OS AMIGOS DE EDDIE COYLE (The Friends of Eddie Coyle, 1974), de Peter Yates

Sabe aquela famosa frase? “Com amigos como este, quem precisa de inimigos?”. Então, é este tipo de “amigo” que o título do filme se refere nesta obra prima do diretor Peter Yates. Eddie Coyle, interpretado por Robert Mitchum, conta, a certa altura, que ganhou o apelido de fingers depois de um servicinho ter dado errado e seus “amigos” terem arrebentado sua mão como castigo. Realmente mui amigos…

Yates é bastante esperto ao retratar este mundo de uma maneira sombria e extremamente melancólica, sob o olhar cansado de um Robert Mitchum cheio de dilemas. Seu personagem já inicia o filme em apuros. A esta altura da vida, Eddie teve problemas com a lei, possui mulher e três filhos, não quer ir pra prisão na sua idade, então resolve virar “dedo duro” da policia pra sair dessa situação de uma vez, mas acaba colocando sua vida em risco. E, basicamente, é isso que temos aqui para formar uma trama bem desenvolvida.

Esqueçam cenas de ação mirabolantes ou perseguições de carro em alta velocidade como em BULLIT, também de Yates, nada de adrenalina por aqui. O que OS AMIGOS DE EDDIE COYLE nos dá é o drama de um homem simples envolvido numa teia criminosa, tentando se livrar, mas acaba se enrolando cada vez mais. A direção de Yates é ótima e funciona muito bem nesse sentido, evitando os excessos que poderiam desviar a atenção; o roteiro também é bem enxuto, inspirado no romance de George V. Higgins (que eu não li); mas o que realmente torna o filme uma obra prima dos anos setenta é a presença de um Robert Mitchum inspirado.

Mitchum nunca esteve tão bem, pelo menos eu não me lembro. E olha que é um dos meus atores americanos favoritos. Acostumado a tê-lo sempre como um action man desde seus trabalhos da década de 40, é de se estranhar, no momento em que surge atrás de uma vidraça até seu ultimo segundo em cena, vê-lo encarnando este personagem lúgubre, cansado, tentando sobreviver neste universo nebuloso. Eddie Coyle foi feito sob medida para Mitchum, e motivo melhor que este para ver o filme não há. Outro bom nome que aparece nos créditos é o de Peter Boyle, também uma figura que não decepciona e está extremamente bem aqui, principalmente nos últimos 20 minutos de filme.

Como já devem ter percebido, OS AMIGOS DE EDDIE COYLE é uma obra mais séria que o habitual, um exercício de realismo dentro de um gênero repleto de situações exacerbadas que, aqui, não vêm ao caso. Até mesmo nas cenas de assaltos a bancos, que Yates intercala na estrutura narrativa, são ausentes de qualquer tipo de manipulação emocional. Yates prefere apostar na atmosfera natural, com a magnífica fotografia crua de Victor J. Kemper (que já havia trabalhado com John Cassavetes em HUSBANDS e depois faria UM DIA DE CÃO, de Sidney Lumet); nos diálogos que carregam muito mais tensão; e claro, em Robert Mitchum brilhando como nunca.

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4 pensamentos sobre “OS AMIGOS DE EDDIE COYLE (The Friends of Eddie Coyle, 1974), de Peter Yates

  1. Gosto muito desse, e de um outro que o Yates fez no mesmo período, Os Quatro Picaretas, que é mais uma comédia de assalto, mas também muito bom.

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