SHOGUN ASSASSIN (1980), de Robert Houston

Em 1980 estreou nos Estados Unidos essa pequena peça do cinema oriental carregando o nome do diretor americano Robert Houston nos créditos. Trata-se, na verdade, de uma espécie de picaretagem das mais disfarçadas. O fato é que o diretor, também produtor, fã dos chambara movies, comprou os direitos dos dois primeiros filmes da série Lone Wolf (ou Lobo Solitário, como ficou conhecido aqui no Brasil), e resolveu editar, pegando sequencias dos dois filmes, transformando num filme único que se chamou SHOGUN ASSASSIN!

Eu recomendaria os originais antes de assistir a esta obra, mas eu mesmo nunca vi algum filme da série Lone Wolf, e para falar a verdade, nem sabia do lance da picaretagem, mas tudo bem. Procurando informações sobre o caso, deparei-me com algumas diferenças entre a série de filmes do personagem com o filme de Houston que valem a pena comentar. Um das principais é, obviamente, o áudio em inglês, isso provavelmente aconteceu por dois motivos suspeitáveis: 1) o filme foi dublado para que os americanos retardados não precisassem se esforçar na árdua leitura de legendas; 2) Dublando as falas, pode-se manipular o enredo do filme fazendo com que os personagens digam o que os roteiristas quisessem.

Prefiro acreditar na segunda hipótese, embora seja estranho um bando de japoneses do período feudal trocando idéias entre si em inglês, mas também não restam dúvidas de que os americanos são realmente retardados ao ponto de dublarem os filmes para não ler legendas.

Outra questão: o filme possui uma narração em off realizada por Daigoro, o filho do protagonista, ainda criancinha, atuando como a consciência narrativa, com um ponto de vista ingênuo, fantasioso e com um efeito emocional muito maior que, com certeza, os filmes originais devem conter. O próprio diretor afirma que essa narração pode ajudar o publico americano a simpatizar-se pelos aspectos mais humanos da estória. Na minha opinião, a narração só serve pra encher linguiça, ou para justificar os exageros do filme por se tratar da visão de um menino.

Fazendo a mixagem de dois filmes, SHOGUN ASSASSIN acaba possuindo apenas um fiapo como argumento, trazendo como protagonista um virtuoso samurai (Tomisaburo Wakayama) que bate de frente com o Shogun local. Este último pede a cabeça do nosso herói, que passa a vagar com seu filho, dentro de um carrinho, por bucólicos cenários japoneses. E só! Durante essa jornada, ele enfrenta os assassinos contratados do Shogun ou arranja algum serviço como matador profissional. É como os saudosos video games que jogávamos no inicio dos anos 90, em 2D, onde o personagem só tinha uma direção a tomar e encontrava os oponentes para lutar e seguir em frente até encontrar com o chefão da fase.

Até mesmo a trilha sonora contribui bastante com isso, uma melodia moderna produzida por sintetizadores e guitarras que não combinam em nada com filmes de samurai, mas é mais um elemento inconfundível adotado pela edição americana desta bagaça.

Os “chefões da fase” de SHOGUN ASSASSIN são os três senhores da morte, idênticos aos três mestres que aparecem em OS AVENTUREIROS DO BAIRRO PROIBIDO, de John Carpenter, que deve ser um fã da série Lone Wolf.

Os filmes do Lobo Solitário foram baseados em um mangá e fizeram parte deste subgênero pouco divulgado hoje em dia, conhecido como chambara. Para entender um bocado, é bem simples, imaginem um filme do mestre Akira Kurosawa, como OS SETE SAMURAIS, ou YOJIMBO, mas com um visual estilizado com muito mais intensidade e violência gráfica exagerada triplicada! As sequências de ação são preenchidas com muita dose de sangue jorrando e uma quantidade enorme de membros decepados em situações que beiram o absurdo. E apesar disso, as tramas sempre são contextualizadas e precisamente detalhadas dentro da história do Japão feudal.

Por si só, SHOGUM ASSASSIN é um filme bastante divertido e hoje em dia é considerado um clássico cult para os apreciadores de qualquer subgênero do cinema de exploração. Agora eu preciso criar vergonha nessa cara porca e assistir aos filmes originais da série.

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THE BIG RACKET (Il Grande Racket, 1976), de Enzo G. Castellari

Já faz alguns dias que assisti a este poliziesco de primeiríssima qualidade com assinatura do mestre italiano Enzo G. Castellari, o mesmo que já nos brindou com clássicos como ASSALTO AO TREM BLINDADO, KEOMA, GUERREIROS DO BRONX e muitos outros. THE BIG RACKET é mais um filmaço do diretor, hours-concours do cinema policial italiano e obrigatório para qualquer criatura que deseja enveredar-se pelo subgênero mais cool do cinema carcamano!

Fabio Testi, ator magnífico, encabeça o elenco interpretando um policial do tipo linha dura que não se inibe ao utilizar métodos nada ortodoxos contra a bandidagem, principalmente quando se trata dos membros de uma organização criminosa que cobra dos pequenos comerciantes uma “taxa de proteção” absurda. E pior para aqueles que não aceitarem as condições dos bandidos, como é mostrado já nos créditos iniciais!

A coisa fica mais feia ainda quando os criminosos rolam o carro do protagonista por uma ribanceira abaixo – com ele dentro, diga-se de passagem – numa cena espetacular com a câmera dentro do carro filmando o próprio Fabio Testi experimentando a sensação de capotagem em um terreno bastante íngreme. E as iniqüidades não param por aí: toda vez que o personagem de Testi consegue prender de forma legal algum membro da organização, um advogado liberta o vagabundo com a maior facilidade. E se eu disser que as perversidades dos delinquentes ainda não param por aí, alguém acreditaria? Mas pra saber mais, você vai ter que assistir ao filme…

“O jeito é resolver a situação à base de chumbo grosso!”, assim pensa o nosso herói. Mas antes de agir como um vingador solitário armado até os dentes, como Charles Bronson em DESEJO DE MATAR, ele recruta alguns indivíduos que possuem conta em aberta com os bandidos e estão sedentos de vingança! E uma dessas vítimas ansiosa pelo seu dia de desforra, é interpretada pelo grande Vincent Gardênia. Alguns outros nomes também são bem conhecidos no meio dos subgêneros italianos como Orso Maria Guerrini e Joshua Sinclair.

Mas o que mais chama a atenção, dentre todas as qualidades que THE BIG RACKET possui, é mesmo a direção de Castellari nas cenas de ação. O sujeito deve ter acordado com o pé direito em todos os dias de filmagens. Duas sequencias, em especial, são verdadeiras aulas de como uma boa action scene deve ser filmada, com bastante estilo e sem frescuras: o tiroteio entre os vagões e claro, o grande final, uma das demonstrações mais expressivas de ação no cinema de Castellari, com direito as suas habituais câmeras lentas e brutalidade explícita. Mais um belo exemplar altamente recomendado!


Como não poderia deixar de fazer, indico um ótimo texto do Felipe M. Guerra sobre o filme. Basta clicar aqui.

ZERO WOMAN: RED HANDCUFFS (Zeroka no onna: Akai wappa, 1974), de Yukio Noda

Para quem está a fim de uma dose na veia de violência estilística, artsploitation apurado, nada melhor que este primeiro filme da série ZERO WOMAN, que rendeu diversas sequências ao longo dos anos, inclusive na década de noventa e nesta atual, que acabaram direto no mercado de DVD’s. Não cheguei a ver nenhum filme mais recente da série, mas não devem ter o mesmo nível criativo e contextual deste clássico do cinema de exploração japonês.

ZERO WOMAN: RED HANDCUFFS é um autêntico Pink Violence, bastante elegante na sua concepção visual, na combinação dos filmes policiais dos anos setenta com uma brutalidade explícita e estilizada que rendem um belo culto à violência visceral. Infelizmente, peca um bocado pela misoginia, hoje vista pelos maus olhos da sociedade com muito mais afinco, mas na época devia fazer a alegria das bichas enrustidas, mas isso não estraga a diversão…

Resumindo consideravelmente a trama, Miki Sugimoto vive a policial de um departamento especial, a “Zero Womam” do título, com a missão de resgatar a filha de um poderoso político das mãos de seis seqüestradores, sem que a situação se torne pública, o que acarretaria num escândalo para o inescrupuloso homem do governo, que pretende se candidatar a primeiro ministro do Japão. Para isso, a heroína precisa exterminar todas as provas do crime, isso inclui os seis meliantes.

O líder dos criminosos é interpretado por Eiji Go, num excelente desempenho, bastante expressivo. O filme retrata os bandidos como sujeitos de índole profundamente má, capazes de praticar as mais puras bestialidades sem arrependimento, deixando gente como Frank, de Henry Fonda em ERA UMA VEZ NO OESTE ou o reverendo Harry Powell, de Robert Mitchum em O MENSAGEIRO DO DIABO, de cabelos arrepiados!
Mas tudo isso torna ainda mais gratificante quando o espectador assiste os vagabundos sendo tratados como lixo humano, bem ao estilo da Pink Violence, principalmente numa cena de tortura envolvendo um maçarico. Na verdade, a nossa heroína só consegue entrar em ação pra valer no final, já que, durante todo o processo da missão, Miki infiltra-se no bando e não ajuda em nada os policiais que estão prestes a encher os bandidos de chumbo.

Além da violência, há uma grande quantidade de nudez gratuita, quesito básico que não poderia faltar a este tipo de produção. Tralha que se aproveita de dotes femininos, situações perturbadoras como crueldade sexual e assassinatos com muita violência exagerada, mas com um tratamento visual acima da média, feita especialmente para os fãs de abobrinhas urgentes, mas muito divertida!

UN FLIC (1972)

alain delon un flic melville 1972 3
Do Melville só havia assistido LE SAMOURAI e resolvi dar uma explorada no restante da filmografia começando pelo ultimo filme que realizou. Confesso que vindo de um diretor tão consagrado no gênero policial francês e, sendo este seu derradeiro trabalho, eu esperava mais de UN FLIC, mesmo assim é um bom filme estranho.
A trama de UM FLIC envolve uma quadrilha de assaltantes, liderado pelo ator americano Richard Crenna (que mais tarde faria o Coronel Trautman em RAMBO) e um inspetor, vivido por Alain Delon, que trabalha para capturá-la. Tem alguns momentos ótimos, como a cena de roubo ao banco na chuva logo no início; Delon em cena é sempre marcante, principalmente por fazer o tipo policial de métodos heterodoxos; e vários personagens interessantes, lapidados com uma bressoniana falta de emoções, algo que já parece ser particular do diretor.
Outras sequências não me atraíram em nada – o assalto ao trem, com aquela maquete totalmente deselegante… Por que filmar desse jeito? Num filme de baixo orçamento italiano eu entenderia. O filme ainda aproveita muito mal a Catherine Deneuve. De qualquer forma, está bom como está, não é exatamente uma despedida como a de Sergio Leone, mas também Melville não está a altura do italiano… Mas quem está? Essa semana eu vejo como ele se saiu em LE CERCLE ROUGE.

A DOPPIA FACCIA (1969), de Riccardo Freda

Primeiro filme do Riccardo Freda que assisto. Não sei se era o mais adequado pra iniciar a filmografia do cara, mas devo confessar que comecei muito bem! A DOPPIA FACCIA é um belíssimo e sofisticado giallo, subgênero que eu não havia tratado aqui no blog ainda. Preciso ver e rever alguns bons, porque o Dementia 13 está carente deste estilo que eu tanto adoro.

A DOPPIA FACCIA é baseado numa obra de Edgar Wallace e trata de um sujeito recém casado com uma milionária que acaba surpreendido quando ela pede um divórcio prematuro e logo depois morre num acidente de carro. O ex-marido é logo apontado como o principal suspeito, após a policia descobrir que o carro havia sido sabotado.

O marido em questão é interpretado pelo Klaus Kinski, que é sempre uma presença marcante em qualquer coisa que faça. E ele está muito bem no papel do sujeito amargurado por ter perdido a esposa ao mesmo tempo em que se vê acusado; e pior, acaba descobrindo que, possivelmente, ela ainda está viva, após uma jornada psicodélica numa festa onde assiste a um filme erótico cuja “atriz” possui algumas características que pertenciam a sua mulher.

É praticamente uma versão giallo de VERTIGO, de Alfred Hitchcock, e isso fica ainda mais evidente no desfecho. Mas esse tipo de alusão não tira o brilho de A DOPPIA FACCIA, que é uma aula de construção atmosférica, embora algumas cenas com efeitos especiais e miniaturas sejam bem toscos, mas não deixa de ser um charme a mais.

POSSESSÃO (Possession, 1981), de Andrzej Zulawski

Já vou avisando que o texto contém spoilers, mas acho que sou um dos únicos que ainda não havia assistido a esta belezura…

É um pouco complicado falar de POSSESSÃO, filmezinho difícil de ser digerido, mas é inegável o seu poder e mesmo tendo visto há mais de uma semana atrás, ainda me pego pensando e visualizando suas imagens. Mas como pode ser difícil e tão bom? Nesses casos, me lembro de alguma coisa que o David Lynch disse sobre alguns de seus próprios trabalhos: que os filmes não precisavam ser compreendidos, mas sentidos… ou algo assim. Pode ser uma estupidez, mas funciona.

Então, seguindo a filosofia “Lynchiniana” sobre filmes complexos, me deixei levar por POSSESSÃO. Mas das duas uma: ou o filme é realmente complexo em demasia, ou eu que sou burro pra caramba. Mas tudo bem, o que vale é o hedonismo. E não há nada mais satisfatório que acompanhar a câmera intensa de Andrzej Zulawski, com um roteiro surtado e deslumbrar com performances impressionantes de Sam Neil e Isabelle Adjani (que está linda, exagerada e sublime).

Fora isso, não tenho intenção alguma de fazer uma análise aprofundada sobre a obra. Seria algo que se tornaria pedante demais da minha parte…

Eu falo em complexidade, mas POSSESSÃO possui uma trama que dá pra acompanhar tranquilamente, e trata, basicamente, do drama, por mais insólito que seja, do casal formado por Neil e Adjani. O fato é que ele volta pra casa depois de um tempo trabalhando no exterior e descobre que ela tem um amante, um sujeito que se acha muito mais experiente em tudo na vida que o corno do Sam Neil.

Até aí tudo bem (pra mim, não pro Sam Neil), mas a coisa não é bem assim, porque ela logo sai de casa e abandona tanto o marido quanto o amante para viver num apartamento com uma criatura horrenda que a satisfaz sexualmente. Acho que não estraguei tanto a surpresa. Não é muito segredo a presença de uma criatura, já que os créditos iniciais informam isso quando aparece o nome do grande Carlo Rambaldi, responsável pelos efeitos especiais.

E é necessário apontar para essa criatura, pois é o elemento máximo das metáforas existentes em POSSESSÃO e rende uma discussão danada em torno disso. Mas em uma leitura mais superficial, o filme pode ser visto sobre as conseqüências do fim de um relacionamento. Zulawski, que também escreveu o roteiro, disse que seu próprio casamento serviu de inspiração…

Ou se preferir, POSSESSÃO pode prestar também como um excêntrico filme de horror. Claro que não serve para qualquer público, principalmente pela narrativa lenta, o desfecho hermético e o comportamento estranho dos personagens que agem como loucos-histéricos-psicóticos-suicidas, e não só o casal central, todos parecem afetados pela trama. Mas não falta aqui uma atmosfera densa e carregada, litros de sangue e até mesmo um monstro pra completar a sessão de terror!

THE RETURN OF THE STREET FIGHTER (1974); THE STREET FIGHTER’S LAST REVENGE (1974), de Shigehiro Ozawa

Terminei agora pouco de assistir aos dois filmes que restavam da série protagonizada pelo personagem Takuma Tsurugi, vivido pelo grande Sonny Chiba, iniciada em THE STREET FIGHTER. Suas partes seguintes, todas sob a direção de Shigehiro Ozawa e rodadas no mesmo ano, não chegam a ser melhor que o original, mas conseguem manter um nível excelente!

THE RETURN OF STREET FIGHTER possui um fiapo de enredo que parece existir somente pra trazer o personagem de volta às telas e faturar em cima disso, mas compensa com ação do inicio ao fim cheio das habituais sequências grotescas de violência que Tsuguri, o mercenário lutador autodidata, executa contra seus oponentes, sempre naquele estilo grosseirão de desferir os golpes, em sua grande maioria em ambientes apertados contra vários inimigos ao mesmo tempo. Crânios esmagados, dedos enfiados nas cordas vocais, globos oculares saltando do rosto e o retorno de um personagem do primeiro filme que todos pensvam que havia morrido. Enfim, é diversão de primeira, com uma boa direção, cenas de lutas muito bem feitas, uma galeria de personagens interessantes e Sonny Chiba em cena fazendo suas caretas.

THE STREET FIGHTER’S LAST REVENGE é o oposto. Os roteiristas resolveram dar um trato na trama e talvez seja a mais elaborada da trilogia. Mas tanto trabalho no roteiro acabou deixando o filme sem ação em comparação aos anteriores. Não se preocupem, pois ainda há cenas de luta até dizer chega, só não esperem o mesmo vigor e quantidade nem a violência gráfica dos dois primeiros filmes (ainda assim há uma cena quem que Tsuguri arranca a cabeça de um sujeito com uma pisada!). Até o Chiba parece sem empolgação e só mesmo nas ultimas cenas de luta que ele resolve fazer suas caretas expressivas com aquela respiração bizarra. O final consegue retomar a energia da série em termos de ação e acaba resultando num filme de porrada com um pouco mais de “conteúdo”. De quebra temos uma pequena participação de Etsuko Shihomi, que estrelou a trilogia SISTER STREET FIGHTER, e a presença da musa da Pink Violence, Reiko Ike, para embelezar o filme em certos momentos.