QUANDO VOAM AS CEGONHAS (1959); CPC UMES FILMES

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Já tinha visto QUANDO VOAM AS CEGONHAS no DVD que a Continental lançou na década passada. Não lembro direito da qualidade dessa versão – como sabemos qualidade nunca foi o forte dessa pífia distribuidora – mesmo assim, lembro de ficar extremamente impressionado com as imagens que o diretor Mikhail Kalatozov e o seu fotógrafo, Sergey Urusevsky, conceberam. Um deslumbrante exercício estético em preto e branco de encher os olhos. Toda essa impressão se confirmou agora com a revisão do filme lançado em DVD, com imagem restaurada, pela CPC UMES FILMES, na sua incrível série Cinema Soviético. 

QUANDO VOAM AS CEGONHAS foi a coroação do cinema soviético no período e um dos melhores filmes anti-guerra já feitos. Trata-se de uma experiência emocionalmente devastadora, contando a história de amor envolvendo o jovem Boris, que se une ao exército soviético num rompante de patriotismo, deixando para trás a sua bela namorada Veronika. O filme detalha minuciosamente a maneira como a guerra separa os dois pombinhos, tornando-se um dos primeiros filmes soviéticos a realmente lidar com os efeitos negativos da Segunda Guerra Mundial.

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Dois pontos chamam a atenção em QUANDO VOAM AS CEGONHAS. Primeiro, o coração do filme é Tatiana Samoylova, que dá vida à Veronika, numa atuação hipnotizante e emocionalmente forte. Uma das grandes performances do período. Sobrinha-neta do famoso e influente ator e professor de teatro Constantin Stanislavski, cujo método de atuação inspirou dezenas de grandes atores como Marlon Brando, Jack Nicholson, Paul Newman e muitos outros, é bem provável que Samoylova tenha usado seus ensinamentos. Demonstrando grande talento e uma beleza ímpar, foi convidada para trabalhar em Hollywood e em outros lugares fora da União Soviética depois de QUANDO VOAM AS CEGONHAS, mas foi forçada a recusar essas ofertas por conta da situação política daquele contexto. Infelizmente, seu único outro grande papel foi na aclamada adaptação soviética de 1967 de Anna Karenina.

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Outro ponto marcante de QUANDO VOAM AS CEGONHAS é o visual impactante, que já mencionei, o deslumbre das imagens, um trabalho extremamente ousado e inventivo em termos de direção e cinematografia, com uso de câmeras na mão, composições viscerais e utilização dos espaços e profundidade de campo. É dessas obras reveladoras sobre como as possibilidades ilimitadas no manuseio de uma câmera, da edição, da luz e sombras, essa matéria prima que chamamos de CINEMA, têm a capacidade de transcender a própria natureza do filme…

Não existe um plano sequer em QUANDO VOAM AS CEGONHAS que seja imperfeito ou desnecessário. Há uma sequência, no entanto, que é uma das minhas favoritas, quando Veronika corre em direção à uma estação de trem e Kalatosov faz desse simples ato um dos momentos mais imaginativos do filme, com uma câmera chacoalhando, um trabalho de câmera genial que cria um efeito ofegante, permitindo que nos sintamos exatamente como Veronika se sente. É simplesmente absurdo.

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Não é toa que digo que foi a coroação do cinema soviético. QUANDO VOAM AS CEGONHAS recebeu a Palma de Ouro no festiva de Cannes, em 1958, desbancando filmes como MEU TIO, de Jacques Tati, e NO LIMIAR DA VIDA, de Ingmar Bergman. E apesar de não ter vencido como melhor atriz, Samoylova recebeu uma menção especial por sua atuação.

Kalatosov também é conhecido por outra obra deslumbrante chamada EU SOU CUBA, um filme todo encadeado com alguns dos mais belos planos da história do cinema. Também foi lançado aqui no Brasil numa edição vagabunda pela Continental. Nada que a CPC UMES FILMES não possa consertar com uma edição caprichada, da mesma forma que temos agora esta de QUANDO VOAM AS CEGONHAS, uma obra-prima do cinema soviético indispensável a qualquer indivíduo interessado por cinema de verdade.

O filme pode ser encontrando na loja virtual da distribuidora e em várias lojas do gênero e livrarias. E não deixe de curtir a página da CPC UMES FILMES no Facebook para ficar sabendo das novidades, especialmente do cinema soviético, e os seus próximos lançamentos em DVD e no cinema.

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[CAGESPLOITATION] O PACTO (2011)

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Eu adoro como o Nicolas Cage se entrega de uma maneira tão especial nos papéis que faz, mesmo em filmes péssimos. Concordo com essa ideia de que ele acabou meio que criando um gênero de si mesmo. Quero dizer, um filme de suspense, ação, terror, pode ser bom ou ruim, mas se tem o Nic Cage como protagonista, automaticamente o filme fica bom e o gênero não importa mais, porque estamos diante de um Cagesploitation!

Um bom exemplar do que andei assistindo da fase “atual” do Cage foi este O PACTO, que é um thriller bem bobinho, mas que faz uma baita diferença por tê-lo como protagonista. Cage é Will Gerard, professor de inglês de uma escola secundária de New Orleans, cuja esposa Laura (January Jones), numa noite qualquer, é brutalmente estuprada. No hospital, Will é abordado pelo misterioso Simon (Guy Pearce) que afirma saber quem é o estuprador e vai “cuidar dele” para Will. Só que agora ele ficará devendo um favor quando for solicitado. Naquela mesma noite, o estuprador é morto.

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Seis meses depois, Simon contata Will e o instrui a matar um pedófilo que anda à solta pela cidade. Quando Will se recusa a retribuir o favor, Simon e sua equipe, que parece estar sempre em qualquer hora e qualquer local de New Orleans, começa a transformar a vida do sujeito num inferno. Will, um simples professor, se vê obrigado a lidar com mortes misteriosas, traição e um intrigante jogo de gato e rato que põe em risco a sua vida e da sua esposa. E esse simples professor acaba se tornando num herói de ação, porque, claro, é o Nic Cage! Ele se mete em altas confusões para manter a pele intacta.

À medida em que o filme continua e o roteiro vai revelando várias surpresas absurdas, acumulando plot twist totalmente desnecessários, Cage vai ficando cada vez mais solto, com um desempenho que lhe é característico: caretas, gritaria, correria enlouquecido… Que é realmente a marca registrada do sujeito e que os fãs adoram. Guy Pearce é sempre bom de se ver e está muito bem como vilão. O filme conta com ainda no elenco com Harold Perrineau, Xander Berkeley, Iron E. Singleton (O T-Dog da série THE WALKING DEAD) e uma pequena participação de Jennifer Carpenter. Tobey Maguire, aquele ator que só é lembrado pelos filmes do Homem-Aranha do Sam Raimi, foi um dos produtores. E a direção é do veterano Roger Donaldson (O INFERNO DE DANTE e A EXPERIÊNCIA).

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Como eu disse, O PACTO é um exemplar bem besta como thriller, mas ao mesmo tempo não deixa de ser uma patetice agradável nível Supercine, para se ver naquele sábado à noite que você acabou não tendo nada melhor para fazer. Os fãs de Nic Cage obviamente vão ter um gostinho a mais. Quando o sujeito está realmente interessado no material, nem roteiro ruim deixa de ser divertido…

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CÃES DE ALUGUEL (1992)

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Revisão de CÃES DE ALUGUEL. E não é que continua uma belezura? É claro que vendo com os olhos de hoje, com mais bagagem e menos vislumbre que na época de adolescente, quando descobri o filme, percebe-se a mão pesada do Tarantino em alguns momentos. Já entrei em alguns debates com verdadeiros fãs do filme sobre isso, amigos que consideram CÃES DE ALUGUEL a obra-prima do diretor. Respeito de forma absoluta. No entanto, pessoalmente, acho que possui alguns problemas de decupagem, com certos trechos cansativos e muito teatrais (especialmente a que constrói o personagem do Tim Roth)… Mas esse tipo de questão é normal para um estreante, que se arriscou num trabalho autoral, com sua assinatura, como é o caso de Tarantino. E é um cinema feito com tanta paixão e honestidade que esses probleminhas nem incomodam e é difícil não ficar absorvido por aquele universo tão peculiar.

A cena de abertura é uma das minhas favoritas, com uma câmera que gira em torno da gangue de assaltantes vestidos de ternos pretos, discutindo uma tese genial a respeito do verdadeiro significado da letra de “Like a Virgin“, da Madonna. Daí pra frente Tarantino nos coloca em um mundo que é ao mesmo tempo familiar e diferente. E acho que é esse o charme dos seus primeiros filmes. Ele compreende tão bem o tipo específico de cinema de crime e ação, que acaba encontrando novas maneiras de abordar o gênero, tornando-os renovados, cheios de frescor. Em CÃES DE ALUGUEL é o filme de gangster e de assalto, cujo roubo de uma joalheria nunca é mostrado, apenas suas consequências. Tudo embalado numa interessante estrutura não-linear que ajuda a ter uma ideia de quem são esses indivíduos e como entraram na jogada.

O elenco e os vários duelos entre os atores acabam sendo o grande destaque de CÃES DE ALUGUEL, até porque já aqui neste primeiro trabalho Tarantino demonstra que seu forte é a criação de diálogos fantásticos. Temos Harvey Keitel (que também foi produtor do filme) e Tim Roth matando a pau; Lawrence Tierney e Chris Penn (irmão do Sean) também estão ótimos. Mas quem realmente se sobressai nessa turma toda é Steve Buscemi como o arisco Mr. Pink e, acima de todos, Michael Madsen, como Mr. Blue, que protagoniza a sequências mais violenta do filme, a que seu personagem corta a orelha de um policial ao som de Stuck in the Middle With You, do Stealers Wheel. Essa combinação de violência irônica e humor negro é essencial para entender uma das facetas do estilo de Tarantino. Mas também o universo de referências e reverência ao cinema pelo qual Tarantino é apaixonado, o uso da trilha sonora, a abordagem moderna e desconstruída de certos gênero… E tudo já está aqui, em CÃES DE ALUGUEL, um dos filmes mais importantes dos anos 90 e que só foi eclipsado porque o próprio Tarantino lançou dois anos depois PULP FICTION, querendo ou não, um dos filmes mais cultuados e influentes dos últimos trinta anos.

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ANGEL FACE (1952)

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Em 1952, o famigerado magnata e produtor de filmes Howard Hughes estava tão decidido a forçar a atriz Jean Simmons a fazer mais um filme para ele, que resolveu dar ao diretor Otto Preminger o controle artístico completo da produção, se ele conseguisse filmar em 18 dias, que era exatamente o que restava do contrato dela depois de seu último trabalho. Batalhas judiciais à parte entre a atriz e o produtor, Preminger aproveitou a chance e o resultado foi ANGEL FACE (no Brasil, o título um bocado ridículo, ALMA EM PÂNICO), um filme que é ao mesmo tempo um ótimo exemplo de film noir e uma obra pouco convencional dentro do gênero.

Robert Mitchum é o motorista de ambulância Frank Jessup, que é chamado, logo no início do filme, para a mansão de um escritor, cuja esposa quase morreu devido aos efeitos de um vazamento de gás. Um acidente? A mulher não pensa assim. No decorrer do atendimento, ele conhece a filha do escritor, Diane (Jean Simmons), cujas reações a esses eventos são estranhas, para dizer o mínimo. Jessup tem uma namorada, Mary, mas Diane o persegue nas noites e ele se vê fascinado por essa jovem bonita, mas enigmática. Uma típica configuração clássica do noir, com o sujeito sendo puxado para o abismo por uma femme fatale com intenções nefastas.

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No entanto, as coisas não são tão “preto no branco” por aqui, existem nuances, Preminger não nos dá nada tão direto, tão óbvio. Seus personagens realizam ações que consideram essenciais para sua própria proteção ou para a proteção de alguém que ama. Podem até estar errados, mas é assim que eles vêem as coisas, é assim que Diane acredita no que faz. E Preminger nunca entrega soluções fáceis ou faz julgamentos sobre essas ações, prefere jogar a responsabilidade para que o público faça seus próprios julgamentos. Até mesmo o comportamento de um personagem que pode ser interpretado como “vilão” da trama segue uma lógica de que seus atos podem ser vistos como razoáveis e morais, dependendo do ponto de vista, e de como entendemos a situação. E o que vemos é Diane atuando em algum sentido como uma clássica femme fatale, mas quando se espera que ela faça algo que uma femme fatale faria, ela faz o oposto.

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Toda essa espécie de desconstrução de modelos só é possível porque ANGEL FACE é um desses exemplos do período clássico do studio system – onde os produtores tinham o controle das obras – só que, como já disse, feito por um diretor que estava na posição de impor sua própria visão sem interferências, de poder atuar como um autêntico autor – não é toa que Preminger ganhou destaque entre a crítica francesa do período. Acredito que, por isso tudo, podemos colocar na conta do diretor sequências brutais, como a do carro que despenca na ribanceira, com os corpos dos ocupantes sendo estraçalhados (bonecos, obviamente, mas de um realismo impressionante), algo que provavelmente um produtor mais afrescalhado, no auge de 1952, teria vetado…

Preminger voltaria a trabalhar com Mitchum em O RIO DAS ALMAS PERDIDAS, que já comentei aqui no blog, numa das minhas fases mais “Mitchuniana”… Aliás, o sujeito está muito bem em ANGEL FACE. É um trabalho mais discreto, mas com boa presença. Quem acaba se destacando mesmo é Jean Simmons, nessa personagem complexa, ambígua, uma irresistível femme fatale atípica, que não se parece em nada com as traidoras de noirs como PACTO DE SANGUE, de Billy Wilder, e ALMAS PERVERSAS, de Fritz Lang.

Em 1964, Jean-Luc Godard colocou ANGEL FACE como um dos dez maiores filmes americanos da era do som. De fato é um grande filme.

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[trailer] DOMINO, DE BRIAN DE PALMA… Bom, pelo menos esperamos que ainda seja

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Sete anos depois de seu último trabalho, o injustamente ignorado PASSION, Brian De Palma parece estar oficialmente de volta com um filme fresquinho. Depois de vários problemas e atrasos que nem valem a pena comentar agora (mas vale dizer que o De Palma não teve o corte final da produção, então temos que torcer para que o estúdio não tenha cagado tudo e seja o que Deus quiser…), o thriller DOMINO finalmente será lançado em maio nos cinemas e no mercado VOD. O  primeiro trailer apareceu hoje.

No elenco temos Nicolaj Coster-Waldau (GAME OF THRONES), Carice van Houten (GAME OF THRONES também) e Guy Pearce (de um monte de filmes). A trama de DOMINO é sobre um policial de Copenhague que procura justiça, numa caçada de gato e rato, pelo responsável do assassinato de seu parceiro, cometido por um homem misterioso.

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.13: FOUR OF US ARE DYING (1960)

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Soube há poucos dias que TWILIGHT ZONE está de volta em 2019, uma nova versão da série, agora capitaneada pelo diretor Jordan Peele (CORRA e NÓS), dando uma de Rod Serling, fazendo o mesmo que o criador do seriado original, o qual além de roteirizar grande parte dos episódios, fazia as famosas narrações que tornaram o programa tão peculiar. Não vi ainda nenhum episódio dessa série nova, mas pela lista de diretores, nomes da nova geração que, se não são grandes mestres, possuem alguns bons trabalhos da safra atual do horror, acho que vale a pena uma conferida. Qualquer hora dou uma chance. Por enquanto, vou continuar peregrinando aqui nos episódios clássicos, ainda na primeira temporada.

Entramos agora na década de 60, estamos no décimo terceiro capítulo. THE FOUR OF US ARE DYING foi escrito pelo próprio Serling e dirigido por John Brahm. A trama é sobre um sujeito, Arch Hammer (Harry Townes) que possui a habilidade especial de poder mudar seu rosto, literalmente metamorfosear sua face para se parecer com outras pessoas. Geralmente, pessoas que já morreram… Durante o episódio, Arch usa sua habilidade para tentar melhorar sua vida (amorosa, financeira…) independentemente de seu efeito sobre os outros à sua volta.

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Primeiro, personifica o falecido trompetista Johnny Foster para conseguir com que sua namorada, Maggie (Beverly Garland), uma cantora, concorde em fugir com ele. Mais tarde, ele se faz passar por Virgil Sterig, um gângster recentemente assassinado, para tirar dinheiro do Sr. Penell, o bandido que matou Sterig. Seu plano dá errado e foge sendo perseguido por dois brutamontes. Para escapar, Hammer assume o rosto de um jovem boxeador, Andy Marshak, que ele vê num cartaz estampado num beco escuro. No entanto, ele encontra o pai do verdadeiro Marshak, que pensa estar diante de seu filho, o qual partiu o coração de sua mãe e acabou com a vida de uma doce moça. Hammer empurra o homem para o lado e volta ao seu quarto de hotel. Mais tarde, no entanto, quando ele retoma o rosto de Marshak, a fim de fugir de um detetive de polícia, ele encontra novamente o pai de Marshak, só que desta vez o homem tem uma arma em punho…

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No início de 1959, George Clayton Johnson, um jovem escritor, que viria ainda a contribuir com a série, e amigo de Charles Beaumont (que já havia roteirizado o nono episódio desta primeira temporada, PERCHANCE TO DREAM), escreveu um conto intitulado “All of Us Are Dying“, que era sobre um jovem que se aproveita do fato das pessoas o enxergarem como ” o indivíduo que mais querem ver no mundo” (sua queda ocorre quando ele entra em um posto de gasolina e o atendente o vê como um homem que há dez anos ele queria matar). Johnson apresentou a história a um certo agente, que encaminhou para Rod Serling.

Serling gostou logo de cara da ideia de um homem que pudesse ser visto com outros rostos. Ele comprou a história, e começou o trabalho de adaptação para a série e intitulou THE FOUR OF US ARE DYING. Como era o habitual de Serling, apenas um conceito, uma premissa, era utilizado, e escreveu um história bem diferente do original.

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Inicialmente, a produção considerou trabalhar apenas com um ator e, através de processos de maquiagem, mudar sua aparência para se adequar a cada personagem. Essa ideia acabou sendo descartada por causa da intensa composição que o ator teria que sofrer e da grande quantidade de tempo que iria se gastar. O que não era o normal no processo de produção e filmagens desses episódios, curtos e de baixo orçamento. Depois de um longo processo de casting, foram escalados os quatro atores que aparecem como “protagonistas” em THE FOUR OF US ARE DYING, todos com o intuito de fazer acreditar que por trás daqueles quatro rostos existia um único personagem, um único homem. O que deixa evidente a ideia de uma certa busca por uma identidade, ou a fuga de ser “quem você é” como forma de sobrevivência, o principal tema a ser investigado pelo episódio.

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É o que dá sentido a THE FOUR OF US ARE DYING. E o roteiro de Serling é impiedoso ao tratar do assunto contando a história de um homem tão especial, mas que no fundo é triste e que tem um fim implacável. A direção de John Brahm – que já havia realizado dois episódios, JUDGMENT NIGHT e TIME ENOUGH AT LAST, que é um dos meus episódios favoritos – é bastante engenhosa, imaginativa, e aproveita bem os econômicos, mas muito criativos, espaços e cenários estilizados que representam a grande cidade, cheias de placas, neons e atrações noturnas de várias espécias. O elenco está bem afiado, especialmente os quatro atores “protagonistas” e vale destacar a participação de Beverly Garland, que curiosamente também participa do filme que comentei no último post, O EMISSÁRIO DE OUTRO MUNDO. Chama a atenção também a notável trilha sonora do grande Jerry Goldsmith, em relativo início de carreira.

THE FOUR OF US ARE DYING é desses episódios essenciais de TWILIGHT ZONE.

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O EMISSÁRIO DE OUTRO MUNDO (Not of This Earth, 1957)

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Uma das ficções científicas mais interessantes e divertidas da primeira fase da carreira de Roger Corman como diretor (ou seja, antes de entrar na onda de adaptações de Edgar Allan Poe) é este O EMISSÁRIO DO OUTRO MUNDO, que revi recentemente num desses boxes de DVD sobre cinema Sci-Fi lançado pela Versátil. Já até havia comentado aqui no blog neste post a refilmagem dos anos 80 dirigida pelo pupilo de Corman, Jim Wynorski, mas fiquei devendo comentários sobre este clássico que lhe deu origem…

O filme de Wynorski era anacrônico e servia mais como um revival nostálgico dos filmes B Sci-Fi dos anos 50, mas era bem divertido também num certo sentido (além de conter algumas doses de peitos de fora que obviamente este aqui não tem). No entanto, o original do Corman, por mais simples e bobo que seja o roteiro e bastante pobre em termos de orçamento e produção, acaba por ter certa relevância e inteligencia para um produto voltado para um “público drive-in“. O filme traz algumas questões de seu tempo, especialmente em relação à histeria da corrida atômica, a paranoia de uma possível guerra nuclear em plena guerra fria. Segue, portanto, um certo padrão bastante típico de filmes de invasão alienígena do período, no qual os “invasores”, na verdade, são tão vítimas quanto nós, terráqueos.

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Humanóides alienígenas telepáticos estão se preparando para dominar a Terra, já que eles já foderam com seu próprio planeta moribundo depois de uma guerra nuclear e precisam de um novo lugar para brincar. Além disso, a raça desses indivíduos desenvolveu uma doença no sangue e, aparentemente, os seres humanos possuem o mesmo tipo sanguíneo. Portanto, o primeiro passo da missão alienígena aqui na terra é se infiltrar na nossa sociedade e tentar coletar um bocado de sangue para encontrarem uma cura para a tal doença…  É aí que entra Paul Birch como o assustador Sr. Johnson, um cavalheiro constantemente de óculos escuros, que esconde seus terríveis olhos brancos e brilhantes, capazes de derreter o cérebro de suas desavisadas vítimas.

Como precisa coletar muitas doses de sangue para enviar ao seu planeta, Mr. Johnson passa o tempo atraindo bêbados e sem-teto para sua bela casa, a fim de sugar-lhes até a última gota de sangue. Além disso, aproveita para fazer transfusão de seu próprio sangue eventualmente. Por isso, contrata uma enfermeira em tempo integral, Nadine Storey (interpretada por Beverly Garland), para lhe auxiliar. Por acaso, Nadine namora um policial, uma circunstância que obviamente causará a Johnson certo inconveniente. Tanto o policial como Nadine acabam suspeitando que coisas estranhas estão acontecendo na casa de Johnson, como pessoas que entram e desaparecem misteriosamente…

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Como é o caso do vendedor de aspirador de pó ultra moderno, numa participação curta mas GENIAL do grande e saudoso Dick Miller, que morreu recentemente. O sujeito bate à porta de Johnson e acaba atraído ao porão do alienígena para fazer uma demonstração do seu equipamento. Acaba também sendo mais uma vítima dos olhos brancos do ser do outro planeta, mas não sem antes de sua morte inevitável romper com a quarta parede, olhando diretamente para câmera, num desses momentos maravilhosos do cinema de baixo orçamento. E que só mesmo um Dick Miller pra fazer a coisa funcionar de maneira tão graciosa. Literalmente rouba a cena em seus dois minutos de tela…

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Mas os outros atores também estão bem. Paul Birch está desconectado o suficiente para parecer um autêntico alienígena humanoide telepata. Consegue passar uma imagem assustadora, ao mesmo tempo em que dá ao personagem um tom trágico. Beverly Garland também apresenta uma performance sólida, numa personagem feminina que foge dos padrões da mulher frágil e histérica dos filmes de monstros e sci-fi do período.

Vale destacar a direção de Corman, um dos maiores mestres do cinema independente americano que já pisou num set de filmagens, e demonstra aqui mais uma vez a sua eficiência imaginativa, sua capacidade de criar mundos praticamente do zero, especialmente num gênero como a ficção científica, sem orçamentos gordos para efeitos especiais, naves espaciais e maquiagens extravagantes. É um grande desafio e Corman faz um belo e criativo trabalho. Como fazer alienígenas parecerem alienígenas sem efeitos de maquiagem caros? Dando-lhes olhos estranhos, poderes de controle da mente e telepatia, todos os quais têm a vantagem de não custar nada no orçamento da produção. Você também dá aos alienígenas um dispositivo de teletransporte, muito mais barato do que ter que construir maquetes e naves espaciais, e por aí vai… Até uma pequena criatura monstruosa que parece uma água-viva feita de plástico de supermercado aparece por aqui, com direito aos fios que a puxam pelo ar bem visíveis na tela. E funciona lindamente!

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O EMISSÁRIO DO OUTRO MUNDO não é muito longo, e começa a funcionar imediatamente assim que o filme começa, num ritmo bom de se ver, apenas diminuindo a velocidade para fornecer em alguns momentos um pano de fundo sobre o habitante de fora, Mr. Johnson e o seu planeta Davana. Mais tarde, ficamos sabendo que Johnson não é o único Habitante de Davana na Terra, e o desfecho leva a coisa para um lado ambíguo, implicando que há muito ainda para se resolver. O que prova também a perspicácia dessa pequena produção capitaneada por Roger Corman em deixar as coisas abertas e por muito mais tempo na cabeça do público. Um filme bem legal com muito mais inteligência do que o maravilhoso pôster abaixo faz acreditar que seja.

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R.I.P. AGNÈS VARDA (1928 | 2019)

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CINECLUBISMO + FIRST REFORMED (2017)

Sábado fui prestigiar a primeira sessão do Cineclube Vertigo, organizado pelo grande Guilherme Ferraro. O filme escolhido foi o que elegi como o melhor do ano passado, FIRST REFORMED, do Paul Schrader.

A sessão contou com a presença de um pequeno grupo seleto, incluindo meu querido amigo Du Aguilar, e foi seguido de um bom debate, algo que faz muita falta pra mim hoje em dia. Tenho a impressão de que as pessoas se acostumaram a discutir filmes pelas redes sociais e esqueceram como é bom juntar um grupo que você nunca viu na vida para sentar, assistir uma obra e discuti-la depois. Algo tão besta, que deveria ser tão habitual para nós, cinéfilos, mas que tem sido tão raro hoje… Isso é cineclubismo, pô! Viva o Cineclube Vertigo!


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Sobre o filme visto (revisto, no meu caso), foi legal para confirmar que se trata mesmo de um dos grandes filmes desta década. A carreira de Schrader nos últimos anos não tem sido muito fácil, acumulando trabalhos considerados irregulares (eu, particularmente, gosto de todos), além de problemas com os homens engravatados dos estúdios (como na sua versão de O EXORCÍSTA – O INÍCIO e mais recentemente com THE DYING OF THE LIGHT)… Mas com FIRST REFORMED parece que ele realmente teve total liberdade, sob a batuta da A24 Films, e fez um trabalho com assinatura autoral e de um radicalismo formal absurdo.

É, para Shrader, um filme de retorno às origens: à sua criação religiosa cauvinista, a influência do cinema de Robert Bresson e Ingmar Bergman, retorno também aos temas de TAXI DRIVER, do qual, para quem não se lembra, o roteiro é de sua autoria.

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FIRST REFORMED é sobre um reverendo, Ernst Toller (Ethan Hawke), que administra a pequena e histórica igreja First Reformed, no interior de Nova York, supervisionada pela Abundant Life, uma dessas mega igrejas bem-sucedidas, que parecem máquinas de ganhar dinheiro. Toller carrega cicatrizes profundas, perdeu um filho na guerra do Iraque, vive num estado de solidão, mesmo que o trabalho exija contato com outras pessoas, comandando cultos e como guia turístico na pequena igreja; mas quando chega a escuridão da noite, se afunda no whisky enquanto desenvolve uma doença e preenche as páginas de um diário (alusão óbvia ao DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA, de Bresson).

Quando Toller começa a aconselhar um ativista ambiental instável e depressivo e sua esposa grávida, o resultado só agrava a sua situação e o leva a uma profunda crise espiritual e psicológica cujas consequências não são nada agradáveis de se ver…

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Não que sua fé seja abalada nessa jornada mais materialista que espiritual, e ele diz, numa narração em off, que encontrou uma “nova forma de rezar”. Mas é nessa espiral descendente que FIRST REFORMED encontra TAXI DRIVER, cuja essência é a do indivíduo que carrega traumas e cicatrizes, seres deslocados e incapazes socialmente, que sentem a necessidade de “fazer alguma coisa” para mudar o mundo, mesmo que seja através da violência.

Tarefa não muito fácil de acompanhar FIRST REFORMED em certo sentido, provavelmente pela profundidade dos temas que Schrader aborda, preocupado com o que está acontecendo com o mundo contemporâneo. Política, guerras no Oriente Médio, mudança climática, espiritualidade x materialismo… É um filme que lida com muitas questões e é impressionante como Schrader explora cada tema com um equilíbrio e distanciamento correto, sem fazer disso tudo um discurso óbvio e inútil. E sem fazer concessão alguma na maneira como conduz tudo isso, num trabalho de direção austero, filmado em uma proporção quadrada de 1,37: 1, com uma câmera tão fixa, tão estática, que quando se movimenta causa até uma catarse, vide o plano final, com a câmera girando ao redor dos corpos, um dos desfechos mais sublimes que eu já vi…

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Vale destacar ainda um iluminado Ethan Hawke, que dá ao seu reverendo Toller a complexidade que o personagem exige para habitar nesse universo. Um típico “herói” Schradiano, que sofre por inúmeras razões e acha que deve proteger o mundo, o que Deus criou, mas sem se incomodar em se ferir no processo, e dentro dessa lógica encontrar um propósito para sua própria existência. E Amanda Seyfried, também ótima, numa personagem chamada Mary, grávida, o que dá pano pra manga pra outras tantas interpretações…

FIRST REFORMED é uma experiência rara e fascinante, vindo de um dos nomes mais originais do cinema americano pós-70’s, que às duras penas vem conseguindo se adaptar e explorar os novos meios e formas para continuar expurgando seus anseios em forma de cinema. Enquanto Schrader filmar, teremos filmes dignos e inteligentes para aguardar de joelhos… Espero que o velho ainda dure alguns bons anos com saúde e vontade de filmar.

Uma pena que este aqui não tenha sido distribuído no Brasil.

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R.I.P. LARRY COHEN (1941 | 2019)

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JOHN WICK 3 – PARABELLUM [TRAILER]

Já era o filme de ação mais aguardado do ano. Depois desse trailer, então, é pra esperar de joelhos!

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EU QUERO VIVER! (1958); CLASSICLINE

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Para além de seus pomposos vencedores de Oscar, AMOR, SUBLIME AMOR e A NOVIÇA REBELDE, muita gente esquece que o diretor Robert Wise transitava por diversos gêneros com facilidade, sempre deixando grandes obras como resultado. Da ficção científica, com O DIA EM QUE A TERRA PAROU e O ENIGMA DE ANDRÔMEDA, ao horror, com o THE HAUNTING e THE BODY SNATCHER, passando por filmes de ação, noir, western, guerra… Enfim, gêneros não eram problema algum para Wise. Daí temos EU QUERO VIVER!, que é um desses dramalhões pesados à beça, trata de temas espinhosos para a época em situações emocionalmente fortes, e Wise mais uma vez tira de letra.

EU QUERO VIVER! (visto em DVD lançado pela Classicline) recria o drama real de Barbara Graham, a primeira mulher enviada para a câmara de gás em San Quentin, na Califórnia, no início dos anos 50, e dá à atriz Susan Hayward o maior papel de sua carreira. Embora o filme tenha sido feito sob as restrições dos velhos códigos de produção, Wise deixa bem claro o tipo de vida que Graham tinha antes de sua prisão, acusada pelo assassinato de uma idosa, um crime pelo qual, ao que tudo indica, era inocente (na história real, parece que ela era realmente culpada). Prostituta e criminosa em vários sentidos durante grande parte da vida, Graham tenta levar uma vida “correta”. Casa-se, tem filho, mas o casamento se desintegra, e acaba tendo que voltar à velha vida, aos velhos parceiros de crime, para poder botar comida em casa. É detida, junto com seus parceiros, que atribuem o assassinato da velha à ela. Depois de um longo julgamento e um período no corredor da morte, Graham adentra a câmara de gás e é executada.

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É o tipo de filme que poderia degringolar e facilmente apelar para um sentimentalismo besta e óbvio, mas que acaba surpreendendo pela mão firme de Wise e, obviamente, a atuação ousada de Susan Hayward.

Apesar dessa figura moralmente questionável pelos ditos “bons costumes” tradicionais (argh), Hayward constrói uma figura tão fascinante, espirituosa e perspicaz que é difícil não se deixar levar pelo carisma da moça. O filme é todo Hayward, num desempenho intenso sem uma nota falsa. As cenas finais, que levam à execução de Graham, chegam a ser exaustivas de tão fortes em sua intensidade emocional, da agonia ao desespero, até que Graham finalmente perde a longa batalha para se livrar da execução, deixando a implacável e sórdida realidade de sua história uma lembrança indelével na mente do espectador.

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Wise dirige tudo isso com uma mistura de realismo dramático (as cenas finais no corredor da morte são extremamente detalhistas, quase didáticas) e o artifício do film noir, com um magnífico trabalho de claro e escuro, e composições tortas, e embala tudo isso na trilha jazzística de Johnny Mandel, que evoca uma certa energia. Dizem que Wise estava bastante interessado em seguir fielmente os fatos (apesar de algumas mudanças, como tornar a protagonista claramente inocente), e o time de roteiristas baseou o script em artigos escritos pelo jornalista vencedor do prêmio Pulitzer, Ed Montgomery, para o San Francisco Examiner, que acompanhou o caso de perto na época, e também em cartas que a própria Graham real escrevia em seus últimos meses de vida, na prisão. Wise chegou a visitar a verdadeira câmara de gás de San Quentin e até testemunhou uma execução real.

EU QUERO VIVER! não perde tempo fazendo julgamentos vulgares. É filme inteligente, adulto e inflexível, traz uma boa análise sobre a questão da pena de morte e do papel da imprensa no jornalismo criminal ao mesmo tempo em que constrói um drama fascinante com uma personagem muito forte. Hayward acabou ganhou o Oscar de Melhor Atriz naquele ano, sua primeira vitória depois de quatro indicações anteriores, e o filme recebeu outras cinco indicações.

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A edição em DVD da Classicline faz um bom trabalho com o visual, preservando bem a fotografia em preto e branco de forma nítida e forte, com bons contrastes. O DVD pode ser adquirido nas melhores lojas físicas do ramo ou na loja virtual da própria distribuidora.

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R.I.P. JAN-MICHAEL VINCENT (1945 | 2019)

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.12: WHAT YOU NEED (1959)

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Este décimo segundo episódio da clássica série ALÉM DA IMAGINAÇÃO tem como base algumas velhas lições de moral. “Cuidado com o que pedes“, “dá uma mão e já querem o braço todo“, ou algo do tipo… Na trama de WHAT YOU NEED, temos Pedott (Ernest Truex), um vendedor ambulante com a incrível capacidade de dizer o que as pessoas precisam antes delas precisarem. Para o bandido de segunda categoria, Fred Renard (Steve Cochran), ele dá uma tesoura. A princípio, o sujeito não entende o motivo de ter recebido o objeto, mas é justamente isso que lhe salva a vida, mais tarde, quando sua gravata fica presa nas portas de um elevador e quase morre estrangulado. Só que Renard quer mais, muito mais, e tenta usar os talentos do velho para seu próprio benefício, transformando a vida de Pedott num inferno.

Obviamente, em certo momento, a justiça cósmica de ALÉM DA IMAGINAÇÃO cai pra cima de Renard de modo fulminante…

O roteiro escrito pelo próprio Rod Serling, criador da série, é baseada num conto de uma dupla, Henry Kuttner e C.L. Moore, e tratava de um cientista que inventa uma máquina que pode ler o provável futuro das pessoas e, em seguida, dava-lhes algo que precisassem para serem guiados na direção correta. Serling gostou da ideia, mas aproveitou só o conceito básico do material de origem. Cortou fora o cientista e sua máquina e resolveu abordar o tema de forma mais simples e direta, como um conto de fantasia urbana, sobre o idoso vendedor ambulante de calçada que pode prever o futuro e vende itens triviais (removedor de manchas, sapatos, tesouras, um bilhete de viagem, etc), mas que acabam por ser peças extremamente valiosas para quem as recebe.

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Apesar de simpático e em alguns momentos bem sombrio, WHAT YOU NEED acaba sofrendo um pouco pela falta de ousadia no roteiro de Serling. A mesma historinha que o roteirista adaptou já era muito manjada na época, fora publicada e republicada em diversos cadernos voltados para a ficção científica e já havia sido até adaptada em outra série também. E não há nada de novo, nenhum frescor, na abordagem de Serling por aqui. No fim das contas, acaba sendo apenas um episódio escorado nas lições de moral sem atingir todo o potencial que o conceito de fábula urbana, um noir fantástico, poderia alcançar.

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A grande qualidade de WHAT YOU NEED fica a cargo da dupla central de atores. Truex, que faz aqui à perfeição o velho vendedor ambulante. Já era um veterano ator que desde 1908, aos nove anos de idade, atuava nos palcos da Broadway. Trabalhou especialmente nos teatros aristocráticos de Londres enquanto o cinema não era muito a sua praia, embora tenha uma obra com mais de cem créditos. Já nos últimos anos de carreira, dedicou-se à televisão. Em ALÉM DA IMAGINAÇÃO voltaria atuar em um episódio da terceira temporada, KICK THE CAN. Já o vilão da trama, Steve Cochran, embora seja muito unilateral, consegue passar de forma magnífica a imagem ameaçadora que seu personagem exige. O cara fez seu nome interpretando bandidos e policiais corruptos durante o ciclo do film noir nos anos 40 e 50, como em PRIVATE HELL 36, de Don Siegel, que já comentei aqui no blog. Cochran também interpretou o braço direito de James Cagney em WHITE HEAT, um dos melhores filmes de Raoul Walsh.

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Especialmente pelos dois atores acima, e algumas cenas bem resolvidas visualmente, graças ao belo trabalho do competente diretor Alvin Ganzer (que viria ainda a comandar mais três episódios da série: THE HITCH-HICKER, NIGHTMARE AS A CHILD e THE MIGHT CASE, todos da primeira temporada), o saldo final acaba sendo positivo. WHAT YOU NEED pode não atingir todo seu potencial, mas é um episódio bacana que passa com clareza a sua mensagem.

Para ler sobre os outros episódios já comentados aqui no blog, clique aqui.

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TOP 20 – 1998

Ano passado eu fiz um throwback de 20 anos, um retorno a 1998, e redescobri o cinema daqueles 365 dias. Vi várias coisas que deixei escapar na época e ao longo dos anos, e revi muita coisa que só tinha visto quando foram lançados por aqui, no cinema ou em vídeo. Deixo então um top 20 como resultado dessa prospecção:

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Willen Dafoe mexe com quem não devia em NEW ROSE HOTEL

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James Woods encara seu pior pesadelo em VAMPIROS

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Nic Cage com a fuça esmurrada em OLHOS DE SERPENTE

01. NEW ROSE HOTEL, Abel Ferrara
02. VAMPIROS, John Carpenter
03. OLHOS DE SERPENTE, Brian De Palma
04. ALÉM DA LINHA VERMELHA, Terrence Malick
05. BUFFALO 66, Vincent Gallo
06. SMALL SOLDIERS, Joe Dante
07. EYES OF THE SPIDER, Kyioshi Kurosawa
08. O GRANDE LEBOWSKI, Ethan e Joel Coen
09. O NEGOCIADOR, F. Gary Gray
10. MÁQUINA MORTÍFERA 4, Richard Donner
11. HE GOT GAME, Spike Lee
12. THE HOLE, Tsai Ming Liang
13. INIMIGO DO ESTADO, Tony Scott
14. KNOCK-OFF, Tsui Hark
15. GAROTAS SELVAGENS, John McNaughton
16. SOLDIER, Paul W.S. Anderson
17. DARK CITY, Alex Proyas
18. US MARSHALS – OS FEDERAIS, Stuart Baird
19. O RESGATE DO SOLDADO RYAN, Steven Spielberg
20. UM PLANO SIMPLES, Sam Raimi

Este ano já estou fazendo a mesma coisa com 1999… veremos no que dá.

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A NOITE HOJE É DE SPIKE LEE

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Ficaremos na torcida, pelo menos…

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DRAGGED ACROSS CONCRETE [Poster e Trailer]

Filme novo de S. Craig Zahler, diretor de BONE TOMAHAWK e BRAWL IN CELL BLOCK 99, DRAGGED ACROSS CONCRETE é um dos mais aguardados deste ano.

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R.I.P. STANLEY DONEN (1924 | 2019)

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VÍCIO FRENÉTICO

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Vício Frenético (1992, Abel Ferrara)

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Vício Frenético (2009, Werner Herzog)

Porque cinema e este blog são meus vícios particulares. Encararemos essa nova denominação (sim, sei que já fui e já voltei ao longo desses dez anos) não como uma mudança, mas como uma renovação desse espírito vicioso. Em 2019 Dementia 13 continua, mas como VÍCIO FRENÉTICO.

(Obviamente inspirado no filmaço de Abel Ferrara. Mas também, por que não, no maravilhoso filme de Herzog? Ambos me representam)

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AMEI UM ASSASSINO (1948); CLASSICLINE

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Vi mais essa pérola, em DVD, lançada pela ClassiclineAMEI UM ASSASSINO, de Norman Foster, veste uma roupagem iconográfica de film noir, com todos os elementos visuais característicos, para narrar um melodrama denso e muito interessante. O filme é um realização da Norma Productions, que tinha o ator Burt Lancaster, que é o protagonista aqui, como um dos fundadores. Foi ele quem lutou para manter o título original da fita, o belíssimo KISS THE BLOOD OFF MY HANDS, que é homônimo ao romance que fora adaptado. Com esse título irresistível, fica difícil não dar um conferida.

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Ambientado numa Londres pós-Segunda Guerra Mundial, Lancaster é um típico outsider à deriva ferrado na vida. Ex-combatente, vive à margem tentando viver um dia de cada vez. A coisa piora pro sujeito quando acaba se metendo numa briga em um pub. Após acidentalmente matar um homem, parte em fuga e cruza o seu caminho com o da enfermeira interpretada por Joan Fontaine. Adicionado ao tempero, temos ainda um Robert Newton inspirado, como um bandido lowlife, que testemunhou o crime do protagonista e tenta o manter sob o seu controle.

O legal é que AMEI UM ASSASSINO sempre vai brincando com as expectativas, com um enredo que tece de formas inesperadas o seu desenvolvimento particularmente surpreendente. Nunca se sabe o que vai acontecer a seguir e o filme vai sempre se renovando, especialmente na relação amorosa que surge entre Lancaster e Fontaine. Ainda em início de carreira, Lancaster começa meio travado, mas aos poucos vai se soltando e ao final, temos mais uma grande atuação do sujeito. O filme faz um bom trabalho ao mostrar suas ações como resultado dos efeitos da guerra. Na verdade, o filme possui essa relação sombria e evidente do trauma e desilusão do pós-guerra na Europa.

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AMEI UM ASSASSINO até pode ser considerado do gênero noir, possui alguns elementos gráficos e temas que o coloquem como tal, embora no fim das contas a coisa vá desaparecendo de certa maneira, tomando outra forma, mais ligada à herança do melodrama, restando apenas essa roupagem estética da cinematografia de Russell Metty, que é expressiva e que traz toda a nebulosidade da Londres pós-guerra para a tela. Os becos escuros e apertados, um trabalho de sombras fantástico digno dos melhores noirs

A perseguição que acontece no início, com Lancaster fugindo da polícia pelas ruelas escuras, é um bom exemplo, além de ser uma aula de enquadramentos e movimentos de câmera. Prova que o diretor Norman Foster aprendeu tudo direitinho como assistente de Orson Welles. A sequência em que envolve a personagem de Joan Fontaine, Robert Newton e uma tesoura também é um primor em como se trabalhar o suspense utilizando apenas luzes, sombras e close-ups.

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AMEI UM ASSASSINO foi lançado pela Classicline em dezembro do ano passadoO disco é apresentado em uma excelente edição de imagem, no formato de tela e áudio originais. Acompanha trailer de cinema e uma galeria de fotos e cartazes como extra. O DVD pode ser adquirido nas melhores lojas ou na loja virtual da própria distribuidora.

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