OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU (1976) | CPC UMES FILMES

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Acho que nunca tinha visto um filme tão autêntico sobre ciganos, que faz tanto um estudo realista antropológico desse universo quanto extrai um lirismo, uma poesia imagética cheia de artificialidades e clichês a partir dessa cultura. E tudo funciona lindamente… Produzido pela Mosfilm e baseado no conto “Makar Chudra” (1892), a primeira obra literária publicada pelo escritor russo Maximo Gorky, OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU, de Emil Loteanu, romantiza esse universo habitado por figuras tão enigmáticas, marginalizadas e excêntricas, com uns bigodões de fazer o Tom Selleck morrer de inveja… Figuras sempre festivas, alegres, de espírito livre e aventureiro. Mas também melancólicas e trágicas por natureza.

O filme se contextualiza no final do século XIX, na província austro-húngara da Bessarabia e tem como fio condutor uma história de amor: o ladrão de cavalos cigano Loiko Zobar (Grigore Grigoriu) – “Não há cavalo que Loiko não pudesse roubar e nenhuma garota que pudesse resistir a ele…” que se apaixona perdidamente pela clarividente e sedutora Radda (Svetlana Toma), cujo olhar seria capaz de parar uma manada de cavalos descontrolados. Como pano de fundo, uma região ocupada militarmente que enfatiza o tom opressivo dos poderosos em contraste com a linhagem libertária cigana.

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Sem prezar tanto por um rigor narrativo, é nos costumes culturais, no carnaval de cores, sons, na musicalidade e imagens que desfilam na tela que o diretor Loteanu foca suas atenções e reside o charme de OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU. Algumas de suas imagens grudam na memória e da paixão do ladrão de cavalos por Radda surgem momentos de pura poesia: Radda, de seios nus, tira as suas longas saias coloridas, uma após a outra, e há dezenas delas! Ou o último encontro do casal que termina de maneira digna das mais famosas tragédias de Shakespeare…

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Há também alguma ação, perseguições à cavalo, brigas de facas e situações de perigo… Se OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU tivesse inaugurado um gênero mais movimentado, eu chamaria de “gypsie western“…

Eu já havia ficado embasbacado com o outro filme do diretor moldávio Emil Loteanu, que foi uma dessas descobertas das mais interessantes que fiz nos últimos tempos. Descoberta graças ao lançamento em DVD da CPC UMES FILMES no final do ano passado de UM ACIDENTE DE CAÇA, que eu já comentei por aqui. Agora a distribuidora nos brinda com OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU, mais uma obra peculiar, de rara beleza poética, da coleção “Cinema Soviético” que todo mês a CPC UMES FILMES tem lançado.

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Para conhecer mais o trabalho da distribuidora, descobrir as maravilhas de seu acervo, comprar (que é o mais importante) e saber das novidades, não deixe de visitar a loja on line da distribuidora e também a página no Facebook (aliás, ainda não divulguei o próximo lançamento deles, o que farei ainda esta semana!).

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CENTENÁRIO DE ROBERT ALDRICH

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I don’t think violence on film breeds violence in life. Violence in life breeds violence in films.

O ESSENCIAL DE ROBERT ALDRICH:

VERA CRUZ (54)
A MORTE NUM BEIJO (Kiss me Deadly, 55)
A GRANDE CHANTAGEM (The Big Knife, 55)

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MORTE SEM GLÓRIA (Attack, 56)
A 10 SEGUNDOS DO INFERNO (Ten Seconds to Hell, 59)
COLINAS DA IRA (Angry Hills, 59), especialmente por causa disso.

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O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (Whatever Happened to Baby Jane?, 62)
O VÔO DA FÊNIX (Flight of the Phoenix, 65)
OS DOZE CONDENADOS (The Dirty Dozen, 67)

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ASSIM NASCEM OS HERÓIS (Too Late the Hero, 70)
O RESGATE DE UMA VIDA (The Grissom Gang, 71)
A VINGANÇA DE ULZANA (Ulzana’s Raid, 72)

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O IMPERADOR DO NORTE (The Emperor of the North Pole, 73)
GOLPE BAIXO (The Mean Machine, 74)
CRIME E PAIXÃO (Hustle, 75)

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O ÚLTIMO BRILHO DO CREPÚSCULO (Twilight’s Last Gleaming,77)
OS RAPAZES DO CORO (The Choir Boys, 77)
O RABINO E O PISTOLEIRO (The Frisco Kid, 79)
GAROTAS DURAS NA QUEDA (…All the Marbles, 81)

* O restante ainda me falta ver ou não são lá tão essenciais…

THE OTHER SIDE OF THE WIND EM VENEZA

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Saiu na semana passada o line up do Festival de Veneza deste ano e, fora de competição, teremos THE OTHER SIDE OF THE WIND. Nunca ouviu falar? Então prepare-se: Trata-se do último filme do gigante Orson Welles nunca completado, talvez a mais lendária e não vista produção de todos os tempos.

Na época, Welles prometeu que THE OTHER SIDE OF THE WIND seria o seu grande retorno triunfal, reuniu um elenco de figurinhas carimbadas, como os diretores John Huston e Peter Bogdanovich, mas também Susan Strasberg, Lilli Palmer, Edmond O’Brien, Cameron Mitchell, Dennis Hopper e por aí vai… As filmagens aconteceram entre 1970 e 1976 e segundo Huston, em sua autobiografia, o set era dos mais pirados que ele já pisou e que Welles simplesmente não tinha roteiro definido, portanto uma desorganização criativa pairava no ar ao mesmo tempo em que andava de mãos dadas com a poesia fílmica de seu diretor. Mas as fontes independentes de financiamento eram diversas e não muito confiáveis, a produção do filme se arrastou por muitos anos e Welles ainda tentava completá-lo quando morreu em 1985.

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Rymsza inventariando os rolos de THE OTHER SIDE OF THE WIND

Com a ajuda da Netflix, ano passado houve um esforço de crowdfunding que arrecadou 400 mil dólares para concluir essa obra final de Welles. O gerente de produção original do filme, o produtor Frank Marshall, supervisionou a conclusão do projeto, trabalhando em conjunto com o cineasta Filip Jan Rymsza, que foi um dos principais nomes na captação de recursos para esta finalização. Peter Bogdanovich, que era amigo de Welles, trabalhou diligentemente por muitos anos para completar THE OTHER SIDE OF THE WIND, mas sempre encontrou obstáculos e agora serviu de consultor no projeto Netflix. As poucas pessoas que chegaram a ver alguns trechos que Welles conseguiu completar na época de sua morte, apresentaram opiniões contraditórias, alguns dizendo que é um filme estranho e desanimador, enquanto outros o proclamam uma obra de gênio.

THE OTHER SIDE OF THE WIND passa então em setembro no Festival de Veneza e logo depois deve entrar na grade do Netflix. E se não entrar no Netflix Brasil, pelo menos já teremos outros meios de conseguir… Provavelmente, a melhor notícia do ano.

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10 ANOS NA TELA

O blog DEMENTIA 13 chega ao seu décimo aniversário hoje. Cansado, desanimado, sem tempo para atualizações mais frequentes e conformado de que a batalha está perdida. O facebook e redes sociais acabaram com este formato de blog, ninguém mais se interessa e é preciso reformular a coisa, se reinventar para ser notado, para conseguir acessos, para ter mais de cinco ou seis leitores.

Há vários meses venho refletindo se este aqui não seria o último post do DEMENTIA 13. Porque não tenho tempo nem ânimo para me reinventar. Mas depois cheguei a conclusão de que ainda vale a pena manter o reduto, meu último refúgio, um cantinho legal que criei ao longo desses dez anos para expressar minha paixão pelo cinema e vai continuar sendo por um bom tempo ainda… Eu acho. Mesmo desse jeito, retrô e ultrapassado, sem grandes atrativos e de conteúdo torpe.

O que posso fazer é tentar renovar as forças, tentar voltar as origens do blog, com a ideia intransigente de compartilhar um painel de prospecção do cinema desconhecido e esquecido, conservando o espírito de confraria e trazer à tona algumas pepitas que valem a pena propagar. Obras, diretores, artistas e atores transgressores e subestimados que sempre tenho encontrado por aí nesse abismo de obscuridades… Enfim, recomeçar os próximos dez anos com o pé direito.

Para vocês, cinco ou seis leitores que ainda me acompanham, espero não decepcioná-los. Para quem chegou agora, seja bem-vindo.

Ronald Perrone
Editor

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ENCONTRARAM UM ROTEIRO PERDIDO DE STANLEY KUBRICK

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Não sei bem o que vão fazer com isso agora, mas um roteiro perdido escrito pelo diretor Stanley Kubrick e pelo romancista Calder Willingham, em 1956, foi descoberto pelo escritor Nathan Abrams, enquanto pesquisava e colhia material para um livro que está elaborando sobre a produção do último filme de Kubrick, DE OLHOS BEM FECHADOS. De acordo com Abrams, o tal roteiro foi baseado em “Burning Secret“, um romance de 1913, do escritor austríaco Stefan Zweig, e Kubrick e Willingham adaptaram-no à sociedade americana contemporânea dos anos 50. Só que o roteiro lidava com temas espinhosos e controversos demais para o período: um homem de 30 anos faz amizade com um garoto pré-adolescente com a intenção de usá-lo para ter acesso à sua mãe casada, na esperança de se tornar seu amante. O projeto surgiu num momento em que Kubrick estava começando a carreira como diretor e ainda não tinha a reputação aclamada que teve posteriormente, nem tinha influência nos estúdios. BURNING SECRET chegou a ser considerado pela MGM, mas a produção nunca ganhou sinal verde, possivelmente por causa da sensibilidade do tema em 1956.

Uma versão do romance de Zweig, baseada em outro roteiro, diferente da que fora escrita pelo diretor de LARANJA MECÂNICA, chegou a ser filmada em 1988 pelo ex-assistente de Kubrick, Andrew Birkin. No Brasil chama-se O SEGREDO DE UM HOMEM e tem Klaus Maria Brandauer e Faye Dunaway no elenco.

RIO GRANDE (1950)

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RIO GRANDE fecha a “Trilogia da Cavalaria” de John Ford, formada por outros dois filmes que já comentei por aqui: SANGUE DE HERÓIS (1948) e LEGIÃO INVENCÍVEL (1949). Todos estrelados por John Wayne. Aliás, Wayne reprisa o mesmo personagem do filme de 48, Kirby York, um tenente da cavalaria dos Estados Unidos, que dirige um posto na luta contra os Apaches ao redor do Rio Grande, que faz a fronteira entre EUA e México.

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Em meio às tensões da guerra contra os índios, o filho de York de 16 anos, Jeff, o qual ele não via desde que era um bebê, aparece no posto como um dos novos recrutas. O que dá uma balançada no duro coração do sujeito, dividido entre a devoção e o dever de um Tenente e o desejo proibido de se reaproximar do filho. E as coisas ficam ainda mais complicadas quando a ex-mulher de York, Kathleen (Maureen O’hara), retorna para levar seu filho para casa.

O argumento de RIO GRANDE é muitas vezes apontado como uma metáfora do conflito na Coreia que rolava na época (Ford até viria a fazer um documentário sobre o tema pouco depois, chamado THIS IS KOREA!) e acaba sendo, dos filmes da trilogia, o que lida mais diretamente com a ação, com sequências de batalhas, ataques dos índios, no tom de aventura e diversão.

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As sequências do ataque noturno ao acampamento e, depois, à caravana são desses momentos primorosos que demonstram a genialidade de Ford em filmar cenas de ação. Mas assim como os filmes anteriores (na verdade, toda a filmografia de Ford), a ação acaba sendo bem menos importante do que outras possibilidades que parecem interessar ao diretor, como a relação de York com seu filho e principalmente de York com sua ex-mulher, um retrato maduro de um casal que se ama em silêncio, mas que já não pode viver sua união.

E aí Ford deita e rola nessa situação, com alguns dos momentos mais tocantes do filme. Gosto especialmente da sequência da serenata, os soldados cantando “I Will Take You Home, Kathleen“… de deixar qualquer um marmanjo com os olhos marejados. Ou a cena em que York lasca um beijo desajeitado em Kathleen dentro de sua tenda, e logo depois pede desculpas…

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Alguns personagens secundários também se destacam, como Tyree, vivido por Ben Johnson, um procurado pelos xerifes da região que acabou se alistando, mas por ser um ás na montaria e com um revolver na mão, acaba ganhando as graças de York. E quando o sujeito salva Jeff das mãos dos índios, abatendo três de forma ágil, percebe-se que o sujeito não tá para brincadeiras. É um dos pontos altos das sequências de ação em RIO GRANDE. No elenco, ainda temos Harry Carey Jr. e o habitual colaborador de Ford, Victor McLaglen, sempre fazendo o alívio cômico.

A fotografia que retorna ao preto e branco por aqui – depois de Ford realizar uma pintura cromática em LEGIÃO INVENCÍVEL – é tão bela quanto a de SANGUE DE HERÓIS e reforça as palavras do crítico de cinema Tag Gallagher, talvez o maior especialista em Ford, de que RIO GRANDE seja o básico do básico do diretor – tão óbvio tecnicamente, mas tão bem sucedido, tão essencial dentro de uma filmografia autoral como a de Ford, que talvez seja um dos melhores exemplares de inicialização, ou seja, para ter um contato inicial com a obra do diretor.

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RIO GRANDE está disponível no Brasil em DVD pela Classicline.

DVD REVIEW: A CRIADA (2016); A2 FILMES

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Eu gosto pra cacete do diretor coreano Park Chan-Wook. Vocês não? Só que parece que ele nunca mais vai fazer algo do nível de um OLDBOY (03) ou SYMPATHY FOR MR. VENGEANCE (04), obras que colocaram o sujeito no mapa. Mas isso não quer dizer que Park deixou de fazer bons filmes e obviamente recomendo a apreciação de seus trabalhos posteriores… com algumas exceções. Mas para quem já é fã do homem, vai aí uma dica: A CRIADA, último filme de Park, foi lançado em DVD no Brasil pela A2 Filmes, através do selo Mares.

A CRIADA é um thriller psicológico com viés feminista baseado no romance de estilo vitoriano Na Ponta dos Dedos, de Sarah Waters, só que transferido para a Coreia ocupada pelos japoneses na década de 30.

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A belezinha Kim Min-hee da foto acima interpreta a herdeira Lady Hideko, que vive isolada e dominada por seu tio cruel, Kouzuki (Cho Jin-woong), que cobiça sua herança. A moça nunca sai da propriedade da família e seu único contato com pessoas de fora é numa série de leitura semanal de literatura erótica para convidados exclusivos, que é forçada a participar pelo seu tio.

Entonces, as coisas mudam um bocado quando entra em cena um casal de vigaristas que elaboram um esquema para botar as mãos nos dotes da moça. Kim Tae-ri interpreta uma ladra talentosa que é contratada como criada da mansão e Ha Jung-woo é um vigarista esperto que se finge Conde. O esquema é fazer com que Hideko se apaixone pelo falso conde e assim meter a mão na grana.

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Só que as coisas não saem exatamente como planejado e ao invés de se apaixonar pelo vigarista, o jogo de sedução acaba rolando entre as duas moças… A falsa criada começa a pensar duas vezes sobre o esquema enquanto cresce sua relação com Hideko, e a curiosidade de Hideko sobre o amor/sexo logo resulta nas duas mulheres compartilhando uma cama em sequências muy calientes. Logo, a farsa toma novos contornos numa intrincada narrativa de pontos de vistas e reviravoltas mirabolantes.

O que se segue é um filme sobre essas duas personagens femininas, que lutam contra os homens numa cultura tão dominadora, para se livrar de suas correntes e reivindicar seu próprio destino.

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A única coisa que me incomoda um pouco em A CRIADA é lá pelas tantas perceber que Park exagera um pouco na duração e uma sutil enxugada daria mais ritmo à narrativa, que já é lenta pela natureza do estilo do diretor – o que não é uma crítica, a câmera, os planos, tudo tem uma lentidão poética que faz muito bem ao filme – mas uns 15 minutos a menos teriam ajudado. Mas é preciso destacar algumas coisas que compensam esse pequeno incômodo: a intricada trama nunca deixa de ter interesse, as atuações, o trio de protagonistas funciona maravilhosamente bem e as duas atrizes tem muita química, especialmente nas cenas de sexo. Fazia tempo que não via no cinema mainstream recente cenas de lesbianismo tão excitantes. A fotografia é impecável, a direção de Park demonstra o trabalho de um artista consciente, que sabe contar uma história e ainda agradar aos olhos. E chega, today let’s keep it short, baby.

Como disse antes, a A2 Filmes lançou A CRIADA em DVD por aqui. Podem procurar que vão encontrar nas melhores lojas do ramo. Vale a pena ter um desses na coleção. Park Chan-Wook é sempre obrigatório. Não deixe de curtir também a página da distribuidora no Facebook para ficar por dentro das novidades.

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TONIGHT FOR SURE (1962)

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Se você cavucar o início de carreira de algumas figuras consagradas do cinema, pode ser que encontre alguns esqueletos enterrados. O diretor Francis Ford Coppola é um desses casos e, pouca gente sabe, mas muito antes de se tornar um dos principais autores do cinema americano pós-anos 70, com obras-primas grandiosas como O PODEROSO CHEFÃO e APOCALIPSE NOW, o sujeito já tinha uma filmografia cheia de produções questionáveis do cinema exploitation, B-Movies esquecidos e hoje pouco comentados, trabalhou até como pupilo de Roger Corman (inclusive o filme que dá nome ao blog, o horror DEMENTIA 13, é um trabalho pouco lembrado de Coppola). Mas nada que o diretor tenha que se envergonhar também, TONIGHT FOR SURE por exemplo, é bem melhor que um YOUTH WITHOUT YOUTH ou JACK, trabalhos que Coppola realizou já tendo seu nome celebrado.

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TONIGHT FOR SURE é um típico “Nudie“, gênero do sexploitation que surgiu no fim dos anos 50 no cinema americano e cuja principal função era explorar corpos femininos em completa nudez. É evidente que na época devia fazer alguns marmanjos correrem atrás desse tipo de material, mas vistos hoje, são filmes bem ingênuos, a maioria filmadas em campo de nudismo ou boates de striptease, sem erotizar muito as situações. Pepecas e manjubas nunca eram mostradas e o que se via era predominantemente seios e bundas balançados em jogos de vôlei, à beira de piscinas ou em apresentações burlescas de striptease… Curioso que um dos principais representantes na direção do gênero era uma mulher, Doris Wishman, que realizou um bom número de exemplares, como NUDE ON THE MOON. E, pois é, pode acreditar, é esse o tipo de filme que o Coppola fez por aqui.

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A trama é sobre dois sujeitos moralistas que se encontram e decidem lutar contra a crescente onda de luxúria no mundo. Um deles é um caipira que entra na cidade em um burro atrapalhando o trânsito, o outro é um dândi engomadinho da cidade grande. Com a intenção de algum tipo de desordem que repercuta na pouca-vergonha que o mundo se encontra, eles entram num Club de striptease antes do show começar e, na surdina, prendem algo na caixa de rede elétrica, programada para detonar à meia-noite.

Enquanto esperam pela detonação, eles se sentam na boate e trocam histórias sobre os males do pecado e das mulheres lascivas (e claro, enquanto estão tagarelando, garotas burlescas estão se exibindo no palco atrás deles e gradativamente eles vão se aproximando, sentando em mesas mais perto das mulheres que se apresentam). O caubói relata como um amigo passou a ter ilusões “terríveis” em que todas as mulheres ao seu redor estavam nuas. O outro conta sua história, se revelando um devasso que prega a moralidade como uma desculpa para bancar de voyeur num estúdio de fotografia Pin-Up.

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Com apenas uma hora de projeção, TONIGHT FOR SURE não possui nenhuma sutileza, os homens são caricatos e idiotas e as mulheres são carne. A única pretensão de Coppola aqui é criar situações para mostrar alguns peitos de fora. Só isso. A direção de Coppola, então com pouco mais de vinte anos, é pesada, com um lampejo ou outro de criatividade num ângulo ousado ou movimento de câmera (a fotografia é do grande Jack Hill, futuro mestre do exploitation americano e que na época era colega de classe de Coppola na UCLA), mas ninguém poderia prever que o mesmo sujeito fosse virar referência de autorismo dez anos depois, que ganharia o Oscar de melhor diretor, que venceria Cannes!

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Os atores são horríveis, o humor do filme é pastelão da pior qualidade e a produção é bem pobre, mas até que dá pra tirar um sarro e se divertir um bocadinho. E mais um detalhe positivo, Coppola pelo menos encontrou alguns mulheres bem mais apetitosas que as habituais habitantes que povoam os Nudies.

Mas no fim das contas, TONIGHT FOR SURE é só mais um exemplar mediano do gênero que eu nunca teria sequer contato caso não fosse dirigido pelo Coppola. Vale pela curiosidade para conhecer as raízes capengas de um grande mestre.

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THRILLER – UM TOP 10

Tava de papo com uns amigos e surgiu o assunto sobre o gênero conhecido como “thriller“. A princípio, por definição, um thriller seria um “suspense”, ou o suspense que não dá medo suficiente pra virar um filme de horror e nem movimentado o suficiente pra virar um filme ação. Mas acho que a melhor maneira de definir a coisa seria fazendo uma lista com o que eu chamo de thriller puro para entender a essência do gênero.

Para essa lista, com o thriller mais afunilado e específico, filmes que considero policiais/crime/neo-noir/ação, como DIRTY HARRY, GET CARTER e THE DRIVER deixei de fora, assim como suspenses com um pezinho no horror, tipo TUBARÃO, DELIVERANCE ou PLAY MISTY FOR ME. Não tô dizendo que não são thrillers, apenas não quero abranger tudo que as convenções consideram thriller.

Partindo disso tudo, meu top 10 thrillers seria mais ou menos isso aí… Ou seja lá o que eu quero dizer com isso tudo e com esse post.

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UM TIRO NA NOITE (Brian De Palma, 1981)

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O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (Fritz Lang, 1941)

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UM CORPO QUE CAI (Alfred Hitchcock, 1958)

01.UM TIRO NA NOITE (Blow Out), Brian de Palma
02.O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (Man Hunt), Fritz Lang
03.UM CORPO QUE CAI (Vertigo) ou JANELA INDISCRETA (Rear Window), Alfred Hitchcock
04.PROFISSÃO: REPÓRTER (Professione: Reporter) ou BLOW UP, Michelangelo Antonioni
05.A CONVERSAÇÃO (The Conversation), Francis Ford Coppola
06.O AMIGO AMERICANO (Der amerikanische Freund), Wim Wenders
07.O TERCEIRO HOMEM (The Third Man), Carol Reed
08.BUSCA FRENÉTICA (Frantic), Roman Polanski
09.ESPECIAIS EFEITOS (Special Effects), Larry Cohen
10.HARDCORE, Paul Schrader

HEREDITÁRIO (2018)

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Tenho visto e revisto um monte de coisa, filmes novos e velharias, mas e tempo pra escrever? Às vezes parece fazer mais sentido não escrever nada… E o blog vai sendo empurrado… Mas essa semana fui ao cinema e assisti a esse tal HEREDITÁRIO, do estreante Ari Aster, e acho que vale um pequeno comentário. É a nova sensação do horror que, embora eu tenha conseguido evitar saber qualquer coisa para ir “virgem” à sala de cinema, deixar-me surpreender, acompanhei as reações calorosas – algumas nem tanto – de amigos e que mexeram um bocado com a minha expectativa. Sabem como é, não é preciso muita coisa para alegrar este pobre coração, especialmente com um filme de horror. Mas HEREDITÁRIO é fantástico e não consegui desgrudar os olhos da tela durante toda a sessão.

Aster dirige bem para um estreante, é bom ficar de olho no sujeito. Tem noção de como trabalhar o tempo, os enquadramentos, como usar a trilha sonora, mas também o silêncio, e constrói uma atmosfera perturbadora em HEREDITÁRIO que me fascina. Gosto como o horror vai evoluindo dentro da trama de maneira gradual, subvertendo as expectativas, a partir de um drama familiar pesado que já é aterrorizante por natureza, com seu tom de tragédia, numa parábola sobre perda e degradação, cuja intensidade já deixaria vários filmes do gênero no chinelo. Isso até chegar num ponto em que a coisa descamba de vez para um horror mais explícito, mais hardcore. O ato final é de gelar a espinha.

Não é nenhuma obra-pima como alguns apontaram – compararam até com A BRUXA, que acho bem superior a este aqui e até tem algumas coisas no final que remetem um filme ao outro – mas não tenho muito o que reclamar, é uma obra redonda, muito bem pensada nos detalhes e alguns momentos são realmente memoráveis. A cena do acidente de carro, por exemplo, é irresistível, as aparições sutis, os sonhos… Gosto muito também da sequência na qual a mãe, interpretada pela Toni Collette, resolve fazer uma DR na mesa de jantar. Collette, aliás, está monstruosa e grande parte da força de HEREDITÁRIO é por causa da sua entrega apaixonada pela personagem. Seria pedir muito, à essa altura, uma indicação ao Oscar? De qualquer forma, recomendo. Um dos melhores filmes que vi este ano até o momento.

DUAS NOTÍCIAS: CPC UMES FILMES

a CPC UMES FILMES, que já vem fazendo um belíssimo trabalho de distribuição em DVD’s no Brasil, contemplando clássicos soviéticos e novidades do atual cinema russo, faz agora seu primeiro lançamento nos cinemas. Trata-se de ANNA KARENINA: A HISTÓRIA DE VRONSKY, que está em cartaz nos cinemas de São Paulo. Produção muito bem cuidada de 2017, dirigido por Karen Shakhnazarov, realizador de CIDADE DOS VENTOS, que já comentei por aqui, e atual presidente do principal estúdio da Rússia, a Mosfilm, o filme é mais uma adaptação do clássico de Tolstói e para quem é fã do material e se interessa pelo tema, é uma boa pedida para ver algo diferente da mesmice do circuito na tela grande. Confira a programação dos cinemas e não perca.

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E por falar em lançamento, a CPC UMES FILMES lança em Julho, em DVD, OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU, do diretor Emil Loteanu, o mesmo que realizou UM ACIDENTE DE CAÇA, que já comentei por aqui.

Segundo o site da CPC UMES FILMES, OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU é uma obra inteligente, com atmosfera fascinante, cuja ação transcorre nas estepes da Bessarábia, na periferia do Império Austro-Húngaro. Foi lançado em 1976 e teve mais de 64 milhões de espectadores nos cinemas da União Soviética na época. Com trilha musical de Evgeniy Doga, habitual colaborador de Loteanu, e baseado no conto de Gorky “Makar Chudra” (1892), o longa narra a tempestuosa história de amor entre a bela jovem Rada e o ladrão de cavalos Loyko Zobar.

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Em breve posto minhas impressões. O filme estará disponível a partir do dia 27/06 no site da CPC UMES FILMES e nas lojas parceiras. Clique aqui para conferir mais informações.

A PROFECIA III – O CONFLITO FINAL (1981)

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Um dos aspectos mais interessantes dos dois primeiros filmes da série A PROFECIA é que o diabo se personificava na forma de um garotinho, no caso do filme de 76, e um adolescente na continuação, fazendo com que o personagem sempre tivesse um ar de ingenuidade e ambiguidade, sem deixar de ser o Anticristo, causando o mal a todos ao seu redor. Em A PROFECIA III – O CONFLITO FINAL, Damien cresceu e virou o Sam Neill, e isso meio que tira um pouco da graça da figura. Não que o ator seja o problema, mas o personagem, o Anticristo que nos quer levar ao Armagedon, não passa de um adulto chato, mimado e virjão…

Neste terceiro capítulo, Damien herda tudo de todos que morreram pelo mal que irradia dele, administra o maior conglomerado do planeta e se torna o embaixador americano na Inglaterra, assim como seu “pai” no primeiro filme. Ou seja, o sujeito se torna um dos homens mais poderosos do mundo. Mas seu plano para dominar os homens segundo a tradição, digamos, bíblica da porra toda, nunca é claramente explicado, então a coisa funciona praticamente como qualquer outro político no cargo… Tipo um Trump ou qualquer outro imbecil que só quer ter o poder nas mãos.

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Enquanto isso, um bando de monges italianos conseguem se apoderar das famigeradas adagas sagradas que – sabemos desde o primeiro filme – são as únicas armas capazes de matar Damien. E assim, os monges planejam seu assassinato. Só que as tentativas de atentados contra o Anticristo é uma pior que a outra. Os planejamentos são péssimos, sempre tentando encurralar o sujeito para furar-lhe as costas com uma adaga. E sempre dá errado, porque esses monges são tão competentes quanto Os Três Patetas e acabam queimados vivos, atingidos por um raio e durante a tentativa mais lamentável, durante uma caçada às raposas, um deles é mortos por um bando de beegles.

Enquanto isso, a trama de A PROFECIA III tenta jogar no balaio o alinhamento de estrelas que traz a segunda vinda de Cristo, portanto Damien ordena que seu secretário pessoal, Don Gordon, mate todos os bebês nascidos na noite do alinhamento celestial. Isso leva a um monte de cenas bizarras envolvendo crianças sendo atropeladas por carros, afogadas e sufocadas. Para apimentar ainda mais a trama, um dos bebês suspeitos de ser o Nazareno é o recém-nascido do próprio Gordon, mas o filme nunca trabalha essa subtrama potencialmente interessante e acaba resolvendo a coisa de qualquer jeito…

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Outro detalhe que diminui A PROFECIA III em relação aos anteriores é que ficamos acostumados com um grande elenco, com rostos famosos. Aqui não temos ninguém de interessante no elenco, e apenas um bando de monges idiotas italianos. As cenas de mortes memoráveis pontuando a trama nos filmes anteriores também não rola muito por aqui. A maioria das mortes dos monges são bem sem graça. Pra não dizer que tudo é horrível nesse departamento, o suicídio de um embaixador no início do filme é um primor!

Sam Neill está bem como Anticristo… Quero dizer, ele se esforça pra fazer bem o que o roteiro exige, é convincente em interpretar o mal encarnado, fazendo preces para o diabo e blasfemando diante de uma cruz. Só que esse Anticristo que o filme o transformou é que não contribui muito para o filme. Basta ver a relação que ele cria com uma reporter pra notar que é um virjão, as tentativas de conquista dele são simplesmente constrangedoras. E o grande final de A PROFECIA III é um reflexo do que se tornou essa figura do Anticristo, com o tal “conflito final” do título se resumindo a Damien correndo por aí nas ruinas de um mosteiro gritando “Venha Nazareno!” até que lhe enfiam a adaga nas costas na maior facilidade… Então Jesus aparece por uns cinco segundos e depois aparecem uma citações bíblicas. E fim. Acabou…

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O diretor de A PROFECIA, Richard Donner, foi o produtor executivo deste aqui, que acabou não sendo mesmo o “Conflito Final”, já que nos anos 90 resolveram fazer mais uma sequência…

DAMIEN: A PROFECIA II (Damien: Omen 2, 1978)

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Com o sucesso de A PROFECIA, era óbvio que os produtores não iriam perder a chance de fazer uma continuação. Só que o diretor do original, Richard Donner, estava muito ocupado fazendo SUPERMAN. Chamaram o britânico Mike Hodges (GET CARTER), que por diferenças criativas acabou sendo demitido e substituído por Don Taylor, que nunca passou de um diretor bate-estaca de estúdio, sem muita personalidade. O roteirista que havia concebido o primeiro filme, David Seltzer, não quis se meter numa continuação, e é muito provável que as pessoas que o substituíram não tivessem na mesma vibe… O resultado de DAMIEN: A PROFECIA II está bem abaixo do anterior. Longe de ser ruim, é verdade, e não faz feio como uma continuação, mas me parece que falta uma certa classe e a sobriedade que faz o primeiro ser aquela maravilha que é.

De qualquer modo, valeu a pena rever DAMIEN: A PROFECIA II para refrescar a memória. E não se preocupem, este texto será bem menor que o anterior…Hehe!

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Damien (Jonathan Scott-Taylor), agora um adolescente, vive com seus tios e um inseparável primo, e não parece se lembrar dos acontecimentos trágicos que ocorreram em A PROFECIA. Ele é enviado para estudar numa escola militar, o que me parece um bom local para colocar o Anticristo, afinal, qualquer ambiente que envolva militares deve ser literalmente o inferno na terra…

O grande William Holden interpreta o irmão de Gregory Peck, que é agora o guardião legal de Damien e dono de um rico conglomerado empresarial. Como no primeiro filme, aos poucos coisas malignas e mortes misteriosas começam a cercar a família do sujeito, que demora a acreditar que possui o filho do demo dentro de casa.

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Desta vez Damien tem um corvo de estimação que faz com que uma tia velhota (interpretada pela grande Sylvia Sydney) tenha um ataque cardíaco e arranca os globos oculares de uma repórter intrometida, que é atropelada por um caminhão (numa das piores cenas de atropelamento que eu já vi…). Há também uma boa sequência de afogamento num lago gelado, onde um sujeito fica preso debaixo do gelo… Todas essas cenas ainda dão impressão de acidentes e a ambiguidade que havia em A PROFECIA. Mas só até determinado ponto. Depois, A PROFECIA II abre as pernas para o sobrenatural e deixa claro que uma força diabólica é que está eliminando os desafetos do garoto. A sequência mais marcante é quando um médico é cortado ao meio pelo cabo de um elevador. A cena do trem também é bem tensa e explicita o mal de Damien e o final, mais uma vez niilista, é especialmente memorável.

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Uma das coisas que gosto em A PROFECIA II é que é mais focado em Damien, e é interessante acompanhá-lo nas descobertas de sua verdadeira natureza. Mas me parece que o filme não consegue desenvolver completamente a complexidade desse processo em todo o seu potencial, já que Damien basicamente aceita que ele é o Anticristo muito fácil, sem afetar muito sua vida adolescente. O grito perturbador na cena em que ele derrete o cérebro de seu primo é a única sequência que trabalham um pouco isso. Um outro problema é que por mais focado em Damien, A PROFECIA II apresenta personagens demais, alguns totalmente desnecessários para o que realmente interessa na trama… Até mesmo o Holden acaba sendo pouco aproveitado, longe de ter a força que Peck teve no filme anterior.

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Mas ainda temos a brilhante trilha de Jerry Goldsmith pontuando alguns momentos, e o elenco mais uma vez merece destaque. Lee Grant faz a tia defensora de Damien. O grande Lance Henriksen também faz um bom trabalho na sua participação, Scott-Taylor se sai bem como Damien adolescente – com certas expressões faciais de dar calafrios – e, bom, William Holden dispensa apresentações. Como disse no texto do primeiro filme, Holden recusou o papel que acabou parando nas mãos de Peck porque aparentemente não gosta de filmes de horror e não queria trabalhar em um. Ainda bem, não dá pra pensar em A PROFECIA sem o Peck. Mas como o original foi um enorme sucesso, resolveu encarar a continuação. Valeu também, entrega um ótimo trabalho, mas merecia um roteiro melhorzinho.

Sem a carga atmosférica aterradora, a elegância da direção de Donner, fica difícil comparar os dois filmes. A PROFECIA II perde feio. Mas ainda é um bom horror, com algumas boas atuações e momentos de tensão e mortes que fazem a sessão não virar um desperdício. Veremos como vai ser o terceiro agora…

A PROFECIA (The Omen, 1976)

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Revi depois de séculos A PROFECIA. Filmaço demais… Elenco de primeira, produção impecável, a trilha sonora de Jerry Goldsmith, sequências aterrorizantes antológicas… Além de ser um filme que possui todas as características de um horror específico de classe e elegância no qual havia começado a surgir em meados dos anos 60, quando o gênero finalmente foi levado à sério pelos grandes estúdios após o sucesso de obras como O BEBÊ DE ROSEMARY e O EXORCISTA.

E foi depois de assistir ao clássico de William Friedkin que o produtor Harvey Bernhardt teve a ideia de realizar uma obra de horror com bases religiosas, mas que pudesse bater de frente com O EXORCISTA. Sim, o cara não queria apenas aproveitar o sucesso do horror de Friedkin, mas produzir uma obra que tivesse a mesma importância no gênero.

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Quando Bernhardt se aproximou do roteirista David Seltzer (A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE) com a ideia de fazer um horror religioso, o roteirista ficou relutante porque sequer havia lido a Bíblia na vida. Mas foi exatamente por aí que ele começou sua pesquisa, um material pelo qual acabou se tornando fã. Seltzer ficou fascinado especialmente pelo livro de Apocalipse, as passagens que falam do surgimento do Anticristo, o contexto pelo qual ele nasceria, que tipo de família teria, o número da besta, 666, e assim o roteiro de A PROFECIA foi tomando forma.

Demorou seis semanas para Seltzer terminar o script. Bernhardt finalmente pode andar pelos estúdios com o projeto debaixo do braço, mas era sempre recusado com o consenso de que o material era muito assustador… Acabou parando na Warner ainda em 1974, mas quando O EXORCISTA II: O HEREGE entrou no radar da produtora, acharam que A PROFECIA era muito similar e acabou sendo engavetado por um ano, período que se a produtora não começasse os trabalhos, o roteiro ficava livre novamente. E foi o que aconteceu. Curioso que a continuação d’O EXORCISTA só acabou lançado em 1977, um ano depois de A PROFECIA.

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O diretor Richard Donner papeando com o grande Gregory Peck

É que os caras agiram rápido. O próximo movimento foi enviar o roteiro à Richard Donner, que viu potencial na coisa e botou na cabeça que queria dirigir o projeto de qualquer maneira. Donner já era um veterano da televisão na época, mas em produções para cinema ainda não tinha feito nada relevante (o sujeito depois se tornaria um dos grandes artesões de Hollywood, com SUPERMAN e a série MÁQUINA MORTÍFERA no currículo), mas ele e o produtor Alan Ladd Jr. acabaram assumindo à frente da produção de A PROFECIA, sob a batuta da Fox.

Como todo bom e velho set de produção de filmes de horror demoníaco, a coisa parecia meio amaldiçoada e alguns eventos sinistros começaram a ocorrer com membros da equipe e atores durante as filmagens. Vale a pena listar como curiosidade: Gregory Peck e Seltzer, por exemplo, pegaram aviões separados para ir as filmagens na Inglaterra e ambos os aviões foram atingidos por um raio. O mesmo quase aconteceu com Bernhard, que estava em Roma, quando um raio por pouco não lhe atinge a cabeça. Os rottweilers contratados para o filme atacaram seus treinadores. Um hotel no qual Donner estava hospedado foi bombardeado pelo IRA! E o sujeito também foi atingido por um carro enquanto atravessava a rua. Depois que Peck cancelou um vôo para Israel, o avião que ele viajaria caiu, matando todos a bordo…Brrrr Dentre outras coisas do tipo.

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Bom, vamos ao filme. Na trama de A PROFECIA, o filho do embaixador americano, Robert Thorn (Gregory Peck) morre no parto. Para evitar o sofrimento da mulher (Lee Remick), ele acaba adotando ilegalmente um menino de um padre que estava no local, e lhe dá o nome de Damien (Harvey Stephens) para criar como seu próprio filho. O único problema é que o moleque, na verdade, é o filho do Demo, o Anticristo em carne e osso…

Claro que o embaixador não vai acreditar nisso de primeira. Mas então, no aniversário de Damien, sua babá se pendura pelo pescoço na frente de uma infinidade de crianças, um padre que tentava alertar a Thorn que seu filho é o Ziza acaba empalado por um pára-raios, sua esposa quase quebra o pescoço ao “cair acidentalmente”, a cabeça de um fotógrafo que ajuda Thorn é cortada por uma folha de vidro e, por fim, o protagonista encontra um 666 marcado no couro cabeludo do moleque. Aí sim, Thorn finalmente está convencido de que seu filho é o Anticristo.

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E uma ideia que gosto neste primeiro filme da série A PROFECIA é que Damien é muito novo para entender sua essência maligna, que ele é o Anticristo, o terrível mal que causa às pessoas. Ele é simplesmente controlado por uma força diabólica e inocentemente não sabe. O que faz do personagem de Peck ainda mais complexo, por carregar o peso da culpa em tentar fazer algo bom para sua esposa, mas que se torna também o seu principal pecado.

Originalmente, o roteiro de Seltzer era bem mais explícito no tom sobrenatural, com direito à criaturas demoníacas aparecendo na tela. Mas decidiram que o roteiro precisava de uma pequena “podada” e chegaram à conclusão de que o filme deveria ser o mais realista possível, que o horror deveria vir da paranoia de um pai em relação ao filho e todos os eventos aterrorizantes deveriam ter uma ambiguidade. A PROFECIA se constrói de modo a encorajar a dúvida no espectador… Será que foi um acidente, uma coincidência, ou foi mesmo obra do tinhoso? Até que se chegasse no limite… É meio que uma recusa, no bom sentido e para benefício do filme, do uso de elementos sobrenaturais para deixar o espectador decidir se o protagonista está louco ou se há realmente algo demoníaco no garoto. Todas as mortes do filme podem ser plausivelmente explicadas e nunca se escancara para o fantástico. As continuações não tiveram a mesma sensibilidade e eliminam qualquer vestígio de ambiguidade.

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Mas nada impede de termos alguns momentos aterrorizantes, como o ataque dos babuínos no carro da senhora Thorn; a sequência que Thorn e o fotógrafo vão num cemitério e acabam rodeados de rottweilers; ou toda a sequência final em que Thorn precisa tirar Damien de casa e sacrificá-lo numa igreja, mas não sem antes encarar a babá (Billie Whitelaw), uma adoradora do Diabo que morreria antes de deixar que Thorn faça qualquer mal à criança…São alguns exemplos de gelar a espinha.

No elenco, depois que Charlton Heston, William Holden (que ironicamente estrelou a continuação em 1978, DAMIEN: THE OMEN II) e Roy Scheider recusaram o papel, Gregory Peck achou que seria uma boa aceitar fazer um pequeno filme de terror e tentar se libertar de um trauma pessoal que estava vivendo depois do suicídio de seu filho. E Peck é absolutamente vital para o impacto de A PROFECIA. É um astro de longa data mais conhecido por sua interpretação de figuras de autoridade reconfortantes, como o advogado em O SOL É PARA TODOS e agora o vemos aqui, precisando empunhar uma adaga mística para matar o Anticristo, que por um acaso é um moleque que ele criou… À medida que seu personagem passa por uma transformação gradual de sólida integridade à crescente paranoia e medo, o filme se aprofunda num arrepio palpável. É impossível imaginar o mesmo impacto com outro ator.

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Todo o elenco merece destaque. A adorável Lee Remick (ANATOMIA DE UM CRIME) é a escolha perfeita como a esposa de Peck, e embora seu papel não permita tanto tempo de tela, ela interpreta a desintegração mental gradual da personagem muito bem. David Warner (STRAW DOGS) tem uma boa participação como um fotógrafo que se depara com um fenômeno estranho e resolve ajudar o protagonista. Acrescenta muito a um personagem que certamente não teria muito peso na trama, mas acaba tendo uma química forte com Peck. Billie Whitelaw está absurdamente sinistra como a babá do Inferno, enquanto Patrick Troughton chama a atenção como o padre perturbado que avisa Thorn sobre o perigo iminente. Leo McKern e Martin Benson também brilham em pequenos papéis.

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Um dos mais memoráveis, no entanto, é o pequeno Harvey Stephens como Damien. É um belo retrato da inocência e da malevolência num rosto angelical, e ele se mostra muito hábil em lidar com as diferentes facetas de seu personagem.

A longa experiência de Richard Donner na televisão deu a ele as condições que ele precisava para trazer substância para o projeto, mas também mostra um tremendo talento para o artesanato visual, fazendo uso inspirado da tela larga. Sua abordagem sensata à história, mais focada no clima e na tensão atmosférica impede também que o filme se torne grosseiro ou descambe para o exploitation, e até mesmo as célebres cenas das mortes, como o empalamento do padre e a decapitação do fotógrafo em câmera lenta ao estilo Peckinpah, são tratadas com bom gosto e moderação.

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Donner também demonstra muita noção de ritmo e conduz o filme num compasso lento mas sem excessos, sem tirar o ânimo do espectador em momento algum ou perder o foco da tensão da trama. E não dá pra terminar este texto sem mencionar a maravilhosa trilha sonora de Jerry Goldsmith, que acabou levando o Oscar daquele ano, desbancando Bernard Herrmann com sua trilha para Taxi Driver. Um canto coral apocalíptico arrepiante e poderoso que se encaixa perfeitamente no tom do filme. E Donner soube como fazer tudo funcionar lindamente.

O filme teve três continuações, as duas primeiras, DAMIEN: A PROFECIA 2 e A PROFECIA III: CONFLITO FINAL foram parar no cinema, e uma última, mais obscura, OMEN IV: THE AWAKENING foi feita para a TV já nos anos 90. Preciso rever a parte II e III para emitir qualquer opinião, mas essa quarta parte nunca encontrei para ver e me parece um produto bem picareta tentando resgatar a série… Mas só vendo mesmo pra saber.

Recentemente, A PROFECIA passou na tela grande, nesses clássicos que a rede Cinemark exibe mensalmente. Eu acabei perdendo, vê-lo no cinema provavelmente teria um impacto ainda maior. Mas fica a recomendação de um grande filme de horror dramático e apocalíptico que merece sempre ser visto e revisto.

GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER (1964)

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Vi outro Godzilla. Tô ficando viciando nesses filmes de monstro japoneses, também conhecidos como filmes de monstros de roupa de borracha destruidores de maquetes. Tenho assistido aos poucos, devagar quase parando, os tempos atuais não me permitem assistir tudo de uma vez, mas tá bacana acompanhar essa franquia em sequência e perceber a progressão de cada produção, como cada obra se esforça para superar o filme anterior especialmente em termos de destruição e grandiosidade.

Em GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER, o diretor Ishiro Honda e sua turma chutaram o pau da barraca e colocaram quatro monstros no mesmo filme (um deles o Godzilla), que não apenas lutam entre si, mas também se unem para encarar um inimigo em comum, que neste caso é Ghidorah, o monstro espacial de três cabeças. E essa é uma fórmula que vai marcar a franquia para sempre, que passa a povoar cada filme da série com o maior número de monstros possíveis em alianças e tretas em escalas gigantescas.

bscap0184bscap0181A trama começa com uma chuva de meteoros que chamam a atenção da população que observa os céus maravilhado. Um meteorito específico cai numa região montanhosa e intriga os cientistas com suas propriedades magnéticas poderosas. Numa história paralela a essa, a princesa de uma pequena nação é misteriosamente poupada da morte, saltando instantes antes de seu avião explodir no ar. Quando a garota atordoada, que milagrosamente sobreviveu à queda devido a uma força alienígena, aparece em público, ela sofre de amnésia e fala para todos que veio de outro planeta. Além disso, a moça começa a fazer premonições, como a que Godzilla e Rodan irão ressurgir e causarão destruição mais uma vez.

Mas o verdadeiro problema é um monstro do espaço chamado Ghidorah, que ela alerta com mais ênfase, dizendo ser capaz de destruir toda a raça humana. Eventualmente, o tal meteorito ultra magnético que caiu nas montanhas se abre e liberta o grandioso Ghidorah.

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Em algum lugar no Japão, Godzilla e Rodan aparecem e começam a brigar. Mothra (que eu já apresentei aqui no blog) intervém na briga e pede aos outros dois monstros para que ajudem a defender a humanidade do monstro espacial de três cabeças. GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER marca portanto um importante ponto de virada na história da série Godzilla. Afinal, é aqui que o famoso monstro japonês se torna um defensor da raça humana… Claro, na cena em que surge ele explode um navio cheio de inocentes tripulantes, mas no decorrer da trama acaba convencido a virar a casaca… Então, no fim das contas temos Godzilla, Mothra e Rodan vs. Ghidorah. Parece covardia, mas Ghidorah é foda pra cacete e daria uma surra em qualquer um deles caso resolvesse bancar o fodão sozinho…

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A subtrama com os humanos também evolui e se desdobra num thriller de ação interessante com a descoberta de que o avião da princesa fora sabotado. Como ela ainda se contra viva, mesmo com amnésia, há toda uma conspiração para matá-la e assassinos profissionais são enviados com esse objetivo. Um policial resolve se meter à guarda-costas da moça, o que nos leva a algumas sequências rápidas de tiroteios em meio ao festival de destruição de cidades em miniatura causada pelos monstrengos.

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Godzilla e Mothra são duas figuras já conhecidas por aqui, embora este último só compareça em GHIDORAH na sua forma de larva, do jeito que termina o filme anterior, MOTHRA VS GODZILLA. Quem faz estreia na série é Rodan, que já havia estrelado seu próprio kaiju, RODAN (1956), também dirigido por Honda, e Ghidorah, que acaba por ser um dos mais poderosos vilões dentre os quais Godzilla e sua turma tiveram que encarar. Mesmo que demore um pouco para que todos os kaijus apareçam juntos na tela e comecem a esmagar as coisas e bater uns nos outros, ainda temos sempre alguns momentos absurdos proposto pelo roteiro que, apesar de risíveis e altamente questionáveis, é o que fazem a obra ser ainda mais divertida, como a sequência em que Mothra consegue interferir na batalha entre Godzilla e Rodan para convencê-los de encarar Ghidorah, enquanto as duas gêmeas em miniatura (sim, elas estão de volta!) narram o que os monstros estão falando… Desses momentos inacreditáveis que de tão constrangedor acaba por ser também hilário!

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No comando da coisa toda, Ishiro Honda manda bem novamente nas sequências de pancadaria de kaijus, abusando de efeitos especiais cada vez melhores e miniaturas cada vez mais realistas sendo destruídas enquanto os monstros trocam golpes e raios, com um trabalho de câmera bem legal, enquadramentos tortos, planos abertos, à distância, que dão noção da grandiosidade dessas batalhas…

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GODZILLA (1954) ainda pode ser o melhor exemplar, com sua seriedade e um contexto histórico relevante, e fica evidente que nenhuma das sequências são refinadas em termos de roteiro, narrativa e atuações, como o clássico que deu origem a isso tudo, mas isso não importa muito. Esses filmes são sobre monstros destruindo miniaturas e trocando socos entre si. E a esse respeito, GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER definitivamente não decepciona, especialmente por Honda acertar em cheio ao escalar vários monstros nipônicos para tretarem num único filme, o que acaba por ser um registro importante de uma época onde a imaginação e a inocência eram cruciais para encantar o público. Tá certo que tudo isso não passou de um ensaio para o que estaria por vir, já que em 1968, Honda ainda faria um compêndio de monstros ainda maior, em DESTROY ALL MONSTERS. Mas a gente ainda chega lá.

DERSU UZALA EM DVD – CPC UMES FILMES

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No ano em que se completa vinte anos da morte do diretor japonês Akira Kurosawa, a CPC UMES FILMES está lançando DERSU UZALA, produzido pela Mosfilm, numa bela edição restaurada. No final do ano passado, publiquei por aqui algumas impressões dessa obra-prima quando vi na mostra de cinema soviético organizado pela própria CPC UMES FILMES e mal posso esperar para rever em DVD. Vai ficar bonito na estante. Em breve trago mais detalhes dessa edição.

DERSU UZALA já está disponível na loja virtual da distribuidora, que vem fazendo um dos melhores trabalhos de curadoria home video no Brasil, com filmes que realmente valem a pena ter na coleção. Clique aqui para adquirir o seu!

E não deixe de curtir a página da distribuidora no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

BUÑUEL #2: A IDADE DO OURO (1930)

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Buñuel passando por aqui. Comentei no último post sobre um UM CÃO ANDALUZ, que causou certa agitação quando foi lançado, como é notório. É difícil ficar indiferente diante da grandeza subversiva deste primeiro trabalho do espanhol até mesmo hoje, passados mais de 90 anos. Um desses marcos que serviu de influência àqueles que buscavam inspiração para uma vanguarda cinematográfica. Mas há quem diga que foi apenas um aquecimento para o que estava por vir logo à seguir: A IDADE DO OURO.

Concordo em partes. É difícil adjetivar UM CÃO ANDALUZ como um aquecimento. Por outro lado, A IDADE DO OURO realmente surge como um progresso do talento de Buñuel como artista, até porque este aqui é um trabalho bem mais pessoal. Ainda que seja divulgado como a segunda parceria entre Buñuel e Salvador Dalí, há muito pouco do artista plástico por aqui.

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Assim que a produção iniciou, Buñuel e Dalí se desentenderam, o diretor acabou limando as ideias de Dalí, que acabou se recusando a ter qualquer coisa a ver com a realização do filme. Rola até boatos que no primeiro dia de filmagem, Buñuel perseguiu Dalí no set com um martelo… Não duvido de nada vindo de alguém que encheu os bolsos de pedras para se defender de uma possível reação agressiva do público na estreia de UM CÃO ANDALUZ… Pra não dizer que Dalí não fez nada, em sua biografia Buñuel assume que há uma cena no filme que foi escrita pelo pintor.

Sem muita contribuição de Dalí, e com uma hora de duração para fazer suas maluquices, é possível perceber de cara algumas diferenças em relação ao seu trabalho anterior. A IDADE DO OURO possui uma lógica narrativa relativamente menos irracional. Ou seja, por mais inserido no movimento surrealista, existe uma história definida que Buñuel desejava contar. E se UM CÃO ANDALUZ não tinha nada a ser interpretado pela sua pureza na falta de lógica, aqui os simbolismos representam coisas, existem alvos a serem alvejados. É principalmente uma sátira sobre os costumes morais e sociais burgueses e um ataque feroz à igreja católica. ❤

O filme começa como um documentário sobre escorpiões, dando atenção especial às seções da cauda do bicho, cuja sexta seção é a bolsa cheia de veneno. Com algum esforço, talvez dê para delinear A IDADE DO OURO em seis seções, e igualar a seção final como a mais espinhosa – uma espécie de recriação dos “120 Dias de Sodoma“, de Sade, mas com uma figura parecida com Jesus Cristo emergindo cansado de uma orgia – como o golpe final desta obra-prima iconoclasta.

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Provavelmente, a coisa mais consistente que temos de uma trama é o retrato bizarro de um homem e uma mulher que se apaixonam e repetidamente tentam se reunir e consumar essa paixão.  Em outras palavras, eles querem é sexo! Mas são continuamente impedidos de fazê-lo por membros da respeitável sociedade burguesa. Esses que até hoje nos causam problemas, como por exemplo impedir o quadro da Banheira do Gugu no início da década passada… Bando de moralistas filhos da p@#$%!

Bom, a multidão prende o sujeito que só queria esvaziar o saco, e que já estava rolando na lama com sua amada, e ele responde com atos de selvageria para minar sua moralidade: chuta um cachorro, esmaga um besouro, espanca um cego, pisoteia um violino e até estapeia uma mulher da alta sociedade numa festa da aristocracia. Esses atos selvagens só conectam cada vez mais o casal apaixonado, que não consegue manter as mãos e as línguas longe um do outro… Ou dos pés de uma estátua, numa das imagens mais icônicas de A IDADE DO OURO.

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Toda essa narrativa vem frequentemente acompanhadas por imagens estranhas e surreais, que ainda conservam um incrível e inquietante poder de nos impressionar nos dias de hoje: a mulher que espanta uma vaca da sua cama em sua casa de classe alta, o jardineiro que dispara com uma espingarda arbitrariamente e mata seu filho, o protagonista que joga vários objetos – simbólicos ou não – de uma janela, incluindo uma árvore em chamas, uma girafa e, para alegria da igreja católica, um bispo. E o tal final, que é uma das melhores coisas do filme, que coloca Jesus saindo do castelo dos 120 dias de Sodoma depois de participar de uma orgia.

Todo o tipo de simbolismo possível que Buñuel pudesse conceber para atacar a igreja católica ou a burguesia foram utilizados aqui. Não é a toa que a IDADE DO OURO ficou banido por décadas em alguns países e seu diretor excomungado… Filme altamente recomendado principalmente para os iconoclastas de plantão que não tem problema com a abordagem de britadeira de Buñuel à sua sátira mordaz.

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BUÑUEL #1: UM CÃO ANDALUZ (1929)

Tava revendo no youtube UM CÃO ANDALUZ, primeiro filme do espanhol Luis Buñuel, um curta tão fundamental para qualquer cidadão que tenha o mínimo de interesse pelo cinema e, caramba, lá se vão praticamente noventa anos de existência desta pequena obra-prima… Ainda hoje, revendo essa merda, as imagens me impressionam tanto que resolvi tentar dar uma peregrinada na obra do diretor. A última vez que fiz isso à sério aqui no blog foi com o Don Siegel, há uns dois anos, e agora resolvi que quero homenagear Luis Buñuel. Um desafio, eu sei, custe o tempo que custar, tempo que anda curto pra cacete ultimamente, veremos como vai ser isso…

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Apesar de UM CÃO ANDALUZ ter o prestígio como obra surrealista, não vale a pena reduzir Buñuel apenas à alcunha de “mestre do surrealismo”, seria fechar as portas para uma variedade de significados que cada um de seus filmes que eu vi até agora emana de maneira muito própria. Mas aqui, neste seu primeiro trabalho, é impossível fugir desse movimento, é de longe o filme surrealista mais conhecido, em parte devido a participação do pintor surrealista de Salvador Dali na sua concepção, mas também por causa de imagens específicas que nunca parecem deixar a nossa consciência cinematográfica.

É impossível também explicar o que se trata UM CÃO ANDALUZ, apesar de todas as interpretações freudianas encontradas em críticas espalhadas por aí. Prefiro acreditar na insistência do próprio Buñuel de que não há nenhum significado por aqui, mas cuja inspiração eram os elementos irracionais coletados dos seus sonhos e do seu co-autor, Dalí.

Como Buñuel explicou certa vez: “Nossa única regra (ao escrever o roteiro) era muito simples: nenhuma ideia ou imagem que pudesse se prestar a uma explicação racional de qualquer tipo seria aceita. Tínhamos que abrir todas as portas para o irracional e ficar apenas aquelas imagens que nos surpreenderam, sem tentar explicar o porquê.

Acima de tudo, UM CÃO ANDALUZ representa uma consciência imagética que penetra em nossa consciência e dá uma noção do que os jovens surrealistas estavam fazendo no período em ressignificar as convenções artísticas e, no caso específico de Buñuel, subverter agressivamente a forma e a estrutura do cinema.

A coerência narrativa, por exemplo, está longe de ser o foco por aqui, o que já era absurdamente ousado; as cenas se contrapõem como um fluxo de consciência, e realmente há uma influência das teorias psicanalíticas de Freud, mas não é algo fechado a ser compreendido. Se a sequência de eventos em forma de sonho não faz nenhum tipo de sentido convencional, o filme ainda tem substância visual suficiente para envolver e assombrar os espectadores – como um sonho. E se até hoje algumas imagens conseguem impactar, imaginem o tapa na cara que deve ter sido em 1929.

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Um bom exemplo é logo no início, a notória cena da lua sendo cortada por uma nuvem, em transição para um globo ocular de uma mulher sendo aberto à navalha – foi utilizado um bezerro morto na filmagem, mas imagem que fica surpreende ainda hoje…

O filme é uma série de gags surrealistas, como já disse, retiradas dos sonhos dos realizadores, e que vão se amontoando ao longo de uma narrativa sem qualquer linearidade ou lógica. A navalha é a mais impressionante, é uma das imagens mais usadas para representar UM CÃO ANDALUZ,  mas pra mim, a cena mais marcante é a do homem com as mãos no seio da mulher, cuja face, numa espécie de êxtase do orgasmo, se confunde com a de uma espécie de zumbi, um morto-vivo… Outras sequências que me vem à mente de forma aleatória é a da mão que brotam formigas ou a do sujeito puxando penosamente dois pianos contendo um burro morto em cada um e com dois sacerdotes sendo arrastados no meio disso tudo (um deles é o próprio Dalí). Buñuel também aparece, é o fumante que surge na cena de abertura, que corta o olho da mulher com a navalha.

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A primeira exibição de UM CÃO ANDALUZ teve uma audiência cheia de notáveis, incluindo Pablo Picasso, Jean Cocteau e todo o grupo surrealista de André Breton. A recepção positiva do público ao filme surpreendeu Buñuel, que ficou aliviado por não haver violência, já que tinha enchido os bolsos de pedras, caso fosse necessário enfrentar uma plateia enfurecida. Dalí, pelo contrário, ficou desapontado, sentindo que a reação do público fez a noite “menos emocionante”.

Quem nunca viu, assista, não passa de 20 minutos. Para facilitar, segue UM CÃO ANDALUZ na íntegra: