FIVE DEADLY VENOMS, aka Five Venoms (Wu Du, 1978), de Chang Cheh

Ainda não sou um expert nos filmes de artes marciais como alguns companheiros, mas aos poucos vou riscando alguns títulos da minha longa lista passando a realmente conhecer algumas pérolas do gênero, como FIVE DEADLY VENOMS, por exemplo, um grande filme de kung fu cujo destaque se deve ao bom roteiro que justifica a maioria das lutas absurdas que ocorrem durante a projeção e cria com enorme cuidado personagens interessantes com muito mais espessura que o habitual neste tipo de filme. Além, é claro, das cenas de luta muito bem realizadas.

Produzido pelos irmãos Shaw, o filme inicia com um velho mestre de artes marciais, já nas últimas, pedindo para que seu último discípulo tente localizar seus cinco ex-alunos, cada um dos quais ele ensinou um estilo único e especial de kung fu: o estilo da serpente, da centopéia, escorpião, lagarto e do sapo. Seu aluno atual conhece todos os cinco estilos, mas não domina nenhum, mesmo assim a sua missão é justamente descobrir se há entre estes ex-alunos algum que esteja usando suas técnicas para o mal e eliminá-lo. Só que a coisa é ainda mais complicada do que parece. Durante o período de treinamento, todos os alunos usavam máscaras. Nem o mestre, nem eles próprios, sabem a identidade um do outro.

À medida que avança, o filme desenvolve um intrincado quebra cabeça com os personagens e o lance das identidades, porém existe um questão que pode não agradar a alguns… mas não foi o meu caso. FIVE DEADLY VENOMS possui poucas cenas de ação devido aos esforços de trabalhar a estória com maior intensidade, mas quando acontece, somos apresentados a sequências de primeiríssima qualidade! A mistura do kung fu com uma discreta porção de wuxia (estilo de luta fantasioso, onde os sujeitos voam e etc) permite algumas cenas de alta potência, principalmente na batalha final onde quase todos os personagens estão presentes demonstrando suas técnicas peculiares. A direção de Chang Cheh é magistral neste sentido, o homem realmente conhece a arte de filmar o corpo em movimento, sabe dar ritmo, enquadrar, usar o slow motion, um verdadeiro mestre!

Filme realmente essencial este aqui. Recomendado a quem deseja experimentar do melhor do gênero e não sabe por onde começar.

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GIALLO (2009)

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Se fosse realizado nos anos 70, GIALLO não teria nada de especial, seria apenas um bom suspense policial em meio às tantas obras-primas que o cinema italiano apresentou no período. Mas no contexto atual, o novo filme de Dario Argento é tudo aquilo que se espera da discreta proposta de retornar às origens de um gênero estuprado por jovens cineastas – americanos, na grande maioria – e que atualmente vem tentando se revitalizar com alguns bons exemplos aqui e ali. O filme continua não tendo muito de original, mas Argento consegue provar que é possível fazer um excelente trabalho, à moda antiga, sem a frescurada de hoje, montagens espertinhas ou efeitos especiais em CGI (como o próprio Argento havia errado a mão em A MÃE DAS LÁGRIMAS).

Apesar do nome, GIALLO não possui os elementos necessários para fazer parte do subgênero que o diretor ajudou a consolidar na Itália nos anos 70 e 80. E qualquer um com o mínimo de desconfiança sabe que é praticamente impossível fazer um legítimo giallo nos dias de hoje. Mas nem era essa a pretensão de Argento. Ele simplesmente dirige uma trama policial onde temos Adrien Brody encarnando um detetive a procura de um serial killer que sequestra belas mulheres para desforrar seus traumas em cima delas. O “amarelo” do título (que em italiano é giallo), se deve a uma peculiaridade do tal bandido. No elenco, ainda temos Emmanuelle Seigner vivendo a irmã de uma das vítimas e que resolve se meter no caso…

O filme serve também para provar que Argento permanece como um dos grandes nomes do horror e um artista único na condução e no controle de todos os elementos que tem em mãos, como a estética das cores, a movimentação da câmera desvencilhada, a mise en scène, a violência gráfica, com direito à baldes de sangue, como nos velhos tempos de TENEBRE e PROFONDO ROSSO. O conteúdo pode ser simples (embora o roteiro tenha boas sacadas com o passado do personagem de Brody), mas na forma Argento continua genial. Cada detalhe de cena, planos memoráveis (como a do final quando Brody se afasta do local do crime), a fotografia, tudo é valorizado ao máximo para trazer um novo frescor ao gênero e colocar o nome de Dario Argento de volta ao panteão, de onde nunca deveria ter saído. Uma pena que a distribuidora daqui fez o favor de nos poupar de ir ao cinema assistir a esta belíssima obra na tela grande.

FUGA ALUCINADA (Dirty Mary, Crazy Larry, 1974)

Poster - Dirty Mary Crazy Larry - Studdblog.blogspot

Cinco anos após consagrar-se como um dos ícones da contracultura nos anos 60, em filmes como SEM DESTINO e WILD ANGELS, o filho de Henry Fonda, Peter Fonda, retorna às estradas no car chase movie FUGA ALUCINADA. 

Fonda é Larry, um piloto de corrida que sonha disputar as provas da Nascar, mas não tem dinheiro necessário para isso. Contando com a ajuda de seu mecânico, Deke (Adam Roarke), o sujeito furta o cofre de um supermercado de uma pequena cidade e parte em retirada com um Chevy Caprice, tendo em mente que acabou de realizar o roubo perfeito. Mas os planos da dupla começam a escorregar quando Mary, uma garota que Larry deu uma bimbada na noite anterior ao assalto, insiste em fugir com eles.

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O que se segue a partir daí é uma jornada em alta velocidade pelas longas rodovias americanas em perseguições de carro contra a polícia da região. Mesmo quando não estão em fuga iminente, crazy Larry faz jus ao seu nome no título original, realizando manobras desnecessariamente perigosas, como passar entre dois caminhões num espaço apertado ou saltar entre o vão de uma ponte elevadiça. Durante o trajeto, Mary e Larry discutem como se fossem um velho casal, enquanto o pobre Deke tem de ouvir tudo no banco de trás.

Depois de trocar o Chevy por um Dodge Charger, a coisa esquenta ainda mais. Larry sempre afunda o pé no acelerador, seja com vários carros de polícia na sua cola ou apenas um policial, que turbinou seu carro para ir atrás do trio. E até mesmo ao se livrar de um helicóptero Larry comprova ser um grande piloto. Claro que o final niilista típico dos anos 70 os espera num belíssimo e pessimista desfecho.

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Peter Fonda e Susan George têm bastante química em cena, enquanto Roarke trabalha muito bem seu papel. Mas meu destaque vai para o grande Vic Morrow, que interpreta o policial que comanda a tentativa de captura dos três fugitivos. Morrow está excelente como sempre, encarnando seu típico personagem durão disposto a fazer de tudo para realizar seu trabalho.

As sequências de perseguições em alta velocidade são rápidas e bem realistas. A direção de John Hough (A CASA DA NOITE ETERNA) é muito boa nesse sentido, escolhendo com cautela onde colocar sua câmera. Quentin Tarantino é um dos apreciadores do filme e não esqueceu de homenagear FUGA ALUCINADA em seu DEATH PROOF, trabalho que reverencia este tipo de produção, como por exemplo VANISHING POINT e GONE IN 60 SECONDS… FUGA ALUCINADA não fica abaixo de nenhum desses.

ALGUÉM ATRÁS DA PORTA (Someone Behind the Door, 1971)

Assisti a vários filmes durante o feriadão (o meu feriado foi mais prolongado, começou na quinta passada e só hoje voltei a trabalhar), mas dentre os vistos, o que mais me impressionou foi este suspense psicológico, que eu achei num sebo em BH por 10 mangos, no qual temos Charles Bronson dividindo a tela com Anthony Perkins e Jill Ireland (na época, esposa do Bronson). Na verdade, o protagonista de ALGUÉM ATRÁS DA PORTA é Perkins, que interpreta um médico que resolve levar um paciente amnésico (Bronson) para sua casa, isolada nas montanhas de algum lugar litorâneo da Inglaterra, para lhe fazer uma terapia mais intensiva.

Mas o andamento da estória nunca deixa muito claro quais são as verdadeiras intenções do médico, inclusive, a principio, eu cheguei a pensar que o personagem de Perkins fosse homossexual (e era, na vida real), mas logo o próprio enredo descarta essa possibilidade mostrando a esposa do sujeito (Ireland) que se prepara para sair em uma viagem habitual. Então os planos são outros, e a coisa é intrigante, isso eu garanto. Mas não digo mais nada para não estragar a surpresa.

O diretor húngaro Nicolas Gessner mantém um suspense legal até determinado ponto, quando finalmente a motivação do protagonista começa a clarear-se. Nada que possua uma originalidade estupenda no objetivo do médico, e que já foi abordada milhares de vezes no cinema sob a batuta da busca do “crime perfeito”, mas compensa tranquilamente toda a ambiguidade da trama, principalmente quando temos dois grandes atores contracenando com uma firmeza interessante.

Perkins está estranho e ótimo como sempre, mas a grande maioria vai se surpreender é com a atuação do velho Bronson, em plena fase européia (o filme é uma produção francesa), numa performance de verdade, convencendo como um homem que sofre de amnésia. É um filme perfeito para calar a boca de qualquer um que só viu as tralhas da Cannon que o Bronson fez nos anos 80 e pensa que ele só fez aquele tipo de filme / personagem (e que eu também adoro, diga-se de passagem, por pior que sejam).

Outros filmes que vi no feriado incluem A ILHA DOS HOMENS PEIXES, do Sergio Martino; RATOS: A NOITE DO TERROR, do Bruno Mattei; INFERNO CARNAL, do Mojica e uma revisão de THE TOXIC AVENGER, do Lloyd Kauffman.