TORNADO (1983)

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Últimos dias da Guerra do Vietnã. Um capitão americano sem coração (Tony Marsina) envia seus soldados do grupo de elite “Boinas Verdes” em missões de alto risco além das linhas inimigas. O sargento Maggio (Giancarlo Prete, aka Timothy Brent) não concorda muito com essas incumbências suicidas e sem sentido. Logo no inicio de TORNADO, durante uma destas missões, um soldado se fere e Maggio retorna para buscá-lo. O capitão ordena aos helicópteros que partam imediatamente, sem esperar o sargento que carrega bravamente seu amigo ferido.

Deixado para trás, Maggio utiliza-se de todas as suas técnicas especiais de combate e sobrevivência na selva para conseguir retornar ao posto americano. E consegue, levando o soldado – e a si próprio – com vida. Isso tudo em apenas 20 minutos de filme, dando uma verdadeira noção do que esperar de TORNADO.

Depois de uma tragédia, finalmente Maggio decide bater de frente com o capitão (e bater de frente significa um murro bem dado na cara do seu superior). Maggio é preso e escoltado para a corte marcial, mas consegue escapar e agora se encontra em pleno território inimigo tentando chegar à zona neutra, mas não sem antes enfrentar os vietcongs e os próprios soldados americanos! Não é de lascar uma trama como essa?

O script de TORNADO é cortesia de Tito Capri e Gianfranco Couyoumdjian (cujos currículos são repletos de pérolas do cinema popular de gênero), apesar da falta de originalidade, conseguem desenrolar um roteiro que bebe da fonte (leia-se: copia na cara dura) de vários filmes de ação e guerra que foram grandes sucessos e influenciaram dezenas de tralhas como esta aqui. O FRANCO ATIRADOR, APOCALYPSE NOW e RAMBO são os principais títulos que vêm em mente enquanto se assiste a TORNADO.

Algo absolutamente normal. Na década de 80, o cinema popular italiano entrava em decadência na mesma intensidade que a picaretagem dos produtores, roteiristas e diretores carcamanos aumentava. Margheriti, que era prolífico, foi um dos que mais se aproveitaram de reciclar boas idéias, retiradas de produções de sucesso, para transformá-las em filmes de baixo orçamento filmados onde Judas perdeu as botas. Isso, claro, muitos anos depois de ser respeitado como um dos grandes nomes do horror gótico italiano (embora tenha passado por praticamente todos os gêneros do cinema popular de seu país).

Embora TORNADO seja assumidamente barato e apresente os defeitos que este tipo de produção possui, o filme consegue passar a sua mensagem anti-bélica com muita clareza e autenticidade, ao invés de simplesmente explorar a violência da guerra sem qualquer tipo de reflexão. E isso fica evidente na presença do repórter vivido por Luciano Pigozzi, que tenta a qualquer custo investigar e denunciar os abusos cometidos pelo capitão.

TORNADO fecha uma espécie de trilogia da guerra do Vietnã que Margheriti realizou no inicio dos anos 80, composta também por THE LAST HUNTER e TIGER JOE, todos rodados nas Filipinas, local que serviu de cenário para centenas de produções italianas naquela época. O trabalho de direção de Margheriti aqui é bem típico ao específico cinema que estava fazendo, rodado às pressas, com orçamento risível, tentando ao máximo usar a criatividade (algo que nem sempre consegue), aproveitando atores, locações, objetos cenográficos e até mesmo sequências inteiras utilizadas em outros filmes. Várias cenas de ação que aparecem em TORNADO foram, inicialmente, filmadas para THE LAST HUNTER, mas com uma boa edição e muita cara de pau, isso se torna apenas mais um detalhe curioso e um charme a mais para os fãs de tosqueiras divertidas como esta aqui.

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ALONE IN THE DARK (1982)

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Um divertido filme de terror do glorioso inicio dos anos 80, dirigido por Jack Sholder, e que nos presenteia pela reunião de três grandes figuras do cinema de gênero: Donald Pleasence, Martin Landau e a “cereja do bolo”, Jack Palance. Este é o pequeno clássico ALONE IN THE DARK, chamado no Brasil de NOITE DE PÂNICO.

Pleasence interpreta o Dr. Leo Bain, diretor de um hospício onde se encontram, além de pacientes comuns, figuras extremamente perigosas sob tratamento psiquiátrico. Dois deles são vividos Landau e Palance. O primeiro é um ex-padre que colocou fogo em sua própria igreja e o outro é um ex-prisioneiro de guerra e que acabou se tornando o líder de grupo psicopata do tal manicômio. O que inclui ainda mais dois malucos para completar o time: um sujeito extremamente obeso e um perigoso assassino conhecido como Bleeder, já que seu nariz sangra toda vez que comete um assassinato.

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A trama de ALONE IN THE DARK tem seu inicio quando o psiquiatra Daniel Potter (Dwight Schultz) é contratado pelo Dr. Bain (que é tão louco quanto seus internos) para substituir o Dr. Harry Merton, antigo responsável pelos pacientes mais perigosos acima citados e que foi transferido para outra clínica. Mas vocês sabem como são os loucos, não é mesmo? Quando colocam alguma ideia na cabeça é difícil tirar. Sendo assim, o personagem de Palance comenta que o Dr. Potter, na verdade, assassinou o Dr. Merton para tomar o seu lugar, então o grupo de perigosos desequilibrados decidem bolar um plano para matar seu novo psiquiatra.

No “campus” do hospício, os pacientes podem vagar tranquilamente, inclusive os quatro psicopatas desvairados, embora sejam muito bem vigiados. À noite, a única circunstância que os mantém presos é o sistema eletrônico de segurança que depende de energia. Para nossa sorte, acontece um inusitado apagão que coloca a pequena cidade do filme num verdadeiro caos (com direito à invasão de lojas e crimes em massa) e os quatro loucos varridos aproveitam para escapar e ir atrás do Dr. e toda sua família.

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A trama é bem simples, como podem perceber, mas são vários os pontos que se destacam para uma boa degustação. Uma delas consiste na direção de Jack Sholder, que está longe de ser perfeita, mas passa a impressão de que seja o trabalho de um veterano que dirigiu vários exploitations de terror nos anos setenta, com muita bagagem nas costas, etc. Só que ALONE IN THE DARK é o primeiro filme do cara (que faria mais tarde alguns filmes legais do gênero, como A HORA DO PESADELO – PARTE 2 e THE HIDDEN), apresentando ótimo domínio de cena e na criação de atmosfera de terror. Além de saber como aproveitar a presença quase mística de alguns do atores envolvidos sem mostrá-los demais.

Jack Palance, por exemplo, aparece em pouquíssimas cenas, mas só de saber que é o sujeito que está cercando a casa do Dr. Potter com toda sua família dentro, no meio da noite, já é suficiente para impressionar, mesmo que a câmera do diretor mostre, quase sempre, dentro da casa onde estão as prováveis vítimas dos lunáticos. É o caso de uma forte presença do ator que vai além do “estar” em cena ou não. A mesma coisa acontece com o Martin Landau (que aparece um pouquinho mais).

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Palance inclusive se recusou a filmar uma sequencia em que seria visto matando um motorista antes de roubar-lhe o carro. Ele disse que não era necessário expor tanto o personagem desta maneira para mostrar ao publico o quanto ele era perigoso. E estava totalmente certo. Seu personagem é de longe o mais sombrio, assustador e ameaçador e sem precisar de muito esforço. Sem dúvida alguma, é o que o filme te de melhor. Ainda conta com efeitos especiais do mestre Tom Savini e várias situações antológicas, como o sonho surrealista do personagem de Martin Landau ou o final com o Palance entrando no Pub punk.

Outra coisa legal é o fato do personagem Bleeder nunca mostrar seu rosto. Em determinado momento, ele utiliza uma mascara de hockey que lembra a mesma que outro famoso assassino oitentista viria a usar algum tempo depois, mas que surgiu na mesma época deste aqui… seria alguma coincidência?

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Não importa, o que vale mesmo é a diversão, e é o que ALONE IN THE DARK concede com garantia. Dificilmente vou ver um filme sobre louco(s) psicopata(s) sem antes pensar nesta belezinha.

SORORITY HOUSE MASSACRE II (1990), de Jim Wynorski

Não se preocupem com aquele “II” do título, apenas um pequeno detalhe que não vai fazer diferença alguma na hora de apreciar esta tosqueira em forma de slasher, dirigido por Jim Wynorski, por dois motivos básicos. Primeiro porque é possível acompanhar os eventos tranquilamente, independente dos acontecimentos do filme original (que na verdade eu não vi, trata-se de SORORITY HOUSE MASSACRE, claro, de 1986, dirigido por Carol Frank). O outro motivo é que estes eventos não passam de pretextos para vários assassinatos, como um bom slasher tem de ser, e uma generosa dose de mulheres nuas. Ou seja, a diversão é garantida.

A trama de SORORITY HOUSE MASSACRE II inicia quando um grupo de cinco garotas chega a uma casa recém comprada onde pretendem formar uma sociedade de não sei o que exatamente, mas tanto faz. A casa é a mesma em que há cinco anos atrás ocorreram os assassinatos do primeiro filme (e é esta a única ligação direta com o original). Um vizinho, o estranho Orville, chega ao local e narra os fatos macabros que aconteceram no passado naquela casa às garotas, fala como o assassino morreu (tudo mostrado num flashback com cenas do primeiro filme) e deixa a chave do sótão com elas.

A casa se encontra sem energia, telefone, móveis, tudo será resolvido no dia seguinte e, além disso, uma tempestade se aproxima. Mesmo assim, elas decidem dormir no local e para passar o tempo, nada melhor do que todas trocarem de roupas em frente à câmera, colocarem seus baby dolls e utilizarem aquele tabuleiro com as letras do alfabeto que serve para invocar espíritos e essas coisas do cão! Claro que com isso não se brinca, principalmente num filme terror, pior ainda se tiverem a idéia genial de invocar justamente o assassino de cinco anos atrás.

A partir daí, coisas estranhas começam a acontecer, e não demora muito para os assassinatos misteriosos iniciarem. Existe ainda uma trama paralela onde um casal de policiais investiga uma possível ligação do vizinho bizarro com o assassino, mas não passa de baboseiras do roteiro para encher lingüiça, porque essa investigação não faz sentido algum, a não ser tornar o filme um pouco mais longo. O filme tem uma duração total de 1 hora e pouco, sem essas seqüências seria um média metragem…

Jim Wynorski, juntamente com o Fred Olen Ray, é praticamente um Jess Franco ou Joe D’Amato da sua geração. Passeia pelos diversos gêneros com facilidade realizando centenas de filmes de baixo orçamento e bastante apelativos. Teve como mentor o pai do cinema B americano, Roger Corman, que produziu vários filmes no inicio de sua carreira (este aqui, por exemplo). Mas assim como Franco e D’Amato, a qualidade técnica de Wynorski como diretor em SORORITY HOUSE MASSACRE II é totalmente desleixada. Erros básicos de continuidade, microfones aparecendo nos cantos do quadro, um espetáculo de falhas que fazem a alegria dos fãs deste tipo de material e dá um charme a mais na obra.

Mas o mais legal do filme é o personagem Orville, interpretado pelo ator Peter Spellos, uma figura insólita que não morre de forma alguma. Pancadas na cabeça, facadas, tiros de escopeta, estrangulamento, o sujeito sempre se levanta. E depois de tudo isso, apesar da aparência bizarra, começamos a nos afeiçoar pelo sujeito. Já no plano feminino, não adianta analisar atuações, seria perda de tempo. Elas não estão ali para atuar, mas simplesmente exibir os atributos físicos para alegria dos cuecas de plantão e ficarem desfilando com o mínimo de roupa durante o filme inteiro.

E aqui vai o meu agradecimento ao grande Osvaldo Neto, do blog Vá e Veja (esperamos ansiosamente pelo retorno) que me forneceu essa maravilha. Já faz um tempinho que ele me enviou, mas só agora parei para assistir. Se eu soubesse que teria momentos tão divertidos, teria visto antes.

SOYLENT GREEN (1973), de Richard Fleischer

Ah! Os bons tempos em que a ficção científica era tratada no cinema de forma simples, criativa, reflexiva… pena que eu não era nem nascido na época, ou era muito novo já nos anos 80, mas tudo bem. Boa vontade para resgatar estes filmes é o que não falta.

No fim dos anos 60 e inicio dos 70 o cinemão americano ainda ia muito além do que uma simples diversão de fim de semana. Nesta mesma época as produções Sci Fi começaram a apostar com mais intensidade na vertente dos futuros sombrios, pessimistas e apocalípticos pós-nuclear com fortes mensagens políticas/sociais referente às possíveis conseqüências da Guerra Fria. Filmes como PLANETA DOS MACACOS e THE OMEGA MAN são bons exemplos que ilustram a maneira de recriar sem frescura estes universos. SOYLENT GREEN também entra na dança. E Todos que citei foram estrelados por Charlton Heston.
Após interpretar Moisés em OS 10 MANDAMENTOS, ganhar o Oscar por BEN HUR, interpretar o pintor renascentista Michelangelo em AGONIA E EXTASE e trabalhar com grandes diretores nos anos 60 como Sam Peckinpah, Anthony Man e Nicholas Ray, Charlton Heston decidiu mudar um pouco o tom de sua carreira, tornando, nos anos 70, um autêntico action man em filmes de ação, western, ficção científica e até em uma das superproduções que iniciaram o filão “filme catástrofe”, TERREMOTO. Mas principalmente as produções mais modestas deram ao sujeito uma brecha para que explorasse personagens curiosos e estranhos, como o Thorn de SOYLENT GREEN.

Baseado no romance Make Room! Make Room! de Harry Harrison, o filme transcorre no ano de 2022, em Nova York, onde 40 milhões de pessoas vivem abarrotadas pelas ruas como animais. Para piorar, o aquecimento global já atinge proporções absurdas e a escassez de alimentos e objetos comuns do dia a dia permeia sobre a população; o único alimento disponível é provido pela corporação Soylent, que distribui tabletinhos com cores e sabores diferentes. Mas o que faz mais sucesso com a moçada é o Soylent Verde, com seu sabor indefinido, mas com um valor nutritivo suficiente para a sobrevivência desta raça que conhecemos como humanos.
O problema é que até mesmo os produtos Soylent estão começando a faltar para a população, e estes, insatisfeitos, iniciam frequentes motins contra o sistema a cada distribuição mal feita. Em uma dessas sequências, é mostrado como a polícia resolve este pequeno probleminha habitual. Basta alguns caminhões com carregadores de areia de trator acoplados à frente para retirar as pessoas da multidão enfurecida como se fossem, realmente, grãos de areia. Sensacional!
E onde o Charlton Heston entra nessa estória toda? Bom, a trama de SOYLENT GREEN é estruturada como um filme policial, com direito a investigações e etc, apenas enquadrada neste contexto futurista. Thorn é um oficial da lei que, com a ajuda de seu velho amigo Sol (Edward G. Robinson em seu ultimo papel no cinema) com quem divide o apartamento, tenta resolver o caso do brutal assassinato de um alto executivo da multinacional Soylent, mas a cada descoberta, o sujeito se depara com um segredo terrível envolvendo a fórmula de fabricação do Soylent Verde… qual será o segredo da receita? Eu não vou contar, mas depois que eu descobri, perdi o apetite…
Umas dos melhores detalhes do filme é a composição de Thorn. Ele é praticamente um policial meio depravado pelas circunstancias da qual o mundo se encontra. Quando entra na casa do milionário assassinado, no local do crime, Thorn começa a ver objetos simples que nunca havia visto antes – e aproveita para roubá-los e levar para o seu amigo Sol (que chora ao ver alguns itens que imaginava nunca ver novamente) – como sabonete, whisky, um pedaço de bife, extremamente raro, entre outras coisas. É preciso ver a expressão de prazer de Heston quando seu personagem lava o rosto numa torneira de água corrente e quentinha. Algo praticamente impossível de se fazer em condições cotidianas. São vários os detalhes que ajudam a compor o personagem e definem o futuro apresentado.
Além de Heston e Robinson, temos no elenco o veterano Joseph Cotten em uma pequena participação como o milionário assassinado e Chuck Connors como seu guarda costa e uma pedra no sapato de Thorn. Mas Robinson, bastante velhinho e ciente que a morte se aproximava (morreu pouco tempo depois que as filmagens foram finalizadas), é quem rouba o filme. A cena onde ele vai para “A Casa”, uma espécie de clínica onde as pessoas desfrutam de alguns minutos de paz e logo depois recebem uma morte boa e tranqüila é belíssima e impossível não se emocionar. Uma despedida à altura do grande trabalho que Robinson prestou ao cinema como ator.
A direção é de Richard Fleischer, legítimo autor do cinema de gênero americano e não um empregado de estúdio como muitos o subestimam, infelizmente. SOYLENT GREEN é um dos seus maiores exercícios de criatividade. Com poucos elementos e a decoração retrô dos anos setenta, deu uma visão de futuro apocalíptico muito mais convincente que a maioria dos filmes atuais cujos executivos dos estúdios preferem gastar rios de dinheiro para criar universos artificiais em computação gráfica (claro que naquela época não existia CGI, então os realizadores tinham que botar a cuca pra funcionar mesmo).

E para deixar a coisa ainda mais interessante, porque eu não sou de ferro, Fleischer arruma uma forma de relacionar toda o pensamento sobre o futuro da humanidade com boas doses de cenas de ação ao estilo seco e sem firulas da época.
Mas quanto a “mensagem” geral e profundamente reflexiva de SOYLENT GREEN sobre este futuro negro que o filme apresenta, eu parei para pensar e interpretar todos os elementos e acabei chegando na seguinte conclusão (e estou aberto a discussão): contanto que eu seja um dos milionários que come filé mignon em uma cobertura de luxo, a humanidade pode seguir comendo seus tabletinhos tranquilamente. Caso contrário, a vida seria uma merda!

BLOOD FOR DRACULA (Dracula cerca sangue di vergine… e morì di sete!!!, 1974), de Paul Morrissey

Sem muito tempo para escrever, dei uma atualizada neste meu texto antigo, publicado em outro blog que eu tinha. Trata-se do meu filme de vampiros favoritos…

O cinema de Andy Warhol

Na verdade, o Warhol apenas produziu. Acho que título do texto deveria ser “O cinema de Paul Morrissey”, que foi o roteirista e diretor do dito cujo aqui. Mas com certeza o nome do famoso artista plástico chama mais a atenção. Warhol e Morrissey fizeram outras parcerias, incluindo FLESH FOR FRANKENSTEIN, uma releitura bizarra do clássico de Mary Shelley. BLOOD FOR DRACULA também é uma variação atípica, mas da criação de Bram Stoker. Apresenta um Drácula que sai durante o dia, embora seja um tanto frágil à luz; não tem problema em pegar ou ver cruzes, mas não gosta delas; o seu problema com alho consiste em come-los apenas; e o único sangue que bebe é de moças virgens.

O filme inicia na Romênia dos anos 30 com Udo Kier, ainda novo, vivendo um Conde Drácula exótico, moribundo, fraco e necessitado de sangue já que não consegue arranjar mais virgens para chupar o cangote. É, então, convencido pelo seu criado, Anton, o estranho Arno Juerging, para ir à Itália, país religioso que preza pelo cabaço de suas filhas, onde, teoricamente, seria mais fácil de arranjar o “alimento”, diferente da Romênia onde a virgindade é algo escasso.

Chegando ao país da bota, é recebido pelo Marquês di Fiore e sua esposa, que possuem quatro filhas. O Marquês é interpretado pelo grande diretor italiano Vittorio de Sica e seu personagem, falido financeiramente, aproveita para beneficiar-se das intenções do Conde que anuncia o desejo de se casar com uma de suas filhas. O grande problema é o criado da família (Joe Dallesandro), um sujeito de pensamentos socialistas que acredita na queda da classe dominadora enquanto pratica o coito com duas das filhas do Marquês… e ao mesmo tempo.

Morrissey subverte a história para um estudo visual-erótico-sanguinário e até político (na visão do criado). O conflito entre ele e o conde é símbolo de lutas entre classes, sendo que os dois, dentro do contexto de cada um, têm o mesmo objetivo de ter nos braços as filhas do Marquês. Uma dialética ambiciosa para um filme de terror aparentemente oportunista e apelativo para sangreira e mulher pelada.

A busca pela virgem prossegue dentro da mansão do Marquês, embora já se saiba, duas das filhas, Rubinia e Saphiria, são bem sapequinhas. Também são lindas e protagonizam várias cenas de nudez com direito a petecas cabeludas e encenações de sexo soft-core com o pobre criado socialista. Logo, o vampirão abre olho em cima delas, já que as outras duas filhas são, inicialmente, rejeitadas. Esmeralda, a mais velha, é desprovida de beleza e Perla, a mais linda entre todas, é muito nova.

O Conde rapidamente descobre que as duas beldades não são virgens, e de uma maneira muitoo visceral. Após chupar o pescoço de suas vítimas para retomar suas forças, seu corpo rejeita o sangue impuro criando seqüências que fazem valer a excelente performance de Kier, que vomita sangue em expressões angustiadas. Kier possui muita presença, com uma linguagem corporal que lembra os atores do cinema mudo, como no início, se maquiando em frente ao espelho (sem ver seu reflexo, lógico).

Morrissey parece ter uma afinidade em criar o choque no publico. Seja no catártico e sangrento desfecho ou na forma como apresenta os costumes de uma época a fim de expandir os limites do que era aceitável dentro do comportamento de uma sociedade com relação à sexualidade, que é um dos pontos principais explorados aqui. A direção é bem característica dos exploitations da época, com zoons e closes enfocando os exageros e os excessos. Desde o olhar expressivo de Kier até mesmo os litros de xarope derramados.

Ainda há a participação especial de Roman Polanski como um italiano espetinho que sacaneia Anton com um jogo bobo. Polanski estava realizando WHAT? em um set de filmagens na Itália perto do local onde Morrissey filmava BLOOD FOR DRACULA, um filme que quase não vejo ser comentado por essas bandas, mas extremamente recomendável para os amantes dos verdadeiros filmes de terror e que estão cansados de ver sempre a mesma porcaria nos filmes atuais.