FACA NA GARGANTA (Switchblade Sisters, 1975), de Jack Hill

Dia desses vi esta belezura do Jack Hill, que é um diretor dos mais criativos e ousados dos anos 60 e 70 no cinema americano de baixo orçamento e merecia um reconhecimento maior entre os cinéfilos de hoje, além de ser essencial para qualquer pessoa que deseja se aventurar no mundo do cinema de exploração. Desabafos à parte, FACA NA GARGANTA é um autêntico clássico do “gênero” e um de seus melhores trabalhos que ainda incluem COFFY, FOXY BROWN, THE BIG BIRD CAGE, THE BIG DOLL HOUSE, SPIDER BABY, etc (um cara com um currículo desse é um gênio!).

FACA NA GARGANTA Faz parte também de uma lista imaginária dos filmes-referência de Quentin Tarantino, que é fã confesso da obra e chegou a comprar os direitos de lançamento para o seu selo de DVD’s, a Rolling Thunder, em meados dos anos 90. E tem tudo a ver com o universo que o diretor de PULP FICTION desenvolveu a partir de suas influências.

A premissa básica de FACA NA GARGANTA trata da disputa pelo poder dentro de uma gangue feminina entre a líder Lace (Robbie Lee) e a recém chegada no pedaço Maggie (Joanne Nail). Mas para deixar tudo mais profundo e divertido, o roteiro inspirado de F.X. Maier tece uma complexa teia de guerra entre gangues, subtramas psicológicas que funcionam e uma galeria de personagens interessantes que só enriquecem o resultado.

Isso sem contar com os momentos dignos de um exploitation, afinal, estamos falando de um filme com rixas de gangues; temos brigas de mulheres, tiroteios no estilo do final de DESEJO DE MATAR 3, lutas de facas, conflitos verbais com muitas frases de efeitos e muito mais!

As atuações são acima da média para um filme de baixo orçamento e Jack Hill demonstra porque é um dos grandes autores do ramo com um estilo único. Consegue ainda combinar elementos de vários subgêneros incluindo uma sequencia “Women in Prison”, quando as garotas vão pra cadeia e têm de enfrentar a robusta carcereira lésbica e suas subordinadas, e “blaxploitation”, quando pinta em certo momento uma gangue de mulheres negras que dispõe de um verdadeiro arsenal! É por isso que é impossível não virar fã de Jack Hill!

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MR. VAMPIRE (Geung si sin sang, 1985), de Ricky Lau

Em MR. VAMPIRE, o diretor Ricky Lau, sua equipe técnica e elenco conseguem demonstrar porque os orientais sãos os cabras mais criativos do cinema e desenvolvem, a partir de um enredo dos mais simples, um filme genial utilizando apenas conceitos culturais como trampolim para uma mistura de comédia, terror e um toque de artes marciais! O resultado é um dos filmes mais divertidos que existe! E só vai achar que eu estou ficando maluco quem ainda não assistiu!

O que temos aqui, e que você precisa saber no momento, é um vampiro causando uma confusão danada; uma galeria de personagens interessantes tentando parar o ser das trevas a qualquer custo; e as várias situações absurdas que pontuam os confrontos frenéticos. Inclusive, surge uma subtrama envolvendo uma bela fantasma que rende mais algums seqüências fantástias.

Existem alguns detalhes que vocês precisam saber sobre os vampiros (ou zumbis) orientais, como a forma que, em determinado estágio, eles se locomovem dando pulinhos com os braços esticados; podem ser controlados por encantos Taoístas; transformam suas vítimas em vampiros com as unhas pontiagudas e azuladas, além, é claro, da habitual mordidinha no pescoço; e mais um punhado de coisas que se descobre assistindo a esta belezura.

A primeira meia hora é bem leve apresentando os personagens centrais, como o mestre Gau com sua “monocelha” e milhares de feitiços anti-vampiros que ultrapassam o limite da criatividade, interpretado pelo grande Lam Ching-Ying. O humor dá conta do recado nesse período com um tipo de comédia física e universal que rendem ótimas gargalhadas.

Mas logo depois o bicho pega de verdade e é ação até o desfecho! A coisa é tão frenética que realmente contagia o espectador com a mistura de tensão e comédia. Imagine um EVIL DEAD com coreografias de kung fu e você terá uma idéia do que estamos tratando aqui. As cenas de luta são fantásticas, principalmente aliadas à trilha sonora e os efeitos especiais artesanais que dão de dez a zero em qualquer coisa feita de CGI atualmente.

É o tipo de filme que eu poderia gastar vários parágrafos relatando os detalhes e as situações, mas chega por aqui. MR. VAMPIRE é riquíssimo e a partir dele surgiram algumas continuações e vários outros filmes se aproveitando da idéia dos “vampiros saltitantes”. Engraçado, tenso, original, um filme que precisa ser visto e ter seu lugar garantido entre os melhores filmes de comédia-horror de todos os tempos! Quem já viu vai concordar comigo. E recomendo o texto do Bruno C. Martino, para o site Boca do Inferno para saber muito mais sobre o filme.

E lembre-se disso, os vampiros só conseguem detectar a presença humana pela respiração!

10.000 DÓLARES PARA DJANGO (10.000 dollari per un massacro, 1967), de Romolo Guerrieri

Mais um Western Spaghetti pra moçada que curte o gênero. 10.000 DÓLARES PARA DJANGO, como o título já anuncia, trata de mais um belo exemplar que aproveita o lendário personagem que Franco Nero, Terence Hill e até o ítalo-brasileiro Anthony Steffen deram vida outrora. Típico desses italianos espertinhos usufruindo do sucesso de outro filme, mas ok, contanto que façam coisas boas como é o caso deste aqui.

Talvez nem fosse necessário explorar a figura do mítico Django – aliás, o título original nem apela nesse sentido – porque o filme possui um lado significativo de boas idéias, personagens interessantes e uma realização técnica das melhores possíveis, que por si só renderia uma obra única. Por outro lado, tem um dos enredos mais estranhos no qual o espectador é sempre surpreendido pelas reviravoltas, o que nem sempre é bom quando há em excesso. No mais, uma parte compensa a outra de tal modo que no fim, os fãs do bang bang à italiana não têm do que reclamar!

Quem encarna o personagem desta vez é Gianni Garko (sob o pseudônimo de Gary Hudson), figurinha carimbada do western macarrônico tendo interpretado outros grandes indivíduos como Sartana e Camposanto. Em 10.000 DÓLARES PARA DJANGO, o protagonista é um caçador de recompensa que parte para um ultimo serviço, já que sua próxima vítima vale os 10.000 dólares do título que ele tanto almeja para largar essa vida e ir viver com uma bela francesinha (Loredana Nusciak). Mas isso é basicão da trama, durante o percurso, rola o seqüestro de uma moça, assalto a uma diligencia, questões de amizade, confiança e vingaça!

O contraponto de Django é Claudio Camaso, que interpreta o perigoso vilão da estória, Manuel. O problema é que Camaso parece que está sempre de rímel nos olhos e fica com cara de viado, não que isso prejudique o andamento da coisa, mas o ator precisa demonstrar a masculinidade diversas vezes pra provar que é macho de verdade e mesmo assim, ainda fiquei com dúvidas…

nofa!
Ah, vai me dizer que não é rímel?

Mas deixando esses detalhes de lado, temos a direção de Romolo Guerrieri que é ótima desde a abertura do filme (que é genial, Django acordando à beira da praia com um defunto do lado) até o desfecho melancólico; Guerrieri é bastante seguro nos enquadramentos, nas seqüências de ação e na direção de atores; e a linda trilha de Nora Orlandi ajuda a intensificar a dramaticidade da obra, como todo bom e velho western à parmegiana tem que ser. Então, podem ir sem medo: 10.000 DÓLARES PARA DJANGO é, sem dúvida, um dos grandes momentos deste gênero italiano que eu tanto adoro!

DRUNKEN MASTER (Jui kuen, 1978), de Yuen Woo-Ping

Sempre tive esperança de que a carreira do Jackie Chan pré-Hollywood fosse bem superior, já que o único filme dele desta fase que eu me lembro bem de ter visto foi UM KICKBOXER MUITO LOUCO nas tardes do SBT e era fanático! Simplesmente genial. Vi alguns outros também, mas era muito novo e já não tenho recordações, mas basicamente, só o conhecia pelos filmes americanos mesmo e isso é bem desanimador.

Bom, finalmente resolvi arriscar numa produção mais antiga do Chan e assisti ao DRUNKEN MASTER neste fim de semana e, lógico, não me arrependi. O filme é uma verdadeira pérola do cinema de artes marciais e reúne a direção mega-ultra-talentosa para cenas de luta de Yuen Woo-Ping com o humor pastelão de Jackie Chan (que também sempre foi um puta talento em cenas de luta). Um casamento perfeito, diga-se de passagem.

O enredo é bem simples, mas contém os elementos suficientes pra recheá-lo com bastante ação e momentos engraçados. Chan interpreta Hung, sujeito encrenqueiro, uma vergonha para a família cujo pai é um famoso professor de artes marciais. Depois de se meter em uma série de confusões, seu pai decide deixá-lo sob os cuidados de Su Hua Chi (na tradução da legenda da versão que eu vi é Mendigo Sam, mas não sei se é correto chamá-lo assim), um dos mestres mais rigorosos que há! E que vai ensinar para nosso herói a poderosa técnica dos oito deuses embriagados!!!

Literalmente, o sujeito tem de estar bêbado para realizar tal técnica e Jackie Chan lutando embriagado é uma antologia do cinema de porrada, aliás, todas as cenas de luta possuem coreografias perfeitas e muito bem conduzidas sob a direção de Woo-Ping, que é totalmente diferente do estilo seco e grosseiro dos filmes do Sonny Chiba, por exemplo. Chan utiliza tudo em sua volta para abater seus oponentes e até mesmo partes do corpo não muito utilizadas para desferir golpes, como na cena em que dá uma bundada num sujeito!

As cenas de lutas são bem divertidas e quem aprecia os filmes de Chan atuais (o que não é o meu caso) vai se surpreender ainda mais com a desenvoltura do sujeito em DRUNKEN MASTER, e ainda morrer de rir com situações engraçadíssimas envolvendo o protagonista e Su Hua Chi, interpretado pelo patriarca do clã Yuen, Yuen Siu Tien. Agora pretendo ver o DRUNKEN MASTER II, que segundo os amigos Herax e Takeo, consegue ser melhor que este aqui. Se fosse do mesmo nível já estava bom demais, imagine melhor…

MANGUE NEGRO (2008), de Rodrigo Aragão

Finalmente consegui prestigiar o famigerado longa capixaba de terror MANGUE NEGRO e de quebra ainda tive o prazer de conhecer o diretor Rodrigo Aragão. Foi um encontro bem rápido – e estava em cima da hora de começar o filme – e só consegui trocar algumas palavras, mas deu pra notar que é um cara que conhece o tipo de cinema que está fazendo e que foi influenciado pelos grandes mestres do horror, inclusive ele disse que sua maior referência foi Lucio Fulci. Uma ótima referência por sinal…

A produção do filme, totalmente independente sem ajuda de leis de incentivo, é cercada de fatos interessantes. Rodrigo começou a rodar MANGUE NEGRO sem um centavo no bolso, com toda equipe trabalhando de graça. Depois de realizar 15 min de filme dessa forma, conseguiu um produtor pra bancar o restante. Teve lançamento no Fantaspoa e foi muito elogiado.

E não pra menos, MANGUE NEGRO é realmente surpreendente em vários sentidos. O filme foi inteiramente rodado num manguezal localizado em Guarapari (ES) e na trama a poluição atinge uma proporção tão intensa no mangue que acaba contaminando os habitantes locais transformando-os em zumbis. Realmente referências e elementos que remetem a Fulci, Romero e Ossório não faltam, e ainda há uma direção bem ao estilo de um Peter Jackson e Sam Raimi nos inícios de suas carreiras, além da atmosfera que lembra uma espécie de CANNIBAL HOLOCAUST tupiniquim com uma pitada de crítica ecológica!

Mas o resultado deixa bem claro que MANGUE NEGRO não tem pretensão alguma de ser algo além daquilo que realmente é: um filme de terror de qualidade – tratando de um filme de baixo orçamento feito no Espírito Santo – feito por um apaixonado pelo gênero, com um roteiro pra lá de criativo cheio de sacadas ótimas e um humor negro muito bem inserido; um trabalho técnico preciso (principalmente nas maquiagens e efeitos especiais); muita violência explicita com litros e mais litros de sangue derramados, muitas vísceras e membros decepados sem piedade e com um realismo exagerado digno de um filme de terror italiano do final dos anos 70.

Não vale a pena falar dos defeitos que o filme possui, porque grande parte deles provém da falta de recurso e muitos são perfeitamente driblados com criatividade pelo diretor. Vale mais destacar os incríveis efeitos especiais e maquiagens desenvolvidas pelo próprio Rodrigo e que são de encher os olhos, uma coisa absurda de alto nível que eu tenho certeza que faria um Gino De Rossi ficar orgulhoso.

E é uma pena que o grande público ainda não leve a sério as produções do gênero aqui no Brasil. Salas vazias são constantes e até mesmo o filme do Mojica não teve uma boa bilheteria no ano passado. Culpa das distribuidoras, de um publico preconceituoso e tantos outros fatores que precisam ser resolvidos para desmistificar esse problema de que “todo filme de terror brasileiro é piada trash”. É um desabafo, mas com um tom de esperança porque ainda temos grandes caras como o Rodrigo Aragão, o amigo Davi de Oliveira Pinheiro (diretor do aguardado PORTO DOS MORTOS), e alguns outros cabras com coragem de preencher a tela de sangue com o bom e velho filme de horror!

Rodrigo Aragão e suas criaturas…