ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO (2008)

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Pois é, criaturas, finalmente estreou por aqui, na sexta feira passada o ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, aguardado novo filme do Mojica, o Zé do Caixão. Infelizmente, poucos aguardavam como eu. Praticamente tive que arrastar meu irmão e um amigo para assistirem comigo e quando entro na sala escura, me deparo com somente cinco cabeças em plena estreia. É uma pena porque o filme é realmente muito bom e se fosse qualquer outro filme hollywoodiano de terror com adolescentes retardados o cinema estaria lotado.

ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO é horror nacional de qualidade, que me surpreendeu muito em todos os sentidos, desde o impressionante tratamento técnico, com uma fotografia de atmosfera densa que daria inveja a qualquer filme de terror produzido atualmente em Hollywood, violência explícita e extrema com litros de sangue espalhados, direção segura do Mojica com base firmada na criatividade, roteiro com elementos atuais, mas com o velho e mítico personagem Zé do Caixão dando as caras à moda antiga de maneira brilhante.

A seqüência em que Zé do Caixão tem a visão de uma espécie de purgatório dantesco é um espetáculo dentro de um filme excelente cheio de situações e momentos perturbadores, como a cena em que uma mulher sai de dentro um porco ou Zé do Caixão praticando o coito com uma mulher debaixo de uma chuva de sangue, além de muita tortura, mutilação, animais repugnantes, espíritos vingativos, a presença de Jece Valadão, ou seja, Mojica atira para todos os lados, mas atira certeiro e com uma precisão incrível. É uma beleza de filme que merecia muito mais do que apenas uns gatos pingados nas salas de projeção.

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ILSA, SHE WOLF OF THE SS (1975)

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A Segunda Guerra sempre serviu de fonte inspiradora inesgotável para a indústria cinematográfica e não foi diferente com os exploitaitations. Vários filmes possuíam a guerra, nazismo e campos de concentração como pretexto para acrescentar sadismo, violência e sexo em suas produções e algumas delas foram denominadas nazisploitations. Um dos principais exemplos deste subgênero é ILSA, SHE WOLF OF THE SS. O filme, dirigido por Don Edmonds, é baseado em uma figura histórica que viveu naquele período: Ilsa Koch. Ela ficou conhecida pelos abusos de violência física e sexuais pelos quais tratava os prisioneiros nos campos de concentração. Ambos os elementos (violência e sexo) contribuem como uma ótima combinação para o filme.

A história se passa em um campo de concentração nazista onde, basicamente, durante o dia, experiências bizarras com seres humanos são realizadas sob o comando da personagem título, vivida pela exuberante atriz Dyanne Thorne. À noite ela convida um prisioneiro para saciar seu apetite sexual, mas aqueles que não conseguem satisfazê-la são castrados! E isso é só um aperitivo da insanidade da personagem. O que não falta durante todo o filme são momentos de violência extrema e mulheres nuas, que é justamente o que faz a cabeça dos fãs do gênero e tornou o filme tão cultuado ao longo dos anos. A personagem ainda retornaria em várias sequências ao longo dos anos 70.

ABSURD, aka ROSSO SANGUE, aka ANTROPOPHAGUS 2 (1981)

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Depois da “apresentação” que fiz há alguns posts sobre o diretor Joe D’amato, finalmente vamos tratar de um filme dirigido por ele. Dos mais de 190 filmes que o sujeito realizou, ABSURD não faz parte daquela listinha de 20 a 25 filmes de boa categoria que o diretor conseguiu realizar ao longo de sua extensa carreira, ou seja, é lixo dos brabos, feito às pressas, provavelmente ao mesmo tempo com outra produção, roteiro risível e atores que parecem nem saber que tipo de filme estavam fazendo. Isso significa que teremos diversão garantida!

Antes de entrar no filme, um curioso fato desta produção é o número de títulos que recebeu pelo mundo afora. Dependendo do lugar e dos cortes da censura, o título mudava drasticamente. ABSURD é o que eu mais gosto, mas também tem ROSSO SABGUE, HORRIBLE, ZOMBIE 6 (!) e até mesmo ANTROPOPHAGUS 2, com a picaretagem de tentar relacioná-lo com a história do canibal grego do filme ANTROPOPHAGUS, que D’Amato dirigira 2 anos antes.

Enfim, esses italianos são demais! O roteiro de ABSURD é de Luigi Montefiore. Para quem não sabe, é o nome verdadeiro de George Eastman, ator fetiche de D’Amato. e que interpreta por aqui novamente um grego (aí está a relação com ANTROPOPHAGUS, já que Eastman também é um assassino grego neste outro) que aparece logo na primeira sequência fugindo de um padre (Edmund Purdom). Após tentar pular a cerca de uma mansão, acaba com a barriga perfurada pela ponta de uma lança da cerca e caminha para dentro da mansão com as tripas pra fora.

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O sujeito vai parar no hospital e logo descobrimos que ele é praticamente imortal. Suas células se regeneram numa velocidade surpreendente. Sabemos um pouco do seu passado através do padre que veio da Grécia atrás do sujeito que desapareceu no mar ainda na Europa e foi parar lá no Estados Unidos! Calma, não procure entender os “porquês”. Esse tipo de rombo tem aos montes no decorrer do filme. O fato é que o sujeito acorda de uma hora pra outra e por onde passa deixa um rastro de sangue.

George Eastman foi um dos atores mais subestimados do cinema italiano. Em qualquer produção que estivesse sua presença era marcante (e não é só por causa da altura!), até mesmo numa tralha como esta aqui sua atuação surpreende. Em termos de técnica, seu trabalho está acima do próprio filme em que participa. Suas expressões completamente insanas funcionam principalmente quando a violência rola solta e nisso não temos do que reclamar em Absurd.

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Até que a atmosfera de suspense não é tão ruim com a fotografia do próprio D’Amato creditado com seu nome verdadeiro: Aristide Massaccesi. Mas a trilha sonora não ajuda em nada! Enche o saco e chega uma hora que fica irritante, apesar do filme possuir várias sequências antológicas que proporcionam um impacto visual de violência extrema que agradam os fãs tranquilamente, como a cena em que Eastman ataca uma enfermeira perfurando sua cabeça com uma furadeira cirúrgica, ou quando um pobre açougueiro perde o escalpo com uma serra de cortar carne e claro, a seqüência onde o louco varrido coloca uma mulher dentro do fogão para assá-la viva!

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O roteiro sem sentido e pobre resume-se apenas na proposta de D’Amato e Eastman em juntar algumas idéias sádicas e de violência com o objetivo de divertir seus fãs. Tenho a certeza que nas mãos de um diretor mais cuidadoso e um roteirista profissional, ABSURD renderia um filme com um acabamento muito superior e uma narrativa com um sentido coeso dentro do possível, com outros personagens e uma trama mais desenvolvida, mas perderia toda a vulgaridade da direção de D’Amato, que possui um charme singular. A cena final com a menina ensanguentada segurando a cabeça é pra entrar para a história como uma das mais antológicas do cinema de horror europeu.

UM INVERNO DE SANGUE EM VENEZA (Don’t Look Now, 1973)

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Provavelmente, a cena mais interessante de UM INVERNO DE SANGUE EM VENEZA, de Nicolas Roeg, não é de suspense, tensão, horror, ou algo do tipo. É a sequência onde o casal vivido por Donald Sutherland e Julie Christie fazem amor. O primoroso trabalho de edição intercala planos que mostram o durante e o depois do coito, causando um efeito curioso somado à veracidade sexual que os atores depositam na cena. Na época do lançamento, acreditava-se que os dois efetivamente haviam dado um picote. A cena é um encaixe estranho à narrativa. É o único momento de calmaria pelo qual os protagonistas atravessam durante o filme, que é um dos exemplares de horror psicológico que mais me impressionou nos últimos tempos.

Desde o início, quando o restaurador John Baxter (Sutherland) está trabalhando, observando alguns slides de fotos de uma igreja italiana junto com sua esposa Laura (Christie) enquanto seus filhos brincam nos arredores da casa, nas paisagens campestres da Inglaterra, o que aparenta conforto na verdade é uma aula de construção atmosférica de suspense. Tudo é mostrado e montado de uma forma muito intensa e cada detalhe prepara o espectador para o que está por vir. A filha do casal, usando um casaco vermelho, brinca jogando uma bolinha em volta de um lago, seu pai sente que algo ruim está acontecendo e sai em direção ao local encontrando a menina afogada numa sucessão de imagens expressionistas que culmina com o grito angustiado de horror de Donald Sutherland com a filha morta nos braços.

 

O filme é subitamente transportado para Veneza, algum tempo depois. John Baxter está restaurando as imagens sacras de uma igreja e sua mulher o acompanha pela cidade entrecortada pelos canais, com suas ruas estreitas, prédios antigos e a atmosfera natural acinzentada pelo clima de inverno. Perfeito cenário onde se passa o restante do filme, no qual o diretor britânico Nicolas Roeg estabelece com um ritmo lento o desenvolvimento de uma misteriosa história. O suspense é trabalhado cuidadosamente nos ambientes e em elementos estéticos, como a cor vermelha do casaco da filha, que passa a servir de metáfora para acentuar o tom sobrenatural que entra em cena com duas irmãs (uma delas cegas) já senhoras de idade.

A cega é uma médium que diz ter visto o espírito da menina entre o casal num restaurante. Laura começa a se sentir bem com isso e passa a acreditar nas duas senhoras. É o momento nos leva a cena de sexo entre o casal. Mas John é cético e não acredita, “Nossa filha está morta! Morta!”. A atuação de Donald Sutherland dá bastante vigor ao filme, com seus olhos expressivos, enquanto é engolido pelos mistérios de Veneza. Vários acontecimentos estranhos iniciam a partir de então para contribuir com o clima de suspense, como a cena do acidente na igreja, a visão de John do barco fúnebre (que ultrapassa os limites do tempo numa inovadora sacada cronológica) e as aparições de uma figura pequenina usando um capuz vermelho vagando pelas ruas noturnas da cidade.

 

Existem vários outros momentos de UM INVERNO DE SANGUE EM VENEZA que vão desde o aterrorizante e perturbador até o sublime, que acompanham o espectador até o desfecho. Um filme realmente fascinante pela construção inspirada de um clima de horror que trabalha o psicológico do público e pelo estilo visual que influenciou vários diretores. E lógico, como não poderia ser diferente, apesar da forma misteriosa como foi filmada, a cidade de Veneza acaba se tornando um desses lugares obrigatórios para se visitar algum dia…

WISE GUYS (1986)

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Para quem está acostumado com os filmes de Brian De Palma, sempre carregados de tramas violentas, homenagens à Hitchcock e suspenses elaborados por uma câmera virtuosa, vai se surpreender com o diretor no comando de WISE GUYS. Uma comédia leve e divertida que o diretor aceitou fazer a convite do produtor Aaron Russo, após realizar DUBLÊ DE CORPO (84). O início da carreira de De Palma é marcada por algumas comédias que satirizavam politicamente o modo de vida americano da época, como GREETINGS (68) e HI, MOM! (70), ambos estrelados por um jovem Robert de Niro antes de iniciar sua parceria com o diretor Martin Scorsese. Ou seja, De Palma já havia provado antes o talento do ator.

Mas vamos ao WISE GUYS cuja história gira em torno de dois membros atrapalhados da máfia de New Jersey, interpretados por Danny De Vito e Joe Piscopo. O filme remete aos trabalhos do Scorsese mostrando a uma máfia de baixa categoria e sem o glamour de Tony Montana do filme SCARFACE (83), que De Palma havia dirigido alguns anos antes. Os dois sujeitos, na verdade, recebem sempre os trabalhos mais pífios e são ridicularizados pelos outros membros. Ao receberem a “grande missão” de apostarem num cavalo de corrida, acabam colocando o dinheiro em outro cavalo, achando que o favorito de seu chefe perderia, o que não acontece. Os dois são marcados como traidores, mas ao invés de matá-los subitamente, Tony Castelo (Dan Hedaya), o chefão da parada, coloca-os com a missão de matar um ao outro.

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WISE GUYS é um ótimo exercício de direção para De Palma que, apesar de não realizar nenhuma acrobacia com sua câmera, deixa seus atores brilharem livremente no gênero que já estão à vontade. Danny De Vito surpreende com um dos papéis mais engraçados de sua carreira e Joe Piscopo demonstra toda sua expressividade cômica. O elenco ainda é formado com Frank Vincent, Harvey Keitel e Lou Albano (talvez o personagem mais divertido). O filme não foi muito bem de bilheteria nos Estados Unidos e acabou sendo esquecido automaticamente, infelizmente. Mas realmente não é nenhuma maravilha. Algumas situações do roteiro poderiam ser melhor exploradas e o final é um tanto forçado e preguiçoso.

No Brasil recebeu o título cretino de QUEM TUDO QUER, TUDO PERDE, o que contribuiu ainda mais para o esquecimento por aqui. Além disso, o estúdio resolveu meter o dedo no material final contra a vontade de De Palma. Mas nada que estrague a diversão, principalmente nos dois primeiros atos, quando a história é conduzida de maneira simples com ótimos momentos, como a cena em que De Vito recebe a ordem de ligar o carro de seu chefe, uma aula de montagem e tensão cômica. Ou o assassinato na igreja, praticamente uma mistura genial do pastelão com o rigor intrigante do suspense de De Palma.