BURIAL GROUND (Le Notti del Terrore, 1981), de Andrea Bianchi

Dos filmes do fim de semana, um dos mais legais foi este clássico zombie movie carcamano, BURIAL GROUND, dirigido por Andrea Biachi, considerado um dos piores profissionais em sua área ao lado de Bruno Mattei… Mas não se preocupem com essas classificações, os verdadeiros fãs das bagaceiras à italiana vão adorar este aqui, nem que seja para dar boas risadas das situações que acabam gerando humor involuntário.
BURIAL GROUND é uma coisa linda, já está entre os meus zombie movies favoritos! A estória é bem tola, sobre três casais e um adolescente que visitam um cientista que trabalha em sua propriedade escavando e estudando alguma coisa que, pra falar a verdade, nem me recordo o que era… Só lembro que no início ele diz algo como “Sou o único que conhece o segredo!”. Mas acho que este detalhe não chega a ser muito importante na trama, já que 2 minutos depois, de volta às suas escavações, o cientista é atacado por um bando de zumbis e o tal segredo nunca é revelado no decorrer da estória . Enfim, seus convidados chegam ao local e sem muita enrolação (a não ser pra mostrar algumas cenas de sexo, o que eu chamo de uma boa enrolação) os zumbis põem-se a perseguir os personagens.

Claramente inspirado em ZOMBIE 2 de Lucio Fulci, o filme acabou recebendo o título ZOMBIE 3 em alguns lugares da Europa. Tirando várias cenas que o Bianchi chupou sem vergonha alguma do filme de Fulci, os dois filmes não possuem qualquer ligação. Inclusive, alguns anos mais tarde, o próprio Fulci deu inicio às filmagens do verdadeiro ZOMBIE 3, mas acabou finalizado pelo Bruno Mattei.

Dois detalhes geniais sobre BURIAL GROUND: primeiro, os zumbis, que possuem as maquiagens mais bizarras e mal feitas que eu já vi em algum filme do gênero. Claro que isso concede um charme muito legal ao filme, principalmente porque Bianchi faz questão de filmar com orgulho os seus zumbis em closes de uma maneira de fazer inveja ao Sergio Leone, acentuando todas as falhas das maquiagens. É bem engraçado. Os zumbis de Bianchi seguem a mesma linha de locomoção das criaturas de George Romero e Lucio Fulci, lentos e fáceis de escapar, mas possuem um nível de inteligência um pouco acima. São capazes de usar ferramentas, subir em lugares difíceis para conseguir “alimento” e em certo momento um zumbi utiliza um prego como se fosse uma arma ninja! Coisa de louco…

Apesar de tudo isso, o segundo detalhe é o que mais chama atenção em termos de bizarrice! E não tem nada a ver com os pobres zumbis. Estamos falando do adolescente do filme. Pra começar, o relacionamento no qual mantém com sua mãe é um tanto estranho, já que não é todo dia que vemos alguém com 14 anos querendo tomar leitinho quente direto do peito da mãe. Depois, o ator que interpreta o papel é Pietro Barcella (creditado aqui como Peter Bark), um sujeito muito estranho, meio anão, na época com seus 25 anos, dando a impressão de que alguém colocou a cabeça de um homem no corpo de um adolescente de 14 anos. Somando a isso a coisa do incesto, temos aí algo tão peculiar quanto os próprios zumbis do filme…

E é por essas e outras que fica impossível não adorar o cinema popular italiano!

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A NOITE DO TERROR CEGO (La Noche del Terror Ciego, 1971), de Amando de Ossorio

Com o novo padrão estético e narrativo dos filmes de zumbis (e por que não, do terror de um modo geral?) definido por George Romero em A NOITE DOS MORTOS VIVOS, o diretor espanhol Amando de Ossorio resolveu deixar sua autêntica contribuição ao subgênero com este A NOITE DO TERROR CEGO, colocando cavaleiros templários como zumbis que saem das tumbas para fazerem suas vítimas…
A mitologia desses zumbis, na qual rendeu uma saga que ainda possui mais três filmes além deste aqui, narra que os tais cavaleiros templários, ainda na idade média, foram condenados por heresia e tiveram seus olhos arrancados, mas por possuírem um conhecimento secreto de magia negra, conseguiram perpetuar seus corpos ao longo do tempo, escondidos nas ruínas onde no passado foram condenados.

Betty (Lone Fleming) e Virginia (Helen Harp) são duas amigas dos tempos de colégio que se reencontram, após muitos anos, na piscina de um hotel. Virgínia está há dias tentando conquistar Roger (César Burner), mas quando este põe os olhos em Betty já percebemos que a coisa vai esquentar neste triangulo de emoções. Mas claro que isso não chega a ser tão explorado pelo diretor, que precisa se concentrar no lance dos zumbis sem olhos.

Então, em uma excursão de trem, quando rapidamente fica claro que as intenções carnais de Roger estão pendendo pro lado de Betty, Virginia tem um ataque de nervos do nível de uma adolescente de 14 anos e salta do trem emburrada. Um pouco antes disso, porém, um flashback mostra o tipo de relação que as duas amigas haviam tido no colégio: aquela em que se colocam as aranhas para brigar, se é que me entendem. Esse simples flashback é uma das cenas mais sofisticadas do filme, com uma atmosfera de sonho, e o som do trem que permanece constante de background… o resultado é bem interessante.

Bom, Virgínia fora do trem, no meio do nada, completamente sozinha, acaba indo parar justamente num lugar onde ninguém conseguiria imaginar! As ruínas dos cavaleiros templários zumbis sem olhos!!! Ainda durante o dia, ela fica apenas andando pra lá e pra cá pelo local sem muito que fazer (e neste momento agradeço por terem inventado o controle remoto), mas a noite, temos a clássica sequência dos mortos vivos saindo de suas tumbas com sede de sangue, cavalgando em câmera lenta (só não me pergunte de onde saíram os cavalos). Ossorio deve ter achado a cena dos zumbis saindo do jazigo tão boa, mas tão boa, que acabou repetindo a mesma cena nos filmes seguintes. Enfim, Virgínia acaba sendo a primeira vítima dos zumbis…

É nesta sequência que podemos contemplar os cavaleiros pela primeira vez, com suas roupas medievais de soldados templários já bem envelhecidas pelo tempo e o crânio sinistro protuberante no lugar da face. A produção de A NOITE DO TERROR CEGO é bem independente, com baixíssimo orçamento, e um dos grandes trunfos do filme é fazer acontecer sabendo evitar os problemas de recursos com bastante criatividade. Outros momentos bacanas que demonstram isso é a cena do necrotério e, em especial, o ataque à casa de moda, com um uso de cores, luzes e espaço, cercado de manequins, que remete a atmosfera de SEI DONNE PER L’ASSASSINO, do mestre Mario Bava.

Com o sucesso deste primeiro filme, Amando de Ossorio se sentiu obrigado a continuar contando a saga dos zumbis sem olhos, dos quais não tive ainda a oportunidade de assistir, mas espero que sejam, no mínimo, uma boa diversão como este aqui.

O ESTRANHO SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS (Non si sevizia un paperino, 1972), de Lucio Fulci

Antes de viajar, mais um textinho de lambuja. Revi O ESTRANHO SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS, um dos maiores filmes do genial Lucio Fulci, o qual é sempre um prazer poder ver e rever grande parte da sua obra. Carrego boas lembranças de seus filmes e este aqui é especial porque acumula algumas das cenas mais memoráveis e impressionantes que o homem já filmou, a começar pela belíssima e mórbida sequência de abertura, o plano nas mãos da brasileira Florinda Bolkan desenterrando o esqueleto de uma criança pequena… muito arrepiante!

No entanto, fica difícil distinguir de fato um gênero para o filme. É um exercício de terror, sem dúvida, com alguns elementos dos gialli, acompanhado de um comentário político. Mas não importa, o que vale no fim das contas é a experiência de ver um gênio em atividade em uma de suas ocasiões mais inspiradas. E Fulci chuta o balde e já subverte na premissa: numa pequena cidade do interior italiano, as crianças é que são alvos de um serial killer. Suspeitos é que não faltam no local para fazer a polícia botar a cuca para funcionar e o diretor trabalhe o suspense, já que os filma como se todos realmente fossem o assassino de crianças.

Uma das suspeitas é Maciara (Florinda Bolkan), uma bruxa que mexe com vodu. Em determinado momento ela vai presa, mas após verificarem sua inocência, ela é solta pela polícia, mas os pais de algumas crianças mortas não acreditam na decisão das autoridades e tomam a atitude medieval de espancá-la até a morte. Embora brutal e muito violenta, a sequência consegue também atingir um tom poético pela maneira como Fulci a realiza, ao som de Ornela Vanoni… a cena belíssima, digna de qualquer antologia do cinema mundial.

Florinda nasceu no Ceará e foi para Itália em 68 onde teve um papel importante no filme de Luchino Visconti OS DEUSES MALDITOS. Atuou em mais de quarenta filmes, mas dizem que em suas entrevistas nunca cita nomes de diretores como Fulci e Elio Petri, com os quais já trabalhou, apenas se vangloria por ter trabalhado com Visconti e Vittorio de Sica, que realmente é uma honra, mas é curioso pois Visconti não gostou de trabalhar com ela e disse que um dos piores erros de sua vida foi tê-la escalado num papel importante em seu filme. Enfim, aqui ela está sensacional e a cena na delegacia comprova o seu talento e demonstra porque essa brasileira conseguiu tanto trabalho no cinema italiano.

Outra suspeita na trama é Patrizia, interpretada pela musa Barbara Bouchet. Fulci a apresenta na cena onde o garotinho leva o suco pra ela e a encontra estirada, bem à vontade, da maneira em que ela veio ao mundo. A personagem vive no local a mando de seu pai, pelo seu envolvimento num escândalo com drogas e o cenário de sua casa parece um universo paralelo, com a decoração psicodélica setentista em contraste com o estilo rústico do vilarejo. E como se já não tivéssemos ótimas atrizes o suficiente, Fulci ainda coloca a grega Irene Papas vivendo a mãe do padre local.

Mas o assassino mesmo não chega a ser uma surpresa e lá pelas tantas já dá pra ter uma noção, principalmente levando em consideração à opinião do diretor sobre religião e o catolicismo. Não foi a toa que Fulci foi excomungado por este filme. O legal é que O ESTRANHO SEGREDO não assume um ponto de vista definido em momento algum entre os personagens. Acompanhamos as crianças, o jornalista (Tomas Milian), mas principalmente a polícia (na verdade, vários oficiais). Na maior parte do tempo, a narrativa se resume em investigações, interrogatórios com os suspeitos, etc… Mas o filme se beneficia muito do talento de Fulci mesmo nessas sequências, e o final é mais uma prova de sua genialidade, com o assassino despencando e se arrebentando nas pedras do precipício. Poético e brutal, O ESTRANHO SEGREDO é um grande exemplar do cinema italiano que precisa ser visto pelas novas gerações (como seu fosse muito velho…).