LISTAS

Alguns veículos de cinema super “conceituados” já começaram a publicar suas listas de melhores filmes de 2016: a Cahiers du Cinema e a Sight and Sound. Não vi praticamente nada dessas duas relações e, pra ser sincero, tenho a ligeira suspeita que a esmagadora maioria deve ser porcarias com hype de festivais… Mas acho que vale a pena divulgar. Vou negritar os poucos que assisti, mas a minha lista de favoritos deve sair, como todos os anos, só nos últimos dias de dezembro… E podem apostar, será bem melhor que essas aí, haha!

Cahiers du Cinema

1. TONI ERDMANN, Maren Ade
2. ELLE, Paul Verhoeven
3. THE NEON DEMON, Nicolas Winding Refn
4. AQUARIUS, Kleber Mendonça Filho
5. MA LOUTE, Bruno Dumont
6. JULIETA, Pedro Almodóvar
7. RESTER VERTICAL, Alain Guiraudie
8. LA LOI DE LA JUNGLE, Antonin Peretjakto
9. CAROL, Todd Haynes
10. LE BOIS DONT LES RÊVES SONT FAITS, Claire Simon

Sight & Sound

1. Toni Erdmann, de Maren Ade
2. Moonlight, de Barry Jenkins
3. Elle, de Paul Verhoeven
4. Certain Women, de Kelly Reichardt
5. American Honey, de Andrea Arnold
6. I, Daniel Blake, de Ken Loach
7. Manchester by the Sea, de Kenneth Longeran
8. Things to Come (L’Avenir), de Mia Hansen-Løve
9. Paterson, de Jim Jarmusch,
10. The Death of Louis XIV, de Albert Serra
11. Personal Shopper, de Olivier Assayas
11. Sieranevada, de Cristi Puiu
13. Fire at Sea, de Gianfranco Rosi
13. Julieta, de Pedro Almodóvar
13. Nocturama, de Bertrand Bonello
16. Camerasperson, de Kirstsen Johnson
16. La La Land, de Damien Chazelle
18. Love & Friendship, de Whit Stillman
19. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
19. Victoria, de Sebastian Schipper
21. O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra
21. Everybody Wants Some!!, de Richard Linklater
21. Évolution, de Lucile Hadzihalilovic
21. Hell or High Water, de David Mackenzie
21. O.J. – Made in America, de Ezra Edelman
26. Lemonade, de Beyoncé Knowles Carter and Kahlil Joseph with Jonas Åkerlund, Melina Matsoukas, Dikayl Rimmasch, Mark Romanek and Tod Tourso
26. Nocturnal Animals, de Tom Ford
26. The Ornithologist, de João Pedro Rodrigues
26. Raw, de Julia Ducournau
26. Neruda, de Pablo Larrain

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TOP 10 WESTERNS ANOS 90

O post anterior me inspirou a montar essa lista…

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10. O MASSACRE DE ROSEWOOD (Rosewood, 1997), de John Singleton

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09. JOVEM DEMAIS PARA MORRER (Young Guns 2, 1990), de Geoff Murphy

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08. MORTOS DE FOME (Ravenous, 1999), de Antonia Bird

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07. WYATT EARP (1994), de Lawrence Kasdan

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06. WILD BILL (1995), de Walter Hill

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05. DANÇA COM LOBOS (Dances with Wolves, 1990), de Kevin Costner

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04. GERÔNIMO (1993), de Walter Hill

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03. TOMBSTONE (1993), de George P. Cosmatos (Kurt Russell não creditado)

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02. DEAD MAN (1995), de Jim Jarmusch

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01. OS IMPERDOÁVEIS (Unforgiven, 1992), de Clint Eastwood

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TOMBSTONE (1993)

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Mais um daqueles filmes que faziam minha cabeça na pré-adolescência, no início anos 90, que devo ter visto na época umas duzentas vezes e que já fazia uns bons quinze anos que eu não revisitava e nem lembrava se era mesmo tão bom… Mas TOMBSTONE valeu muito a revisão que fiz esta semana. Baita western noventista com um dos elencos mais espetaculares que eu já vi! Curioso que já naquela época Hollywood lançava uns filmes em dose dupla sobre temas semelhantes quase ao mesmo tempo… E não tô falando de rip-offs picaretas e independentes, mas de super produções de grandes estúdios. Se hoje em dia temos um WHITE HOUSE DOWN e OLYMPUS HAS FALLEN lançados no mesmo ano, nos anos 90 tivemos ARMAGGEDON sendo lançado com IMPACTO PROFUNDO, ou VOLCANO e O INFERNO DE DANTE e até mesmo MARTE ATACA com INDEPENDENCE DAY… TOMBSTONE também não saiu ileso e quase teve que disputar bilheterias com WYATT EARP, lançado poucos meses depois.

Ambos os filmes tem como protagonista o lendário xerife Wyatt Earp, aqui interpretado por outra lenda, o grande Kurt Russell. Já WYATT EARP, dirigido pelo Lawrence Kasdan, tem Kevin Costner no papel do xerife e possui uma abordagem mais biográfica e historicamente enraizada, o que não quer dizer que não seja bom… Gosto dos dois, mas TOMBSTONE  é outra pegada, mais divertida, estilizada e com muito mais ação e um elenco de fazer cair o queixo. Numa comparação, digamos, esdrúxula, WYATT EARP seria um filme do John Ford, com um certo rigor e suntuosidade, enquanto TOMBSTONE é um equivalente aos descompromissados faroestes de matinée dos anos 40.

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O curioso é que o roteirista Kevin Jarre, que iniciou as filmagens também como diretor de TOMBSTONE, tinha planos bem mais ambiciosos para o filme. A sua ideia era fazer um estudo de personagem mais aprofundado, mas acabou despedido, seja lá por qual motivo, com um mês de trabalho e o filme tomou outros rumos. TOMBSTONE retrata o período em que Earp, seus irmãos (Bill Paxton e Sam Elliott) e suas mulheres se mudam para a cidade de Tombstone, no Arizona, para fazer uma nova vida e que não envolve o trabalho de xerife. O problema é que a cidade é encrenca e não demora muito Earp, seus irmãos e Doc Holliday (o grande e único Val Kilmer) marcham em slow motion rumo ao O.K. Corral para o provável mais famoso tiroteio da história americana… O filme ainda prossegue com a repercussão e as consequências explosivas desse fato, que trouxe algumas desgraças para Earp, mas também algum senso de ordem e justiça… Ou vingança… A eterna linha fina que separa as duas coisas.

O filme já seria totalmente assistível só pelos temas e a violência que surge a partir daí, mas temos ainda um elenco que é simplesmente de encher os olhos. Além de Russell, Paxton, Elliott e Kilmer, temos Powers Boothe, Michael Biehn, Charlton Heston, Stephen Lang, Thomas Haden Church, Billy Bob Thornton, Michael Rooker, Billy Zane e Frank Stallone! Além disso, Robert Mitchum é o narrador. Como não amar um filme desses?

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Mas o que torna TOMBSTONE realmente transcendental é a interação de Earp com o tuberculoso Doc Holliday. Qualquer momento em que esses dois cavalheiros dividem a tela é simplesmente sublime e engrandece a obra absurdamente. É quando se percebe o quão fascinantes e fortes são esses personagens… Tão opostos, ambos gigantes.

É facilmente o melhor desempenho da carreira de Kilmer e na minha opinião o melhor Doc Holliday do cinema, que me perdoem Victor Mature e Stacy Keach. Alguns dos melhores momentos de TOMBSTONE é marcado pela presença de Kilmer, seja abrindo a boca pra soltar alguma frase genial de efeito, seja em sequências como quando encara Michael Biehn pela primeira vez e demonstra sua agilidade com uma caneca de café, ou no duelo final entre eles. Mas especialmente nos seus últimos diálogos com Earp, que é capaz de fazer até o coração mais duro ficar amolecido… Mas é só inventar a velha desculpa do cisco no olho que ninguém vai se importar.

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Já Russell com seu Wyatt Earp não consegue chegar no mesmo nível de Kilmer, que está mesmo perfeito. Mas o sujeito também possui aqui alguns bons momentos e o bigode mais badass dos anos 90. Grande atuação do homem. É um casca-grossa total! Principalmente quando entra em ação e distribui tiros nas mais variadas formas, nos mais variados bandidos que entram em seu caminho.

Por falar em ação, eu poderia elogiar o trabalho do diretor George P. Cosmatos em algumas sequências, mas corro o risco de cometer injustiça. O Tiroteio no O.K. Corral ou o duelo entre Doc Holliday e Johnny Ringo (Biehn) são dignos de antologia do cinema de faroeste dos últimos trinta anos, mas quem realmente as dirigiu? Cosmatos é um diretor legal, fez RAMBO 2, COBRA, LEVIATHAN e ganhou os créditos por TOMBSTONE, mas em duas entrevistas não tão antigas, Kurt Russell afirma que assumiu a direção logo depois que Jarre foi demitido. Na verdade, em uma das ocasiões, Russell diz que dirigiu a grande maioria do filme e que o nome de Cosmatos nos créditos era apenas de fachada para fazer a produção correr bem… Enfim, puta trabalho do Russell como diretor, se for mesmo verdade…

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Eu havia citado Ford ali em cima sua versão de Wyatt Earp, com Henry Fonda vivendo o personagem, MY DARLING CLEMENTINE, é um belíssimo filme… O do Kasdan, como já disse, é outra adaptação que gosto bastante. Aliás, a história do famigerado xerife já foi para as telas diversas vezes. Até o Doc Holliday já ganhou filmes solos… No entanto, não tem jeito, tenho um carinho tão especial por TOMBSTONE que na minha opinião é o melhor exemplar tendo o velho Wyatt Earp como destaque… Pelo elenco magistral, especialmente a presença de Kilmer e Russell, pelas as cenas de ação incríveis, os diálogos afiados e o fator nostálgico, com os vários momentos marcantes que carrego desde a infância.

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“A SPECTACULAR ADVENTURE YOU WILL ALWAYS REMEMBER”

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60 FILMES NOTÁVEIS DO COMODORO

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Brigitte Bardot provoca Michel Piccoli em O DESPREZO, de Godard

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O homem dos milagres de A PALAVRA, de Dreyer

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Alain Delon é o professor atormentado em A PRIMEIRA NOITE DA TRANQUILIDADE, de Zurlini

Era final de 2005, tempos em que os blogs ainda eram valorizados e o Reduto do Comodoro, do grande e saudoso Carlão Reichenbach, fervilhava de cinefilia pulsante. Naqueles meses, novembro e dezembro, o sujeito se debruçava na elaboração de uma lista muito pessoal de filmes que serviria a um projeto de livro que, infelizmente, nunca viu a luz do dia. De todo modo, ao longo de vários posts, o Carlão foi montando essa lista que chamava de Filmes Notáveis.

Esse período foi muito marcante pra mim, estava nos meus vinte e poucos anos, havia abandonado o cinema de gênero e só me preocupava em ver “filmes de arte”… Eu sei, uma merda, foi uma fase estranha. E foi exatamente no processo de formação dessa lista que o Carlão reabriu meus olhos para o cinema de gênero e pelo gosto por filmes malditos, subversivos, que “inventam” um mundo às avessas.

Hoje acordei pensando no Carlão, nos papos que mantínhamos pelo facebook ou por email, e resolvi republicar essa lista, com os comentários que fazia durante o processo, para tentar manter a sua memória sempre viva (e me animar a voltar a lista, já que nunca terminei de ver todos os filmes… haha!). Na época, Carlão escreveu assim:

Com a colaboração da minha memória (claro), do IMDB, do ALL MOVIE GUIDE (o extinto site “Sweet & Perverse”, que durante certo tempo foi o IMDB do cinema italiano, fez muita falta), do livro de Jean Tullard/Goida, do dicionário de cineastas do Rubens Ewald Filho, de amigos e leitores do REDUTO DO COMODORO, consegui “fechar” a relação dos 60 filmes sobre os quais me “debruçarei” nos próximos meses.

ATENÇÃO – A ordem abaixo é apenas numérica. Não representa nenhuma ordem de qualificação. Se fosse para destacar 3 dos filmes que mais gosto, eu escolheria: 1. O DESPREZO / 2. A PALAVRA / 3. DOIS DESTINOS (não listado).

01. A PRIMEIRA NOITE DA TRANQÜILIDADE “La Prima notte di quiete (1972) – de Valério Zurlini

02. A TERCEIRA VOZ “The 3rd Voice (1960) – de Hubert Cornfield

03. OS AMORES DE PANDORA “Pandora and the Flying Dutchman (1951) – de Albert Lewin
Lewin, um dos diretores mais sofisticados e cultos da história do cinema – todas as imagens de seus filmes eram inspiradas em pintores magistrais – possui outras três obras-primas em sua curta filmografia: o aterrador “O Retrato de Dorian Gray” (1945), o cínico e refinado “O Homem sem Coração” (1947) e o estranhíssimo e kitsch “Saadia” (1953), estrelado por Rita Gam, esposa de Sidney Lumet.

04. CONFISSÕES DE UM COMISSÁRIO DE POLÍCIA AO PROCURADOR GERAL DA REPÚBLICA “Confessione di un commissario di polizia al procuratore della repubblica” (1971) – de Damiano Damiani

05. DOMÍNIO DOS BÁRBAROS “The Fugitive (1947) – de John Ford
Observação – Esse é considerado o “filme ortodoxo” – no que o termo tem de católico e de esquerda – de John Ford. Para mim, de longe, o seu melhor filme. O título em francês, “Deus está Morto” é o mais fiel ao filme.

06. SANGUE SÔBRE A NEVE “The Savage Innocents (1959) – de Nicholas Ray

07. O DESPREZO “Le Mépris (1963) – de Jean-Luc Godard

08. PORTAL DA CARNE “Nikutai no mon” (1964) – de Seijun Suzuki

09. O PEQUENO RINCÃO DE DEUS “God’s Little Acre” (1957) – de Anthony Mann

10. STROMBOLI “Stromboli, Terra di Dio” (1949) – de Roberto Rosselini

11. O ESTRANHO SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS “Non Si Sivizia un Paperino” (1972) – de Lucio Fulci
Observação – Esse filme, que foi proibido na Itália, nunca foi oficialmente lançado nos cinemas do Brasil. Mas, conforme Sergio Andrade, editor do site KINOCRAZY [http://kinocrazy.blogspot.com], o crítico Rubem Biáfora chegou a acusar o seu lançamento, em São Paulo, em um único cinema, com o título de “O Estranho Segredo do Bosque dos Sonhos”.

12. ASSIM ESTAVA ESCRITO “The Bad and the Beautiful” (1952) – de Vincente Minnelli

13. CÃO BRANCO “White Dog” (1982) – de Samuel Fuller

14. DUBLÊ DE CORPO “Body Double” (1984) – de Brian DePalma

15. MOTORISTA DE TAXI “Taxi Driver” (1976) – Martin Scorsese

16. VIVER E MORRER EM LOS ANGELES “To Live and Die in L.A.” (1985) – de William Friedkin

17. VIDEODROME, A SÍNDROME DO VÍDEO “Videodrome” aka “Zonekiller” (1983) – de David Cronenberg

18. O PODEROSO CHEFÃO II “The Godfather: Part II” (1974) – de Francis Ford Coppola

19. O ESPÍRITO DA COLMÉIA “El Espíritu de la colmena” (1973) – de Victor Erice

20. QUANDO DESCERAM AS TREVAS “Ministry of Fear” (1944) – de Fritz Lang

21. O GRANDE ÊXTASE DO ESCULTOR STEINER “Die Große Ekstase des Bildschnitzers Steiner” (1974) – de Werner Herzog

22. PELOS CAMINHOS DO INFERNO “Outback” (1971) – de Ted Kotcheff

23. PRIVILÉGIO “Privilege” (1967) – de Peter Watkins

24. SE… “If…” (1968) – de Lindsey Anderson

25. AS PORTAS DA JUSTIÇA “Porte aperte” (1990) – de Gianni Amelio

26. OS 5.000 DEDOS DO DR. T “The 5,000 Fingers of Dr. T.” (1953) – de Roy Rowland

27. O UIVO ” L’Urlo” (1968) – de Tinto Brass
Observação – “L´Urlo” nunca foi lançado comercialmente no Brasil. Um dos últimos filmes da fase “udigrudi” de Brass. Trata-se de um “Os Idiotas” muito anos à frente. Estranho e belíssimo, sobre uma garota burguesa que abandona o noivo no dia do casamento e foge com um homem qualquer para uma aventura onírica e transgressiva, sem obrigações, sem deveres sociais, sem respeito humano e sem temores. O encontro do “casal” com determinados personagens faz os dois se confrontarem com as convenções, a morte e a sociedade condicionada ao sexo, a guerra, a violência, as várias ideologias e ao mundo da cultura. Mundo este que, conforme o “casal”, “não tolera o amor”.

28. LÁBIOS VERMELHOS “Labbra Rosse” (1960) – Giuseppe Bennati

29. OS REIS DO IÊ, IÊ, IÊ “A Hard Day’s Night” (1964) – de Richard Lester

30. SEGREDO DE UMA ESPOSA “Akai Satsui” (1964) – de Shohei Imamura

31. PANDEMÔNIO “Olsen & Johnson, Hellzapoppin´s” (1941) – de H.C. Potter
Observação – A mais porralouca das comédias do cinema mundial. O non-sense transformado em arte. A genial dupla burlesca Olsen & Johnson manda o diretor Potter literalmente para o inferno: “o cinema somos nós”.

32. ÁGUIA SOLITÁRIA “The Spirit of St. Louis” (1957) – de Billy Wilder
Observação – Se não fosse por este filme, “O AVIADOR”, de Scorsese, teria sido o maior de todos os filmes sobre aviação. Mas essa poética e emocionante crônica da aventura pioneira de Charles Lindburgh justifica o cinema como “um mergulho profundo na espiral da imaginação”. Uma surpresa e tanto na magnífica carreira de Wilder.

33. PAIXONITE AGUDA “The Flying Deuces” (1939) – de A. Edward Sutherland

34. QUANDO OS BRUTOS DE DEFRONTAM “Faccia a faccia (1967) de Sergio Sollima

35. OS PÁSSAROS “The Birds” (1963) – de Alfred Hitchcock

36. INTENDENTE SANSHO “Sanshô dayû” (1954) – de Kenji Mizoguchi

37. VOLÚPIA DA VINGANÇA “Yajû shisubeshi: fukushû no mekanikku” (1974) – de Eizo Sugawa

38. A PALAVRA “Ordet” (1955) – de Carl Theodor Dreyer

39. MINHA ESPERANÇA É VOCÊ “A Child Is Waiting” (1963) – de John Cassavetes

40. TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA “Bring Me the Head of Alfredo Garcia” (1974) – de Sam Peckinpah

41. WILHELM REICH, OS MISTÉRIOS DO ORGANISMO “W.R. – Misterije organizma” (1971) – de Dusan Makavejev
Observação – Um autêntico “fazedor de cabeças”. Uma aula de provocação, inteligência e liberdade. Makavejev é a exceção entre os grandes.

42. R.A.S. “R.A.S.” (1973) – de Yves Boisset
Observação – Outros levaram a fama, mas este é o melhor filme sobre a guerra da Algéria. Lembra bastante NÃO, OU A VÃ GLÓRIA DE COMANDAR, de Manoel de Oliveira; mas atenção, R.A.S. é emocionante e provocador, daqueles que dá vontade de sair na rua e vomitar na primeira farda que aparecer na frente. Longe de maniqueísmos óbvios faz o elogio descarado da deserção. Yves Boisset (O Atentado) é outro que está merecendo uma retrospectiva integral; além de robustos e oportunos filmes políticos realizou ágeis e talentosos exercícios do gênero “Polar” (policiais à francesa).

43. RAÍZES “Raíces” (1953) – de Benito Alazraki
Observação – Premonitória dramaturgia de índole zapatista, filmada no vale de Mezquital, a região “chamula” de Chiapas. Surreal e neo-realista, marco do cinema mexicano, RAÍZES é o “VIDAS SECAS” asteca. Premiado em Cannes, este foi um dos três filmes (que assisti em seu lançamento tardio no Brasil, nos anos 60, no minúsculo Cine Bijou) que me fez optar por estudar cinema no primeiro curso de nível universitário surgido em São Paulo. Daquelas obras que nos fazem enxergar o cinema como uma utópica (ou não) forma de entendimento universal. Como se não bastasse, seu prólogo tem música de Silvestre Revueltas. Com relação ao cinema mexicano devo confessar um vácuo imenso de conhecimento, unicamente por nunca ter visto o fundamental documentário de Nicolás Echevarría, MARIA SABINA, MUJER ESPÍRITU, de 1978, a respeito da maior xamã que já existiu. Se alguém souber de qualquer vídeo ou DVD da versão integral do filme, por favor, entre em contato com o escriba.

44. A BESTA HUMANA “La Bête humaine” (1938) – de Jean Renoir

45. ED WOOD “Ed Wood” (1994) – de Tim Burton

46. ILHA NOS TRÓPICOS “Island in the Sun” (1957) – de Robert Rossen

47. NAS GARRAS DO VÍCIO “Le Beau Serge” (1958) – de Claude Chabrol

48. VENDAVAL NA JAMAICA “A High Wind in Jamaica” (1965) – de Alexander Mackendrick

49. O MÍSTICO “The Amazing Mr. X” aka “The Spiritualist” (1948) – de Bernard Vorhaus
Observação – Assisti “O Místico” pela primeira vez na televisão, aos 14 anos, e durante muito tempo tive pesadelos que remetiam às suas imagens bizarras e atmosfera perturbadora. Um filme insólito (em vários sentidos) e realmente assustador cheio de histórias mórbidas envolvendo a sua realização. A atriz principal foi substituida nos primeiros dias de filmagem após ter cometido suicídio. O diretor Vorhaus foi banido de Hollywood ao ser denunciado como comunista por Edward Dmytryk. O crítico Rubem Biáfora considerava o filme um dos melhores de todos os tempos. Cinéfilos do mundo inteiro o alçaram a condição de “masterpiece”. A fotografia de John Alton é digna de antologia, com seus noturnos de mar revolto, penhascos, abismos e cortinas agitando à luz da lua.
“A very underrated film. A woman is haunted by the spectre of her dead husband and soon becomes involved with a spiritualist. Is he legit? Very Val Lewtonish. Watch for one especially effective “ghost” scene.”

50. CREPÚSCULO “Pokkuveyil” (1981) – de Govindan Aravindan

51. O DRAMA DE UM SOBREVIVENTE “Iwojima” (196?) – de Jukichi Uno
É inacreditável, mas foi praticamente impossível conseguir informações a respeito de uma das obras primas máximas do cinema japonês da década de 60. Parece que o filme desapareceu do mapa, literalmente. Fiz buscas intensas a partir do nome do diretor (o ator JUKICHI ONO, que dirigiu poucos filmes), o roteirista (Toshio Azumi), o ator principal (Shiro Osaka) e o título original (IWOJIMA) e não encontrei uma linha a respeito de O DRAMA DE UM SOBREVIVENTE. Certo, trata-se de um dos filmes mais anti-americanos e materialistas do cinema mundial, mas isso não justifica a sua exclusão sumária do IMDB e outros sites de pesquisa ianques. O estranho disso tudo é que O DRAMA DE UM SOBREVIVENTE é um filme magistral que foi apreciadíssimo quando estreado no Brasil, no extinto cine Niterói. O que incomoda neste filme é a discussâo pertinente e sem pré-conceitos da justificativa do suicídio e do assassinato como meios de defesa. O DRAMA DE UM SOBREVIVENTE, que narra o calvário pós-guerra de dois combatentes japoneses de Iwojima, “coloca por terra todos os argumentos fatalistas que prendem o homem ao seu destino e equaciona a liberdade e a felicidade individualista frente às conjunções históricas e coletivas”, conforme o crítico José Eduardo Marques de Oliveira, no livro “O Filme Japonês”. Além do mais, possui uma fotografia cinza-chumbo absolutamente inovadora e impactante, que transmite com absoluta intensidade, na tela anamórfica, toda a estupidez de qualquer guerra. Hesitei muito antes de incluir este filme na relação dos 60, por conta da dificuldade em encontrar material sobre ele. Mas, no final, pesou o fato dele ter me impressionado de tal forma que cheguei a considerar o histórico e vigoroso tríptico de Massaki Kobayashi, GUERRA E HUMANIDADE, sobre o qual escrevi a minha primeira crítica (publicada em um jornal interno do Colégio Rio Branco), aos 16 anos, menos pungente e transformador. Se alguém tiver mais informações sobre O DRAMA DE UM SOBREVIVENTE (sobretudo, fotos de cena ou cartaz), por favor, entre em contato com o REDUTO

52. O GRITO “Il Grido” (1957) – de Michelangelo Antonioni

53. QUANDO O AMOR É CRUEL “Incompreso” (1966) – de Luigi Comencini
Observação – Considerado mundialmente como “o filme mais triste do cinema”, INCOMPRESO é o melodrama transformado em obra de arte. Ao narrar a incapacidade de um diplomata recém-viúvo – que dedica todo seu amor e atenção ao filho caçula – em dividir sua dor e afeto com o filho mais velho, Comencini explora implacavelmente todas as possibilidades emocionais do cinema. Um irresistível e sublime exercício de manipulação sentimental. Daqueles raros espetáculos em que ninguém sai da sala ao acenderem as luzes; com vergonha das lágrimas, uma inexplicável felicidade na alma e a sensação do “dia ganho” com a visão de uma obra-prima.

54. MASSACRE DE CHICAGO “The St. Valentine’s Day Massacre” (1967) – de Roger Corman
Observação – Rodado inteiramente em estúdio, em magníficos planos-seqüencia de no mínimo seis minutos cada, este é o filme predileto do próprio Roger Corman e de seus cultores mais fanáticos. Eu e o cineasta João Callegaro o assistimos literalmente de joelhos, na época em que ainda cursávamos a Escola Superior de Cinema São Luiz. Na saída do cinema, a mesma opinião: “Este é o filme que eu gostaria de ter feito!”. Corman não é apenas um produtor ou diretor; é o próprio cinema.

55. HATARI “Hatari!” (1962) – de Howard Hawks
Observação – A aventura maior do cinema.

56. EXÉRCITO DAS SOMBRAS “L´Armée des ombres” (1969) – de Jean-Pierre Melville
Observação – Profundo, soturno e deflagrador memorial autobiográfico do mestre artesão Melville como membro ativo da Resistência Francesa. Como bem observou um crítico australiano: “A magnificent film from the truly underrated master and one of cinemas true perfectionists.”

57. O JOVEM TÖRLESS “Der Junge Törless” (1966) – de Volker Schlöndorff
Observação – Adaptação impecável do clássico livro de Robert Musil. Um dos filmes que mais mexeram (de forma dolorosa) com a minha memória, como ex-ginasiano calouro de colégio interno luterano e de nítida “disciplina” germânica. Poucos livros e filmes mostraram de forma tão explícita a doença do imobilismo; a mediocridade dos que testemunham a barbárie, participam passivamente mesmo sem concordar com ela e, no final, vão embora sem o menor resquício de culpa. O jovem Töerless é o espelho da juventude afásica que permitiu alastrar o câncer do nazismo. Magistral como cinema; oportuno e obrigatório como advertência.

58. PERDIDOS NO KALAHARI “Sands of the Kalahari” (1965) – de Cy Endfield
OBSERVAÇÃO – Outro clássico esquecido de realizador talentoso, assumidamente esquerdista, vitimado pelo Macartismo. Exilado na Inglaterra, Endfield associou-se ao ator Stanley Baker, e retornou para sua terra natal, a África do Sul, para produzir marcantes filmes de aventura, de teor nítidamente político, sempre enfocando a arrogância e estupidez do homem branco colonizador. “Perdidos no Kalahari” impregna a memória por conter um dos desfechos mais aterradores do cinema, onde o protagonista (interpretado por Stuart Witman) é trucidado por macacos babuínos.

59. O REI DOS MÁGICOS “The Geisha Boy” (1958) – de Frank Tashlin
OBSERVAÇÃO – O filme-escola de Jerry Lewis como diretor. Tashlin, como afirmava o crítico Caio Scheiby, introduziu o humor-zen no cinema mundial. Duas gagues surrealistas e antológicas confirmam a proposição: o coelho “torrando” ao sol e o refluxo das águas provocado pelo obeso irmão da “mocinha” quando este invade a casa de banhos. “O Rei dos Mágicos” é uma autêntica revolução erudita e anárquica na chamada “comédia para a família”.

60. ORIGEM DO SEXO “Sei no kigen, aka Libido” (1967) – Kaneto Shindo
OBSERVAÇÃO – Kaneto Shindo possui umas das obras mais ecléticas e insolentes do cinema oriental. “Crianças de Hiroshima”. “A Ilha Nua”, “Onibaba” e “Gato Preto” são títulos que honram o cinema moderno. Mas foi o arrojo de “Origem do Sexo”, com suas impactantes e atrevidas metáforas a respeito da combustão sexual que alimenta e “oxigena” relações familiares, que marcou a minha memória como espectador e futuro realizador. As seqüências que mostram o casal de velhos septuagenários despindo-se de toda a roupa para cumprir um pacto de duplo suicídio no mar e a dos jovens apaixonados que “perdem a virgindade” no interior de um templo budista são transgressivas lições de poesia no cinema. “Origem do Sexo” ensina que não há transformação e/ou renovação sem quebra de tabús.

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RED SCORPION (1988)

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RED SCORPION é algo um tanto extraordinário. É um típico escapismo de ação oitentista, de ótima qualidade por sinal, mas que, acreditem, serve também de base para um interessante estudo de personagem, com transformações bem construídas e uma forte intensidade emocional. Nada muito profundo, obviamente, mas fora do comum em relação a outros exemplares do gênero.

Vejamos: Dolph Lundgren interpreta um assassino soviético altamente treinado, uma verdadeira máquina de matar, enviado à África para eliminar um líder rebelde em um país comunista dominado por Cuba, mas acaba falhando em sua missão e é jurado de morte pelo seu próprio país. Foge pelo deserto onde passa por uma experiência transcendental filosófica com um nativo africano que lhe mostra a essência da vida. Ele retorna para os rebeldes agora com o objetivo de unir-se a eles, arranja uma metralhadora bem grande e detona o maior número de carcaça soviética num final explosivo!!! Não é de chorar?

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Há o lado político de RED SCORPION, que é uma das propagandas mais bobas que eu já vi. Um russo que muda de lado e extermina comunista?! Pffff, tinha que ser coisa do produtor Jack Abramoff, famigerado lobista de Washinghton que foi preso há alguns anos condenado por corrupção e fraudes… dizem que hoje trabalha numa pizzaria. Mas houve um tempo em que suas visões políticas eram colocadas nos filmes que produzia, como este aqui.

Mas o que vale mesmo é a atuação de Dolph Lundgren e as transformações, não políticas, mas universais e humanas, que seu personagem sofre no decorrer do filme. No elenco ainda temos Brion James, também fazendo sotaque russo, e M. Emmet Walsh vivendo um jornalista americano preconceituoso que detesta o Dolph, mas deve ser porque é velho, barrigudo e acabado, enquanto Dolph é aquela montanha de músculos e no calor africano, usa pouquíssimas roupas, para alegria da mulherada (ou de alguns rapazes que jogam no outro time… nada contra).

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Outro destaque vai para as sequências de ação, dirigidas pelo grande Joseph Zito, o mesmo cara que fez BRADDOCK e a obra-prima INVASÃO USA, ambos com o Chuck Norris! Então já dá pra confiar, o cara é da pesada e filma ação com uma truculência absurda e RED SCORPION deve ter mais testosterona que a urina do Mike Tyson! É explosão que não acaba mais, armamento pesado cuspindo fogo freneticamente, há uma perseguição no meio do deserto que lembra INDIANA JONES, com Dolph pulando de um caminhão pra uma motocicleta e, depois, de volta para o caminhão, tudo em movimento e trocando balas com seus perseguidores. O final é um espetáculo pirotécnico que só o bom cinema de ação dos anos 80/90 sabia promover.

E vale ressaltar que a direção de Zito não é apenas notável nas cenas de ação. O sujeito realmente sabe tirar proveito das belezas naturais dos cenários africanos, principalmente nas sequências em que Dolph encara o deserto ao lado do nativo e participa do ritual do escorpião, ganhando uma tatuagem e o título de “Red Scorpion”. O visual do filme impressiona e no fim das contas estamos diante de um místico action movie casca-grossa.

RED SCORPION ganhou uma continuação durante os anos 90, sem o Dolph, que acabei não assistindo ainda.

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FÚRIA MORTAL (Out for Justice, 1991)

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O ponto principal que favorece OUT OF JUSTCE é ter um dos grandes mestres do cinema americano de ação conduzindo a bagaça. Estou falando do John Flynn, diretor subestimado e esquecido de filmaços como THE OUTFIT, ROLLING THUNDER, BEST SELLER e CONDENAÇÃO BRUTAL, autênticas aulas de cinema que devem valer muito mais que alguns semestres de uma faculdade de cinema em qualquer instituição no Brasil. Aqui, acredite ou não, é a mesma coisa. Pode-se considerar um filme menor do diretor, que já trabalhou com Robert Ryan, Robert Duvall, Tommy Lee Jones, James Woods e vários outros, mas o pulso firme para orquestrar alguns momentos são dignos de antologia.

Sendo assim, OUT OF JUSTICE é o tipo de filme que seria bom independente de quem fosse o protagonista, especialmente com a quantidade de bons astros de ação do período (fico pensando seria se fosse estrelado por um Bruce Willis, Stallone ou até um Wesley Snipes), mas calhou de ser o Seagal. E afirmo isso mesmo correndo o risco de alguém contestar: “mas outro ator não saberia lutar como ele”. Ok, mas quantos outros filmes de ação têm ótimas sequências de pancadaria sem que os atores tenham, sequer, noção de como aplicar um golpe? O Seagal como protagonista é apenas um brinde pra quem gosta de artes marciais.

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A simplicidade do enredo sem muita frescura também contribui para a grandeza da obra. Claro que aquelas mensagens de bom moço do Seagal prevalecem algumas vezes, jogando na cara como ele é um sujeito integro, ético e bondoso com os animais, mesmo interpretando um policial casca-grossa em busca de vingança. Mas nada que perturbe a paz de quem está assistindo (contanto que ele não deixe de matar os caras maus com tiro na cara, não vejo problema algum). Seagal interpreta o policial nova-iorquino, descendente de italianos, Gino Felino (putz, mas que nomezinho cretino) que após a morte de seu parceiro, Bobby, resolve fazer justiça com as próprias mãos (pedindo ao seu superior apenas uma espingarda e um tempinho pra realizar a tarefa).

O cenário da jornada é o submundo do Brooklyn. Gino cresceu no local, rodeado de gangsters, e conhece todo mundo, inclusive o assassino de seu parceiro. O facínora é Richie, interpretado por William Forsythe com a máxima personificação do mal. O sujeito é tão impulsivo, que logo após matar Bobby à sangue frio, atira na cabeça de uma senhora em pleno trânsito lotado, pelo simples motivo que o carro dela estava congestionando a via… E se para o sucesso de um bom filme ação um dos elementos é a criação de um bom vilão, então temos aqui um exemplar de primeira qualidade. E Forsythe desempenha seu ofício com extrema perfeição.

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Só que Richie não conta com a ajuda de ninguém nas ruas, a não ser alguns capangas. O sujeito é drogado, maluco e quer entrar para o crime organizado, mas com as atitudes que eu citei ali em cima e até a suposição da policia de que já esteja ligado ao crime organizado, faz com que a máfia queira sua cabeça numa bandeja. Ainda há a própria policia comum que quer prendê-lo pelos crimes, com toda burocracia que envolve os processos de prisão, algo que Gino não quer de jeito algum.

Gino possui, portanto, dois problemas em sua missão:
1° Problema: Encontrar Richie antes da máfia e da policia, para que possa aplicar sua vingança com paz e tranquilidade, mas Richie encontra-se desaparecido e é meio complicado encontrá-lo. Pelo menos para quem está procurando, porque o sujeito está sempre nos lugares mais óbvios.
2° Problema: O roteiro ainda acrescenta novas idéias para deixar a jornada de Gino mais complexos que um um filme do Tarkovsky. Gino cresceu no mesmo bairro de Richie e considera o pai deste seu segundo pai, e isso gera um conflito psicológico que bota o herói para esquentar os miolos, embora Steven Seagal, que é ator de alto nível, consiga manter a pose sem modificar a expressão (talvez algum músculo da parte inferior do queixo tenha contraído com mais força quando a mãe de Ritchie pede para não matar o seu filho).

Atuação por atuação, vamos ficar com o Forsythe que entra para uma galeria de vilões mais malvados e interessantes do cinema dos anos 90. Forsythe é um puta ator expressivo e até hoje rouba a cena em qualquer filme ou série que aparece, nem que seja pra fazer uma pontinha. Sem dúvida alguma seu Ritchie merece um destaque.

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Assim como o Seagal não chega nem aos pés de Fosythe em termos de construção dramática, pelo menos se sai bem nas cenas de luta. Ah, nisso o cara é demais! E o John Flynn, magistral, se aproveita disso de forma magnífica. Especialmente em duas cenas: a primeira é uma perseguição de carro em alta velocidade que desemboca dentro de um açougue onde Gino arrebenta uns cinco sujeitos utilizando objetos dos mais inusitados – dos quais deve ter aprendido no aprofundamento de sua arte marcial no Japão – uma linguiça, por exemplo. Outro momento espetacular é a da briga num bar com as mesas de sinuca. Simplesmente A MELHOR sequências de luta que o Seagal protagonizou em toda a sua filmografia.

Não precisa nem ser fã de carteirinha de Steven Seagal para curtir OUT OF JUSTICE. Se você aprecia um bom filme de ação policial, então este aqui já está qualificado. Com uma história simples, curta, mas muita diversão garantida, boa dose de ação e violência, Seagal distribuindo tiros, porradas e frases politicamente corretas, além de contar com direção de John Flynn, é indiscutivelmente um filme imperdível. Se tivesse que eleger o melhor filme de Steven Seagal, sem dúvida seria este aqui.

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WESTWORLD (1973)

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Já faz uns bons anos que assisti a WESTWORLD, de Michael Crichton, mas como saiu agora essa série da HBO e muita gente tem elogiado (e eu ainda não parei pra ver), vale a pena relembrar essa pérola dos anos 70.

Há uns tempos atrás eu tinha um preconceito besta com o Crichton por causa das alterações que fez em O 13° GUERREIRO, que na minha cabeça teriam estragado a visão do John McTiernan, que era o diretor da parada e um dos poucos gênios do Studio System dos últimos trinta anos. Mas, quem sabe, o “filme do McT” já era ruim e o Crichton como produtor tentou consertar? Enfim… Acho que nunca vamos saber, é pouco provável que esse filme ganhe uma director’s cut. De todo modo, eu tinha a impressão de que o Crichton era um filho da puta sem talento querendo impor sua vontade nos filmes que produzia. Claro que isso foi mudando com o passar dos anos, fui descobrindo que o cara sempre foi um interessante escritor, roteirista e diretor, que deu uma contribuição ímpar para a fase cerebral do cinema de ficção científica nos anos 70… E tudo isso começou quando vi WESTWORLD.

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A ideia de parque-temático-que-dá-uma-merda-daquelas é algo que parece interessar ao Crichton. Uma de suas obras mais famosas, por exemplo é justamente JURASSIC PARK, que o Spielberg adaptou nos anos 90… Em WESTWORLD temos a Delos Corporation, uma empresa de entretenimento que cria um recinto definitivo para as férias num futuro não muito distante. Consiste em parques temáticos sofisticados que recriam épocas passadas – um mundo medieval, o império romano e um velho oeste, chamado Westworld. A graça da brincadeira é que o usuário encara essas realidades forjadas interagindo com robôs de altíssima geração. Cada um desses mundos é povoado por androides que são quase impossíveis de distinguir de pessoas e animais reais e os hóspedes podem fazer tudo o que desejam aos robôs. Qualquer coisa mesmo! Eles podem atirar neles. Eles podem fazer sexo com eles. Não há regras. E o principal, a tecnologia é tão avançada que é impossível para um robô causar algum dano em um ser humano. Então, nada pode dar errado, não é?

Grande parte da força de WESTWORLD é por essa visão ácida, satírica e consciente sobre a indústria do entretenimento. É como se Crichton já estivesse, há mais de 40 anos, prevendo a ambição das companhias em proporcionar o máximo de experiência interativa dos usuários, algo que hoje já é uma realidade. Cinema 3D, 4D, sei lá quantos D’s, óculos de realidade virtual, video-games hiper-realistas, escape rooms e simuladores com elementos de filmes, até mesmo parques temáticos que colocam o individuo em cenários cinematográficos já existem aos montes por aí. Só falta os robôs para chegarmos a WESTWORLD. Quero dizer, ainda falta também deixarem o moralismo hipócrita de lado e focar naquilo que realmente importa, a verdadeira atração da parada, que é oferecer violência e sexo de uma maneira segura e ilimitada, essa liberdade de regras que é a principal atração neste futuro distópico. Sexo e violência sem culpa.

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Esse subtexto é  tão atual e relevante que agora, mais de 40 anos depois, temos um seriado reformulando todas essas ideias. Bem, pelo menos espero que estejam…

Na trama, Peter Martin (Richard Benjamin) e John Blane (James Brolin, que tá a cara do Christian Bale) escolheram Westworld para suas férias. E simplesmente não conseguem acreditar como é tudo é tão real e agradável. Passada meia hora no local, Martin já está se divertindo por ter matado seu primeiro pistoleiro, o sinistro Black Bart, obviamente um robô, vivido pelo grande Yul Brynner. Depois é festejar no puteiro local. E as garotas podem ser artificiais, mas sabem exatamente como fazer a alegria de um homem… Uma das coisas que mais gosto em WESTWORLD é o fato de que os dois protagonistas não sejam lá muito simpáticos, isso acrescenta mais munição à sátira de Crichton. Eles não são rapazes inocentes e suas ideias do feriado ideal é gastar a metade de seu tempo disparando em robôs e a outra comendo putas de lata.

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Nos bastidores do parque vemos a ação dos homens de casacos brancos, os técnicos que fazem a roda girar, apesar de muito do funcionamento do parque ser completamente automatizada, controlado por computadores poderosos. A tecnologia é tão complexa que os técnicos humanos não conseguem compreender totalmente a coisa toda – até porque muitos dos robôs e outras características do parque foram projetados pelos próprios computadores. Os técnicos humanos simplesmente encaixam peças de reposição nos robôs danificados.

Há algumas falhas ocasionais, mas estão dentro dos limites previstos. Mas quando começam a ser constantes sem nenhuma razão aparente os técnicos começam a observar que as ocorrências seguem o mesmo padrão de doenças infecciosas. É como se houvesse um vírus dentro do sistema infectando os robôs. E uma vez que eles estão lidando com máquinas projetadas por outras máquinas é extremamente difícil agir com esses problemas inesperados. Tudo isso pra enfatizar que quando a merda explode no ventilador, é melhor fugir pra bem longe o mais rápido possível, porque não há muito o que fazer… Uma cascavel de lata ferir um convidado ou uma prostituta medieval robótica rejeitar uma tentativa de sedução, são coisas aceitáveis dentro do programa, mas quando um dos hóspedes é assassinado à tiros num duelo por um pistoleiro androide, é porque já deu merda mesmo… Especialmente quando esse androide é o Yul Brynner, que está simplesmente impagável, totalmente fora de controle tocando o terror. Um pré-TERMINATOR que deixa um rastro de corpos por onde passa. Genial.

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WESTWORLD é este filmaço que aparenta ser. Inteligente, com substância, reflexão e ao mesmo tempo muito divertido. Faz parte de uma era de ouro da ficção científica quando o gênero possuía mais filmes sobre ideias do que sobre efeitos especiais (embora os daqui sejam ótimos para a época). E me fez fazer as pazes com o seu diretor, que manda bem por aqui. Um sujeito legal e bastante subestimado cuja obra precisa ser olhada com mais atenção. WESTWORLD ainda possui uma continuação, FUTUREWORLD (76), com o Peter Fonda e dirigido pelo Richard T. Hefron, outro cara foda que acabou no esquecimento. Nunca vi essa continuação…

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Os anos 70 nos brindou ainda com outra pérola inspirada em WESTWORLD, só que com um bocado de mais… digamos, sacanagem. Acho que deve valer a pena conhecer este aqui:

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JAYNE MANSFILD PARA PRESIDENTE!

Bem melhor que o Trump…

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ESPECIAL DON SIEGEL #29: FUGA DE ALCATRAZ (Escape from Alcatraz, 1978)

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Antes que eu me esqueça (ou que algum dos meus cinco leitores comece a me cobrar), tenho o Especial Don Siegel para dar continuidade. E empaquei logo agora que estamos no finalzinho, justamente num dos maiores clássicos do homem, a sua última obra-prima! Mas vamos lá, FUGA DE ALCATRAZ. Quando o projeto foi parar nas mãos do Siegel o sujeito deve ter lido o roteiro de Richard Tuggle, baseado no livro de J. Campbell Bruce, sentido o momento e pensado: “Preciso fazer um filme foda pra caralho!“.

Pois bem, estamos praticamente no fim de um ciclo… Não, não é o último trabalho do Siegel, mas ele viria a fazer só mais um filme por inteiro (LADRÃO POR EXCELÊNCIA, com Burt Reynolds) e já no seguinte (JINXED) seria interrompido por problemas de saúde que o impediria de filmar até a sua morte no início dos anos 90. O filme acabou finalizado pelo Sam Peckinpah. Além disso, ALCATRAZ marca também o desfecho da parceria de cinco filmes com seu ator fetiche, Clint Eastwood. Portanto, com o material que tinha em mãos, Siegel deve ter buscado um último suspiro, aquela forcinha e inspiração a mais para deixar, de uma vez por todas, a sua marca na história do cinema… O resultado é simplesmente magistral, não só um dos melhores filmes de fuga de prisão, mas uma das grandes obras de uma filmografia cheia de preciosidades.

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FUGA DE ALCATRAZ é baseado numa autêntica escapada d’A Rocha, a cadeia de segurança máxima localizada na Baia de São Francisco, também conhecida como Alcatraz, e que sempre se gabou de ser totalmente à prova de fuga. Na verdade, vamos aos números. Desde sua fundação, o presídio registrou quatorze tentativas de fugas, computando 39 presidiários que tentaram a proeza. 26 acabaram capturados e encarcerados de volta, sete tiveram a carcaça perfurada à bala e três morreram afogados. Ficam faltando três que desapareceram completamente. Como nunca mais ouviram falar de nenhum deles, as autoridades acreditam que tenham se afogado, embora seus corpos nunca tenham sido encontrados. Uma maneira das autoridades, hipócritas como sempre, manterem a aparência. De qualquer maneira ou de outra, um ano depois dos acontecimentos, a prisão fechou suas portas, transformando-se numa atração turística.

FUGA DE ALCATRAZ é justamente sobre a escapulida desse trio. Um deles é Frank Morris, interpretado pelo Eastwood, então já sabemos de antemão quem é o badass fodão da parada. Além disso, o sujeito já chega na penitenciária trazendo na bagagem a reputação de especialista em fugas de prisões. E não demora muito, Morris começa a colocar em prática a elaboração de um plano de fuga, junto com outros prisoneiros, entre eles os irmãos Anglin (Fred Ward e Jack Thibeau) e acrescentar mais uma façanha no currículo, até porque a vida na prisão é dura para Frank e o filme já predispõe o espectador a odiar o sistema carcerário do local. Uma galeria de guardas sádicos e desumanos e um diretor de prisão filho da puta mesquinho que solta “Não criamos bons cidadão, mas criamos bons prisioneiros“, ajudam na ideia de simpatizar por criminosos. E é o que acontece de fato… Quando a tentativa de fuga finalmente começa, fica impossível não torcer pelos encarcerados, não importa o crime que cometeram para estarem ali…

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No entanto, em momento algum Siegel parece se preocupar em fazer julgamentos moralistas com os prisioneiros, muito menos interessa a ele debater profundamente sobre o sistema penitenciário, algo que já fizera com grande eloquência no clássico REBELIÃO NO PRESÍDIO. Don Siegel se interessa mesmo é nas relações humanas dentro daquele universo e, obviamente, importa a ele a emoção do suspense, os mínimos detalhes do desenvolvimento de um plano fuga e, especialmente, a ação.

Mas aqui a ação é um caso delicado. A elaboração do plano e execução dos preparativos para a fuga é bastante simples, daquele jeitinho Siegel de filmar, só o essencial, trazendo sempre um divertimento a mais à narrativa, preparando o espectador para o que está por vir. Agora, quem conhece o trabalho do Siegel sabe que não vai saborear os desdobramentos dessa preparação com uma fuga espetacular e explosiva. A tal grande FUGA DE ALCATRAZ é mais uma questão de corpos e espaços e tempos. São os personagens se espremendo em locais apertados, entrando em poços, buracos em paredes, subindo em lugares altos, percorrendo telhados na surdina, agachando quando o guarda se aproxima… Enfim, sem espetáculo, tudo rigorosamente filmado da forma mais simples e crua possível, numa maestria de encher os olhos e prender a respiração do início ao fim.

Menos que um FUGINDO DO INFERNO e mais para um Bresson e seu UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU. O que caracteriza o cinema de ação de Siegel é justamente seu anti-clímax, o modo cru e seco pelo qual lida com momentos que poderiam ser deflagradores nas mãos de outros diretores. Siegel nunca trabalha cenas de ação ou violência apenas para brincar de esmagar bonequinhos – talvez na batalha final de OS ABUTRES TÊM FOME, mas é um filme que se assume num tom escapista. Geralmente, Siegel observa, ele analisa, desconstrói. É o que o torna um dos diretores de ação mais peculiares da história do cinema. O cunho “Intelectual da Ação” atribuído ao diretor não é a toa.

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