SÍNDROME DE CAIM (Raising Cain, 1992), de Brian De Palma

Ainda não conferi A FOGUEIRA DAS VAIDADES, filme que todo mundo já está careca de saber é um dos grandes fracassos do diretor (vocês que já viram, o que acham?) Outro que não foi muito bem de bilheteria na época é PECADOS DE GUERRA, que muitos consideram uma de suas obras primas, embora eu também não tenha visto. Mas fique tranqüilo, caro leitor, são poucos os filmes obrigatórios que eu tenho de ver do Brian De Palma. Além de PECADOS, ainda faltam A FÚRIA, O FANTASMA DO PARAÍSO e MURDER À LA MOD (e FOGUEIRA, mas este não é obrigatório, eu suponho). O resto eu vi…

Mas enfim, SÍNDROME DE CAIM, feito logo após o fracasso de FOGUEIRA é o retorno do cineasta ao thriller hitchcockiano, gênero que o consagrou e que fez a alegria dos fãs em filmes como VESTIDA PARA MATAR e UM TIRO NA NOITE. Ainda assim, SINDROME DE CAIM chegou a dividir bastante as opiniões. Já vi muito apreciador do cinema do cara dizer que detesta o filme, outros dizendo que adoram. Eu fico do lado dos que adoram. Não é dos melhores filmes do De Palma, mas não deixa de ser uma pequena demonstração da maestria do diretor, que ainda hoje é um dos mais virtuosos do cinema.

Talvez o ponto que possa incomodar algumas pessoas seja o enredo e a simplicidade da trama, algo que De Palma realmente parece tratar com uma certa irrelevância. Na verdade a trama principal é irrelevante e só serve pra justificar duas coisas: as elegantes piruetas estilísticas e manipulações temporais que o diretor realiza – e que é habitual em seu cinema – e dá ao filme momentos bem agradáveis (algumas seqüências aqui estão entre as melhores que o De Palma já filmou em sua carreira, como o final sensacional no motel). A outra é transformar SINDROME DE CAIM no filme definitivo sobre transtorno dissociativo de personalidade, ou múltiplas personalidades.

John Lithgow, que já havia trabalhado com o De Palma antes, faz o papel do coitado que sofre desse mal e causa sérios transtornos à sua mulher e filha. Até vira caso de policia! Claro que a trama é bem mais séria e envolve assassinatos, seqüestros de crianças e etc. O fato é que Lithgow está perfeito e consegue atingir grandes resultados em sua atuação definindo de forma expressiva cada personalidade tomada por seu personagem. Ele está genial na cena em que é submetido a hipnose por uma doutora. Merecia um Oscar! Sério. O elenco ainda possui Lolita Davidovich, Steven Bauer, Frances Sternhagen, Tom Bower e Gregg Henry.

O entrecho também faz alusões a outros filmes, talvez fosse bem definido como uma mistura de PEEPING TOM, do Michel Powell e PSICOSE, do Hitchcock. No final temos até uma referencia ao VESTIDA PARA MATAR com o personagem do Lithgow vestido com certas semelhança ao Michael Caine do outro filme. Quem viu sabe do que estou falando. Mas nisso tudo, o que mais conta é a direção espetacular do De Palma que cria momentos impressionantes, como o plano seqüência da delegacia que começa no terceiro andar, acompanha um grupo de personagens em escadas, elevador até terminar num close da defunta com uma expressão muito bizarra. E ainda temos o final inacreditável que eu citei ali em cima.

Sem dúvida alguma é uma grande filme, cinematograficamente poderoso e altamente recomendado, principalmente a quem já viu e não gostou, porque SÍNDROME DE CAIM não são só belos e estéreis movimentos de cameras; é toda a criação do universo de um gênio do cinema.

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23 pensamentos sobre “SÍNDROME DE CAIM (Raising Cain, 1992), de Brian De Palma

  1. > Femme Fatale (Apesar da cena inicial em Cannes ser brilhante, o filme em geral é tudo q De Palma fez de maneira infinitamente superior antes)Er… nessa eu concordo.Lembro de ter achado SINDROME DE CAIN lindo logo na primeira vez que eu assisti. Agora a segunda vez está esperando. A última imagem é foda e Lithgow simplesmente arrebenta. Osvaldo Neto

  2. É isso aí! heheFelipe, nada a ver com o assunto, mas ontem eu conheci o Rodrigo Aragão, diretor do Mangue Negro… ele te deu algumas aulas de efeitos especais ou algo assim, não é?

  3. Nossa, troquei as bolas total! Essa imagem é do cadáver retirado do lago, que ainda estava vivo quando o carro foi jogado na água, certo? E não é a mulher do médico que acorda, é a mulher de um cara que está se agarrando com a médica, não é isso? Preciso rever esse filme.

  4. Eu preciso rever SÍNDROME DE CAIM, pois ainda tenho a impressão de quando vi há uns 10 anos atrás. Mas esta cena da mulher do médico acordando no hospital e pegando ele no flagra com a outra (não lembro os detalhes), e a cara tenebrosa que ela faz, ficaram grudadas na minha retina.

  5. Ele cita Tenebrae em Cain, no ultimo minuto do filme.Até hoje não vi um filme ruim do De Palma.Dizer que cenas de Cain sofrem falta de criatividade cinematografica é cagar pela boca. Mals ae.

  6. O problema do FOGUEIRA é que o De Palma está fora do seu elemento e pra piorar, com a mão pesada. Isso acontece até com os grandes. Outro bom exemplo é o último do Spike Lee. Já no SÍNDROME eu sinto que ele parece uma criança se esbaldando com velhos brinquedos mas que ainda lhe dão prazer. A mesma coisa aconteceu depois com FEMME FATALE. Mais do que VESTIDA PARA MATAR ou SISTERS, o SÍNDROME é a coisa mais próxima de Dario Argento que o De Palma fez. Dentro da filmografia dele só dispenso mesmo aquela porcaria com o marciano feito em Corel Draw.

  7. Missão: Marte é o pior dele, na minha opinião. Adoro Olhos de Serpente, Femme Fatale, Greetings, Dália Negra…O único ruim mesmo é Missão:Marte…E discordo quanto a criatividade cinematográfica dele em Caim. Vários momentos pagam o ingresso fácil. A cena do carro no inicio, alguns planos sequencia, o final… e ainda o Lithgow detonando numa puta atuação.Concordo plenamente com o que o Nothingman disse ali é em cima: não é dos melhores De Palma, mas é excelente!

  8. é triste quando tenta-se desqualificar quem gosta de um filme chamando a pessoa de bêbada ou baba-ovo, como se existisse uma única opinião verdadeira e correta acima de todas as outras; esse tipo de comportamento já me encheu o saco e é por isso que não sinto a mínima falta do sistema de comentários no meu blog – p.s.: o ministério da saúde adverte: comentários como “inexiste criatividade e técnica cinematográfica em Síndrome de Caim” podem causar derretimento da massa encefálica e inflamação aguda na região escrotal!

  9. Alguns dos elementos q dizem gostar dessa coisa chamada Sindrome de Cain é pq querem dar esmola pro De Palma, na boa. Como se ele precisasse. Não o Ronald, q me parece realmente ter genuinamente gostado (O q me deixa na dúvida se ele bebeu algo forte antes de ver o filme. hehe) Mas tem muito baba-ovo do De Palma que não consegue admitir que algo pessoal dele seja tão medonho.E Missão: Marte é melhor q Fogueira das Vaidades e Sindrome juntos. O mais subestimado filme do De Palma junto Greetings e Olhos de Serpente, apesar de não ser tão bom quanto outros igualmente ignorados como Hi, Mom!, Fantasma do Paraíso e Obsession. E o próprio roteiro de M:M q é a pior coisa do filme tb é bem melhor q a coisa q o De Palma deve ter escrito em período de bloqueamento criativo.Pra mim, Sindrome entra no hall dos piores do De Palma de longe junto com Femme Fatale (Apesar da cena inicial em Cannes ser brilhante, o filme em geral é tudo q De Palma fez de maneira infinitamente superior antes), Dália Negra e Festa de Casamento.E não vejo nada de criatividade cinematográfica no filme tb q é onde costumam elogiar. Aliás, é um dos filmes que ele menos usa de forma criatividade a técnica cinematográfica.

  10. “Síndrome de Caim” não é um dos melhores do diretor, mas de fato é um grande filme. Também é um marco, vendo que nunca mais De Palma usou de referências vindas do cinema de Hitchcock para moldar os seus trabalhos futuros. As minhas sequências prediletas é a entrevista com a velha psicóloga e, claro, o grande clímax. E “A Fogueira das Vaidades” é bem ruim, Ronald. Tenho o filme no acervo e só não me livro dele por causa de ser uma obra do De Palma e por conseguir me divertir com a interpretação exagerada da Melanie Griffith. Eu ainda não li o romance de Tom Wolfe (uma vez quase comprei num sebo), mas dizem que o resultado ficou muito negativo pelo fato do diretor usar humor ao tratar de um tema sério, de um homem e sua amante que se envolvem na morte de um deliquente negro. O discurso final de Morgan Freeman é bem constrangedor e o filme é sonolento. Mas ele não conseguiu ser pior do que “Missão: Marte”, na minha opinião.

  11. Eu queria conhecer melhor os argumentos de quem não gosta do filme, pra poder (tentar) entender o motivo. Pra mim Caim é De Palma inspirado! Quanto ao Fogueira, pode não ser um filme assim muito digno do mestre, mas cara, assiste-se numa boa, está longe de ser um filme chato ou que aborreça. Pode encarar sem medo!

  12. Eu prefiro FOGUEIRA ao MISSÃO MARTE, esse sim um negócio constrangedor. De fazer até o Spielberg passar mal.

  13. Realmente é um filme do caralho. De Palma mais subestimado.flei, flei…agora não é só o kevin e o pessoal da comunidadezinha que gosta de Sindrome de Cain.

  14. Pecados de Guerra é ótimo, mas A Fogeuira das Vaidades foi um projeto em que tudo saiu errado. Sem dúvidas o pior dele (Missão Marte pelo menos é um belo filme, apesar de irregular também). Quanto ao Caim, eu ainda não vi mas pretendo ver em breve.

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