DUAS NOTÍCIAS: CPC UMES FILMES

a CPC UMES FILMES, que já vem fazendo um belíssimo trabalho de distribuição em DVD’s no Brasil, contemplando clássicos soviéticos e novidades do atual cinema russo, faz agora seu primeiro lançamento nos cinemas. Trata-se de ANNA KARENINA: A HISTÓRIA DE VRONSKY, que está em cartaz nos cinemas de São Paulo. Produção muito bem cuidada de 2017, dirigido por Karen Shakhnazarov, realizador de CIDADE DOS VENTOS, que já comentei por aqui, e atual presidente do principal estúdio da Rússia, a Mosfilm, o filme é mais uma adaptação do clássico de Tolstói e para quem é fã do material e se interessa pelo tema, é uma boa pedida para ver algo diferente da mesmice do circuito na tela grande. Confira a programação dos cinemas e não perca.

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E por falar em lançamento, a CPC UMES FILMES lança em Julho, em DVD, OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU, do diretor Emil Loteanu, o mesmo que realizou UM ACIDENTE DE CAÇA, que já comentei por aqui.

Segundo o site da CPC UMES FILMES, OS CIGANOS VÃO PARA O CÉU é uma obra inteligente, com atmosfera fascinante, cuja ação transcorre nas estepes da Bessarábia, na periferia do Império Austro-Húngaro. Foi lançado em 1976 e teve mais de 64 milhões de espectadores nos cinemas da União Soviética na época. Com trilha musical de Evgeniy Doga, habitual colaborador de Loteanu, e baseado no conto de Gorky “Makar Chudra” (1892), o longa narra a tempestuosa história de amor entre a bela jovem Rada e o ladrão de cavalos Loyko Zobar.

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Em breve posto minhas impressões. O filme estará disponível a partir do dia 27/06 no site da CPC UMES FILMES e nas lojas parceiras. Clique aqui para conferir mais informações.

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A PROFECIA III – O CONFLITO FINAL (1981)

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Um dos aspectos mais interessantes dos dois primeiros filmes da série A PROFECIA é que o diabo se personificava na forma de um garotinho, no caso do filme de 76, e um adolescente na continuação, fazendo com que o personagem sempre tivesse um ar de ingenuidade e ambiguidade, sem deixar de ser o Anticristo, causando o mal a todos ao seu redor. Em A PROFECIA III – O CONFLITO FINAL, Damien cresceu e virou o Sam Neill, e isso meio que tira um pouco da graça da figura. Não que o ator seja o problema, mas o personagem, o Anticristo que nos quer levar ao Armagedon, não passa de um adulto chato, mimado e virjão…

Neste terceiro capítulo, Damien herda tudo de todos que morreram pelo mal que irradia dele, administra o maior conglomerado do planeta e se torna o embaixador americano na Inglaterra, assim como seu “pai” no primeiro filme. Ou seja, o sujeito se torna um dos homens mais poderosos do mundo. Mas seu plano para dominar os homens segundo a tradição, digamos, bíblica da porra toda, nunca é claramente explicado, então a coisa funciona praticamente como qualquer outro político no cargo… Tipo um Trump ou qualquer outro imbecil que só quer ter o poder nas mãos.

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Enquanto isso, um bando de monges italianos conseguem se apoderar das famigeradas adagas sagradas nós aprendemos desde o primeiro filme que são as únicas armas capazes de matar Damien. E assim, os monges planejam seu assassinato. Só que as tentativas de atentados contra o Anticristo é uma pior que a outra. Os planejamentos são péssimos, sempre tentando encurralar o sujeito para furar-lhe as costas com uma adaga. E sempre dá errado, porque esses monges são tão competentes quanto Os Três Patetas e acabam queimados vivos, atingidos por um raio e durante a tentativa mais lamentável, durante uma caçada às raposas, um deles é mortos por um bando de beegles.

Enquanto isso, a trama de A PROFECIA III tenta jogar no balaio o alinhamento de estrelas que traz a segunda vinda de Cristo, portanto Damien ordena que seu secretário pessoal, Don Gordon, mate todos os bebês nascidos na noite do alinhamento celestial. Isso leva a um monte de cenas bizarras envolvendo crianças sendo atropeladas por carros, afogadas e sufocadas. Para apimentar ainda mais a trama, um dos bebês suspeitos de ser o Nazareno é o recém-nascido do próprio Gordon, mas o filme nunca trabalha essa subtrama potencialmente interessante e acaba resolvendo a coisa de qualquer jeito…

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Outro detalhe que diminui A PROFECIA III em relação aos anteriores é que ficamos acostumados com um grande elenco, com rostos famosos. Aqui não temos ninguém de interessante no elenco, e apenas um bando de monges idiotas italianos. As cenas de mortes memoráveis pontuando a trama nos filmes anteriores também não rola muito por aqui. A maioria das mortes dos monges são bem sem graça. Pra não dizer que tudo é horrível nesse departamento, há um suicídio de um embaixador no início do filme é um primor!

Sam Neill está bem como Anticristo… Quero dizer, ele se esforça pra fazer bem o que o roteiro exige, é convincente em interpretar o mal encarnado, fazendo preces para o diabo e blasfemando diante de uma cruz. Só que esse Anticristo que o filme o transformou é que não contribui muito para o filme. Basta ver a relação que ele cria com uma reporter pra notar que é um virjão, as tentativas de conquista dele são simplesmente constrangedoras. E o grande final de A PROFECIA III é um reflexo do que se tornou essa figura do Anticristo, com o tal “conflito final” do título se resumindo a Damien correndo por aí nas ruinas de um mosteiro gritando “Venha Nazareno!” até que lhe enfiam a adaga nas costas na maior facilidade… Então Jesus aparece por uns cinco segundos e depois há uma citações bíblicas. E fim. Acabou…

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O diretor de A PROFECIA, Richard Donner, foi o produtor executivo deste aqui, que acabou não sendo mesmo o “Conflito Final”, já que nos anos 90 resolveram fazer mais uma sequência…

DAMIEN: A PROFECIA II (Damien: Omen 2, 1978)

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Com o sucesso de A PROFECIA, era óbvio que os produtores não iriam perder a chance de fazer uma continuação. Só que o diretor do original, Richard Donner, estava muito ocupado fazendo SUPERMAN. Chamaram o britânico Mike Hodges (GET CARTER), que por diferenças criativas acabou sendo demitido e substituído por Don Taylor, que nunca passou de um diretor bate-estaca de estúdio, sem muita personalidade. O roteirista que havia concebido o primeiro filme, David Seltzer, não quis se meter numa continuação, e é muito provável que as pessoas que o substituíram não tivessem na mesma vibe… O resultado de DAMIEN: A PROFECIA II está bem abaixo do anterior. Longe de ser ruim, é verdade, e não faz feio como uma continuação, mas me parece que falta uma certa classe e a sobriedade que faz o primeiro ser aquela maravilha que é.

De qualquer modo, valeu a pena rever DAMIEN: A PROFECIA II para refrescar a memória. E não se preocupem, este texto será bem menor que o anterior…Hehe!

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Damien (Jonathan Scott-Taylor), agora um adolescente, vive com seus tios e um inseparável primo, e não parece se lembrar dos acontecimentos trágicos que ocorreram em A PROFECIA. Ele é enviado para estudar numa escola militar, o que me parece um bom local para colocar o Anticristo, afinal, qualquer ambiente que envolva militares deve ser literalmente o inferno na terra…

O grande William Holden interpreta o irmão de Gregory Peck, que é agora o guardião legal de Damien e dono de um rico conglomerado empresarial. Como no primeiro filme, aos poucos coisas malignas e mortes misteriosas começam a cercar a família do sujeito, que demora a acreditar que possui o filho do demo dentro de casa.

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Desta vez Damien tem um corvo de estimação que faz com que uma tia velhota (interpretada pela grande Sylvia Sydney) tenha um ataque cardíaco e arranca os globos oculares de uma repórter intrometida, que é atropelada por um caminhão (numa das piores cenas de atropelamento que eu já vi…). Há também uma boa sequência de afogamento num lago gelado, onde um sujeito fica preso debaixo do gelo… Todas essas cenas ainda dão impressão de acidentes e a ambiguidade que havia em A PROFECIA. Mas só até determinado ponto. Depois, A PROFECIA II abre as pernas para o sobrenatural e deixa claro que uma força diabólica é que está eliminando os desafetos do garoto. A sequência mais marcante é quando um médico é cortado ao meio pelo cabo de um elevador. A cena do trem também é bem tensa e explicita o mal de Damien e o final, mais uma vez niilista, é especialmente memorável.

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Uma das coisas que gosto em A PROFECIA II é que é mais focado em Damien, e é interessante acompanhá-lo nas descobertas de sua verdadeira natureza. Mas me parece que o filme não consegue desenvolver completamente a complexidade desse processo em todo o seu potencial, já que Damien basicamente aceita que ele é o Anticristo muito fácil, sem afetar muito sua vida adolescente. O grito perturbador na cena em que ele derrete o cérebro de seu primo é a única sequência que trabalham um pouco isso. Um outro problema é que por mais focado em Damien, A PROFECIA II apresenta personagens demais, alguns totalmente desnecessários para o que realmente interessa na trama… Até mesmo o Holden acaba sendo pouco aproveitado, longe de ter a força que Peck teve no filme anterior.

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Mas ainda temos a brilhante trilha de Jerry Goldsmith pontuando alguns momentos, e o elenco mais uma vez merece destaque. Lee Grant faz a tia defensora de Damien. O grande Lance Henriksen também faz um bom trabalho na sua participação, Scott-Taylor se sai bem como Damien adolescente – com certas expressões faciais de dar calafrios – e, bom, William Holden dispensa apresentações. Como disse no texto do primeiro filme, Holden recusou o papel que acabou parando nas mãos de Peck porque aparentemente não gosta de filmes de horror e não queria trabalhar em um. Ainda bem, não dá pra pensar em A PROFECIA sem o Peck. Mas como o original foi um enorme sucesso, resolveu encarar a continuação. Valeu também, entrega um ótimo trabalho, mas merecia um roteiro melhorzinho.

Sem a carga atmosférica aterradora, a elegância da direção de Donner, fica difícil comparar os dois filmes. A PROFECIA II perde feio. Mas ainda é um bom horror, com algumas boas atuações e momentos de tensão e mortes que fazem a sessão não virar um desperdício. Veremos como vai ser o terceiro agora…

A PROFECIA (The Omen, 1976)

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Revi depois de séculos A PROFECIA. Filmaço demais… Elenco de primeira, produção impecável, a trilha sonora de Jerry Goldsmith, sequências aterrorizantes antológicas… Além de ser um filme que possui todas as características de um horror específico de classe e elegância no qual havia começado a surgir em meados dos anos 60, quando o gênero finalmente foi levado à sério pelos grandes estúdios após o sucesso de obras como O BEBÊ DE ROSEMARY e O EXORCISTA.

E foi depois de assistir ao clássico de William Friedkin que o produtor Harvey Bernhardt teve a ideia de realizar uma obra de horror com bases religiosas, mas que pudesse bater de frente com O EXORCISTA. Sim, o cara não queria apenas aproveitar o sucesso do horror de Friedkin, mas produzir uma obra que tivesse a mesma importância no gênero.

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Quando Bernhardt se aproximou do roteirista David Seltzer (A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE) com a ideia de fazer um horror religioso, o roteirista ficou relutante porque sequer havia lido a Bíblia na vida. Mas foi exatamente por aí que ele começou sua pesquisa, um material pelo qual acabou se tornando fã. Seltzer ficou fascinado especialmente pelo livro de Apocalipse, as passagens que falam do surgimento do Anticristo, o contexto pelo qual ele nasceria, que tipo de família teria, o número da besta, 666, e assim o roteiro de A PROFECIA foi tomando forma.

Demorou seis semanas para Seltzer terminar o script. Bernhardt finalmente pode andar pelos estúdios com o projeto debaixo do braço, mas era sempre recusado com o consenso de que o material era muito assustador… Acabou parando na Warner ainda em 1974, mas quando O EXORCISTA II: O HEREGE entrou no radar da produtora, acharam que A PROFECIA era muito similar e acabou sendo engavetado por um ano, período que se a produtora não começasse os trabalhos, o roteiro ficava livre novamente. E foi o que aconteceu. Curioso que a continuação d’O EXORCISTA só acabou lançado em 1977, um ano depois de A PROFECIA.

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O diretor Richard Donner papeando com o grande Gregory Peck

É que os caras agiram rápido. O próximo movimento foi enviar o roteiro à Richard Donner, que viu potencial na coisa e botou na cabeça que queria dirigir o projeto de qualquer maneira. Donner já era um veterano da televisão na época, mas em produções para cinema ainda não tinha feito nada relevante (o sujeito depois se tornaria um dos grandes artesões de Hollywood, com SUPERMAN e a série MÁQUINA MORTÍFERA no currículo), mas ele e o produtor Alan Ladd Jr. acabaram assumindo à frente da produção de A PROFECIA, sob a batuta da Fox.

Como todo bom e velho set de produção de filmes de horror demoníaco, a coisa parecia meio amaldiçoada e alguns eventos sinistros começaram a ocorrer com membros da equipe e atores durante as filmagens. Vale a pena listar como curiosidade: Gregory Peck e Seltzer, por exemplo, pegaram aviões separados para ir as filmagens na Inglaterra e ambos os aviões foram atingidos por um raio. O mesmo quase aconteceu com Bernhard, que estava em Roma, quando um raio por pouco não lhe atinge a cabeça. Os rottweilers contratados para o filme atacaram seus treinadores. Um hotel no qual Donner estava hospedado foi bombardeado pelo IRA! E o sujeito também foi atingido por um carro enquanto atravessava a rua. Depois que Peck cancelou um vôo para Israel, o avião que ele viajaria caiu, matando todos a bordo…Brrrr Dentre outras coisas do tipo.

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Bom, vamos ao filme. Na trama de A PROFECIA, o filho do embaixador americano, Robert Thorn (Gregory Peck) morre no parto. Para evitar o sofrimento da mulher (Lee Remick), ele acaba adotando ilegalmente um menino de um padre que estava no local, e lhe dá o nome de Damien (Harvey Stephens) para criar como seu próprio filho. O único problema é que o moleque, na verdade, é o filho do Demo, o Anticristo em carne e osso…

Claro que o embaixador não vai acreditar nisso de primeira. Mas então, no aniversário de Damien, sua babá se pendura pelo pescoço na frente de uma infinidade de crianças, um padre que tentava alertar a Thorn que seu filho é o Ziza acaba empalado por um pára-raios, sua esposa quase quebra o pescoço ao “cair acidentalmente”, a cabeça de um fotógrafo que ajuda Thorn é cortada por uma folha de vidro e, por fim, o protagonista encontra um 666 marcado no couro cabeludo do moleque. Aí sim, Thorn finalmente está convencido de que seu filho é o Anticristo.

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E uma ideia que gosto neste primeiro filme da série A PROFECIA é que Damien é muito novo para entender sua essência maligna, que ele é o Anticristo, o terrível mal que causa às pessoas. Ele é simplesmente controlado por uma força diabólica e inocentemente não sabe. O que faz do personagem de Peck ainda mais complexo, por carregar o peso da culpa em tentar fazer algo bom para sua esposa, mas que se torna também o seu principal pecado.

Originalmente, o roteiro de Seltzer era bem mais explícito no tom sobrenatural, com direito à criaturas demoníacas aparecendo na tela. Mas decidiram que o roteiro precisava de uma pequena “podada” e chegaram à conclusão de que o filme deveria ser o mais realista possível, que o horror deveria vir da paranoia de um pai em relação ao filho e todos os eventos aterrorizantes deveriam ter uma ambiguidade. A PROFECIA se constrói de modo a encorajar a dúvida no espectador… Será que foi um acidente, uma coincidência, ou foi mesmo obra do tinhoso? Até que se chegasse no limite… É meio que uma recusa, no bom sentido e para benefício do filme, do uso de elementos sobrenaturais para deixar o espectador decidir se o protagonista está louco ou se há realmente algo demoníaco no garoto. Todas as mortes do filme podem ser plausivelmente explicadas e nunca se escancara para o fantástico. As continuações não tiveram a mesma sensibilidade e eliminam qualquer vestígio de ambiguidade.

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Mas nada impede de termos alguns momentos aterrorizantes, como o ataque dos babuínos no carro da senhora Thorn; a sequência que Thorn e o fotógrafo vão num cemitério e acabam rodeados de rottweilers; ou toda a sequência final em que Thorn precisa tirar Damien de casa e sacrificá-lo numa igreja, mas não sem antes encarar a babá (Billie Whitelaw), uma adoradora do Diabo que morreria antes de deixar que Thorn faça qualquer mal à criança…São alguns exemplos de gelar a espinha.

No elenco, depois que Charlton Heston, William Holden (que ironicamente estrelou a continuação em 1978, DAMIEN: THE OMEN II) e Roy Scheider recusaram o papel, Gregory Peck achou que seria uma boa aceitar fazer um pequeno filme de terror e tentar se libertar de um trauma pessoal que estava vivendo depois do suicídio de seu filho. E Peck é absolutamente vital para o impacto de A PROFECIA. É um astro de longa data mais conhecido por sua interpretação de figuras de autoridade reconfortantes, como o advogado em O SOL É PARA TODOS e agora o vemos aqui, precisando empunhar uma adaga mística para matar o Anticristo, que por um acaso é um moleque que ele criou… À medida que seu personagem passa por uma transformação gradual de sólida integridade à crescente paranoia e medo, o filme se aprofunda num arrepio palpável. É impossível imaginar o mesmo impacto com outro ator.

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Todo o elenco merece destaque. A adorável Lee Remick (ANATOMIA DE UM CRIME) é a escolha perfeita como a esposa de Peck, e embora seu papel não permita tanto tempo de tela, ela interpreta a desintegração mental gradual da personagem muito bem. David Warner (STRAW DOGS) tem uma boa participação como um fotógrafo que se depara com um fenômeno estranho e resolve ajudar o protagonista. Acrescenta muito a um personagem que certamente não teria muito peso na trama, mas acaba tendo uma química forte com Peck. Billie Whitelaw está absurdamente sinistra como a babá do Inferno, enquanto Patrick Troughton chama a atenção como o padre perturbado que avisa Thorn sobre o perigo iminente. Leo McKern e Martin Benson também brilham em pequenos papéis.

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Um dos mais memoráveis, no entanto, é o pequeno Harvey Stephens como Damien. É um belo retrato da inocência e da malevolência num rosto angelical, e ele se mostra muito hábil em lidar com as diferentes facetas de seu personagem.

A longa experiência de Richard Donner na televisão deu a ele as condições que ele precisava para trazer substância para o projeto, mas também mostra um tremendo talento para o artesanato visual, fazendo uso inspirado da tela larga. Sua abordagem sensata à história, mais focada no clima e na tensão atmosférica impede também que o filme se torne grosseiro ou descambe para o exploitation, e até mesmo as célebres cenas das mortes, como o empalamento do padre e a decapitação do fotógrafo em câmera lenta ao estilo Peckinpah, são tratadas com bom gosto e moderação.

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Donner também demonstra muita noção de ritmo e conduz o filme num compasso lento mas sem excessos, sem tirar o ânimo do espectador em momento algum ou perder o foco da tensão da trama. E não dá pra terminar este texto sem mencionar a maravilhosa trilha sonora de Jerry Goldsmith, que acabou levando o Oscar daquele ano, desbancando Bernard Herrmann com sua trilha para Taxi Driver. Um canto coral apocalíptico arrepiante e poderoso que se encaixa perfeitamente no tom do filme. E Donner soube como fazer tudo funcionar lindamente.

O filme teve três continuações, as duas primeiras, DAMIEN: A PROFECIA 2 e A PROFECIA III: CONFLITO FINAL foram parar no cinema, e uma última, mais obscura, OMEN IV: THE AWAKENING foi feita para a TV já nos anos 90. Preciso rever a parte II e III para emitir qualquer opinião, mas essa quarta parte nunca encontrei para ver e me parece um produto bem picareta tentando resgatar a série… Mas só vendo mesmo pra saber.

Recentemente, A PROFECIA passou na tela grande, nesses clássicos que a rede Cinemark exibe mensalmente. Eu acabei perdendo, vê-lo no cinema provavelmente teria um impacto ainda maior. Mas fica a recomendação de um grande filme de horror dramático e apocalíptico que merece sempre ser visto e revisto.

GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER (1964)

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Vi outro Godzilla. Tô ficando viciando nesses filmes de monstro japoneses, também conhecidos como filmes de monstros de roupa de borracha destruidores de maquetes. Tenho assistido aos poucos, devagar quase parando, os tempos atuais não me permitem assistir tudo de uma vez, mas tá bacana acompanhar essa franquia em sequência e perceber a progressão de cada produção, como cada obra se esforça para superar o filme anterior especialmente em termos de destruição e grandiosidade.

Em GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER, o diretor Ishiro Honda e sua turma chutaram o pau da barraca e colocaram quatro monstros no mesmo filme (um deles o Godzilla), que não apenas lutam entre si, mas também se unem para encarar um inimigo em comum, que neste caso é Ghidorah, o monstro espacial de três cabeças. E essa é uma fórmula que vai marcar a franquia para sempre, que passa a povoar cada filme da série com o maior número de monstros possíveis em alianças e tretas em escalas gigantescas.

bscap0184bscap0181A trama começa com uma chuva de meteoros que chamam a atenção da população que observa os céus maravilhado. Um meteorito específico cai numa região montanhosa e intriga os cientistas com suas propriedades magnéticas poderosas. Numa história paralela a essa, a princesa de uma pequena nação é misteriosamente poupada da morte, saltando instantes antes de seu avião explodir no ar. Quando a garota atordoada, que milagrosamente sobreviveu à queda devido a uma força alienígena, aparece em público, ela sofre de amnésia e fala para todos que veio de outro planeta. Além disso, a moça começa a fazer premonições, como a que Godzilla e Rodan irão ressurgir e causarão destruição mais uma vez.

Mas o verdadeiro problema é um monstro do espaço chamado Ghidorah, que ela alerta com mais ênfase, dizendo ser capaz de destruir toda a raça humana. Eventualmente, o tal meteorito ultra magnético que caiu nas montanhas se abre e liberta o grandioso Ghidorah.

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Em algum lugar no Japão, Godzilla e Rodan aparecem e começam a brigar. Mothra (que eu já apresentei aqui no blog) intervém na briga e pede aos outros dois monstros para que ajudem a defender a humanidade do monstro espacial de três cabeças. GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER marca portanto um importante ponto de virada na história da série Godzilla. Afinal, é aqui que o famoso monstro japonês se torna um defensor da raça humana… Claro, na cena em que surge ele explode um navio cheio de inocentes tripulantes, mas no decorrer da trama acaba convencido a virar a casaca… Então, no fim das contas temos Godzilla, Mothra e Rodan vs. Ghidorah. Parece covardia, mas Ghidorah é foda pra cacete e daria uma surra em qualquer um deles caso resolvesse bancar o fodão sozinho…

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A subtrama com os humanos também evolui e se desdobra num thriller de ação interessante com a descoberta de que o avião da princesa fora sabotado. Como ela ainda se contra viva, mesmo com amnésia, há toda uma conspiração para matá-la e assassinos profissionais são enviados com esse objetivo. Um policial resolve se meter à guarda-costas da moça, o que nos leva a algumas sequências rápidas de tiroteios em meio ao festival de destruição de cidades em miniatura causada pelos monstrengos.

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Godzilla e Mothra são duas figuras já conhecidas por aqui, embora este último só compareça em GHIDORAH na sua forma de larva, do jeito que termina o filme anterior, MOTHRA VS GODZILLA. Quem faz estreia na série é Rodan, que já havia estrelado seu próprio kaiju, RODAN (1956), também dirigido por Honda, e Ghidorah, que acaba por ser um dos mais poderosos vilões dentre os quais Godzilla e sua turma tiveram que encarar. Mesmo que demore um pouco para que todos os kaijus apareçam juntos na tela e comecem a esmagar as coisas e bater uns nos outros, ainda temos sempre alguns momentos absurdos proposto pelo roteiro que, apesar de risíveis e altamente questionáveis, é o que fazem a obra ser ainda mais divertida, como a sequência em que Mothra consegue interferir na batalha entre Godzilla e Rodan para convencê-los de encarar Ghidorah, enquanto as duas gêmeas em miniatura (sim, elas estão de volta!) narram o que os monstros estão falando… Desses momentos inacreditáveis que de tão constrangedor acaba por ser também hilário!

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No comando da coisa toda, Ishiro Honda manda bem novamente nas sequências de pancadaria de kaijus, abusando de efeitos especiais cada vez melhores e miniaturas cada vez mais realistas sendo destruídas enquanto os monstros trocam golpes e raios, com um trabalho de câmera bem legal, enquadramentos tortos, planos abertos, à distância, que dão noção da grandiosidade dessas batalhas…

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GODZILLA (1954) ainda pode ser o melhor exemplar, com sua seriedade e um contexto histórico relevante, e fica evidente que nenhuma das sequências são refinadas em termos de roteiro, narrativa e atuações, como o clássico que deu origem a isso tudo, mas isso não importa muito. Esses filmes são sobre monstros destruindo miniaturas e trocando socos entre si. E a esse respeito, GHIDORAH – THE THREE-HEADED MONSTER definitivamente não decepciona, especialmente por Honda acertar em cheio ao escalar vários monstros nipônicos para tretarem num único filme, o que acaba por ser um registro importante de uma época onde a imaginação e a inocência eram cruciais para encantar o público. Tá certo que tudo isso não passou de um ensaio para o que estaria por vir, já que em 1968, Honda ainda faria um compêndio de monstros ainda maior, em DESTROY ALL MONSTERS. Mas a gente ainda chega lá.

DERSU UZALA EM DVD – CPC UMES FILMES

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No ano em que se completa vinte anos da morte do diretor japonês Akira Kurosawa, a CPC UMES FILMES está lançando DERSU UZALA, produzido pela Mosfilm, numa bela edição restaurada. No final do ano passado, publiquei por aqui algumas impressões dessa obra-prima quando vi na mostra de cinema soviético organizado pela própria CPC UMES FILMES e mal posso esperar para rever em DVD. Vai ficar bonito na estante. Em breve trago mais detalhes dessa edição.

DERSU UZALA já está disponível na loja virtual da distribuidora, que vem fazendo um dos melhores trabalhos de curadoria home video no Brasil, com filmes que realmente valem a pena ter na coleção. Clique aqui para adquirir o seu!

E não deixe de curtir a página da distribuidora no Facebook para ficar sabendo de todas as novidades e os seus próximos lançamentos.

BUÑUEL #2: A IDADE DO OURO (1930)

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Buñuel passando por aqui. Comentei no último post sobre um UM CÃO ANDALUZ, que causou certa agitação quando foi lançado, como é notório. É difícil ficar indiferente diante da grandeza subversiva deste primeiro trabalho do espanhol até mesmo hoje, passados mais de 90 anos. Um desses marcos que serviu de influência àqueles que buscavam inspiração para uma vanguarda cinematográfica. Mas há quem diga que foi apenas um aquecimento para o que estava por vir logo à seguir: A IDADE DO OURO.

Concordo em partes. É difícil adjetivar UM CÃO ANDALUZ como um aquecimento. Por outro lado, A IDADE DO OURO realmente surge como um progresso do talento de Buñuel como artista, até porque este aqui é um trabalho bem mais pessoal. Ainda que seja divulgado como a segunda parceria entre Buñuel e Salvador Dalí, há muito pouco do artista plástico por aqui.

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Assim que a produção iniciou, Buñuel e Dalí se desentenderam, o diretor acabou limando as ideias de Dalí, que acabou se recusando a ter qualquer coisa a ver com a realização do filme. Rola até boatos que no primeiro dia de filmagem, Buñuel perseguiu Dalí no set com um martelo… Não duvido de nada vindo de alguém que encheu os bolsos de pedras para se defender de uma possível reação agressiva do público na estreia de UM CÃO ANDALUZ… Pra não dizer que Dalí não fez nada, em sua biografia Buñuel assume que há uma cena no filme que foi escrita pelo pintor.

Sem muita contribuição de Dalí, e com uma hora de duração para fazer suas maluquices, é possível perceber de cara algumas diferenças em relação ao seu trabalho anterior. A IDADE DO OURO possui uma lógica narrativa relativamente menos irracional. Ou seja, por mais inserido no movimento surrealista, existe uma história definida que Buñuel desejava contar. E se UM CÃO ANDALUZ não tinha nada a ser interpretado pela sua pureza na falta de lógica, aqui os simbolismos representam coisas, existem alvos a serem alvejados. É principalmente uma sátira sobre os costumes morais e sociais burgueses e um ataque feroz à igreja católica. ❤

O filme começa como um documentário sobre escorpiões, dando atenção especial às seções da cauda do bicho, cuja sexta seção é a bolsa cheia de veneno. Com algum esforço, talvez dê para delinear A IDADE DO OURO em seis seções, e igualar a seção final como a mais espinhosa – uma espécie de recriação dos “120 Dias de Sodoma“, de Sade, mas com uma figura parecida com Jesus Cristo emergindo cansado de uma orgia – como o golpe final desta obra-prima iconoclasta.

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Provavelmente, a coisa mais consistente que temos de uma trama é o retrato bizarro de um homem e uma mulher que se apaixonam e repetidamente tentam se reunir e consumar essa paixão.  Em outras palavras, eles querem é sexo! Mas são continuamente impedidos de fazê-lo por membros da respeitável sociedade burguesa. Esses que até hoje nos causam problemas, como por exemplo impedir o quadro da Banheira do Gugu no início da década passada… Bando de moralistas filhos da p@#$%!

Bom, a multidão prende o sujeito que só queria esvaziar o saco, e que já estava rolando na lama com sua amada, e ele responde com atos de selvageria para minar sua moralidade: chuta um cachorro, esmaga um besouro, espanca um cego, pisoteia um violino e até estapeia uma mulher da alta sociedade numa festa da aristocracia. Esses atos selvagens só conectam cada vez mais o casal apaixonado, que não consegue manter as mãos e as línguas longe um do outro… Ou dos pés de uma estátua, numa das imagens mais icônicas de A IDADE DO OURO.

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Toda essa narrativa vem frequentemente acompanhadas por imagens estranhas e surreais, que ainda conservam um incrível e inquietante poder de nos impressionar nos dias de hoje: a mulher que espanta uma vaca da sua cama em sua casa de classe alta, o jardineiro que dispara com uma espingarda arbitrariamente e mata seu filho, o protagonista que joga vários objetos – simbólicos ou não – de uma janela, incluindo uma árvore em chamas, uma girafa e, para alegria da igreja católica, um bispo. E o tal final, que é uma das melhores coisas do filme, que coloca Jesus saindo do castelo dos 120 dias de Sodoma depois de participar de uma orgia.

Todo o tipo de simbolismo possível que Buñuel pudesse conceber para atacar a igreja católica ou a burguesia foram utilizados aqui. Não é a toa que a IDADE DO OURO ficou banido por décadas em alguns países e seu diretor excomungado… Filme altamente recomendado principalmente para os iconoclastas de plantão que não tem problema com a abordagem de britadeira de Buñuel à sua sátira mordaz.

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BUÑUEL #1: UM CÃO ANDALUZ (1929)

Tava revendo no youtube UM CÃO ANDALUZ, primeiro filme do espanhol Luis Buñuel, um curta tão fundamental para qualquer cidadão que tenha o mínimo de interesse pelo cinema e, caramba, lá se vão praticamente noventa anos de existência desta pequena obra-prima… Ainda hoje, revendo essa merda, as imagens me impressionam tanto que resolvi tentar dar uma peregrinada na obra do diretor. A última vez que fiz isso à sério aqui no blog foi com o Don Siegel, há uns dois anos, e agora resolvi que quero homenagear Luis Buñuel. Um desafio, eu sei, custe o tempo que custar, tempo que anda curto pra cacete ultimamente, veremos como vai ser isso…

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Apesar de UM CÃO ANDALUZ ter o prestígio como obra surrealista, não vale a pena reduzir Buñuel apenas à alcunha de “mestre do surrealismo”, seria fechar as portas para uma variedade de significados que cada um de seus filmes que eu vi até agora emana de maneira muito própria. Mas aqui, neste seu primeiro trabalho, é impossível fugir desse movimento, é de longe o filme surrealista mais conhecido, em parte devido a participação do pintor surrealista de Salvador Dali na sua concepção, mas também por causa de imagens específicas que nunca parecem deixar a nossa consciência cinematográfica.

É impossível também explicar o que se trata UM CÃO ANDALUZ, apesar de todas as interpretações freudianas encontradas em críticas espalhadas por aí. Prefiro acreditar na insistência do próprio Buñuel de que não há nenhum significado por aqui, mas cuja inspiração eram os elementos irracionais coletados dos seus sonhos e do seu co-autor, Dalí.

Como Buñuel explicou certa vez: “Nossa única regra (ao escrever o roteiro) era muito simples: nenhuma ideia ou imagem que pudesse se prestar a uma explicação racional de qualquer tipo seria aceita. Tínhamos que abrir todas as portas para o irracional e ficar apenas aquelas imagens que nos surpreenderam, sem tentar explicar o porquê.

Acima de tudo, UM CÃO ANDALUZ representa uma consciência imagética que penetra em nossa consciência e dá uma noção do que os jovens surrealistas estavam fazendo no período em ressignificar as convenções artísticas e, no caso específico de Buñuel, subverter agressivamente a forma e a estrutura do cinema.

A coerência narrativa, por exemplo, está longe de ser o foco por aqui, o que já era absurdamente ousado; as cenas se contrapõem como um fluxo de consciência, e realmente há uma influência das teorias psicanalíticas de Freud, mas não é algo fechado a ser compreendido. Se a sequência de eventos em forma de sonho não faz nenhum tipo de sentido convencional, o filme ainda tem substância visual suficiente para envolver e assombrar os espectadores – como um sonho. E se até hoje algumas imagens conseguem impactar, imaginem o tapa na cara que deve ter sido em 1929.

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Um bom exemplo é logo no início, a notória cena da lua sendo cortada por uma nuvem, em transição para um globo ocular de uma mulher sendo aberto à navalha – foi utilizado um bezerro morto na filmagem, mas imagem que fica surpreende ainda hoje…

O filme é uma série de gags surrealistas, como já disse, retiradas dos sonhos dos realizadores, e que vão se amontoando ao longo de uma narrativa sem qualquer linearidade ou lógica. A navalha é a mais impressionante, é uma das imagens mais usadas para representar UM CÃO ANDALUZ,  mas pra mim, a cena mais marcante é a do homem com as mãos no seio da mulher, cuja face, numa espécie de êxtase do orgasmo, se confunde com a de uma espécie de zumbi, um morto-vivo… Outras sequências que me vem à mente de forma aleatória é a da mão que brotam formigas ou a do sujeito puxando penosamente dois pianos contendo um burro morto em cada um e com dois sacerdotes sendo arrastados no meio disso tudo (um deles é o próprio Dalí). Buñuel também aparece, é o fumante que surge na cena de abertura, que corta o olho da mulher com a navalha.

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A primeira exibição de UM CÃO ANDALUZ teve uma audiência cheia de notáveis, incluindo Pablo Picasso, Jean Cocteau e todo o grupo surrealista de André Breton. A recepção positiva do público ao filme surpreendeu Buñuel, que ficou aliviado por não haver violência, já que tinha enchido os bolsos de pedras, caso fosse necessário enfrentar uma plateia enfurecida. Dalí, pelo contrário, ficou desapontado, sentindo que a reação do público fez a noite “menos emocionante”.

Quem nunca viu, assista, não passa de 20 minutos. Para facilitar, segue UM CÃO ANDALUZ na íntegra:

ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.11: AND WHEN THE SKY WAS OPENED (1959)

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AND WHEN THE SKY WAS OPENED foi realizado quando a chamada corrida espacial estava à pleno vapor. O homem ainda não havia saído da estratosfera terrestre – algo que só viria a acontecer dois anos depois, em 1961, ironicamente com a Rússia saindo na frente com o astronauta Yuri Gagarin… Mas antes disso, os americanos ainda sonhavam em ser os primeiros a chegar tão longe. O que era um material fértil para a literatura sci-fi e filmes e séries de ficção científica. Óbvio que uma série como ALÉM DA IMAGINAÇÃO não ficaria de fora.

Quando o criador da série e principal roteirista, Rod Serling, escreveu o script de AND WHEN THE SKY WAS OPENED, ninguém poderia ter certeza do que aconteceria quando os homens se aventurassem no espaço. E toda a trama, que é intrigante e segura o espectador do início ao fim, gira em torno da exploração do pavor pelo desconhecido.

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Três astronautas retornam do primeiro vôo espacial realizado nos EUA. Major Gart (Jim Hutton) é hospitalizado com uma perna quebrada, mas os outros dois, Harrington (Charles Aidman) e Forbes (Rod Taylor), estão bem e resolvem comemorar a empreitada numa noitada num bar. No entanto, Harrington subitamente começa a ter um sentimento estranho. Ele vai a uma cabine telefônica e liga para seus pais, que atendem e dizem que eles não têm filhos. De repente, Harrington desaparece literalmente, sem que alguém lembrasse da sua existência, exceto Forbes.

Quando Forbes conta essa história a Gart no hospital, este último também diz que ele nunca ouviu falar na vida de um tal de Ed Harrington, o que deixa Forbes completamente devastado. De repente, Forbes tem uma sensação peculiar, como a de Harrington antes de desaparecer, e sai gritando pelos corredores do hospital. Gart chega ao corredor, mas já é tarde, Forbes também desapareceu e ninguém mais tem qualquer lembrança de sua existência, exceto Gart, que não demora muito, desaparece e, com ele, a nave que os levou pra fora da terra, limpando a última evidência da aventura.

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O roteiro de Serling para AND WHEN THE SKY WAS OPENED foi baseado no conto de Richard Matheson, “Disappearing Act” (que aparece na sua coletânea Third From the Sun), mas só mesmo uma ideia superficial foi utilizada por Serling no episódio. Na história original, temos um escritor sem sucesso que acha que as pessoas em sua vida, uma por uma, estão desaparecendo e só ele se lembra delas. Ele, em algum momento, também acaba por desaparecer. Ao comparar o episódio com o seu conto, Matheson dizia: “Meu  sentimento é idêntico ao que sinto sobre segunda versão do meu romance, I Am Legend (THE OMEGA MAN, com Charlton Heston): está tão distante que não há nada para se pensar.” Curiosamente, não demorou muito, Matherson se tornou um dos principais roteiristas da série.

AND WHEN THE SKY WAS OPENED marca a estréia de Douglas Heyes como diretor em ALÉM DA IMAGINAÇÃO. Heyes também era músico, pintor, ator, roteirista e habilidoso romancista. Ele começou sua carreira nos estúdios da Disney onde aprendeu a pensar no cinema como uma forma de arte visual, fazendo storyboards de cenas, onde tomou noção como mover a câmera e onde cortar o filme na sala de edição. O movimento fluido da sua câmera se tornaria uma característica definidora de seu estilo como diretor.

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Neste primeiro episódio que realizou, no entanto, seu estilo é mais reservado do que a maioria de seus episódios, até porque o roteiro de Serling foca principalmente na deterioração psicológica de seus personagem, então Heyes simplesmente deixa os atores fazerem a maior parte do trabalho. Mas existem algumas cenas incomuns no episódio que demonstram o talento de Heyes em dar ênfase no mistério e no medo do desconhecido. O uso de alguns elementos visuais são importantes para a narrativa, como o jornal que é constantemente mostrado como prova física do desaparecimento dos personagens.

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Mas os atores são em grande parte o que torna AND WHEN THE SKY WAS OPENED memorável. Charles Aidman e James Hutton estão muito bem, mas Rod Taylor é o tour de force do episódio e o nome mais reconhecível do elenco. Taylor é lembrado por seus papéis em A MÁQUINA DO TEMPO (1960), de George Pal, e OS PÁSSAROS (1963), de Alfred Hitchcock. Sua atuação como Forbes é brilhante, com expressões faciais e maneirismos físicos expressivos, especialmente quando contracena com Hutton, que dão gosto de vê-lo atuar. Taylor manteve uma carreira relativamente bem sucedida no cinema e na televisão até o final da vida. Seu último papel foi como Winston Churchill em BASTARDOS INGLÓRIOS, de Quentin Tarantino. Morreu em 2015 aos 84 anos de idade.

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AND WHEN THE SKY WAS OPENED é um episódio sólido, intrigante e com ótimas performances e boa direção, algo já habitual na série, que sempre escala bons diretores e atores. E Serling, a grande mente por trás de ALÉM DA IMAGINAÇÃO, reconheceu na ficção de Matheson o tipo temático de fantasia que tanto lhe fascinava: o medo do obscuro. E aqui temos um bom exemplo disso.

CARTA BRANCA – ISMAIL XAVIER – IMS

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O Instituto Moreira Sales (IMS) tá com uma programação de filmes bacana que começa esta semana. Entre os dias 17 e 27 de maio, o Cinema do IMS Paulista apresenta um programa de nove filmes escolhidos pelo Ismail Xavier: seus clássicos pessoais, que o acompanharam ao longo de seus 70 anos. Ismail é professor emérito da USP, teórico e crítico de cinema.

Segue a programação:

UM CORPO QUE CAI
Alfred Hitchcock
EUA, 1958, 128 min., 14 anos, DCP
17/05 quinta-feira 19h30
23/05 quarta-feira 21h30

DUAS OU TRÊS COISAS QUE EU SEI DELA
Jean-Luc Godard
França, 1966, 90 min., 14 anos, DCP
17/05 quinta-feira 22h
27/05 domingo 20h

O ANJO EXTERMINADOR
Luis Buñuel
Espanha, México, 1962, 95 min., 12 anos, DCP
18/05 sexta-feira 19h30
26/05 sábado 18h30

O ECLIPSE
Michelangelo Antonioni
França, Itália, 1962, 126 min., 14 anos, DCP
19/05 sábado 17h
25/05 sexta-feira 19h30

O CASAMENTO DE MARIA BRAUN
Rainer Werner Fassbinder
Alemanha, 1978, 120 min., 14 anos, DCP
19/05 sábado 21h
26/05 sábado 21h

HIROSHIMA MEU AMOR
Alain Resnais
França, Japão, 1959, 92 min., 12 anos, DCP
20/05 domingo 16h40
25/05 sexta-feira 22h

UM HOMEM COM UMA CÂMERA
Dziga Vertov
União Soviética, 1929, 68 min., 12 anos, DCP
20/05 domingo 18h30
23/05 quarta-feira 17h30

O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA
John Ford
EUA, 1962, 123 min., 12 anos, DCP
20/05 domingo 20h
23/05 quarta-feira 19h

MEMÓRIAS DO SUBDESENVOLVIMENTO
Tomás Gutiérrez Alea
Cuba, 1968, 97 min., 14 anos, DCP
22/05 terça-feira 19h20
27/05 domingo 18h

RACE WITH THE DEVIL (1975)

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Os prazeres da descoberta cinéfila são sempre renovadores, especialmente quando se trata de bons exemplares do exploitation americano setentista que hoje quase todo mundo não dá a mínima, como é o caso de RACE WITH THE DEVIL, de Jack Starrett. Um híbrido de ação com horror que é um filmaço. Na verdade, a “descoberta” deste filme específico vai ser de quem ainda não conferiu, porque eu pessoalmente já tive esse prazer há alguns bons anos, mas desde então me pego revendo essa pérola. Então para começar bem o fim de semana, a dica é RACE WITH THE DEVIL, que saiu aqui no Brasil como CORRIDA COM O DIABO.

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Na trama, os bons amigos Roger (Peter Fonda) e Frank (Warren Oates) planejam as melhores férias de suas vidas. Acompanhados pelas suas respectivas mulheres, Kelly (Lara Parker do seriado DARK SHADOWS) e Alice (Loretta Swit, “Hot Lips” do seriado MASH), os dois casais enchem o luxuoso trailer de Frank de cerveja e outros mantimentos e caem na estrada para uma viagem até o Colorado. Num trecho rural do Texas, eles acham um ponto para estacionar e descansar durante a noite. Sob a lua cheia os dois amigos vão à beira de um riacho, jogam conversa fora enquanto enchem o bucho de álcool, quando veem uma enorme fogueira sendo acesa do outro lado do rio.

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Observando a cena de forma, digamos, clandestina, Frank e Roger a princípio pensam que estão testemunhando uma boa e velha putaria de hippies libertinos; várias mulheres peladonas brincando em volta do fogo fazem com que os dois disputem jovialmente os binóculos. Só que a diversão se transforma em horror quando uma moça é esfaqueada por uma figura com uma máscara bizarra em algum tipo de sacrifício humano ritualístico. Os dois sujeitos borram nas calças, metaforicamente falando, e decidem tirar o trailer de lá antes que sejam vistos. Mas é tarde demais – um bando de adoradores do Diabo já está se espalhando pelo rio, correndo direto na direção da dupla.

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Depois da fuga, os casais vão até a delegacia de polícia mais próxima para relatar o que aconteceu. O amável Sheriff Taylor (veterano ator R.G. Armstrong) investiga devidamente o local, mas Frank começa a suspeitar de algo. A força policial local parece tranquila demais, até irreverente eu diria, sobre um possível assassinato de uma jovem numa floresta no meio da noite. O xerife sugere que hippies “fumaram umas cocaina”, estavam de brincadeira e que os dois amigos deve ter se confundido com alguma encenação… Mas aos poucos, vários sinais misteriosos vão sendo deixados aos casais protagonistas, que parecem indicar exatamente o contrário do que a polícia pensa. Não exatamente certo em que acreditar, o quarteto continua suas férias, deixando para trás a horrível experiência daquela noite. Mas parece que nem todo mundo quer “virar essa página”…

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RACE WITH THE DEVIL é uma miscelânea de temas e gêneros muito bem combinados. Temos uma pitada de horror rural do início dos anos 70, como DELIVERANCE, do John Boorman, ingredientes do horror satanista e um bocado de thriller/ação para dar um tempero mais excitante. Na verdade, é curioso pensar que toda a ideia do culto satânico poderia ser facilmente substituído por algum outro tipo de atividade nefasta – contrabando de drogas, escravidão humana, enfim, qualquer coisa – e pouco da trama precisaria ser alterado. Mas o toque de horror dessa mistura de gêneros vem com um gostinho especial, são vários momentos em que as convenções do terror deixam as coisas mais tensas de acompanhar…

A cena do ritual, por exemplo, é bem macabra e os figurantes eram compostos por membros reais de seitas, conforme afirma o diretor Jack Starrett em entrevistas. Se é verdade, eu não sei, só garanto que a coisa toda é uma experiência angustiante. Até porque, em vez de pegar em cheio na jugular, RACE WITH THE DEVIL toma o seu tempo em estabelecer o cenário, em construir os personagens e em aumentar gradualmente o suspense e a tensão.

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A ação mais direta, mais  deflagradora mesmo, não entra em cena até os 15 minutos finais, em uma sequência de perseguição de tirar o fôlego, colocando o trailer dos protagonistas contra um bando de carros e caminhões dirigidos pelos membros da seita. Numa época em que nem se sonhavam nas possibilidades dos efeitos especiais de CGI, é revigorante ver os dublês se arriscando perigosamente ou pirotecnias geradas com explosivos reais em vez de pixels movidos à photoshop. Os carros trombando em alta velocidade no clímax é de encher os olhos e lembram muito o que George Miller faria no seu maravilhoso MAD MAX II, oito anos depois. Não ficaria surpreso se houvesse algum tipo de influência deste aqui sobre a obra do australiano.

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RACE WITH THE DEVIL era inicialmente para ser dirigido por Lee Frost, especialista em filmes baratos daquele período, mas acabou substituído pelo Starrett, que era outra figura que contribuiu bastante com o cinema exploitation. Frost chegou a receber crédito como roteirista, ao lado de Wes Bishop, mas todas as cenas que rodou foram refilmadas por Starrett. O sujeito tinha um estilo eficiente e direto de filmar, sem muita frescura, não se vê virtuosismo e beleza estética nos filmes do Starrett, embora ele consiga extrair sempre algo interessante do seu material. E RACE WITH THE DEVIL é um de seus momentos mais inspirados, sem duvida.

Para quem não sabe, o Starrett também era ator, participou de muita produção de baixo orçamento, mas é mais conhecido por ter vivido o policial sádico que acerta umas pancadas em John Rambo em RAMBO – PROGRAMADO PARA MATAR. O mesmo que cai do helicóptero, que balança quando Rambo acerta uma pedrada… Enfim, só uma curiosidade.

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Por último, vale destacar a presença de dois dos mais significativos nomes do cinema setentista encabeçando o elenco, Fonda e Oates, que estão excelentes como os amigos tranquilos, bem de vida, que só querem um pouco de paz e diversão em família e acabam metidos numa confusão macabra em que precisam chegar aos extremos, pegar em armas e atirar para matar. Já o lado feminino infelizmente acaba não tendo muito destaque, o que é estranho considerando que o movimento feminista estava em plena atividade na metade dos anos setenta; as esposas de Roger e Frank não passam de mulherzinhas completamente indefesas que se põem a gritar e a chorar a qualquer circunstância misteriosa.

Tirando isso, filmaço! RACE OF THE DEVIL Foi lançado em DVD por aqui, mas se não encontrar, procure nos torrents, foda-se, encontre alguma maneira de conhecer este clássico do cinema grindhouse.

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO 1.10: JUDGMENT NIGHT (1959)

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Em JUDGMENT NIGHT, um sujeito chamado Carl Lanser (Nehemiah Persoff) se vê de repente num navio percorrendo o oceano Atlântico. Estamos em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, e o sujeito não sabe direito quem é, quem são as pessoas ele encontra – embora tenha a sensação de tê-los conhecido antes – e nem como chegou ali. No decorrer da trama, as coisas vão ficando cada vez mais misteriosas, até porque Lanser, de alguma maneira, tem a certeza de que um submarino nazista está perseguindo o navio e, pela sua premonição, algo vai acontecer à 1h15 da madrugada.

Seus temores acabam se confirmando e exatamente no horário esperado surge um submarino alemão numa ofensiva contra a sua embarcação. Olhando através de binóculos, Lanser tem uma visão aterradora ao perceber a identidade do capitão do submarino… Seu navio afunda, a tripulação é metralhada ainda tentando sobreviver na água, e a consequência de todas essas ações trágicas e sádicas resulta num dos mais perturbadores infernos que a série poderia nos proporcionar.

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O roteiro de Rod Serling para JUDGMENT NIGHT provavelmente foi inspirado no mito do Holandês Voador, a famigerada lenda do navio fantasma cuja tripulação é condenada a vagar pelos mares por toda a eternidade. A diferença aqui é que o tal inferno consiste na sentença de Lanser em reviver o naufrágio daquele navio infinitamente. Noite após noite, o sujeito de repente se vê na mesma situação, sem saber como chegou ali, mas tendo certeza de que à 1h15, vai dar merda…

A direção do episódio ficou por conta de John Brahm, que já havia realizado um dos meus episódios favoritos até aqui, TIME ENOUGH AT LAST, e ainda viria a contribuir pelo menos uma dezena de vezes. Seu trabalho não é tão ousado como a de Robert Stevens (WHERE IS EVERYBODY?, WALKING DISTANCE), com seus enquadramentos entortados, Brahm geralmente era mais sutil e apostava mais no visual sombrio e atmosfera carregada. De fato, JUDGMENT NIGHT parece um pesadelo e por um bom tempo a impressão é que o protagonista vai acordar a qualquer momento.

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Um nevoeiro sempre presente nas externas e o uso de imagens desfocadas contribuem bastante para impressão confusa de Lanser da situação. Brahm usou imagens semelhantes em 1944 para retratar as ruas cobertas de neblina da Londres vitoriana na sua refilmagem de THE LODGER, de Alfred Hitchcock. A sequência do ataque no final também é muito bem conduzida, com explosões e efeitos especiais cuidadosamente utilizados e sem receio algum de chocar o público da época mostrando inocentes passageiros, incluindo mulheres e crianças, sendo destroçados pelo ataque submarino.

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Embora possa ser um pouco previsível, JUDGMENT NIGHT ainda é um ótimo episódio com um roteiro intrigante de Serling, uma performance maravilhosa de Nehemiah Persoff (que ainda está vivo, aos 98 anos), e um momento inspirado do diretor John Brahm. Sem dúvida um dos pontos altos da primeira temporada.

THE BLACK PANTHER (1977)

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Donald Neilson ficou conhecido como o Black Panther. Ele era um cidadão britânico que em meados dos anos 60 resolveu invadir, armado e com uma máscara negra, casas e postos dos correios para praticar roubos, o que ao longo do tempo acabou causando algumas mortes e um notório sequestro de uma garota na metade dos anos 70. Essa história é real e THE BLACK PANTHER, de Ian Merrick, narra com precisão esses eventos.

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A trama faz um retrato perfeito de Neilson, um sujeito obcecado pelo militarismo, colecionador de um verdadeiro arsenal, um ex-soldado que havia lutado em uma guerra na África em que a Inglaterra acabou se envolvendo. A Grã-Bretanha do período foi marcada por desempregos, greves e perspectivas sombrias para os cidadãos, e aqui estava um homem que tentou resolver as coisas por conta própria para poder colocar comida em casa. O filme se estrutura como um estudo de personagem, ainda que raso, sem se aprofundar muito na psicopatia do protagonista, e nos vários assaltos que Neilson cometeu.

Meticuloso, o sujeito realmente acreditava ser um mestre do crime, mas como THE BLACK PANTHER mostra, a realidade era muito diferente. Neilson era um atrapalhado e todos os seus atos terminavam em tragédia mais por conta da sua ineptidão do que por maldade. É até um milagre que seus assaltos tenham durado anos sem que fosse capturado. Se não houvessem tantas mortes em suas mãos, ele seria quase uma figura cômica. Foi uma combinação de erros por parte de Neilson, da interferência da imprensa e de uma força policial muito mal preparada para lidar com a situação que culminou com o assassinato de Lesley Whittle, uma garota herdeira de uma fortuna, que Neilson sequestrou e trancou num poço de drenagem de um local chamado Bathpool Park. Neilson só foi capturado dois meses depois por pura coincidência, em vez de um esforço concentrado por parte da polícia.

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O curioso é que no ano da produção de THE BLACK PANTHER, estes trágicos eventos ainda estavam muito frescos na memória pública. O roteiro foi baseado em relatórios policiais, declarações escritas e transcrições de julgamento, o que confere ao filme um grau de realismo interessante. Se levar em consideração a direção seca e crua de Merrick e o fato da produção utilizar muitos dos locais reais dos eventos, incluindo o Dudley Zoo, onde o criminoso utilizava a cabine telefônica para tentar obter o dinheiro do resgate, e Bathpool Park em Kidsgrove, local onde manteve Whittle em cativeiro, reforça ainda mais uma uma sensação quase documental da obra.

Neilson foi interpretado por Donald Sumpter, hoje conhecido principalmente por seu trabalho na TV, como por exemplo o velho Maester Luwin de Game of Thrones. É uma performance incrível, no que deve ter sido um papel difícil de encarnar, dada a notoriedade de seu personagem na época. E não são poucas as sequências em que a ação acontece sem qualquer diálogo, com Sumpter comunicando as emoções de Neilson puramente no visual.

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Infelizmente, o público escolheu ignorar o filme na época. Seu lançamento foi controverso e muitos cinemas em todo o Reino Unido se recusaram a exibi-lo. Dada a acusação implícita do filme de que a imprensa era em parte culpada pela morte de Whittle, não surpreende que a mídia também tivessem uma antipatia especial pela obra e a crítica caiu matando. Hoje, THE BLACK PANTHER possui excelentes cópias lançadas em DVD e Blu-Ray pelo mundo afora. Uma bela maneira de redescobrir esta pequena gema do cinema britânico.

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RAPTADO (Kidnapped, 1971)

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O célebre romance de Robert Louis Stevenson, Kidnapped – inicialmente publicado como uma série de histórias em jornais antes de ser lançado num único volume em 1886 – foi adaptado várias vezes para cinema e televisão, as principais sendo em 1948, estrelado por Dan O’Herlihy e Roddy McDowell, e em 1959 com Peter Finch e James McArthur. Nunca assisti a estas versões e por melhores que possam ser, RAPTADO, do diretor Delbert Mann, de 1971, me parece a mais agradável entre as adaptações, já que tem a presença de um desses atores que basta uma pequena participação para me deixar com sorriso no rosto, e no caso deste aqui o ator é Michael Caine encabeçando o elenco…

Durante a eterna guerra entre escoceses e ingleses no século XVIII, no qual as forças escocesas estão sendo aniquiladas por tropas do governo inglês, um rapaz que perdeu o pai, David Balfour (Lawrence Douglas), chega à casa de seu tio Ebenezer (Donald Pleasence) para reivindicar sua herança. No entanto, com a intenção de ter os bens para si mesmo, o velho resolve raptar David e vendê-lo como escravo.

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Prisioneiro em alto mar, o rapaz se vê numa situação complicada. Quando a embarcação se depara com o notório rebelde escocês Alan Breck (Caine), David aproveita a oportunidade para se aliar a Breck e fugir. Eles chegam de volta à costa e buscam refúgio com os parentes do famigerado rebelde, o tio James Stewart (Jack Watson) e a prima, Catriona (Vivien Heilbron). Mas a aventura deles está apenas começando…

Embora entre todas as histórias de Robert Louis Stevenson A Ilha do Tesouro continue sendo sua principal aventura, Kidnapped parece ter sua graça. O roteiro de Jack Pulman para esta adaptação de 1971, no entanto, não se baseia apenas nessa história, mas também em trechos da sua sequência, lançado em 1893, Catriona. E, independente do fato do filme terminar de uma maneira brusca e um bocado pessimista, ainda é uma peça divertida e cuja recriação contextualiza bem o momento histórico que a aventura transcorre.

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Delbert Mann, que recebeu o Oscar de melhor diretor com seu filmes de estreia, MARTY, talvez não fosse o sujeito mais preparado para narrar as peripécias da dupla protagonista, as cenas de ação não empolgam muito e nas mãos de um Richard Fleischer ou John Huston renderiam uma emoção a mais. No entanto, Mann dirige bem os atores, e com o elenco que temos aqui, a diversão é garantida.

Michael Caine está em excelente forma com seu carisma e inesgotável brio de “tough guy“. Há uma sequência em que Caine resolve executar sozinho dois soldados ingleses após se deparar com uma família inteira massacrada. É um dos momentos altos do filme, e se a encenação da luta não é lá grandes coisas, pelo menos o ator demonstra muita presença em cena, matando seus inimigos à sangue frio. Caine certamente ofusca o jovem Lawrence Douglas, cujo papel que faz, David, é um pouco insosso; Donald Pleasence é outro gigante que sempre merece destaque e está genial como o viscoso e dúbio Ebenezer. O elenco ainda conta com o grande Trevor Howard.

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Um dos elementos que mais impressiona em RAPTADO é a bela fotografia de Paul Beeson, que aproveita muito bem as paisagens da Escócia (deixo umas imagens aí em baixo para apreciação). E também as partituras de Roy Budd – junto com a balada romântica de encerramento interpretada por Mary Hopkin. Simplesmente memorável e contribui imensamente para tornar o filme, que está longe de ser uma maravilha, numa adaptação respeitável da obra de Stevenson.

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MOTHRA VS. GODZILLA (1964)

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Mothra é uma mariposa gigante criada pelo estúdio Toho em 1961 num filme que apresentava suas origens e levava seu nome no título, MOTHRA. Ao longo dos anos acabou se tornando um dos mais populares Daikaijus da Toho, perdendo apenas para Godzilla em seu número total de aparições em produções. E já em seu segundo filme, como o título indica, Mothra é colocado para tretar com o Rei dos Monstros em MOTHRA VS GODZILLA!

Se KING KONG VS GODZILLA já foi bizarro o suficiente, como comentei neste post, esperem só para ver a doidera que é MOTHRA VS GODZILLA. A trama é muito simples, mas recheada de elementos esquisitos que me faziam soltar um “pqp” em voz alta a cada revelação estranha que aparecia na tela…

Executivos capitalistas inescrupulosos estão à solta, construindo um resort à beira-mar em algum lugar qualquer do Japão. O filme abre com um tufão que atinge o local com toda a sua fúria e arrasa com os preparativos da inauguração do empreendimento. Quando as coisas se acalmam, um ovo gigantesco é encontrado em terra.

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Os capitalistas perversos não perdem a chance e compram o ovo dos aldeões que vivem na região com a intenção de torná-lo a principal atração do local. Surgem então duas criaturinhas do tamanho de um latão de Itaipava, duas moças minúsculas, que suplicam se poderiam por favor ter seu ovo de volta. Sim, são bem educadas. O repórter Ichiro Sakai (Akira Takarada), a fotógrafa Junko Nakanishi (Yuriko Hoshi) e o professor Miura (Hiroshi Koizumi) são simpáticos e fazem o melhor que podem para convencer aos devotos capitalistas a devolverem o gigantesco ovo. Mas não conseguem…

O artefato veio trazido pelo tufão de uma ilha misteriosa e logo descobrimos que é um ovo de Mothra, a mariposa gigante. A tal ilha tinha sido local de testes de bombas nucleares que naturalmente, ao longo dos anos, produziu todo tipo de coisas estranhas, como mariposas gigantescas e mocinhas em miniatura. Com isso, MOTHRA VS GODZILLA não ia perder a chance de cutucar os causadores de males humanitários, todo o filme é marcado por um monte de propaganda sobre os perigos dos testes atômicos, uma das paranoias recorrentes do período.

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Enquanto isso, do nada, de repente, Godzilla está de volta… Já nem me recordo qual foi o fim que lhe deram em seu último filme, KING KONG VS. GODZILLA, mas o fato é que ele sempre retorna, sempre procurando coisas para pisar e esmagar. O exército tenta de todos os meios possíveis, em vão, parar o réptil gigante jogando o que podem em cima dele, raios elétricos, tanques de guerra que não economizam chumbo, bombas lançadas pela força aérea e até redes gigantescas jogadas sobre o Daikaiju.

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Mas o trio protagonista percebe que apenas Mothra pode salvar a humanidade de Godzilla. E não demora muito, o monstrengo surge nos ares – não o do ovo, este continua quietinho – mas outro, um protetor da ilha radioativa, que encara Godzilla numa batalha daquelas que só o grande diretor especialista em Kaijus, Ishirô Honda, sabia filmar. Foi ele quem realizou o GODZILLA original e também o filme sobre a origem de Mothra… E é difícil imaginar como, em 1964, uma mariposa gigante seria retratada voando e lutando contra Godzilla, mas MOTHRA VS. GODZILLA não poderia estar em mãos melhores.

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Óbvio que não chega no nível do confronto entre King Kong e Godzilla, no filme anterior, também dirigido por Honda, mas é interessante ver como o diretor se vira para tornar a coisa divertida, com uso de stop motion, bom trabalho de câmera, planos sempre abertos, mostrando tudo o que tinha direito e aproveitando ao máximo dos poderes dos dois monstrengos.

Desta vez, Tóquio não é atingida pelo caos e destruição que esses monstros causam quando resolvem trocar desaforos. Mas ainda há estrago suficiente para alegrar os corações dos fãs de filmes de monstros gigantes. Cidades costeiras são devastadas, um complexo industrial é esmagado por Godzilla e o caos generalizado habitual acontece de forma linda. E tudo é muito bem feito, os efeitos especiais são muito bons para o período e o uso de maquete é aquela coisa incrível de sempre.

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E o tal ovo? Bom, lá pelas tantas saem de dentro duas larvas de Mothra que cospem uma teia e ajudam a derrotar Godzilla. Mas a essa altura, a gente já se acostumou com as bizarrices do filme… Ou não…

Aparentemente, há uma versão americana de MOTHRA VS GODZILLA que elimina algumas cenas e acrescentam outras. A que eu assisti é a japonesa mesmo, que é altamente recomendável. Filminho de monstro divertido, bobo mas cheio de momentos memoráveis para os fãs de Daikaiju.