O GOSTO DA VINGANÇA (A Bittersweet Life, aka Dalkomhan insaeng, 2005), de Ji-woon Kim

Revi O GOSTO DA VINGANÇA ontem. Sempre gostei do filme, mas não lembrava de muitas coisas, por exemplo de como Ji-woon Kim faz um trabalho poético muito convincente que mistura neo noir com filme de ação em um profundo estudo de personagem. Ah, mas eu me lembrava da pancadaria e da violência que rola solta, pontuando a narrativa com ótimas sequências. Não sei porque acabei não escrevendo sobre o filme quando vi na época. Não posso perder esta oportunidade agora. E se você ainda não viu, não sei o que está esperando…

Ji-woon Kim, que dirigiu o ótimo filme de terror A TALE OF TWO SISTERS (aqui no Brasil recebeu o título de MEDO) e THE GOOD, THE BAD AND THE WEIRD (que eu não sei se passou aqui no Brasil, mas é bem legal), também roteiriza O GOSTO DA VINGANÇA, um filmaço cuja trama é bastante simples, mas transcende para questões humanas muito interessantes que fogem do senso comum do tema de vingança. O inicio dá o tom sublime que permeia ao longo da estória, mostrando em preto e branco as folhas de uma árvore se movendo com o vento. Aos poucos, a imagem ganha cor e uma voz começa a narrar uma parábola sobre um discípulo que pergunta ao mestre se são os galhos que se movem por si só ou se o vento soprando é traz o movimento, o mestre lhe responde através de uma esfinge curiosa dizendo que o que se move na verdade é o seu coração e sua mente.

Acho que a grande maioria ainda se lembra, mas O GOSTO DA VINGANÇA trata de Sun-Woo, um sujeito sério e de passado misterioso que tem servido o seu patrão, o presidente Kang, fielmente nos últimos sete anos, tanto como gerente de hotel quanto realizando o serviço sujo da organização mafiosa da qual fazem parte. Seu chefe mantém um caso com uma jovem garota e suspeita que ela esteja lhe traindo. Prestes a fazer uma viagem, Kang pede a Sun-woo que vigie a moça e tente descobrir se, de fato, estão lhe crescendo galhos na cabeça. Caso se comprove esta situação, Sun-woo tem de matar o casal de pombinhos. O problema se inicia quando o protagonista se apaixona pela tal, desencadeando um erro crucial, que faz Sun-woo realizar uma verdadeira descida ao inferno.

De um lado temos um dos chefes da máfia local, com um exército de guarda costas o protegendo, do outro, o solitário Sun-woo que acabou espancado, torturado, humilhado e enterrado vivo pelo erro que cometeu e agora deseja se vingar.

A ação do filme é visceral! A sequencia em que Sun-woo escapa dos capangas que o enterraram é absurda, extrema, violenta e realista na mesma medida que é inverossímil. Puta direção do Ji-woon Kim, que vai do mais puro enquadramento simétrico, poético e cinematográfico à brutalidade da câmera nervosa da ação frenética. O filme em toda sua totalidade é muito sofisticado na direção. Cada plano possui seu cuidado estético e a narrativa é tratada com a paciência necessária, sem as afetações da grande maioria dos filmes atuais de ação que pensam que é requisito obrigatório contar uma estória em ritmo de vídeoclip. Ji-woon Kim tem um estilo visual próprio muito interessante, mas em alguns momento de O SABOR DA VINGANÇA eu reparei uma certa semelhança com o cinema de Michael Mann… ou estou ficando doido?

Mas é difícil não deixar de destacar a performance arrebatadora de Byung-hun Lee no papel de Sun-woo, que não só desempenha cenas de lutas como um autêntico ator de filmes de ação como tem uma presença muito interessante em cena, com rosto inexpressivo, bem ao estilo do Alain Delon de LE SAMOURAI (bem apontado pelo Osvaldo Neto em sua resenha há uns dois anos atrás).

Às vezes o prazer do cinema não está em assistir um grande número de filmes, mas ter a capacidade de rever os filmes no momento certo. O GOSTO DA VINGANÇA cresceu muito com esta revisão e sem dúvida alguma, é um dos meus filmes de ação preferidos desta década.

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10 respostas para O GOSTO DA VINGANÇA (A Bittersweet Life, aka Dalkomhan insaeng, 2005), de Ji-woon Kim

  1. buchinsky disse:

    Parece ter passado batido, mas o Bong Joon-Ho dirigiu um dos segmentos de “Tokio!”. Vale a pena correr atrás desse também.

  2. osvaldo neto disse:

    Obrigado pela menção. 🙂

  3. The Foul King parece ser muito divertido. É sobre luta-livre e é com o ator Kang-ho Song.

  4. Gostei muito de “Medo”, mas o filme tem uma surpresa final que não sei se resiste a uma revisão. Escrevi sobre ele um tempo atrás.
    Preciso ver esses outros dele, lançados em DVD aqui.

    Abraço!

  5. Davi OP disse:

    O Bong Joon-Ho é um diretor fantástico, mesmo. Estou com “Barking Dogs Never Bite” para assistir aqui. Quero ver “The Quiet Family” e “Foul King”. Aproveitar enquanto dá pra sacar a filmografia completa dos caras, senão a gente fica pra trás!

  6. Um filmaço mesmo, já resenhei ele há uns dois anos atrás. Preciso rever.
    Do diretor Ji-woon kim falta assistir The Quiet Family (Takashi Miike fez remake dele, sob o nome “The Happiness of the Katakuris”) e The Foul King. Tenho eles dois aqui comigo, não sei porque ainda não os vi.
    Vale destacar também do Joon-ho Bong o filme Barking Dogs never bite, humor negro de primeira.
    Sem contar a própria trilogia da vingança do Chan-wook Park e Zona de Risco, também do mesmo diretor, que são filmaços obrigatórios.
    O cinema coreano é muito rico!

  7. herax disse:

    O Medo é que eu não vi ainda, mas sempre ouvi falar muito bem, acho que vou gostar. Agora um diretor que ainda não vacilou é o Bong Joon-Ho. O Hospedeiro e Memorias de um Assassino são muito bons. No aguardo do Mother.

  8. Valeu Davi, pela informação. E acho que tanto Exilados quanto este aqui devem entrar na minha lista de melhores filmes da década.

    Herax, The Good, The Bad and the Weird é legal, mas realmente não chega ao nível deste aqui.

  9. herax disse:

    Eu adoro esse filme, é absolutamente do caralho! Pena que o The Good, The Bad and the Weird seja bem mais fraco.

  10. Davi OP disse:

    Talvez, ao lado de “Exilados” seja meu filme favorito da década. Coisa difícil de pesar numa década tão boa para o cinema, apesar de 2009 estar fechando mal a mesma.

    “The Good, The Bad and the Weird” foi lançado como “Os Invencíveis”, no Brasil, para questão de informação.

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