome é muitas vezes considerado como o verdadeiro diretor da obra. Enfim, seja quem for o responsável pelo trabalho de direção, conseguiu um belíssimo resultado em termos de dramaturgia, visual, ritmo e terror da melhor qualidade.

O EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO (The Crazies, 1973)

Assisti a THE CRAZIES por dois motivos básicos. Primeiro, porque o remake está aí e quero vê-lo tendo em mente o original. Segundo e mais importante, porque é embaraçoso para qualquer amante de cinema B e que se diz fã de George Romero não ter visto ainda esta obra, como era meu caso. Toda a essência do cinema de Romero está em THE CRAZIES, uma autêntica peça fundamental para compreender o trabalho deste mestre, mesmo sendo apenas o seu quarto filme.

Temas políticos e sociais sempre tiveram um tratamento especial nos filmes de terror de Romero. Em A NOITE DOS MORTOS VIVOS, seu trabalho de estréia, ele já deixava isso bem claro quando colocou um negro como protagonista interagindo com superioridade sobre os brancos em situações extremas. Em THE CRAZIES, Romero desenha sua metáfora sobre a guerra do Vietnã. Coloca o governo dos Estados Unidos como um bando de desorganizados que quer apenas apertar um botão para resolver a merda que fizeram, com a preocupação mínima pela população que será dizimada, sem contar a forma de agir dos soldados americanos, como máquinas desumanas, utilizando aqueles macacões que ficaram marcados nos cartazes do filme…

Um garotinho brinca de assustar a sua irmãzinha durante a noite, mas são interrompidos por violentas pancadas ouvidas na cozinha. É o pai, totalmente fora de si, desferindo golpes com um taco de golfe nas prateleiras… talvez não tenha gostado da cor, quem sabe? Até que decide por fogo na casa e assim inicia THE CRAZIES, cuja tradução seria Os Malucos, mas a distribuidora brasileira optou por O EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO. A trama prossegue com o exército americano colocando a pequena Evans City de quarentena por causa de um vírus espalhado nas redondezas através de um acidente de avião, o qual transportava uma arma biológica ultra secreta. Quando o vírus apresenta seu contágio, a vítima fica completamente maluca em diferentes estágios de insanidade, do mais alto padrão agressivo à leseira que se assemelha a um drogado abobalhado. A população, uma pequena comunidade rural onde grande parte possui armas de fogo, não deixa barato perante o sistema de controle implantado pelo exército e o local se transforma em uma verdadeira guerra.

Mesmo trabalhando com recurso financeiro baixíssimo, Romero realmente consegue recriar toda situação catastrófica com uma simplicidade genial, o mesmo universo que remete a seus filmes de zumbis, com cenários desertos e atmosfera aterrorizante, uma vez que, assim como em seus zombie movies existe a iminência de que algum personagem se transforme em algo que ele não é, no caso de THE CRAZIES, em um maluco contaminado. Sem contar as várias sequências viscerais que o diretor faz questão de utilizar para reforçar o impacto. Tudo banhado a muito sangue e com violência gráfica, o qual não poderia faltar de jeito nenhum na definição dos elementos que compõe o cinema de George Romero. Aposto minha melhor camisa que essa releitura não vá acrescentar em nada a esta belezura aqui. Se conseguirem ao menos captar a essência, teremos algo bem divertido talvez…

A ILHA DO MEDO (Shutter Island, 2010), de Martin Scorsese

Esperei quase dois dias para escrever alguma coisa para ter certeza de que a minha euforia não havia sido precipitada. Acho que já digeri bem o novo filme do Scorsese e a minha percepção pessoal é de que se trata de um trabalho notável, o melhor filme do diretor desde GANGUES DE NOVA YORK. Como suspeitei desde o princípio, o cinema estava lotado de adolescentes irritantes que saíram revoltados quando a sessão terminou. Ou seja, eles caíram direitinho na jogada de marketing que vendia o filme como uma coisa que ele não é. Não saberia nem como começar qualquer tipo de análise, nem pretendo mudar a opinião de ninguém. Já notei que pouca gente se empolgou com o filme como eu, mas tudo bem. O filme tem problemas, é torto, com vários motivos para que os potenciais detratores possam escolher sobre o que falar mal. Mesmo assim, achei o filme ótimo! O que eu posso fazer? Para mim foram duas horas e meia de puro cinema num thriller estilístico de atmosfera noir e estilizada, complexo e instigante, conduzido brilhantemente por um dos diretores americanos mais lúcidos da atualidade o qual há muito tempo não precisa colocar em prova sua capacidade de contar uma boa estória. Eu nunca li nada de Dennis Lahane (o mesmo de SOBRE MENINOS E LOBOS), cujo livro inspirou o roteiro de A ILHA DO MEDO, mas acredito que quanto menos souber a respeito da trama, melhor será a experiência. Digamos apenas que é o melhor horror psicológico feito em Hollywood em muito tempo!

Sobre o elenco, eu acho que é bom um parágrafo à parte. Muita gente reclama da parceria entre Di Caprio e Scorsese e até eu mesmo, se tivesse esse poder, escolheria um Daniel Day Lewis para viver o protagonista. Mas é inegável o fato de que o rapaizinho vem melhorado a cada filme e sua atuação em A ILHA DO MEDO é digna de nota. Finalmente ele está com cara homem grande, contracenando de igual para igual com gente do calibre de Ben Kingsley e o imortal Max Von Sydow. Mark Ruffalo também está ótimo e seu personagem é um ponto chave muito bem explorado para desvendar o enigma da trama (como apontou o Sergio Alpendre). O time de atores ainda possui nomes de peso como Jackie Earle Haley, Elias Koteas e Ted Levine, todos os três em pequenas, mas muito expressivas, participações. Michelle Williams, Emily Mortimer e Patricia Clarkson completam com a parte feminina do elenco.

Já o tal “enigma” que eu citei ali em cima, que é revelado ao final, é bem previsivel e óbvio (ou fraco, para alguns), mas acho que o Scorsese está pouco ligando para “surpresinhas espertinhas.” A grande força do filme se concentra justamente em como ele desenvolve a idéia central, independente se o publico vai matar a charada facilmente. A forma como ele desconstrói esse enigma é que é interessante, brincando com a noção de realidade, delírio, sonho, lembranças, em sequências antológicas lindamente iluminadas e com uma trilha sonora das mais eficazes… enfim, sei que não se trata aqui de uma obra prima inquestionável, mas é o tipo de filme torto que me encanta. E se existe algum ponto que lembra os últimos filmes do De Palma (como acha meu amigo Daniel, e respeito sua opinião, apesar de discordar) é exatamente isso, ambos são filmes questionáveis que dividiram as opiniões e nos dois caso, eu escolhi gostar.

CONFESSIONS OF AN OPIUM EATER (1962), de Albert Zugsmith

Um dos filmes mais impressionantes que eu vi por esses dias foi esta pequena obra prima obscura estrelada pelo Vincent Price em um papel bem diferente daquele pelo qual ficou marcado. É incrível como um filme desse nível esteja no esquecimento, embora seja bem fácil perceber os motivos pelos quais o público da época ficou encucado. Albert Zugsmith é mais conhecido pelo seu trabalho como produtor. Responsável por alguns clássicos como A MARCA DA MALDADE, de Orson Welles, e O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU, de Jack Arnold, como diretor ficou condenado ao limbo pelas tendências subversivas em exploitations que realizou na década de 60. Uma pena, pois só pelo seu trabalho em CONFESSIONS OF AN OPIUM EATER já merecia ter seu talento reconhecido entre os grandes mestres do cinema B como Edgar G. Ulmer, Jacques Tourneur e Roger Corman.

O roteiro é baseado nos escritos de Thomas De Quincey, que transformou suas experiências com o ópio em reflexões filosóficas no livro de contos Confessions of an English Opium Eater. Vincent Price interpreta o alterego de Quincey, um aventureiro que chega a São Francisco no início do século passado e descobre o comercio ilegal de mulheres escravas asiáticas. Sem muitas explicações, o protagonista decide resgatar desesperadamente uma jovem de seu destino cruel. Logo, Price se vê numa aventura sombria dentro de uma casa de horrores cheia de mistérios, com quartos secretos, portas escondidas, elevadores, um verdadeiro labirinto que me lembrou bastante alguns cenários de OS AVENTUREIROS DO BAIRRO PROIBIDO, de John Carpenter. É nessa jornada que o nosso herói dá de cara com a sala do ópio e resolve fazer uso da droga.

Zugsmith concebeu um resultado magnífico na direção de CONFESSIONS OF AN OPIUM EATER. Mesmo com quase cinquenta anos, o filme ainda impressiona com o fantástico visual expressionista e pelo experimentalismo transgressor. O início do filme é uma aula de linguagem puramente cinematográfica, quase dez minutos sem diálogo algum, narrando somente com suas imagens e com os princípios básicos do cinema. O maior impacto, porém, vem da cena do ópio quando o personagem de Price tem seus delírios oníricos e surreais, para logo depois surgir uma inacreditável sequência de ação de uns cinco minutos de duração, filmada inteiramente em camera lenta e sem trilha, apenas efeitos sonoros que enfatizam o clima perturbador.

O mestre do horror, Vincent Price, esté longe da sua habitual figura imponente e fantasmagórica dos filmes de Corman, mas representa de maneira brilhante seu papel de sujeito com espírito valente, mas ciente de suas limitações. E se não temos grandes atores coadjuvantes completando o elenco, ao menos o roteiro encarregou-se de apresentar personagens bem variados e interessantes, como a anã chinesa que ajuda Price no labirinto vertiginoso.

Ousado para o período, o filme deve ter causado uma polêmica danada na época de seu lançamento ao mostrar o famigerado Vincent Price usando drogas, além de explorar um tema tabu, como o tráfico humano. É um belo filme, sem dúvida. Deveria ser redescoberto e reavaliado, mas infelizmente acabou no ostracismo e hoje é pouco lembrado, embora tenha seus admiradores. Eu virei fã. Um dos filmes mais expressivos dos anos 60.